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INTERESSE PÚBLICO
ASPAS
TV DIGITAL
O Estado de S. Paulo
"A difícil sintonia da TV digital", copyright
O Estado de S. Paulo, 25/06/01
"Depois de revolucionar a eletrônica e as telecomunicações,
o som dos CDs ou a imagem dos DVDs, a linguagem digital dos computadores
está chegando agora à televisão aberta ou em
broadcasting. Na verdade, essa evolução tecnológica
já domina há anos a maioria das fases de produção
nos estúdios.
O último lance a ser digitalizado é aquele que vai
da torre de transmissão à casa do telespectador. É
essa a etapa que está em debate no Brasil neste momento.
A Anatel prepara licitação pública para a
escolha do padrão de TV digital a ser adotado pelo Brasil.
Com a tecnologia digital, o País caminhará para a
chamada televisão de alta definição - High
Definition TV (HDTV). A importância e o impacto econômico
dessa decisão ultrapassam em muito a simples definição
de uma tecnologia de transmissão de sinais de vídeo,
já que a TV digital deverá deflagrar uma verdadeira
revolução nos serviços de multimídia
e telecomunicações no País.
Três padrões de TV digital disputam a preferência
brasileira: o norte-americano, conhecido pela sigla ATSC, o europeu
(DVB) e o japonês (ISDB). Como não poderia deixar de
ser, uma escolha dessa natureza, envolvendo o futuro mercado brasileiro
- estimado em cerca de US$ 10 bilhões ao ano no final desta
década -, tem mobilizado todos os tipos de pressões
e acirrado os debates sobre as qualidades e eventuais limitações
técnicas dos três padrões em disputa.
A polêmica se acirrou ainda mais depois que um grupo de engenheiros
da Sociedade de Engenharia de Televisão e Telecomunicações
(SET) e da Associação das Emissoras de Rádio
e Televisão (Abert) promoveu testes de campo com o objetivo
de comparar as características técnicas e o desempenho
dos três sistemas, mas utilizando em seguida esses resultados
para apoiar as preferências da Abert pelo sistema japonês,
embora especialistas independentes da Unicamp demonstrem que suas
medições e conclusões merecem numerosos reparos.
Não se limitando a manifestar sua preferência por
um dos sistemas, o grupo SET/Abert condena os dois outros, considerando-os
inaceitáveis para as emissoras. As razões alegadas
pelos técnicos desse grupo para rejeitar o padrão
norte-americano baseiam-se no fato de esse sistema não permitir
a recepção móvel nem o uso de antenas internas.
E, para surpresa geral, o grupo SET/Abert considera recurso essencial
a recepção em veículos em movimento, tais como
carro, ônibus ou trens - sofisticação a que
nem os países mais industrializados e avançados atribuem
tanto valor ou reconhecem ter utilidade significativa. Pelo contrário,
em nome da segurança, especialistas brasileiros e internacionais
recomendam que se imponham restrições até ao
uso do celular em automóveis quanto mais da televisão.
Do ponto de vista econômico, mesmo as projeções
mais otimistas não estimam em mais de 1% os veículos
que, daqui a dez anos, poderão contar com a recepção
de TV digital.
Quanto à recepção interna, é bom recordar
que quase 90% dos brasileiros já se acostumaram a utilizar
antenas externas, de custo relativamente baixo, para garantir melhor
qualidade de recepção na atual fase da televisão
analógica. Não haverá, portanto, nenhum choque
nem problema mais sério em se falar em recepção
mediante antena externa na TV digital, como já acontece em
outros países.
Para nós, a questão fundamental em todo esse processo
é o interesse do cidadão, ou seja, do consumidor final.
Sem entrar em pormenores, lembramos que, na opinião de especialistas
independentes, do ponto de vista tecnológico qualquer dos
três padrões tecnológicos pode ser aceito pelo
Brasil. Com base nessa opinião, é impossível
levar a sério a condenação das tecnologias
européia e norte-americana, apresentadas no calor do debate
como ‘inadequadas, inferiores ou inaceitáveis’ por um pequeno
grupo de técnicos.
Reiteramos, portanto, que, com a evolução tecnológica,
poucas diferenças poderão restar entre os três
sistemas, quanto à qualidade, recursos e versatilidade num
horizonte de três a cinco anos.
Finalmente, nesse quadro agitado, esperamos que prevaleçam
os critérios anunciados pelo presidente da Anatel, Renato
Guerreiro, para quem a decisão final do padrão de
TV digital pelo Brasil envolve questões complementares relevantes,
tais como acordos internacionais, seja para reduzir ou eliminar
o pagamento de royalties, seja para o financiamento às indústrias
brasileiras de equipamentos e às emissoras de televisão,
para a fabricação local ou com vistas à realização
de pesquisas tecnológicas no País e, especialmente,
às perspectivas de exportação. Desse modo,
o Brasil, além de contar com um mercado interno expressivo,
poderá alcançar razoável escala, transformando-se
em plataforma de exportação de televisores digitais
e de alta definição."
BOAS NOVAS AMAZONENSES
Ruth Rendeiro
‘A difícil arte de emplacar (boas) notícias sobre
a Amazônia’, copyright Boletim ABJC (Associação
Brasileira de Jornalismo Científico), 20/6/01
‘Todos sabemos que o trágico, o exótico, o inusitado
é o grande ‘gancho’ das matérias jornalísticas.
São os temperos que transformam o corriqueiro em atração
aos olhos do leitor, o banal em interessante para o telespectador.
Mas é lamentável que isso seja exigência básica
no processo de veiculação. E constatar que há
pouco espaço nos jornais locais ou nacionais, no webjornalismo,
nas emissoras de rádio e televisão para as notícias
menos grotescas ou que fogem ao fantástico e ao sinistro
é, para dizer o mínimo, desestimulante.
E quando a Amazônia faz parte do cenário a necessidade
de que os fatos sejam exóticos ou trágicos toma uma
dimensão que se aproxima de sua enorme área geográfica.
Raros são os jornalistas, da Amazônia e principalmente
de fora dela, que conseguem acatar sugestões de pauta se
não houver a presença dos índios, escândalos
políticos, rombos da Sudam, índices alarmantes de
desmatamento, relação com a folclórica chuva
das duas horas da tarde ou as comidas típicas totalmente
agredidas e alteradas, que causam engulhos aos estômagos amazônicos
mais sensíveis.
Os mais atentos que lêem os grandes jornais ou assistem as
principais emissoras de TV nacionais e que conhecem pouco da região,
devem achar que a Amazônia realmente é só isso.
Uma região onde se derrubam árvores seculares sem
nenhuma culpa, animais belos e exóticos sendo contrabandeados
e maltratados, empresário e político unindo-se para
aprimorar as falcatruas contra os cofres públicos ou apenas
o ‘pulmão do mundo’, um patrimônio que deve ser preservado,
intocável, sem que o amazônida tenha direito a opinar.
A Amazônia é de fato tudo isso, mas também é
mais, muito mais.
Mas como convencer os jornalistas que há uma outra Amazônia
além das catástrofes e do exótico ? As universidades,
instituições de pesquisa (governamentais e não-governamentais),
empresas públicas e privadas, assim como em outras regiões,
também vêm tentando acertar e grandes investimentos
comprovam a assertiva. Inúmeras experiências (muitas
bem sucedidas, por sinal) têm sido feitas em busca de alternativas
de um desenvolvimento que seja de fato sustentável. Mas se
não houver o gancho do extravagante, do fantástico
ou sinistro há grande probabilidade da notícia não
emplacar.
Poucos são os veículos (locais, regionais ou nacionais),
da mídia tradicional ou eletrônica que têm uma
percepção mais ampla do que se faz na Ciência,
com a Ciência ou entre os muros das academias. O que acontece
com a floresta que não é derrubada, mas que vem sendo
explorada racionalmente ? E aquelas áreas em fase de reflorestamento?
As culturas que começam a ser domesticadas como o cupuaçu,
pupunha e açaí a maioria sabe das dificuldades e longo
tempo para se chegar a pelo menos uma espécie que sirva de
sombreamento ? A Amazônia agora começa a ser desvendada.
Seus mistérios após (parcos) investimentos em Ciência
e Tecnologia começam a de fato aparecer. Mas a simplificação
(ou será banalização?) da informação
que acaba deixando-a incompleta, incorreta e às vezes deturpada,
é o resultado mais freqüente. Isso para desespero dos
entrevistados e constrangimento do jornalista posteriormente retificado.
O que se presencia são as matérias que nascem nos
laboratórios, nas pesquisas científicas sendo tratadas
como um acidente de trânsito ou uma greve, sem que haja a
preocupação de entender a sua complexidade e ela passa
também a ser apenas factual, quando o caso quase sempre não
o é.
Recentemente tive oportunidade de mais uma vez viver uma experiência
que traz à tona a necessidade de se repensar a forma como
a Amazônia vem sendo divulgada. Uma reflexão que talvez
interesse pouco para os que já estão na estrada há
mais tempo, mas que pode ser útil aos colegas mais jovens
que têm se dedicado a divulgar as questões amazônicas
e se interessam, cada vez mais, pelo jornalismo científico,
jornalismo ambiental ou mesmo pelo jornalismo factual mais profundo.
Afastada da Embrapa onde há 17 anos atuo como jornalista,
aceitei o desafio de divulgar para o Brasil um dos acontecimentos
mais importantes na história recente da região: a
certificação florestal de mais de 140.000 hectares
de floresta nativa amazônica. Durante semanas li tudo o que
encontrei sobre o assunto a fim de repassá-lo o mais digerido
possível àqueles que tinham pouca (ou nenhuma) intimidade
com o tema. Conversei com pesquisadores, técnicos, empresários
em busca de detalhes que pudessem tornar a informação
mais completa, mais atraente. Escrevi versões e mais versões
do texto-base (ou release como preferem alguns). Tudo em tempo hábil
contrastando com o corre-corre típico das atividades inerentes
à divulgação via mídia.
Usei todos os meios possíveis: telefone, Internet, fax,
contatos pessoais. Além do texto-base, foram disponibilizados
endereços de fontes que poderiam dar mais detalhes e referendar
o material sobre uma questão que há tanto é
cantada em verso e prosa na região, fora dela e, principalmente
no exterior: a Amazônia tem como servir ao homem e mesmo assim
sobreviver.
E a empresa Cikel Brasil Verde S.A após sete anos de investimentos,
que incluíram capacitação de sua mão-de-obra,
maquinário e consultorias, acabava de multiplicar a área
certificada da Amazônia. O Brasil passava então a ser
o País com a maior área de floresta nativa amazônica
certificada roubando o título até então ostentado
pela Bolívia.
Mas isso ainda não era o bastante para merecer um destaque.
Havia grandes concorrentes: o escândalo do ranário
e a invasão da Funai em Belém pelos índios
insatisfeitos eram mais importantes. De pouco adiantava explicar
que a certificação verde significa que esta empresa
está assumindo um compromisso de explorar a floresta de forma
ecologicamente correta, socialmente justa e economicamente viável.
Um chavão que muitos repetem talvez sem saber exatamente
o que significa.
E o mais impactante de tudo: reunindo em torno desse objetivo instituições
públicas federais de grande credibilidade como a Embrapa
e Faculdade de Ciências Agrárias do Pará (Fcap);
estaduais como a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio
Ambiente do Pará (Sectam), municipal como a Prefeitura de
Paragominas e (pasmem!!) duas ONGs: a Fundação Floresta
Tropical (FFT) e o IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia).
Havia mais ganchos: a área da Cikel está localizada
justamente no município paraense de Paragominas, tristemente
famoso pelas serrarias, grande poluição urbana, exploração
de mão-de-obra infantil, grandes fazendas que transformaram
em pasto as florestas etc e etc.
Tínhamos ainda mais munição e sem desistir
continuamos a relacionar fatos numa tentativa quase desesperada
de convencer que a informação era segura, não
era um marketing mentiroso. Uma propaganda enganosa. A certificação
outorgada pela ONG internacional FSC (Conselho de Manejo Florestal),
é um documento respeitadíssimo no mundo inteiro e
chegara mais uma vez à Amazônia, ao Pará, agora
com uma área que duplicava a que existia até então.
O selo verde representa, ainda, a abertura a mercados internacionais
em países que já conscientes da importância
de preservar o patrimônio genético amazônico,
só adquirem madeiras e produtos dela derivados se tiverem
o cobiçado selo, sinônimo de que a floresta, mesmo
sendo explorada e dando lucro, está sendo respeitada.
Todos sabemos que os empresários que estão apostando
nesse caminho não o fazem apenas porque respeitam a floresta.
Junto com a consciência um pouco diferente do madeireiro tradicional,
há uma preocupação com o mercado externo, com
o retorno certo do investimento em produtos que têm garantia
que a natureza é um ponto também relevante do processo.
É a floresta unindo-se à serraria. Um amplo processo
onde todos saem ganhando. Inclusive (ou principalmente) aqueles
que enxergaram primeiro que é preciso mudar.
Foram dias e noites passando e-mail, conversando, tentando persuadir
os colegas de Belém e do Centro-Sul que a informação
poderia render inserções nacionais, uma página,
meia página ou mesmo só uma nota. O importante era
levar ao conhecimento da população brasileira que
alguém estava fazendo a sua parte com seriedade e profissionalismo.
A cerimônia de entrega do certificado, na pomposa Estação
das Docas (o point do momento em Belém) trouxe a Belém
o ministro do Meio Ambiente, José Sarney Filho, que não
poupou elogios à decisão da Cikel. O governador do
Pará, Almir Gabriel, deputados, prefeitos, secretários
de Estados, representantes de ONGs referendaram o ato.
Mas a informação não tinha nada de exótico,
trágico, extravagante, sinistro ou inusitado e era boa demais
para ser notícia. Se o saldo ao final foi positivo (mais
de 50 inserções em diferentes mídias jornalísticas),
de outro o esforço também foi demasiado. E certamente
poderia ter sido melhor aproveitada, mais amplamente veiculada se
não houvesse uma certa prevenção ao que é
positivo. Se as notícias boas não fossem relegadas
à ‘cesta’ página.
Alguns podem simplificar afirmando: mas notícia boa não
vende jornal. Pode até não vender, mas é fundamental
que todos tenham conhecimento do empenho de profissionais que com
seriedade e muitas vezes anônimos, estão buscando acertar.
Há muito ainda por divulgar sobre a Amazônia e não
só o exótico, trágico, fantástico, inusitado
ou sinistro. E as notícias boas (como a da certificação
florestal) bem que poderiam merecer o mesmo destaque que o trágico,
o exótico, o fantástico, o sinistro A sociedade certamente
gostará de saber que além das tragédias e do
fantástico também produzimos notícias boas.’
(Ruth Rendeiro é jornalista há cerca de 25 anos e
está há 17 na assessoria da Embrapa Amazônia
Oriental)"
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