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TED TURNER & GREG DYKE
Excessos patrióticos e
a concentração na mídia

Argemiro Ferreira, de Nova York

No mesmo dia 25 de abril em que a rede NBC, subsidiária da General Electric (GE), veiculou entrevista exclusiva do presidente George W. Bush (a Tom Brokaw) que parecia mais uma peça de relações públicas, duas personalidades do jornalismo – o diretor-geral da BBC de Londres, Greg Dyke, e o vice-presidente da AOL Time Warner, Ted Turner – repudiaram os excessos patrióticos da mídia dos EUA.

A NBC, que antes demitiu o impatriótico Peter Arnett, é dona ainda da MSNBC (em associação com a Microsoft), rede a cabo de jornalismo que compete com a CNN e a Fox News, e da CNBC (associada à Dow Jones-Wall Street Journal). E sua controladora GE tem subsidiárias na área da defesa (como a GE Aircraft Engines, uma das maiores fábricas de motores a jato do mundo) que lucram com a guerra.

A crítica de Dyke visou em especial as redes de televisão e rádio dos EUA – e ele advertiu que elas ameaçam invadir o mercado britânico e destroçar a integridade de seu jornalismo. Já Turner, criador da CNN, apontou para alvo específico – o rival australiano Rupert Murdoch, que se naturalizou americano na década de 1980 a fim de poder comprar a Fox nos EUA. Mas repudiou ainda a concentração na mídia.

Controle corporativo

Turner chamou Murdoch de "promotor de guerra" e até de "warmonger" – adjetivo aplicado aos que vão a extremos para fabricar guerras e lucrar com elas, como ao fim do século 19 fizeram William Randolph Hearst e Joseph Pulitzer. Ainda o maior acionista individual da AOL-Time Warner, apesar de demissionário como vice-presidente, o criador da CNN ofereceu dados concretos sobre a concentração.

"A mídia está concentrada demais. Poucos são donos de coisas demais", disse ele num seminário do Cammonwealth Club em San Francisco, Califórnia. "Só cinco companhias controlam 90% do que lemos, vemos e ouvimos. Isso não é saudável", acrescentou. Contrário em 2001 à fusão da AOL com a Time Warner, Turner diz agora que não pensa criar nova rede: "O espaço é preenchido pelas que já estão aí", disse.

Mesmo sem se aprofundar (talvez por ser a AOL-TW o exemplo mais conspícuo de concentração, após fundir editoras de livros e revistas, emissoras de rádio e TV, estúdios e produtoras de cinema e televisão, além da "nova mídia" da internet), Turner reflete de certa forma a advertência feita em 1983 pelo jornalista e professor Ben Bagdikian, autor naquele ano de um livro profético, The Media Monopoly ["O monopólio da mídia", edição original da Beacon Press, 1990; editado no Brasil pela Scritta Editorial, São Paulo, 1993].

Em prefácio para a 6ª edição, em 2000, Bagdikian escreveu: "Houve 12 mil fusões só em 1998, no valor de 1,5 trilhão de dólares. Em 1999, a da Viacom-CBS, de 37,3 bilhões de dólares, foi a maior da História (amplamente superada em 2001 pela AOL-TW). Em muitas, o beneficiário maior não foi o público e nem, ironicamente, os acionistas comuns, mas os executivos e firmas de investimento que fizeram os arranjos".

"Não vamos nos americanizar"

A dura crítica do diretor-geral da BBC foi num simpósio de jornalismo do Goldsmiths College, da Universidade de Londres. "Temos de nos certificar de que não vamos nos americanizar", afirmou ao advertir contra a lei proposta pelo governo que pode dar a empresas dos EUA mais participação na propriedade da mídia na Grã Bretanha. A imparcialidade nas coberturas noticiosas iria acabar, disse.

Dyke contou, na sua intervenção, ter ficado chocado, depois do 11 de setembro de 2001, ao vir aos EUA e ver como as redes de televisão e rádio "enrolam-se na bandeira do país e trocam a imparcialidade pelo patriotismo". Imparcialidade, lembrou, "é oferecer variedade de opiniões, inclusive as dos que criticam a posição de nosso próprio governo, o que nos EUA é visto como impatriótico".

O diretor da BBC acusou o governo de Londres de tentar "dirigir a opinião pública" e "aplicar pressão" sobre sua rede, que tem resistido a tais tentativas. A maior crítica dele, no entanto, foi ao grupo de rádio Clear Channel, o maior dos EUA – e que tende a tornar-se o maior beneficiário da proposta oficial destinada a abrir a propriedade de emissoras comerciais na Grã Bretanha.

Fato que também chocou Dyke, segundo seu relato na Universidade de Londres, foi a descoberta de que o Clear Channel, empenhado em ganhar papel preponderante na Grã Bretanha, usava suas emissoras em todo o país para organizar manifestações públicas em favor da guerra – o que contrasta com a posição tradicional da BBC de resistir às tentativas do governo de interferir em suas decisões editoriais.

Trama contra a regulamentação

As afirmações de Greg Dyke deixaram clara a disposição de resistir. Mas, do outro lado do Atlântico, o Hollywood Reporter, ainda a 25 de abril, noticiou a pressão do governo Bush sobre a Comissão Federal de Comunicações (FCC) para relaxar logo a regulamentação da propriedade na mídia. Ante evidências de concentração crescente, em detrimento do interesse público, alguns membros da FCC queriam mais prazo para decidir.

Em carta a cada um dos membros da comissão (na qual também a oposição é representada), o secretário do Comércio de Bush, Don Evans, disse que eles já têm todos os dados necessários para decidir até 2 de junho. O presidente da FCC, Michael Powell, é filho do secretário de Estado americano – o que sugere conflito de interesses, já que antes de ingressar no governo Colin Powell integrava o conselho diretor da AOL-TW.

A guerra em torno do prazo é em parte devida aos escândalos de Wall Street, aos quais se soma o das fraudes contábeis na AOL. Powell impõe a posição de Evans e Bush, mas 15 senadores pediram prazo maior em carta à FCC (outros 16 defenderam a linha do governo). A decisão envolve a propriedade simultânea de jornal e TV, o papel das emissoras locais, alcance nacional e mais detalhes igualmente relevantes.

(*) Jornalista

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