A IMPRENSA EM QUESTÃO

AFINIDADESS ELETIVAS
Mídia não se "horroriza"
com bancos e fica fria

Alberto Dines

A diretora de Fiscalização do Banco Central, Tereza Grossi, foi a uma Comissão Especial da Câmara dos Deputados e botou a boca no trombone. A mais alta autoridade fiscalizadora do mais poderoso instrumento de fiscalização do sistema bancário nacional disse apenas que ficou horrorizada com o atendimento dos bancos (terça-feira, 23/4). No surpreendente desabafo, a autoridade não se manifestou apenas como consumidora e pessoa física. Ela foi fundo na questão e enveredou pela macroeconomia mostrando o lucro excessivo das instituições bancárias e de como estas se aproveitam da alta dos juros para ganhar mais.

Em qualquer país civilizado e democrático, com uma imprensa responsável e independente, o depoimento teria o maior destaque nas primeiras páginas. Renderia cruzadas e investigações. Sob o ponto de vista político é grave demais para ser minimizado e sob o ponto de vista do leitor é uma ofensa não informá-lo daquilo que há tempos já se sabe.

No entanto, a grave denúncia da alta funcionária do Banco Central foi cientificamente esvaziada e tratada de forma burocrática nas edições do dia seguinte (quarta, dia 24/4):

** O Globo deu manchete de página interna (pág. 27) sem referência na primeira página;

** Comportamento igual do Estadão (pág. B-13);

** A Folha enrustiu ainda mais, esvaziou o impacto; nem manchete interna concedeu (pág. B-7);

** Jornal do Brasil idem, mas em compensação foi o jornal que mais destacou o aspecto macroeconômico: "Bancos escondem lucro com juro alto" (pág. 12).

Nos vibrantes e atentos semanários nenhuma linha. Compreende-se o caso de CartaCapital, que fecha na semana anterior à circulação. Compreende-se a delicada situação financeira em que se encontra a Editora Três (IstoÉ), obrigada a associar o nome do seu publisher a uma picaretagem internacional encabeçada por Mario "Brasilinvest" Garnero e Bush Sr.(edição corrente, págs. 66-70). O silêncio das "donas do pedaço" é incompreensível e preocupante.

Na imprensa especializada, a non-chalance à francesa foi igual. O que é ainda mais grave porque este é o seu território privado, nele é que exerce seu diferencial e sua vantagem competitiva:

** O DCI noticiou, discreto;

** A Gazeta Mercantil nada publicou na edição impressa, só online;

** Pasme o leitor: no Valor não saiu uma linha sequer – em nenhuma página, coluna ou caderno. Como o jornal é fruto de parceria entre os dois maiores jornais brasileiros (Folha e Globo), e serve-se de seus excelentes serviços noticiosos, fica liminarmente descartada a possibilidade de que não conhecesse o teor do depoimento. Soube e friamente "matou" a matéria. E isto num jornal que prometeu revolucionar a cobertura econômica, que tem o maior corpo de articulistas especializados e que, em 2 de maio, completa o seu segundo aniversário.

O mais grave é que nos dias seguintes, quando seria de se esperar um desdobramento vigoroso, o mal-estar da fiscal-mor do sistema bancário evaporou. Apenas o Estadão o comentou, em editorial.

Moral da lamentável história: quando o horror de um alto funcionário público não horroriza também os jornais é porque foram imunizados contra as emoções mesquinhas do cidadão comum. Crise dupla – na credibilidade do sistema bancário e do sistema midiático.

Este, sim, é um flagrante de "afinidades eletivas" que deixaria Goethe vexado, encabulado e furioso.