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FOLHA E RECORD
Sem ética alguma
Daniel Navarro (*)
Como assessor de imprensa da JP Indústria Farmacêutica, empresa brasileira localizada em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, gostaria de registrar mais uma desastrosa cobertura na nossa mídia. Desta vez em relação ao caso das mortes de duas crianças no Hospital Dr. Osíris Florindo Coelho, em Ferraz de Vasconcelos, na Grande São Paulo, em 2 de março de 2001.
As mortes foram atribuídas, de forma errada, ao soro fisiológico fabricado pela JP.
Baseadas em denúncias não apuradas com o devido rigor, foram publicadas reportagens nos dias 6 e 7 de março, tanto no caderno Cotidiano, como no caderno regional Folha Ribeirão, afirmando textualmente que "Uma terceira morte chegou a ser atribuída ao soro" (6/3/01), sugerindo que as outras duas teriam sido causadas pelo soro.
Além disso, essa mesma reportagem cita corretamente que o soro aplicado nas crianças era uma combinação entre produtos da JP Farmacêutica e de outra empresa, mas não cita o nome da segunda – no caso, a multinacional Baxter. Isso aparenta má intenção ou, novamente, apuração deficiente.
O texto publicado no caderno regional é ainda mais irresponsável e começa da seguinte forma: "A Indústria Farmacêutica JP, de Ribeirão Preto, apontada como a empresa fornecedora de soro contaminado" (7/3/01). O texto afirma que o soro era contaminado e que a suposta fornecedora foi a JP Farmacêutica, quando, de fato, a empresa nunca foi apontada como fornecedora de soro contaminado, mesmo porque, naquele momento, não havia quaisquer laudos que dissessem isso. Houve, sim, suspeita sobre uma das possíveis causas da morte. Outra possível causa, citada no texto do caderno Cotidiano (6/3/01), seria "uma outra medicação para cessar o vômito".
Outro veículo que atacou de forma agressiva e sem qualquer embasamento foi a Rede Record, programa Cidade Alerta, apresentado pelo radialista (?) José Datena. Na ocasião o próprio apresentador pediu a prisão do farmacêutico responsável pelos produtos da empresa, como se ele fosse condenado por homicídio.
A posição agressiva e alarmista destes veículos prejudicou financeiramente a empresa, reduzindo vendas, causando cancelamento de pedidos, sendo que a Vigilância Sanitária, órgão responsável e competente para fiscalizar e apurar fatos da natureza em questão, em nenhum momento interditou ou sequer notificou a empresa acerca de problemas em seus produtos.
Em 18/4/01, a Folha Ribeirão produziu uma matéria com a metade do espaço dedicado à denúncia, informando que o soro não apresentava qualquer irregularidade. O espaço foi ainda menor na edição nacional (caderno Cotidiano). Ambos os textos foram publicados em áreas pouco nobres. Depois de dois e-mails enviados, o ombudsman ainda não pôde dar uma resposta definitiva.
Novato dá lição
O jornal Agora (19/4/01), da mesma empresa Folha da Manhã S/A, apurou o assunto de forma correta. Mostrou não só a versão das empresas, do hospital e da Vigilância Sanitária, mas também a das famílias das vítimas. Além de mostrar como trocar tecnicismos e números por notícias mais humanizadas – como parece ser a nova postura da Folha, que recentemente contratou o jornalista Ricardo Kotscho –, o jornal realmente informa e mostra possibilidades para esclarecer o caso. O recém-criado Agora deu aula à veterana Folha de S. Paulo.
A TV Record, depois de mantermos diversos contatos com a redação, apenas abriu espaço após falarmos com o diretor de Jornalismo, Luiz Gonzaga Mineiro, bastante sério e correto. O espaço reservado para a reportagem com o resultado da análise da Vigilância Sanitária foi, como previsto, menor e a ênfase do apresentador ínfima.
Mais uma vez a imprensa se mostrou acima da verdade e não assumiu seus erros. Não há dúvida de que essas empresas jornalísticas empregam bons e sérios profissionais. Mas por que esses deslizes acontecem com tanta freqüência? Esses erros parecem ser apenas um "fato" deixado para trás nas carreiras desses repórteres.
(*) Outras Palavras Projetos de Comunicação

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