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MÍDIA VAI À GUERRA
NO CORAÇÃO DO IMPÉRIO Luiz Antonio Magalhães Desembarquei no Aeroporto Internacional de Dulles, em Washington, quase ao meio-dia de 20 de março, pouco mais de 12 horas após o início da guerra dos Estados Unidos contra o Iraque. Viajei para a capital dos Estados Unidos para proferir uma palestra sobre o início do governo Lula, a convite de uma organização não-governamental chamada Esquel Group Foundation. Enquanto esperava para retirar minha bagagem, pude acompanhar notícias sobre a guerra: todas as televisões do aeroporto estavam sintonizadas na CNN, que transmitia ininterruptamente o noticiário do conflito. A primeira impressão foi de uma certa euforia da mídia local com a perspectiva de uma batalha muito rápida e totalmente favorável aos Estados Unidos. Passei o resto do dia 20 terminando de preparar a palestra e acompanhando os telejornais e alguns sites na internet, mas sobretudo a cobertura da CNN, que prosseguia com um tom bastante favorável aos ataques americanos. No fim da noite, a impressão que se tinha era que o regime do "ditador" iraquiano estava prestes a ruir, tamanho o poderio das forças anglo-americanas. Na manhã seguinte, fui logo cedo para o centro de Washington participar do encontro da ONG, realizado em um prédio vizinho ao Capitólio, a poucas quadras da Casa Branca. No caminho, a movimentação da polícia não chegava a chamar muita atenção e tampouco havia sinais de gente protestando contra a guerra. Quando a palestra terminou, no final da manhã, fui ver de perto como estava a situação no coração do império. A presença policial crescia à medida que se aproximava da Casa Branca. Toda a área em frente à sede do governo dos Estados Unidos estava bloqueada e, diante dos bloqueios, um amontoado de turistas tirava fotos do prédio. Os policiais apenas observavam. Nenhum manifestante dava o ar da graça. Contornei o bloqueio e tentei ver se do lado oposto a situação era a mesma. No caminho, encontrei a primeira manifestante contra a guerra. Era uma senhora que, sozinha, empunhava uma plaqueta com o slogan "Not in my name". Ela não ficou surpresa ao ouvir que era a primeira manifestante que eu encontrava na cidade: "Washington é muito conservadora e boa parte das pessoas aqui trabalham no governo ou em companhias que mantêm relações estreitas com o governo. Mas você irá encontrar mais gente protestando", disse. Três quadras depois, na Lafayette Park, praça localizada bem atrás da Casa Branca, os manifestantes somavam cinco. Comecei a conversar, mas fui interrompido pela chegada de um fotógrafo. O rapaz simplesmente parou a explicação que me dava sobre os motivos que o levavam a lutar contra o seu presidente e correu para posar ao lado de seu indefectível estandarte com a inscrição "No blood for oil". Preferi não me alongar sobre os motivos do protesto, que já me pareceram suficientemente claros, e, quando os flashes pararam, questionei sobre as chances de George Bush dar ouvidos a tão pouca gente. "Ele não vai ouvir mesmo se houver muita gente. Ele não foi eleito, a Suprema Corte o colocou naquela sala", disse o jovem, apontando para o topo da Casa Branca. Resolvi continuar andando pelo centro de Washington para sentir o clima na cidade. Passei em frente das futuras instalações do Newseum, um museu sobre a imprensa que será construído quase em frente à National Gallery. A área hoje é apenas um estacionamento público, mas já há o anúncio do início das obras e, ao lado, um longo quiosque, parecido com um enorme ponto de ônibus coberto, onde diariamente são expostas, em tamanho ampliado, as primeiras páginas de cerca de cem jornais, a maioria norte-americanos, mas também de países como França, Inglaterra, Alemanha, Itália, Japão, China e Arábia Saudita. Tive a sorte de poder ver ali o retrato do primeiro dia da guerra, segundo a imprensa americana e mundial. Novamente, a impressão que ficava era de que a guerra não poderia durar muito mais do que uma semana. Em termos gerais, os jornais americanos pareciam panfletos pró-guerra ou diários oficiais das forças de coalizão. Com exceção do The New York Times, The Washington Post, Los Angeles Times e até mesmo do USA Today, os jornais dos Estados Unidos tratavam o começo do conflito como uma campanha de libertação do povo sofrido do Iraque e saudavam os primeiros bombardeios sobre Bagdá, além de enaltecer a potência e o aparato tecnológico da máquina de guerra americana. No fim do dia, estava bastante cético sobre a força da oposição norte-americana: afinal, em quase seis horas de caminhada pelo centro de Washington, foram exatamente seis os manifestantes que encontrei. Ao mesmo tempo, nos subúrbios mais humildes da capital o que mais se via eram as bandeiras americanas desfraldadas nas janelas, lembrando o Brasil em época de Copa do Mundo. Já de volta ao Brasil, li a notícia de que a venda das bandeiras aumentou 20% nos primeiros dias do conflito. Nova York, 22/3/03 Nova York, porém, mudou um pouco – mas não muito – a percepção sobre o poder da reação interna dos americanos à guerra. Desembarquei no aeroporto de La Guardia no final da manhã do dia 22 e segui para Manhattan de ônibus. Mais uma vez notei o patriotismo do americano que vive no subúrbio: a região de Queens, vizinha a Manhattan, também estava repleta das bandeiras que vi em Washington. Desci na Rua 125 e de lá tomei um táxi em direção à Rua 59, onde ficaria hospedado na casa de um casal de brasileiros sobreviventes do ataque às torres gêmeas (meu amigo trabalhava no 25° andar da primeira torre e conseguiu deixar o prédio minutos antes do desabamento). Entre a 125 e a 59, o motorista peruano me informou sobre a manifestação contra a guerra, que àquela altura já estaria começando em Time Square. Deixei a mala na casa dos meus anfitriões e fui andando até a praça, onde me informaram que a passeata já havia saído rumo à Washington Square. Tomei o metrô e cheguei à praça praticamente junto com as quase 200 mil pessoas que participavam do protesto. Nem todas permaneceram em Washington Square, mas pelo menos um quarto do total decidiu continuar protestando na praça. Predominavam nitidamente os jovens brancos que pouco se diferenciariam dos estudantes das universidades públicas brasileiras. A idade média na praça certamente não passava dos 25 anos. A polícia cercou alguns prédios públicos, talvez com medo de algum ativista mais arrojado. O protesto foi pacífico, mas a bem da verdade, houve momentos de tensão entre a polícia e os manifestantes, especialmente quando dois ou três deles foram presos. De modo geral, porém, o ato terminou com muita tranqüilidade, no final de uma ensolarada tarde nova-iorquina. O tom da manifestação evidentemente era o do slogan "No blood for oil", dominante nas palavras de ordem e nas performances dos manifestantes, que eram tão mais entusiasmadas quão mais perto chegavam as câmeras das redes de televisão e os flashes dos fotógrafos. Também chamava a atenção o grande número de cartazes e palavras de ordem sobre a falta de legitimidade do presidente Bush, acusado de ter vencido a eleição no "tapetão" da Suprema Corte. Apesar do entusiasmo em protestar em frente às câmeras e do clima paradoxalmente eufórico do ato em Washington Square, os jovens americanos mostraram alguma maturidade quando perguntados sobre as conseqüências dos protestos: "Bush, neste momento, não está nem aí para a opinião pública, mas é melhor que haja algum protesto do que nenhum", explicou um rapaz loiro que vestia uma camisa com a estampa de Columbia University. Outro apostava que só o cenário de uma guerra longa e sofrida como a do Vietnã seria capaz de mobilizar de verdade a opinião pública norte-americana. De fato, naquele dia as pesquisas Gallup/USA Today mostravam que o apoio do povo americano à guerra era de incríveis 76% da população. Os ativistas mostraram conhecer muito bem esses números e estavam conscientes de que têm um longo caminho a percorrer para ganhar apoio do povo do subúrbio, que pelo menos até aquele momento continuava preferindo desfraldar a bandeira e apoiar os falcões de Bush. Em Washington Square, a aposta de uma moça ruiva e sardenta era de que o jogo poderia começar a virar quando os primeiros corpos dos amarelos, negros e latinos mortos no campo de batalha chegassem de volta aos Estados Unidos. Não deixa de ser uma triste aposta, mas o fato é que esses corpos já estão chegando. | ||