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INTERESSE PÚBLICO
POLÍTICAS PÚBLICAS
Ruídos na radiodifusão
(*)
Alberto Dines
O certo seria dizer que vai ocorrer um apagão na radiodifusão
mas no país dos poetas não é de bom-tom fazer
rimas, ricas ou pobres. O que estamos assistindo no campo da mídia
eletrônica é o equivalente à monumental barafunda
que produziu o Efeito Apagão, a crise energética.
Mais uma vez, o governo federal exibe com gosto e candidez a sua
proverbial inapetência gerencial: os ministros fazem o que
querem, esquecidos dos mínimos preceitos de cooperação,
convergência ou sinergia. Como se cada ministério fosse
ilha à parte e, não, parte de um continente. Cada
autoridade chuta a sua bola, em direção da sua meta,
atento ao seu placar setorial, indiferente ao grande jogo que está
sendo jogado.
O novo projeto de regulamentação da radiodifusão
apresentado na última quinta-feira [21/6] pelo ministro
das Comunicações, Pimenta da Veiga, segue os preceitos
da tabula rasa e da estaca zero. Como se nada existisse, como se
nenhuma discussão estivesse em curso, como se o Gênese
devesse começar a ser escrito a partir de agora.
Para começar, o Ministério das Comunicações
falhou na comunicação. Se a intenção
era a de promover um debate nacional sobre as novas regras do jogo
midiático, ficou na intenção. O novo projeto
manteve-se no âmbito dos gabinetes e corredores – habitat
ideal do homo brasiliensis. Apenas este Jornal do Brasil
e o ultimosegundo.com divulgaram partes do projeto. O próprio
site do ministério (www.mc.gov.br) que deveria funcionar
como um fórum de discussões durante 30 dias, até
ontem [22/6] ao meio-dia, estava inteiramente alheio à
questão.
O ministro Pimenta da Veiga esqueceu que o Estado brasileiro já
dispõe de um Conselho de Comunicação Social
previsto pela Constituição de 1988, devidamente regulamentado,
para funcionar como órgão auxiliar do Congresso. Se
foi até agora solenemente ignorado pelos últimos presidentes
do Senado, José Sarney e ACM – porque não lhes interessava
criar problemas enquanto poderosos empresários da comunicação
–, não poderia ser descartado por um ministro de um governo
empenhado na doutrina das agências reguladoras legitimadas
pelo legislativo.
A idéia de criar um novo Conselho no âmbito do ministério
da Cultura é, no mínimo, impertinente. O ministro
Francisco Weffort merece todo o respeito como intelectual e pelo
seu empenho em desenvolver o nosso cinema, mas a única iniciativa
do ministério no campo da mídia foi desastrosa: ao
invés de fortalecer a idéia da Rede Pública
de TV, convertendo-a em alternativa real à degradante programação
das redes comerciais, criou mais um canal (a cabo) e dispersou recursos
dentro do mesmo espírito de "cada um por si".
Pimenta da Veiga esqueceu que o Ministério da Justiça
está tentando emplacar uma sistema classificação
da programação de TV por faixa etária e horário
muito mais simples do que a orwelliana idéia de exigir que
os aparelhos de TV sejam fabricados com o dispositivo para bloqueio
de programas.
Também não lembrou que dorme há dois anos
na Câmara a nova redação do artigo 222 da Constituição
visando capitalizar as empresas de comunicação, democratizar
o seu capital e, em última análise, desconcentrar
o sistema midiático brasileiro em vias de se converter num
imbatível cartel. A iniciativa desta emenda foi do então
deputado Aloysio Nunes Ferreira, hoje secretário-geral da
Presidência da República, que não deve ter sido
consultado sobre a iniciativa do seu colega das Comunicações
já que o novo projeto é concentrador tanto no espírito
como na prática. Enquanto a emenda do artigo 222 proposta
por Aloysio estimula o conceito de pessoa jurídica corrigindo
a perigosa distorção da mídia brasileira hoje
detida exclusivamente por empresas familiares, o projeto de Pimenta
vai na direção oposta: menciona explicitamente a concessão
de canais de radio e televisão para PESSOAS. Não contente
com a contradição, Pimenta ainda permite que a mesma
pessoa possa receber mais de cinco canais. Se o processo concentrador
da mídia brasileira já era poderoso agora ficará
calamitoso. Abusivo.
A prova foi dada na quarta-feira, pelo Cade na sua primeira incursão
na esfera da mídia quando deu vitória ao Grupo Globo
contra a pretensão da DirecTV de concorrer com a Sky na retransmissão
da programação da Vênus Platinada. Ao invés
de barrar o cartel, a nossa agência de defesa econômica
o protege e estimula.
Mas se o governo em suas diferentes esferas mostra-se inteiramente
desnorteado em matéria de mudanças no processo de
comunicação, da oposição pode-se dizer
algo mais grave: está jogando ostensivamente pelo status
quo. Está contra a diversificação e a pluralidade
na mídia brasileira. Quem não quer a aprovação
da emenda do artigo 222 é, obviamente, o Grupo Globo. Está
no seu papel defender os seus interesses empresariais. Mas este
não deveria ser o papel do PT, um partido de esquerda, reformista,
humanista, preocupado em mudar estruturas, corrigir mazelas, melhorar
a sociedade.
Os dois parceiros, no momento, entoam os mesmos slogans e palavras
de ordem contra a entrada de capitais estrangeiros nas empresas
jornalísticas. Passam por cima de uma verdade que salta aos
olhos de qualquer telespectador, leitor e acessador da internet:
a mídia brasileira já está desnacionalizada.
O que se pretende com o novo artigo 222 é estabelecer limites,
evitar mumunhas legais como as que hoje são adotadas pelos
maiores provedores de conteúdo na internet de propriedade
de empresas jornalísticas nacionais em parceria ostensiva
com grupos estrangeiros. Isto para citar apenas um tipo ardil hoje
em voga.
Este descaso do PT e dos demais partidos de oposição
a respeito da situação da mídia brasileira
indica algo mais preocupante do que as trapalhadas do Executivo
nesta matéria: os projetos de poder das esquerdas brasileiras
não contemplam a correção das atuais disfunções.
Ao contrário, precisam delas. Propor mudanças e servir
à sociedade pode atrapalhar a estratégia eleitoral.
Garotinho precisa das redes de emissoras evangélicas espalhando-se
pelo país num claro atentado às cláusulas pétreas
da liberdade de crer e descrer. Lula precisa do espírito
de manada do pool jornalístico habituado a atirar
e só depois perguntar quem vem lá. Em outras palavras,
à oposição interessa conservar os vícios
da mídia. Resta saber quando é que os viciados estarão
aptos à desintoxicação. Silvio Berlusconi entende
do assunto.
(*) Copyright Jornal do Brasil, 23/6/01
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