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FEITOS & DESFEITAS
CENAS DE UM CASAMENTO José de Souza Martins (*)
Nesta foto de uma cerimônia de casamento no interior de São Paulo há alguns detalhes interessantes, além da óbvia e cara pompa. O belíssimo vestido da noiva teria custado uma fortuna em Buenos Aires e teria sido ele o centro da imagem, não fossem os detalhes que menciono. Um dos detalhes é o de que o presidente da República, testemunha, assina o livro de registro do matrimônio com uma prosaica caneta bic de periferia. Ou a República vai mal ou a República é distraída. Ou a República está fazendo economia com o supérfluo. Ou o escrivão do cartório de registro civil da cidade do interior não estava à altura da pompa e da circunstância de uma cerimônia em que sua caneta seria a personagem principal, a mais acariciada de todas as personagens da festa. Essa mísera caneta é o que Roland Barthes define como "punctum", o objeto da cena que fere imediatamente o olhar de quem examina a foto e nesse ponto resume e sintetiza o que foi fotografado. Toda a pompa das personagens, das vestes e do lugar se perde completamente nesse contraste. Tornam-se coadjuvantes, acólitos, da caneta. Sociedade do vazio Outro detalhe é o de que há um ostensório sobre o altar, instrumento de exposição do Santíssimo Sacramento nas cerimônias católicas. Neste caso, a noiva é divorciada, mas teve educação católica. A Igreja Católica não admite o divórcio nem o casamento entre divorciados e tampouco admite a presença de seus símbolos em cenas contrárias à fé católica. O ostensório nos fala, nesse caso, de dúvida, de incerteza; nos fala da consciência de uma cerimônia que não pode acontecer de conformidade com as convicções da noiva. No conjunto, a foto constitui, também, documento de crítica da intolerância religiosa na doutrina, mas de tolerância no formal. Ambigüidades, que se confirmam no ostensório vazio, sem a hóstia consagrada. A convicção religiosa traduzida num mero fazer de conta, impedida, interditada, mas anunciada. Essas contradições nos falam da modernidade, da sociedade da colagem de símbolos e mensagens, a sociedade do vazio, da perda de substância do social, do tanto faz como tanto fez. Os símbolos e o simbólico não se articulam com a substância das relações, com os conteúdos. São meramente formais, mera exibição do aparente. Mero anúncio do que não é. Eis o avesso da fotografia. (*) Professor livre-docente em Sociologia da Universidade de São Paulo, autor, entre outros, de A imigração e a crise do Brasil agrário, 1973; Capitalismo e tradicionalismo (estudo sobre as contradições da sociedade agrária no Brasil), 1975; O cativeiro da terra, 1979; Expropriação e violência (a questão política no campo), 1980; Os camponeses e a política no Brasil (as lutas sociais no campo e seu lugar no processo político), 1981; A militarização da questão agrária no Brasil (terra e poder: o problema da terra na crise política), 1984; A reforma agrária e os limites da democracia na Nova República, 1986; O massacre dos inocentes, 1991 (org.); Subúrbio (vida cotidiana e história no subúrbio da cidade de São Paulo: São Caetano, do fim do império ao fim da República Velha), 1992; Henri Lefebvre e o retorno à dialética, 1996 (org.); Vergonha e decoro na vida cotidiana da metrópole, 1999 (org.) | ||