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RORIZ vs. CORREIO BRAZILIENSE
O ovo da serpente

TT Catalão (*)

Os lamentáveis episódios de infâmia e agressão porque passa o Correio Braziliense no horário eleitoral usado pela campanha(?) do governador do Distrito Federal Joaquim Roriz tem antecedentes seculares na história do autoritarismo. As constrangedoras cenas – inclua-se as ofensas pessoais a Ricardo Noblat e família – revelam o quanto ainda estamos sujeitos a recaídas nazifascistas em pleno "período democrático", para não falar da malfadada e caricata "era da globalização". Serve para demonstrar o quanto ovo da serpente sabe migrar e se mantém perfidamente potencial pronto para re-eclodir em qualquer período histórico.

O uso da intimidação tem antecedentes graves na conduta do governo contra o Correio e, em trágica coincidência, os ataques de 17 de setembro de 2002 repetiram-se após o discurso inflamável de 17 de setembro de 1999 que nos levou a responder com a capa "Para que serve um jornal", no dia 19. O governador usava da sua habitual virulência verbal para, em palanque, incitar a população para "fechar o jornal". O ato assumia proporções mais graves pelo fervor cego e messiânico com que as legiões de apoio irrestrito a Roriz: uma centelha pode atiçar uma tragédia. O mesmo risco que correu o tal "crioulo petista" – um rapaz negro que foi acusado pelo governador, em comício, como "infiltrado" pelo PT – quando a possibilidade de um linchamento não ocorreu por milagre.

Até que, ante as denúncias dos irmãos Passos sobre as escandalosas grilagens de terra, comprometendo círculos tão próximos ao governo que beirassem a promiscuidade, uma blitzkrieg de ofensas e destemperos foi dirigida ao Correio, no melhor estilo dos déspotas antigos que matavam os portadores de más notícias, como se o emissor fosse o culpado da desdita.

Caem as máscaras

Três anos depois o Correio não fechou, cresceu e está sob novo ataque. O jornal criou um vitorioso modelo de interatividade com os leitores – um sistema ativo de opinião, compromisso, troca e envolvimento – nada comparável a uma estratégia marqueteira de "ouvir o leitor para aperfeiçoar o produto". Colunas como Desabafo, Correio DO Brasiliense, Cartas e Grita Geral recebem centenas de correspondências diárias com desdobramentos concretos no cotidiano dos leitores. Sem censura de temas ou filtragem ideológica de posições. O Conselho de Leitores vai bem obrigado, na terceira gestão.

Como reconforta perseguir utopias mesmo sob aparentes "derrotas’’. Como é mais forte a compostura moral de quem tem a consciência limpa quando a lama transborda. A primeira linha publicada pelo revolucionário Hipólito da Costa, no seu Correio Braziliense, clandestino e perseguido de 1808, foi: "O primeiro dever do homem em sociedade é ser útil aos membros dela". E a síntese máxima da capa "Para que serve um jornal" (19/9/99) é "um jornal serve para servir".

A honrosa proximidade, entre 1808 e 2002, da imprensa-serviço-público deve mobilizar os leitores para que o jornal seja cada vez mais DO brasiliense. Senso de propriedade não é posse, mas comprometimento. Entre vários atributos, sabemos que um jornalista não é um funcionário comum, no sentido mecânico da função obediente. Um jornalista assume valores que, se forem feridos, mesmo sob risco, ele seguirá a incerteza mas se manterá coerente – perca o emprego, as benesses e até o "prestígio".

Em nossos dias, quando um jornal, por ser produto, vive sob a ameaça permanente de fazer da notícia mercadoria, a postura do jornalista, ser humano e político Hipólito é fundamental. Perguntar sempre para que serve o jornal, como ele é servido, quais são seus serviçais e o quanto ele pode ser manipulado pelos que queiram servir-se dele. Hipólito vive. Nem tudo que se imprime em papel-jornal é jornalismo. Nem todos que escrevem em jornal, mesmo diplomados, são jornalistas. Talvez estejamos devendo uma nova capa: "Para que serve um jornalista?"

A cidade que tem em seu imaginário as utopias libertárias da fraternidade (até do cósmico pelas raias do místico) agora tem um choque de maturidade onde o confronto com a sordidez, a traição e a mentira certamente a deixará mais forte para o futuro. Ou não haverá mais futuro possível se perdermos nossos mínimos valores éticos. "Liberdade de imprensa" é redundância, como "educação integral"; não sobrevie uma se faltar a outra. As rupturas rompem para anunciar o novo. Corruptos corrompem para manter a treva. Vivemos um tempo de ciclos encerrados: caem todas as máscaras, mesmo as mais caras!

(*) Editor de Pesquisa e Informação do Correio Braziliense

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