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CADERNO 2
A força dos plantadores de matérias

 

Francisco Moreno de Carvalho (*)

Na sua edição de 25 de setembro, veio o Caderno 2 do Estado de S.Paulo, de novo, com uma matéria ligada ao tal "Projeto Tapajós". Sim, aquele mesmo projeto diletante que gira em torno de um conceito eurocêntrico e racista: o Brasil teria sido povoado "por povos inteligentes, de origem européia, nada parecidos aos índios" num passado distante.

Desta vez não se tratou de nenhuma nova aventura do tal "projeto", mas sim de divulgar o trabalho de um de seus integrantes, Luis Caldas Tibiriçá, apresentado como lingüista, arqueólogo e pré-historiador. O título da matéria: "Pesquisador desvenda raiz dos idiomas". Segundo o texto, o Sr. Tibiriçá realiza "pesquisa inédita no mundo" provando a raiz comum de todas as línguas. Está pronto para publicar um dicionário deste idioma. Não consegue quem o faça, e parece que o Caderno 2 resolveu dar uma mãozinha. Um companheiro de "projeto" do Sr. Tibiriçá, o arqueólogo amador Heinz Budweg, exalta o caráter único desta pesquisa no mundo e sua grande utilidade.

Pois bem, jornalista não tem que ser lingüista. Mas deve ser apto a pesquisar sobre o tema que está escrevendo. Caso não tenha conseguido reunir informação suficiente para fazê-lo, tem por obrigação procurar a opinião de pessoas que entendem do assunto. Muito cômodo entrevistar alguém que acredita ter descoberto algo e, para embasar a entrevista, trazer a opinião de seu parceiro de trabalho. Parece que o Caderno 2 "comprou" o "Projeto Tapajós" de forma acrítica. Caso o autor da matéria tivesse se dado ao trabalho de procurar na Internet os termos "original tongue & linguistics" encontraria mais de 2.600 itens relacionados ao tema, entre eles artigos e dados sobre um livro publicado sobre protolíngua, ou língua-mãe. Se tivesse procurado "protolanguage" teria encontrado 412 itens. Entre os quais vários grupos de discussão e uma coleção de ensaios de Patrick C. Ryan, que com honestidade intelectual defende a tese da protolíngua mas não deixa de assinalar que a maioria dos lingüistas não a aceita, incluindo uma bibliografia sobre o tema contendo 30 títulos, entre livros e artigos. Parece que este simples dado serve para derrubar a alegada "originalidade" que a matéria pretende divulgar e que justifica sua própria existência.

Torre de Babel

Mas, voltando às pesquisas do Sr. Tibiriçá: a procura de uma língua-mãe universal é uma das grandes quimeras da história da cultura. Um dos primeiros relatos sobre esta busca encontramos em Heródoto, que atribuía ao faraó Psamético I a realização de um "experimento" com duas crianças. Postas a crescer entre cabras, sem nenhum contato com outros seres humanos, a primeira palavra que teriam proferido, de forma natural e, portanto, como prova de uma língua primeira de toda a humanidade, foi bék. Como em lídio bék significava pão, inferiu o curioso e "científico" faraó que o lídio seria este idioma primeiro.

Há uma lenda de que Frederico II da Sicília, que reinou entre 1296 e 1337, teria refeito o "experimento", chegando à conclusão de que o hebraico era a língua mãe de todas. Pudera, bem antes disto, já a Bíblia trazia o relato da Torre de Babel, de como a humanidade teria tido um único idioma. Por isso mesmo a pesquisa da tal língua-mãe foi movida, ao longo dos séculos, por motivos religiosos.

A lingüística é uma ciência, um corpo de conhecimento que se estrutura segundo as regras da pesquisa científica. Desde o início deste século, o estudo comparado de fonemas semelhantes, linha-base da "pesquisa" do Sr. Tibiriçá, perdeu terreno na lingüística. No lugar dele surgiu a pesquisa que procura a semelhança estrutural entre idiomas diferentes, e não simplesmente a presença de palavras de som parecido em idiomas díspares como o tamil e o gaélico. Mesmo quando se tratou de agrupar os diferentes idiomas em famílias (como a indo-européia, a semítica, a sino-tibetana) procurou-se, mais do que o aparente parentesco fonético, elementos semelhantes na estrutura de idiomas agrupados sob uma mesma família.

Há idiomas que constróem a frase segundo o modelo sujeito-verbo-objeto, há outras que o fazem com sujeito-objeto-verbo, verbo-sujeito-objeto e assim por diante. Há línguas que são aglutinantes, que criam palavras a partir de partículas menores. Há línguas, como as semíticas, que compõem suas palavras a partir de raízes verbais. Todas as classificações e grupamentos estão sujeitos a controvérsias. Trabalhos de lingüística comparativa, baseados numa grande base de dados de diferentes idiomas, chegaram a "restaurar" o que seria um proto-indo-europeu, assim como um proto-polinésio.

Plantadores de matéria

Fica difícil acreditar na seriedade de um trabalho como o apresentado pelo Caderno 2, que pretende remontar a cerca de 6.000 A.C., período do qual não temos nenhum documento escrito de qualquer idioma (os primeiros escritos, sumerianos, datam de cerca de 3.000 A.C.), e com isso estabelecer correlações entre idiomas e chegar a uma hipotética língua-mãe universal, com dicionário e tudo! Ainda mais que tal trabalho seja resultado da comparação entre 830 vocábulos. Isto porque o Sr. Tibiriçá, entrevistado pelo jornalista do Caderno 2, declara: "Alcancei meu objetivo: descobrir a origem da língua falada apresentando fatos, e não teorias". Imaginem se gostasse de teorizar!? E ainda somos obrigados a ler a declaração do Sr. Budweig de que o Sr. Tibiriçá "é o maior linguista da atualidade". Alguém no Caderno 2 já ouviu falar em Noam Chomsky?

Uma matéria como esta não faz jus a um dos maiores jornais de língua portuguesa do mundo. Afirmações como as veiculadas precisam de muito trabalho de pesquisa e checagem antes de chegar ao prelo.

Pois é, mas ainda não terminou a novela do pesquisador-brasileiro-que-não-consegue-publicar-seu-trabalho-genial (de novo, todos conspiram contra o país do futuro). Se não bastasse o artigo impresso, alguns dias depois ele foi republicado num site de Internet do Portuguese News Network, assinado pelo mesmo jornalista que escreveu a matéria no Caderno 2 (embora os artigos do site estejam sob copyright da PNN). Só que agora a chamada da matéria é bem mais explícita. Depois de "Cultura/Escândalo" vem a manchete: "Dicionário de língua-mãe universal sem editora". A matéria tem título parecido: "Dicionário de língua-mãe universal procura editora".

Sendo assim, está de parabéns o Caderno 2, que conseguiu transformar uma não-matéria em tema de um novo "escândalo", que acabou extravasando as próprias fronteiras do jornal e foi, também, divulgado por um serviço de notícias online que, pior ainda que o Caderno 2, parece não ter nenhum critério para selecionar aquilo que publica, salvo as manchetes que possam atrair o leitor. Com isso acabamos ludibriados várias vezes. Acredita-se que há uma pesquisa inédita onde não existe; pensa-se que é um trabalho sério quando não o é e, depois de tudo, ainda se fica achando que além de todos os últimos escândalos políticos temos mais um: o escândalo da língua-mãe!

Escandaloso mesmo é um jornalismo que desinforma seus leitores por preguiça ou, simplesmente, por se render a alguns plantadores de matéria, muito bem pagos, que não têm nenhum compromisso com o bem informar.

(*) Médico e historiador

 

SERVIDORES
Festival de informações erradas

 

Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de São Paulo

Não chegamos a uma conclusão, mas trabalhamos com algumas hipóteses para tentar entender o que se passou com a imprensa escrita na cobertura da paralisação e da manifestação que os servidores das creches diretas fizeram no dia 28 de setembro, em São Paulo.

A julgar pelo que saiu publicado, algumas perguntas vêm à cabeça: será que os jornais ainda carregam o preconceito contra o movimento sindical brasileiro, tão comum nos anos 80? Será que a imprensa escrita, em se tratando (no nosso caso) de funcionalismo, categoria eleita para ser a inimiga pública número um da "modernidade", comprou a idéia e por isso nos retrata negativamente nas páginas dos jornais? Ou será que falta paciência e disposição para checar as informações?

O fato é que os jornais do dia seguinte à paralisação e à manifestação trouxeram um amontoado de informações erradas, divergentes e visivelmente parciais. O curioso é que pelo menos quatro diretores do sindicato deram entrevistas sobre o assunto, mas somente um foi citado e suas informações levadas em consideração, embora todos tenham dito a mesma coisa.

Ao menos neste caso a diretoria do Sindicato e os servidores públicos municipais de São Paulo podem ter a mais absoluta certeza de uma coisa: se a grande imprensa erra (e os motivos seriam tema para intermináveis debates), a Prefeitura erra mais ainda, ao divulgar informações contraditórias, demonstrando ser incapaz para a administração pública.

A seguir, vejam os motivos pelos quais o Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de São Paulo protesta.

O que saiu na grande imprensa (escrita) sobre a paralisação dos servidores das creches municipais, em 28/9/99, e a manifestação, no mesmo dia, em frente ao prédio da Secretaria Municipal de Administração, na Avenida Paulista:

Agora S. Paulo

O jornal traz, simplesmente, uma foto-legenda que ignora a paralisação e informa que "mais de 500 ADIs [Auxiliar de Desenvolvimento Infantil] protestam na Av. Paulista". O número é discutível, e nem só ADIs compareceram ao protesto. Por que o jornal não quis saber a versão do Sindicato?

Folha de S. Paulo

Sob o título "Greve deixa 10 mil sem creche", a Folha trabalhou com os números divulgados pela Prefeitura e não considerou a opinião do Sindicato, apesar de ter entrevistado o diretor João Batista Gomes. Infelizmente, cometeu alguns erros.

Primeiro erro: o texto da Folha afirma que 104 creches pararam no dia 28/9, representando 40% do total das creches municipais. Isso significa que a Prefeitura, ao divulgar esse número à Folha, ignora quantas creches administra. Segundo listagem divulgada pela própria Prefeitura em maio deste ano, há 273 creches municipais, e não 260 como deixou transparecer o texto da Folha. Desse total, 55% das creches pararam totalmente seus trabalhos; as outras, parcialmente. Se a Folha tivesse checado a informação com o Sindicato encontraria com números divergentes. Mas preferiu correr o risco do erro ao divulgar como definitivo e verdadeiro o informe (errado) da Prefeitura.

Segundo erro grosseiro da Prefeitura assumido pela Folha: o texto informa que 1.874 funcionários ("47% do total ligado à administração direta") paralisaram os trabalhos. Novamente a Prefeitura dá prova de incompetência. Se este número é verdadeiro, a Prefeitura afirma que trabalham nas creches municipais 3.987 servidores. A própria Prefeitura informa que nos respectivos Quadros Profissionais, publicado em Diário Oficial, trabalham nas creches municipais 10.050 ADIs. Considerando os que se aposentam, os que falecem, os que mudam de Quadro, os que saem da Prefeitura, podemos dizer que, devido à rotatividade, existem aproximadamente 7.500 ADIs. O dobro de funcionários, portanto.

Terceiro erro: considerando o número de creches paradas (104) divulgado pela Prefeitura e considerando que a média de funcionários nas creches municipais é de 28 ADIs (segundo informações da Prefeitura), bastaria à Folha fazer uma simples conta para verificar a bagunça que é a Prefeitura e, assim, desconfiar dos números que tinha em mãos. Encontraria 2.912 funcionários parados, e não 1.874.

Quarto erro: a Folha acreditou nos 1.874 funcionários parados divulgados pela Prefeitura, mas tenta justificá-los. Não sabemos se por iniciativa própria ou por informações da Prefeitura, a Folha confunde o leitor afirmando que o número de 7.500 funcionários divulgado pelo diretor João Batista Gomes é, na verdade, a soma de funcionários das creches diretas (municipais) e indiretas (conveniadas). De onde a Folha tirou essa informação? Creche conveniada não tem nada a ver com a Prefeitura, mesmo porque seus funcionários não são servidores públicos, são contratados em regime de CLT e seus problemas com alimentação são resolvidos de acordo com as leis trabalhistas.

Quinto erro: Em outra matéria correlata, a Folha novamente preferiu ficar com os números da PM (sem citá-la) sobre a manifestação ocorrida na Av. Paulista. Segundo a Folha, apenas 200 pessoas foram capazes de fechar a Paulista por quatro horas. Isto que é ter capacidade de persuasão para convencer a PM!!!

A Folha e a Prefeitura erraram feio.

Notícias Populares

Fez edição semelhante ao jornal Agora S. Paulo. Repete o mesmo número de manifestantes presentes na Av. Paulista, cerca de 500. Como jornais da mesma empresa publicam informações tão diferentes (FSP divulgou 200, o Agora e o NP, 500)?

Diário Popular

A matéria caminha bem até entrar nos números da paralisação. Erra o jornal porque preferiu também ficar com as informações da Prefeitura. Diz: "A Secretaria do Bem-Estar Social informou que 10.894 crianças (10% dos usuários de creche) ficaram sem atendimento ontem". Ou seja, há 108.940 crianças nas creches municipais? Se isso for verdadeiro, quer dizer que em cada uma das 273 creches municipais há 399 crianças? Como podemos acreditar nesses números, se a própria Prefeitura estabelece critério (e até rigoroso) para funcionamento de uma creche municipal, de até 160 crianças? É só verificar o Diário Oficial do Município!!!!

De onde o jornal tirou a informação sobre as "4 mil Auxiliares de Desenvolvimento Infantil" que trabalham nas creches diretas? Da Prefeitura? Se sim, então temos um novo número?

O Diário, ao ficar com os números da paralisação divulgados pela Prefeitura, erra duas vezes. Primeiro porque os números, como já demonstramos, são discutíveis; segundo, o jornal foi alertado de tudo isso que dissemos e provamos. Preferiu nos ignorar?

O Estado de S. Paulo

O jornal simplesmente ignorou o fato. Limitou-se a registrar o enorme congestionamento no trânsito causado por protestos de perueiros e o rompimento de uma adutora. Deixou para o Jornal da Tarde, que parece ter tido o bom senso de desconfiar dos números da Prefeitura, cobrir a manifestação e a paralisação nas creches.

Os servidores novamente pararam suas atividades no dia 5 de outubro e, desta vez, fizeram manifestação em frente à Secretaria de Finanças, seguindo em passeata até a Câmara Municipal, onde estava se realizando um protesto de perueiros [motoristas de van] e condutores de ônibus. Novamente um festival de informações erradas voltou a ocupar os jornais. Uma foto do jornal Agora limitou-se a dizer que a multidão (as três categorias juntas) era formada apenas de perueiros. O Diário Popular insistiu nos números absurdos e contraditórios da Prefeitura e, surpreendentemente, afirmou que não mais de 200 servidores (quando tinha no mínimo 1.000) participaram da passeata.



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