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FEITOS & DESFEITAS A REVISTA É VIP... Deonísio da Silva (*) "Velcro. Entenda as entendidas e realize o sonho de transar com uma." A revista Exame/VIP, que vem com o subtítulo "o prazer de ser homem", traz na edição de fevereiro um artigo de Juliana Pereira cujo tema é uma das sexualidades tidas em outros tempos por ilegítimas ou heréticas, o lesbianismo. Ainda na abertura, uma conversa com o leitor: "Ela se parece muito com você. Aliás, até demais. Ela também gosta de mulher". Mais adiante, adverte a leitora: "Se você for uma lésbica e estiver lendo este artigo, lembre que a VIP tem como slogan ‘o prazer de ser homem’". A autora continua seu artigo com uma grave questão. Qual a denominação a ser adotada para evitar os chulos "sapata" e "cola-velcro", por exemplo? Não demora e lá vem mais uma frase espantosa: "Os amigos dela são todos veados". Outra pérola de conselho em forma de interrogação: "Se ela quisesse um homem com H maiúsculo, não teria perereca, teria?"; "Se os amigos dela são veados, nunca fale mal dos veados"; "Hummm... você tem um amigo cabeleireiro, é?" Penso que as amostras são suficientes. E lamento que uma revista
graficamente refinada como a VIP não consiga tratar de tema
tão cheio de sutis complexidades com a delicadeza requerida. Nenhuma
das vulgaridades que transcrevi foi apresentada como denúncia sobre Não se pode ser pernóstico numa crítica. Mas algumas leituras são indispensáveis quando se quer escrever com propriedade sobre certos temas. Assim, sem nenhuma arrogância, o leitor de VIP que assina essas linhas gostaria que a revista contasse com um editor ou editora que ao ler previamente a matéria chamasse a autora e dissesse: "Está bem, minha filha, agora vá para casa, leia alguns livros e reescreva tudo de novo". Quais livros? Poderia ser a História da Sexualidade, de Michel Foucault, cujos títulos já são uma boa profilaxia: "A vontade de saber", "O uso dos prazeres", "O cuidado de si". Quanto ao cuidado e ao respeito que fazem por merecer as liberdades, aí incluídas as diversas formas de cada um levar a vida sexual que quiser, em privado, livre das imposições de jornalistas quase ágrafos, surge pergunta desconcertante: qual o motivo da opção por estilo tão leviano e superficial com tema tão complexo, se a revista é VIP? O prazer de ser homem não nos exime do dever de respeitar a condição feminina e aceitar suas agradáveis peculiaridades que exercem sobre nós um fascínio eterno. A mulher é a melhor parte da natureza humana. Artigos como o citado aviltam, não apenas nela, mas em nós também, uma de nossas energias mais fortes, a orgástica. Se a autora não quiser ler Foucault, procure Santa Teresa D’Ávila e São João da Cruz. Os místicos nos mostraram, mais do que ninguém, o que a sexualidade pode fazer por nós, para nosso aprimoramento, para nossa transcendência. De todo modo, ainda que a autora e editor não possam concordar com nossa crítica, que pelo menos reconsiderem: não fomos feitos para consumir e sermos consumidos. E leitores de VIP talvez sejam – como direi ? – menos rudes, grosseiros e toscos do que supõem aqueles que escrevem para eles. (*) Escritor e professor universitário, doutor em Letras pela USP. Livros mais recentes: De Onde Vêm as Palavras e Os Guerreiros do Campo. | ||