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TRIP
A ética e o vício
Marcelo Frizon Guadagnin
Leio a revista Trip há mais de três anos. Lembro da primeira vez que a comprei, achei-a muito diferente das outras revistas que eu lia até então. E era um diferente bom, fiquei feliz em saber que existia uma revista brasileira naquele estilo inovador, criativo e informativo. A Trip é séria e incomoda a muita gente. Nos últimos tempos tem incomodado a mim também.
Tudo bem, sei que a revista tem 13 anos, isso faz com que eu não seja um leitor muito antigo, mas minha birra nada tem a ver com o tempo de existência da revista, o tempo que eu a leio ou a idade que tenho, e tudo isso não afeta em nada o que vou declarar. Meu problema é com as posições que a revista está tomando em relação ao cigarro, à propaganda tabagista e o preconceito com fumantes. Minha opinião aqui não é influenciada por eu fumar ou não, isso não vem ao caso. O que importa é a ética jornalística da revista.
Há mais de três anos Trip não veicula propaganda de cigarro nas suas edições. Faz isso por um motivo que considero bastante nobre: acha que a propaganda incita as pessoas a fumar. OK, ponto para a Trip (só não sei até que ponto isso não é uma estratégia de marketing). Mas questionar a ética de publicitários em propaganda tabagista começa a ficar perigoso.
Crianças da Indonésia
Outra coisa que não importa, antes de prosseguirmos, é se eu sou publicitário ou se faço publicidade ou não (os caros leitores sabem que eu não sou publicitário). Escrevo este texto por raiva de algumas matérias que li e pela posição que alguns jornalistas tomam. "Propaganda é a alma do negócio." Não sei quem disse isso, mas está corretíssimo, e todos sabemos. O cigarro é um produto lícito, por mais que contenha substâncias que podem fazer mal ao organismo humano. Quem fuma sabe dos riscos que corre e tem mais é que se estrepar mesmo, mas sendo o cigarro um produto lícito, é lícito haver propaganda dele. Acho ótimo que sua veiculação ocorra em horários em que crianças e jovens não estejam assistindo à TV ou em publicações destinadas apenas ao público adulto. Mesmo assim, há pesquisas nos EUA que comprovam que a propaganda tabagista não influencia uma pessoa a começar a fumar. O interesse da propaganda é atingir pessoas que fumam, é fazer a pessoa deixar de fumar um cigarro para fumar outro – é fazer a pessoa fumar o Hollywood em vez do Marlboro, por exemplo.
Na edição 73 da revista, há uma reportagem questionando a ética de alguns profissionais que venderam suas idéias à campanha No Limits, do Hollywood. No número 74 há entrevista com o vice-presidente da Philip Morris, empresa que produz o Marlboro, uma crônica excelente do videomaker Carlos Nader e outra, também muito boa, do editor da revista, Paulo Lima. Bem, vamos por partes.
É interessante a matéria da edição 73, mas a resposta é óbvia: todos fizeram o trabalho pela grana, assim como fazem qualquer outro. Se cada publicitário for parar para pensar no produto que está ajudando a vender, se aquele produto não causa nenhum mal ao homem, acho que ficaríamos com poucas propagandas nos meios de comunicação. Não são só o cigarro e o álcool que deveriam ter sua propaganda questionada. Por que ninguém questiona a propaganda automobilística, já que milhares de pessoas morrem todo ano em acidentes? Por que ninguém questiona a propaganda esportiva de marcas como Nike e Reebok, já que exploram crianças-operárias? Crianças estas que vivem em condições subumanas em países subdesenvolvidos como a Indonésia, e que aceitam trabalhar muito por um salário irrisório.
Bom para os EUA e o Brasil
Se formos mais longe, boa parte das pessoas, como eu, você, o editor e alguns jornalistas da Trip, deveriam deixar de usar algumas de suas roupas e calçados em prol de uma campanha com um motivo também bastante nobre. E os tão queridos atletas entrariam nesta também?
(Só para deixar registrado, nesse mesmo número há uma reportagem/entrevista com um surfista de 33 anos que roubava e brigava à mão armada na adolescência. Muito bem, hoje ele se redimiu, mas por que tratá-lo como um herói, já que é assim que aparece nas quatro páginas a ele dedicadas? Será que os jovens não se influenciam com isto? Mais uma observação: este tipo de matéria é comum na revista.)
A entrevista com o vice-presidente da Philip Morris, Sr. Clodoaldo Celentano, também é excelente. Ele consegue responder a perguntas difíceis de maneira clara, à altura do que foi perguntado, e não baixa o nível, o que não parece que o entrevistador conseguiu fazer. Vários dos argumentos que o entrevistado utiliza usei no desenvolvimento deste texto, porque concordo e assino embaixo. Outra pergunta fica no ar: por que o dinheiro arrecadado em impostos pelo governo, 74% do valor de cada maço de cigarro, não é destinado ao combate ao cigarro? Ou pelo menos uma parte dele? Uma das coisas mais importantes que o "verdadeiro homem de Marlboro" (como é chamado o vice-presidente na capa da edição) declara é que a decisão de começar a fumar deve ser tomada quando a pessoa for adulta, não quando criança. E isso é uma das coisas que mais deveriam ser combatidas pelo governo: como crianças de 5, 10 ou 15 anos começam a fumar? O que fazer para combater é simples: fiscalização. Não gostam de imitar os EUA? Pois então, funciona lá, funciona aqui também!
Lícito é se lhe parece
Outro ponto interessante da entrevista é quando Celentano propõe ao entrevistador que a Trip seja parceira da Philip Morris num projeto que visa a combater o início do hábito de fumar entre menores. Por quê? Porque cigarro é uma droga lícita para maiores de 18 anos. Isso mostra conscientização do entrevistado e de sua empresa (se ele falava a sério, claro – mas acredito que sim). E a revista seria uma ótima parceira para este projeto, mas não pareceu muito a fim de conversa.
Na crônica de Carlos Nader, ele tenta justificar o porquê de ter participado da campanha do Hollywood. Acho que ele consegue bem, e dá uma aula de ética publicitária. Já Paulo Lima tenta defender a teoria de sua revista com argumentos batidos. Existem milhares de pessoas que, muito antes de serem viciadas, sentem prazer em fumar. Essas são pessoas que conseguem ficar horas sem um cigarro na boca, ou melhor, sem pensar em cigarro. Isso é uma coisa que o editor da Trip não entende e não vai entender nunca, não porque ele não goste de cigarro, mas pelo seu grande preconceito contra fumantes. O pior é que isso nada tem a ver com propaganda.
Agora vem o pior de tudo: nessa mesma edição 74 há uma matéria sobre drogas que podem ser compradas pela internet. "Herbal ecstasy, cogumelos alucinógenos, estimulantes psicodélicos, alteradores de humor, LSD natural". Essas são drogas citadas no tópico da reportagem. Pareceu lícito? Não, nem a mim.
Ainda assim, inovadora
No texto há a indicação de alguns sites que vendem estas e várias outras drogas pela rede. O argumento usado na reportagem e pelos "vendedores" ou "traficantes cibernéticos" é o de que as substâncias utilizadas na fabricação das drogas são todas lícitas, o que faz o produto lícito também. Os fabricantes de cigarro aqui no Brasil são obrigados a declarar na embalagem do produto as substâncias utilizadas na fabricação, sendo todas lícitas. Então? Onde fica a ética da revista?
Já na edição 75, a Trip apresenta matéria sobre os efeitos negativos da maconha, da cocaína, do LSD e do Ecstasy. Ok, outro ponto para a Trip. Só acho que esta matéria não precisaria citar os efeitos "positivos" destas drogas. Além disso, as pessoas, em geral, não conhecem ninguém que tenha morrido porque fumava maconha, mas todos devem conhecer vítimas do cigarro. Mas isso não vem ao caso.
Enfim, muito antes de não veicular propaganda tabagista a Trip deveria se preocupar em veicular propaganda contra o tabaco e procurar parceiros para isto, não apresentar matérias sobre drogas tão lícitas e prejudiciais quanto o cigarro e nem questionar a ética de profissionais sérios.
Mas a revista continua inovadora, criativa e informativa.
Só uma observação: não escrevi este texto nem para defender o cigarro (ou qualquer outra droga) nem para atacá-lo.
CASOS DE DESCASO
Espaço (tomado) do leitor
Cesar Boschetti (*)
É comum na imprensa um espaço aberto (painel, fórum, coluna etc.) à manifestação do cidadão comum – ou seja, o leitor, a razão de ser do jornal. Entretanto, este louvável espaço tem sido vítima freqüente de uma deformação de conceito: vem sendo sutilmente subtraído ao legítimo dono, por uma postura mesquinha e até antiética do jornal.
Deixando de lado os casos óbvios de linguagem imprópria, difamações ou agressões verbais, com certeza há ainda um farto material autêntico, honesto e politicamente correto de leitores interessados em dar sua opinião. Mas o que se vê ultimamente?
Os jornais vêm ocupando cada vez mais este espaço com réplicas de pessoas ou organizações que se sentiram ofendidas ou indevidamente citadas em reportagens, colunas e editoriais.
Nada mais justo que tenham direito de resposta. Mas, por um princípio moral básico, o espaço adequado para isso é o do colunista ou do jornalista questionado, e não o do leitor, que nada tem nada a ver com a história. A prática traduz um duplo desrespeito. Primeiro com o reclamante, e segundo com o leitor, que perde às vezes mais de 70% de seu já reduzido espaço.
Este tipo de postura, no mínimo hipócrita, não combina com uma imprensa que se diz isenta, transparente e voltada para os interesses maiores de seus leitores.
(*) Tecnologista do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), São José dos Campos, SP
RODAPÉ
Quem é quem?
Leo Marcos Paiola (*)
Não sou um leitor muito dedicado de jornais. Tenho uma atividade profissional intensa, o que me impossibilita disponibilizar mais tempo à leitura de jornais, onde espero encontrar a notícia na melhor forma possível, em estado quase in natura.
Como muitos de minha geração, nasci após o golpe militar de 1964, que podou bastante o desenvolvimento natural da imprensa. Muitos jornalistas, inclusive, usavam pseudônimo à época. Hoje isto não se justifica. Mas me deparo freqüentemente com uma situação incômoda: determinados artigos são assinados por jornalistas que não sei quem são. Às vezes, nem se trata de jornalista, mas apenas de pessoa que escreve habitualmente ou ocasionalmente para jornais.
Considero essencial que ao pé de cada artigo seja divulgado um currículo mínimo de seu autor, constando idade, formação universitária, se já exerceu cargo eletivo, em que jornais trabalhou, no caso de jornalista.
Sou advogado e observo que nas publicações técnicas as editoras fazem questão, acertadamente, de deixar claro quem é o autor do artigo – se juiz, advogado, promotor – a idade e a formação universitária, para que o leitor possa fazer seu juízo do conteúdo apresentado.
Há tempos tenho essa queixa. Já a compartilhei com vários colegas que têm a mesma opinião. Nunca a encaminhei a qualquer outro veículo, e o faço agora ao Observatório da Imprensa por julgá-lo o melhor e o mais indicado veículo.
(*) Advogado de Curitiba
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