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MÍDIA VAI À GUERRA
"COLÍRIO ALUCINÓGENO"
Ciro Coutinho (*) Quem tem acompanhado a guerra pela televisão e pela mídia impressa deve notar que existem controvérsias ideológicas e sobre o desenvolvimento do conflito (ou invasão, como preferem alguns) no Iraque. Analisando friamente, é difícil imaginar que um ataque tão arrasador quanto o que está sendo desferido pelos Estados Unidos esteja vitimando apenas algumas centenas de iraquianos. Levando-se em conta que o ataque dos aviões comerciais às torres gêmeas do World Trade Center mataram alguns milhares de pessoas e abalaram estruturas por quilômetros ao redor dos edifícios, fica difícil imaginar que mísseis e bombas americanas façam um estrago menor no Iraque. Mas os números oficiais insistem em mostrar apenas algumas dezenas de civis vitimados (isso no limite da generosidade numérica) e as imagens que nos chegam apenas fornecem uma vaga idéia do que ocorre. Em meio a este cenário nebuloso e trágico para quem está vivendo o terror de sofrer um ataque da maior potência do planeta, aqueles que ainda têm paciência para o assunto (já tão saturado pelo noticiário antes mesmo do início do conflito) estão tendo condições de acompanhar um outro lado da guerra pelos jornais. Destaca-se especificamente a coluna de José Simão, da Folha de S. Paulo. Publicada quase que diariamente, seus curtos textos fazem pilhéria com as informações que são divulgadas e revelam não apenas um humor negro brilhante, mas também a confusa apuração da imprensa. Expressões como "fogo amigo" e os ataques "cirúrgicos" viraram motivo de piada e geraram até embriões de personagens, como o "piloto Mr. Magoo" e as "McBombas". Muita pergunta, uma certeza Longe de utilizar um tom desrespeitoso àqueles que sofrem com o conflito, José Simão explora a confusão de informações e as contradições ideológicas do conflito de modo bem-humorado. O "boicote" à Cola-Cola e ao Big Mac mistura-se às referências jocosas ao presidente Bush (exterminador do futuro, Bronco, agente 86, entre outras). Por outro lado, Saddam Hussein também não é poupado (já foi chamado em uma das colunas de "quibe cru de bigode"). O tom descompromissado dos artigos pode soar apenas humorístico, mas também revela um certo ceticismo quanto ao que é publicado pela imprensa e coloca em dúvida as notícias e estatísticas "oficiais" sobre o conflito. É até bem provável que o colunista da Folha não tenha intenção deliberada de questionar o noticiário, mas o que se percebe na leitura de seus artigos é isso. Afinal, se os bombardeios não são tão "cirúrgicos" como se noticia, o que estará sendo, de fato, destruído? Quanto ao "fogo amigo", onde estará a tão propalada precisão das armas supermodernas dos "aliados"? Isso sem falar na "reconstrução" do Iraque (já decidida e dividida entre grandes empresas dos EUA antes mesmo de os bombardeios começarem), ironizada por José Simão como a colocação de um McDonald’s em cada esquina, 30 Cinemarks e a exibição de um conhecido seriado americano. Tantas indagações a respeito da precisão das informações divulgadas pelos meios de comunicação sobre a situação no Iraque deixam apenas uma certeza: uma parcela dos jornalistas, antes de iniciar a cobertura do conflito, deve ter pingado o tal "colírio alucinógeno", insistentemente citado pelo colunista ao fim de seus artigos. (*) Especialista em Jornalismo Político pela PUC-SP | ||