IMPRENSA EM QUESTΓO

BALANÇO 2001
Fatos marcantes, desempenho nem tanto

Alberto Dines

Foi ano em que tudo mudou: o Congresso, o futebol, a economia mundial, a ordem internacional, a supremacia americana, o Oriente Médio, a Argentina (e, por tabela, o Mercosul).

Pauta para ninguém botar defeito.

Século começado com precisão quase cronométrica. Milênio inaugurado com dimensões apocalípticas. Aptos – ambos – a figurar no Guiness e no suplemento do Gênesis.

Obviamente, não cabe à imprensa antecipar tantas mudanças. Mas cabe à imprensa compreendê-las, costurá-las, dimensioná-las à medida em que vão se desdobrando. Armar um todo dos bocados que vão sendo publicados.

Como reagiu a imprensa européia quando Napoleão tomou o poder em 1799 e, à frente do exército revolucionário, avançou pelo norte da Itália e atacou o Egito? Vale a pena pesquisar – mas é fácil adivinhar porque ainda não existia uma imprensa noticiosa, nem analítica.

Mas sabemos como reagiu ao furacão bonapartista o primeiro jornalista brasileiro, Hipólito José da Costa, a partir da primeira edição do Correio Braziliense (1808) até a abdicação do Corso (1814).

Cem anos depois, disparados os primeiros tiros em 1914, a imprensa mundial já antevia a dimensão da catástrofe que se seguiria. Em 1939, quando as panzer alemãs cruzaram a fronteira polonesa, a mídia internacional (o medium rádio acrescentara-se aos jornais) anunciava uma Segunda Guerra Mundial.

Quando, no início de 1974, este Observador escrevia O Papel do Jornal [Summus Editorial], definiu o jornalismo como a busca da circunstância. A escolha da particularidade apropriada faria da informação, notícia. E do seu conjunto, jornalismo.

Agora, 28 anos depois, a busca de circunstâncias continua primordial mas sua qualidade básica e seu diferencial está no teor desfragmentador. A circunstância que conta é aquela com capacidade aglutinante, adesiva, capaz de vincular e conectar. Portanto, explicar.

A circunstância que hoje importa escapou do esquema mnemônico de Kipling (que, quem, quando, onde, como, por quê?). Foi além. O dado essencial já não se refere ao fato em si mas ao contexto referencial, onde podem ser encontradas respostas às indagações mais amplas como "quais os antecedentes?" e "quais as implicações?"

A formidável massa de informações hoje produzida e difundida só pode ser avaliada e percebida quando alguém escolhe o essencial para lhe dar um sentido. Catálogos de telefones são um fabuloso conjunto de informações. Mas não é notícia, nem jornalismo. E, além do volume físico, não oferecem dimensões.

Saturação e esquecimento

Os acontecimentos de 2001 e seus desdobramentos foram devidamente cobertos e trombeteados. É o mínimo que se espera daqueles cuja missão é revelar relevâncias. Saturação noticiosa não é sinônimo de acuidade e poder de penetração. Ao contrário, é sinal de falta de critério: saturação cansa, puxa nova saturação e, assim, vai produzindo rápidas superposições até o esquecimento.

O caso da débâcle na última Copa do Mundo é paradigmático. Um dos maiores contingentes de jornalistas e comunicadores brasileiros de todos os tempos reuniu-se nos arredores de Paris para acompanhar o evento máximo do futebol. Vimos como, na final, mandaram-se todos ao estádio esquecidos de cobrir aquilo que não estava sendo acompanhado na telinha – a retaguarda. Só fomos informados sobre o que aconteceu na concentração horas depois de consumada a tragédia. E o tufão que, em seguida, varreu o futebol brasileiro só começou a soprar algumas semanas depois. A mídia foi parte do desastre porque 10% do que foi escrito e dito estava assinado por profissionais competentes mas ficou submerso nos 90% restantes, prenhes de insignificâncias [veja remissões abaixo].

O início da depuração e moralização do Legislativo não resultou de uma investigação jornalística. Foi obra do acaso, armação patética que saiu pela culatra e deixou mal todos os denunciadores. Culminou um processo onde a imprensa, sobretudo a semanal, prevaricou tanto quanto aqueles que clandestinamente a abasteciam com grampos e fitas para servir interesses escusos [veja abaixo links relacionados]

A crise argentina foi coberta burocraticamente na base de rankings, cotações e declarações das partes interessadas, sobretudo do Sr. Mercado. As manchetes cifradas e numéricas raramente continham análises políticas, reportagens sobre a crise social. A tragédia que se armava foi acompanhada por aqueles infográficos simplistas com cara de HQ e alma de Navarra acrescidos de fotos com legendas desinformadas quando não levianas.

Quantos correspondentes fixos e pagos por veículos brasileiros estavam em Buenos Aires antes da decretação do estado de sítio?

Não precisa responder: mas repare que O Estado de S.Paulo, Rádio Eldorado, Jornal da Tarde e Globonews usam o mesmo correspondente, aliás excelente. Por acaso, não existem nas duas praças outros profissionais portenho-brasileiros conhecedores da realidade argentina, capazes de atender as exigências do nosso leitor e fornecer o contraditório?

A Folha de S.Paulo tem apenas um especialista-generalista para cobrir graves ocorrências econômico-financeiras, e ele o faz "Da Redação" ou em fulminantes deslocamentos por este mundão globalizado, por intermédio de flashes opinativos, por isso nem sempre esclarecedores.

Mostruário ou radiografia dos defeitos, disfunções e deformações da estrutura, práxis e ideologia do jornalismo brasileiro foi a temporada iniciada em 11 de setembro de 2001 e até agora em curso. A surpresa e a improvisação foram compreensivas, legítimas. Inaceitável é que numa imprensa diariamente proclamada como "moderna, confiável e independente" fique tão evidente a inexistência de profissionais senior, homens e mulheres com a experiência mas, sobretudo, siso, tino e equilíbrio para encarar, digerir, avaliar e explicar fatos que são também marcos históricos.

Dois profissionais de 30 anos não equivalem a um de 60 – esta aritmética pode servir na Contabilidade ou na área de Recursos Humanos mas não serve quando se trata de produzir "na Casa" material capaz de situar o leitor no contexto histórico, um pano de fundo onde possam ser colados os cacos e fragmentos despejados diariamente em cima dele.

A "onda jovem" iniciada em meados dos anos 80 no mercado jornalístico brasileiro pelos lobbies patronais criou uma dinâmica demoníaca que expulsa permanentemente das redações aqueles que vão ganhando experiência. A carreira de um bom repórter, em geral, é abortada prematuramente pelo oferecimento de um cargo de chefia, e, dali, para fora do jornalismo. Um bom editor demora anos para fazer-se mas, quando fica pronto, um infernal rodízio leva-o para outra área ou outra empresa.

Esta altíssima rotatividade empurrada desde sempre por motivações políticas e econômicas produziu um imenso vazio analítico, preenchido pelos veículos de duas formas, ambas lamentáveis: a) valorização do opinionismo veemente; e, b) importação de "cientistas" do bunker acadêmico.

O que se viu e vê é um bando de doutores, professores e professores-doutores, visivelmente atarantados, pontificando sobre o que não entendem graças a uma titulação que nada tem a ver com o objeto da sua contribuição. Não há exceções? Algumas, todas honrosas. A regra é o mandato conferido pelo radicalismo ideológico, "abre-te sésamo" para abrir portas e pautas. Cobram pouco ou nada, porque já são pagos pelas instituições acadêmicas (em geral públicas). As publicações acadêmicas não atendem à compulsão de aparecer – são poucas e exigem muita pesquisa. O papel do jornal ou revista é mais complacente, aceita qualquer coisa.

O profissional de imprensa é assim grosseiramente preterido porque precisa cobrar para viver decentemente e porque, sendo jornalista, tem compromissos com a isenção e a objetividade, mercadorias hoje em baixa no mercado da comunicação.

Não demora e o ano de 2001 estará sendo esquadrinhado pelos futuros pesquisadores. Nas coleções de nossos jornais e revistas encontrarão trepidação e barulho. Oxalá consigam encontrar substância.

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