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RORIZ vs. CORREIO BRAZILIENSE
A vingança do governador
Luiz Martins (*)
O Correio Braziliense, o único jornal da capital brasileira que não faz parte das alianças do governador do Distrito Federal, Joaquim Roriz, passou a ser alvo de ataques no programa eleitoral, em pronunciamentos e entrevistas do candidato do PMDB, que busca seu terceiro mandato. Mesmo dispondo de vantagem nas pesquisas eleitorais, que lhe apontam vitória no primeiro turno, Roriz decidiu investir contra o único veículo local de comunicação que ousa estampar em manchetes de primeira página denúncias de seu envolvimento e de deputados distritais em esquema de grilagem de terras públicas no DF.
A denúncia do envolvimento do governador com o parcelamento irregular de terras públicas do DF é antiga, mas voltou com força ao noticiário desde 11/9, quando a Justiça decretou a prisão preventiva de dois dos irmãos Passos, Márcio e Pedro, este último candidato a deputado distrital, e de 36 agentes da Polícia Civil. Pedro Passos, no entanto, passou de coligado de Roriz à chantagem: se eles forem para a cadeia, divulgarão uma centena de fitas de vídeo, incriminando muita gente, incluindo parlamentares e assessores de Roriz.
As fitas contêm, entre outras revelações, conversas e documentação de encontros para tratar da distribuição e regularização de terras ilegalmente loteadas, tanto para a clientela de baixa renda quanto para a classe média alta, já que alguns dos condomínios irregulares situam-se em áreas do Lago Sul de Brasília. Em 18/9, os advogados de Pedro Passos anunciavam que ele retornaria à campanha política no sábado, dia 21, tão logo entrasse em vigor dispositivo da legislação (Artigo 236 do Código Eleitoral) que não permite que candidatos sejam presos no período de 15 dias que antecede a eleição.
Com ampla margem de manobra na Câmara Distrital, Roriz conseguiu abortar a CPI da Grilagem e está em vias de obter a reabertura de uma CPI que investigou os gastos com publicidade durante a gestão do ex-governador Cristovam Buarque, embora o atual candidato pelo PT ao Senado tenha sido inocentado na Justiça dessas acusações, movidas sobretudo por iniciativa do senador cassado Luiz Estevão. A intenção, no entanto, é atingir o redator-chefe do Correio Braziliense, Ricardo Noblat, uma vez que sua mulher, Rebeca Scatrut, é dona de uma empresa de marketing que prestou serviços à gestão anterior. O boicote à CPI da Grilagem motivou protestos de deputados distritais de oposição, que se manifestaram distribuindo pizzas tamanho família em frente à sede do Poder Legislativo local e também promoveram lavagem da entrada do prédio da Assembléia.
Valendo-se da propaganda eleitoral e de espaços que lhe foram abertos em programas de rádio e de televisão, Roriz tem atacado o Correio Braziliense como se o jornal fosse um dos candidatos em disputa. Em sua primeira página do dia 19, o Correio publicou respostas a cada uma das acusações de Roriz e entrou no TRE com pedido de direito de resposta.
Roriz, que edificou a sua popularidade à custa de assentamentos para a população pobre que acorreu ao DF vinda de todos os cantos do país, também se notabilizou por favorecimentos à imprensa colaboracionista, sobretudo privilegiando-a com o grosso da publicidade oficial. Além de alianças consolidadas com os diários Jornal de Brasília e Tribuna do Brasil e Jornal da Comunidade, a gestão Roriz e parte dos deputados distritais que o apóiam também têm contribuído para o sustento de vários pequenos "jornais comunitários" que circulam nas regiões administrativas do DF.
Avalanche de cartas de leitores
Roriz não tem enfrentado o Correio Braziliense com esclarecimentos sobre as denúncias, mas com desqualificações as mais variadas, entre outras, a de "jornal petista". Ocorre que um dos escândalos noticiados pelo CB referia-se exatamente aos desvios de verbas de uma entidade corporativa de professores da rede pública, a Asefe, para a campanha de candidatos do PT na eleição passada. As intimidações de Roriz ao Correio renderam numerosas manifestações de solidariedade, de autoridades, notáveis e políticos a pronunciamento de órgãos de classe. Entre as declarações de apoio constavam as do presidente do Supremo Tribunal Federal, Marco Aurélio Mello, de três candidatos à presidência da República – Lula, Ciro e Garotinho –, de entidades da sociedade civil, entre elas, a Ordem dos Advogados do Brasil. Os ataques foram repudiados também por juristas como o ex-ministro da Justiça José Carlos Dias: "Roriz é um político que não suporta a liberdade de imprensa, quer os jornais de joelhos".
Na semana passada, as sondagens de opinião apontavam ligeira reversão das expectativas: Roriz havia perdido quatro pontos, enquanto o candidato do PT, Geraldo Magela, ganhava um ponto. Dificilmente esse quadro se inverterá, pois grande parte da popularidade de Roriz se deve exatamente à fama de distribuidor de lotes e à complacência com que tem tolerado as invasões, em seguida, regularizadas por leis distritais. Esse é o panorama da política na capital do país, onde um empresário acusado de grilagem se candidata a deputado, revolta-se por ser tratado como bandido e ameaça: se for indiciado, divulgará as fitas. Uma pequena amostra desse material já veio a público. E o conteúdo, acerto de propinas e afirmações extremamente negativas para a Câmara Distrital: "Está cheia de ladrões."
Na quinta-feira, 19/9, o ministro José Delgado, do Superior Tribunal de Justiça, havia determinado à Polícia Federal que tomasse depoimentos dos deputados distritais Odilon Aires e Gim Argello, envolvidos em denúncia de recebimento de propina para regularizar condomínios; do deputado federal Tadeu Filippelli; e do secretário de Comunicação do governo do Distrito Federal, Weligton Moraes. As informações serão usadas em processo no STJ que apura se atos do governador teriam beneficiado os irmãos Passos.
A campanha de Roriz contra o Correio rendeu numerosas manifestações de solidariedade, mas também uma traição dentro da própria empresa. A dissonância ficou por conta de um dos mais antigos e poderosos funcionários da casa, Ari Cunha. A sua atitude motivou a publicação na capa do jornal, em sua edição de sexta-feira, 20/9, de nota assinada pelo presidente do Correio Braziliense e do Grupo Associados, Paulo Cabral, anunciando que convocaria reunião para destituir o jornalista. Dizia o comunicado:
"Foi deplorável o papel desempenhado por Ari Cunha, vice-presidente do Correio Braziliense, no programa eleitoral do governador Joaquim Roriz e de seus aliados, ontem à noite, na televisão. O que ele disse sobre Ricardo Noblat é injusto, inaceitável, mentiroso e me atinge diretamente. Noblat é um jornalista ético na sua vida pessoal e profissional. Jamais transigiu com a ética nos quase nove anos em que exerce a direção de Redação deste jornal. Quem orienta a linha editorial do Correio sou eu. Noblat obedece ao meu comando e implementa minhas decisões. Vou convocar de imediato uma assembléia geral extraordinária da S/A Correio Braziliense para destituir Ari Cunha do cargo de vice-presidente da empresa."
Em sua defesa, o Correio Braziliense tem recebido uma avalanche de cartas de leitores e também uma série de artigos, em geral considerando a atitude do governador do DF uma ameaça não-específica a um jornal, mas à liberdade de expressão. Publicamos nesta edição parte desse material, bem como alguns trechos das acusações de Roriz ao jornal e das respectivas réplicas.
Acusações e respostas
Na noite de terça-feira (17/9), no horário de propaganda eleitoral reservado aos candidatos a deputado federal, a coligação de partidos que apóia a reeleição do governador Joaquim Roriz cedeu espaço para que ele partisse para o ataque ao Correio Braziliense. Na primeira página da edição do dia 19, o jornal comentou cada uma das acusações. Em seguida, ingressou no TRE com solicitação de resposta ao programa eleitoral. Estes são alguns trechos das respostas já publicadas pelo jornal em seu próprio espaço.
Roriz: "Há anos, o Correio Braziliense ataca o governador Joaquim Roriz com reportagens e manchetes mentirosas e agora tem feito tudo para tentar eleger o candidato do PT ao GDF."
Correio: "O Correio não ataca ninguém, ele simplesmente publica tudo que possa interessar aos seus leitores. Foi assim quando noticiou recentemente o desvio de recursos da Asefe para financiar campanhas de candidatos de esquerda em 1998. A denúncia estimulou os aliados do governador na Câmara Legislativa a instalarem uma CPI. Orientados por Roriz, eles agora impediram a criação de outra CPI para investigar o escândalo das fitas gravadas pelos irmãos Passos."
Roriz: "Márcio da Silva Passos (...) vem de público denunciar a farsa que o Correio, desavergonhadamente, estampa na capa da sua edição do último domingo. Jamais chantageei o governador ou quem quer que seja."
Correio: "O Correio reafirma o que publicou. A informação foi confirmada por três pessoas de inteira confiança do governador. Elas pediram para não ter sua identidade revelada."
Roriz: "Os condôminos dos Diários Associados receberam uma indenização milionária da União. Foram R$ 225 milhões. Só que Paulo Cabral e seu grupo, no qual se destaca Ricardo Noblat, utilizaram ilegalmente R$ 172 milhões. A Justiça do Rio de Janeiro mandou bloquear os bens dos 22 condôminos (...) para garantir o ressarcimento do dinheiro que eles desviaram."
Correio: "A indenização foi paga em setembro de 1997 à Rádio Clube de Pernambuco S/A, empresa que pertence ao condomínio Associados. Os R$ 172 milhões foram aplicados nas diversas empresas do grupo, que hoje reúne 12 jornais, 12 emissoras de rádio e sete de televisão. E em novas mídias. O complexo Associados é hoje o sexto maior grupo de comunicação do país. Os herdeiros de Assis Chateaubriand, acionistas minoritários da Rádio Clube, queriam que a indenização fosse rateada entre os acionistas da empresa. Recorreram à Justiça. A ela caberá decidir quem tem razão."
Roriz: "Noblat e a mulher dele, Rebeca Scatrut, têm uma empresa de assessoria de comunicação chamada Informe. A Informe, a partir de 1996, passou a prestar serviços de assessoria ao governo Cristovam, do PT, fazendo dobradinha com o Correio, jornal do qual Noblat é diretor."
Correio: "Noblat e Rebeca não são e nunca foram sócios da Informe. Noblat não é sócio de empresa alguma de assessoria de comunicação. Rebeca tem a dela, que presta serviços a órgãos públicos federais e empresas privadas."
Roriz: "A diretoria do Correio exigiu do GDF para apoiar o governo Roriz (...) 70% de toda a verba de publicidade do GDF."
Correio: "O Correio é um jornal ético. Não apóia governos. E deles, portanto, nada exige em troca. Nos últimos seis anos, em média, menos de 15% da receita de publicidade do jornal derivou de anúncios do Governo Federal e do GDF. No atual mandato de Roriz, o GDF jamais aplicou no Correio sequer 10% de sua verba total de publicidade. Isso apesar de o Correio ser lido por 85 de cada 100 leitores de jornais no Distrito Federal. Ainda assim, o governo Roriz gastou até agora com anúncios no Correio mais do que o governo Cristovam em quatro anos."
(*) Professor da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília, onde coordena o projeto de extensão SOS-Imprensa; integra a diretoria do Sindicato dos Jornalistas do DF
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