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JORNALISMO PÚBLICO
A macumba da dengue

Nilson Lage (*)

O dr. Dráuzio Varela é, suponho, um médico competente. O livro que escreveu sobre sua experiência como voluntário na assistência aos presos do Carandiru, em São Paulo, tirou várias edições e foi muito comentado. Nada de extraordinário, portanto, que a TV Globo o tenha contratado para apresentar, no vídeo, instruções sobre primeiros socorros e temas de higiene que, em tese, seriam "os de sua especialidade", como autoriza, sabiamente, a legislação que regula o exercício profissional dos jornalistas.

Na edição do dia 24 de fevereiro do Fantástico, o dr. Varela declarou que se poderia evitar a proliferação de mosquitos da dengue adicionando uma colher de sopa de água sanitária a quantidades variáveis de água limpa e parada. Mais: fez uma demonstração desse procedimento.

Dias depois, provavelmente por iniciativa do Instituto Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro, um entomologista realizava a experiência em seu laboratório, diante da câmara de externa do Jornal Nacional, colocando larvas reais do Aedes aegypti em meio recipiente de vidro, mais ou menos do tamanho de um copo de uísque. Adicionou a tal colher de água sanitária e as larvas continuaram vivas. Em breve, estariam voando e poderiam se tornar vetores da doença.

Enganos todos cometem, e não se vá crucificar por isso o dr. Varela. O cloro, na proporção em que se encontra na água sanitária, pode eliminar vários microorganismos – mas não as larvas do mosquito transmissor da dengue.

O episódio, no entanto, permite formular algumas reflexões.

Primeiro, sobre a natureza cada vez mais especializada da formação profissional. Não basta ser médico para falar de medicina: o enfoque de cada especialidade médica é distinto do de outra, os procedimentos são muito específicos e há um mundo de gente dando palpites, seja de má-fé, seja por leviandade. Isso acontece em quase todos os ofícios.

Ora, como não é possível treinar ou encontrar tantos especialistas dispostos e capazes de falar ao público em geral e que, ao mesmo tempo, se entendam entre si em assuntos de saúde pública, a melhor forma de apresentar mensagens desse tipo é processá-las a partir da apuração dos dados, consulta aos técnicos e estimativa consistente sobre o público. Esse é um dos sentidos do jornalismo – particularmente daquele que está sendo chamado nos Estados Unidos de public journalism.

Quanto ao combate à dengue, posso relatar velhas memórias. Quando estudei medicina, há meio século, ainda se falava muito – e com certo orgulho – dos feitos do cientista Oswaldo Cruz que, no inicio do século 20, diante das epidemias (entre outras, de febre amarela) no Rio de Janeiro, saneou a cidade. O vetor da febre amarela, doença originária do México e das Antilhas, era o mesmo mosquito Aedes egypti.

O combate à proliferação das larvas do Aedes em jardins e residências fez-se principalmente recobrindo a água dos jarros, potes e a que fica retida nos ralos e pequenas poças com camadas delgadas de óleo fino: como o bichinho precisa respirar e, de tempos em tempos, vem à tona para isso, era o bastante para exterminá-lo, com custo mínimo. Desaconselhou-se com ênfase o uso de bromélias na decoração de parques e jardins e as que ficaram tiveram que ser mutiladas com o corte de folhas para que escorresse a água que se acumula no vértice da inflorescência.

Hoje certamente seria impossível fazer isso. Bastou alguém sugerir a adoção do mesmo método para que os politicamente corretos saíssem em campo, afirmando que se pretendia "derramar petróleo nos rios". Quanto às bromélias, lindas que são, devem ser preservadas, aconselham. Pena que todo esse cuidado com águas e plantas se associe a tantos casos da doença e a várias dezenas de mortes, enquanto se didatiza na TV a macumba da água sanitária e da borra de café.

(*) Jornalista, professor titular de Redação Jornalística da Universidade Federal de Santa Catarina

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