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CARTAS

LAÇOS DE FAMÍLIA
Em busca do público culto

Chamou-me a atenção o texto "Em busca do público alvo", tanto pelas linhas bem-escritas, quanto pela idéia do autor. Por outro lado, chocou-me saber que, em pleno fim de século, ainda há pessoas que (sem querer dizer no meio jornalístico), veteranos ou iniciantes, partem do pressuposto de que o convencional é melhor para que possamos continuar a "meter o pau". É como se a diferença fosse uma agressão.

O texto coleciona juízos de valor. Cito alguns que observei em leitura rápida. O texto basicamente fala que a novela das oito (Laços de família) "é, em certo aspecto, diferente das outras" (?):

* por conter músicas de João Gilberto e Bach;

* por ter um livreiro que indica Kafka, Mann e Joyce;

* por ter uma "meretriz" com nome de personagem de Machado de Assis, e esta "meretriz" manter "relações cordiais com seus cáftens" e freqüentar "livrarias, de onde saem recomendando livros às amigas".

Agora os juízos de valor referentes ao público de novela:

* "O público médio da novela também não faz a mínima idéia de que a gravação é sua (João Gilberto), ou, pior, nem sabe quem é." Neste parágrafo vem aquele velho truque de colocar uma terceira pessoa no texto: "Uma conhecida veio me perguntar... Minha conhecida calou-se...";

* "Algo me diz que os telespectadores de Laços de família desta vez se contentarão com a gravação presente no CD da trilha sonora da novela";

* "Não é uma subestimação do público de novela, mas uma baixíssima parcela dele saberia identificar a Suíte para Orquestra..., de Bach, no meio da trama;

* "... foram mencionados Kafka, Mann... Ora, apenas para quem esses nomes são velhos conhecidos a citação faz sentido. Seria muita ingenuidade acreditar que o autor estaria "educando" o público quando faz esse tipo de coisa..."

* "Ninguém vai a uma livraria à procura de Joyce porque ouviu falar na novela (e muitos, decerto, nem conseguiram distinguir seu nome em meio aos diálogos)";

* "Se, em uma situação absurda, viesse a comprar algum dos autores... o deixaria de lado já nas primeiras páginas, porque, convenhamos mais uma vez, é muito mais divertido assistir à novela das oito."

Sinceramente, Sr. Fabio, estou boquiaberto com o seu texto. Faço parte do público médio da novela. E depois que comecei assistir ao Observatório da Imprensa, não engulo sapo, e nunca mais li jornal do mesmo jeito. Ainda bem que me restou a grata satisfação de ler sua coerência para os erros cometidos pela revista Veja. Bom, pelo menos isso, né? Quanto ao resto, é resto.

Demócrito da Silva, Recife

Fabio Prikladnicki responde: Caro Demócrito, fiquei de alguma forma surpreso com seu comentário sobre o artigo que escrevi para o Observatório, a respeito da atual novela das oito da Globo. Não tanto por suas reprovações, mas, principalmente, porque estas revelam uma leitura um tanto superficial, desatenta do texto. Isso pode ser comprovado quando você diz: "(...) chocou-me saber que, em pleno fim de século, ainda há pessoas que (...) partem do pressuposto de que o convencional é melhor para que possamos continuar a ‘meter o pau’. É como se a diferença fosse uma agressão."

Primeiramente, não faço apologia alguma ao convencional. Minha intenção (a qual, ao que parece, passou despercebida em sua leitura) é mostrar como essa "diferença" (ou seja, uma novela que pretende passar um pouco de cultura ao público) é, na verdade, falaciosa, no caso de Laços de família. A diferença não é uma agressão, assim como não há agressão alguma provocada pela novela. Eu diria, isso sim, que há uma grande discrepância entre a intenção do autor e o que ele vem praticando; e é justamente a não-consciência desta discrepância que indigna.

Quando você diz que meu texto "coleciona juízos de valor" (uma expressão, aliás, muito em voga nas faculdades de Comunicação) eu não poderia concordar mais. Isso seria uma falha imperdoável se meu texto fosse de caráter noticioso, mas ele não o é, Demócrito. Trata-se de um texto opinativo, em que os juízos de valor são o âmago, sua razão de ser. Se o articulista não escrever o que pensa, se ele não expressar seus valores ou criticar os valores alheios, não haveria motivo algum para estar escrevendo. Precisamos saber distinguir o jornalismo noticioso do jornalismo opinativo. O primeiro não comporta o que o jornalista pensa (abole, inclusive, o uso de adjetivos). O segundo, sim.

Volto a explicar-lhe minha intenção ao dizer que esta é uma novela "diferente das outras", lembrando que meu tom, ao usar tal expressão no artigo, é muito mais de questionamento do que de admiração. Minha pretensão é mostrar que não se deve deixar-se iludir com uma trilha sonora de bossa nova ou citações de autores clássicos. Isso não instrui o espectador, e isso não torna a novela "mais nobre" ou "mais artística" do que as outras. Laços de família é tão kitsch quanto Malhação ou, ainda, o filme Titanic. Todo meu texto foi para argumentar que essa "diferença" – a qual você julga que tenha me agredido – não passa de um ouropel, pois esta é uma novela exatamente "igual" às demais produzidas pela Globo. Parti da própria afirmação de Manoel Carlos, o autor, para depois combatê-la, mostrar que ela é falha. Coube aos leitores do artigo saber identificar a ironia do processo argumentativo ou não.

Contar o caso de uma terceira pessoa no texto não é nenhum "velho truque", como você se referiu. O caso realmente aconteceu; eu poderia lhe dar o nome da protagonista e seu endereço completo, sem problema algum, nem demérito para esta pessoa, que, inclusive, me é muito querida.

Ademais, agradeço os elogios que você fez sobre outros aspectos do artigo. Para efeito de esclarecimento, gostaria que você o relesse; se ainda houver alguma dúvida, estou à sua disposição para conversarmos melhor. Atenciosamente, F. P.



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Em busca do público culto – Fabio Prikladnicki



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