01/07/2003 4/4

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ENTREVISTA / RICARDO ALEXANDRE
Revista Frente, três edições e uma decepção

Rodney Brocanelli (*)

O mercado de revistas de música e cultura pop agitou-se em 2002 (apesar da crise) com o lançamento de publicações que tentavam ocupar a vaga da Bizz, retirada das bancas pela Editora Abril no ano anterior. Uma delas, a Frente, tinha tudo para dar certo: contava com bons profissionais, associava boas intenções a grandes ambições e, detalhe mais importante, era independente. Apesar dos pontos positivos, o título deixou de circular após três edições.

Autor de Dias de luta (Editora DBA, 2002), retrospectiva do rock nacional dos anos 1980, o jornalista Ricardo Alexandre, 29 anos, um dos editores da Frente, fala sem rodeios nesta entrevista por e-mail da experiência de editar uma revista fora do esquema das grandes editoras. "Combinávamos a pauta na padaria", conta. A revista era um show de edição, "mas à custa de um processo mecânico muito cruel". Agora, convencido de que o projeto era "pretensioso" demais para o cenário atual – "sem artistas, sem revistas, sem nada" –, Alexandre amadureceu: "Me preocupo menos em salvar o jornalismo cultural".

Sua entrevista:

A Frente lançou três boas edições em 2002. Depois, não foi mais encontrada nas bancas. O que houve?

Ricardo Alexandre – Nós, a REM editora, que era o núcleo de criação para a Editora Ágata, que cuidava da produção do título, tínhamos um acordo de publicação de três edições para seis meses – um tempo que, em nossa cabeça, seria suficiente para corrigir imperfeições de rota e posicionar a revista junto ao público. O acordo foi cumprido à risca, e não houve interesse nem da parte deles, nem da nossa, de continuar o título. Deles, porque era uma revista deficitária; nossa, porque nós trabalhávamos sem borderô, mas mesmo assim pagávamos todo mundo direitinho... aí chegava no fim do mês e não tínhamos dinheiro sequer para abastecer o carro. Quer dizer, eu nem carro tinha mais na época da terceira edição.

Não teria sido melhor avisar aos leitores que prestigiaram a revista do que estava acontecendo?

R.A. – Olhando hoje, provavelmente sim. Na época, nós achávamos que a revista continuaria, de algum jeito, com outro formato, outra editora, outra proposta... depois de seis meses, começamos a achar que três edições não eram suficientes para posicionar um título, mas que talvez quatro ou cinco o fossem, sabe como é? Só admitimos que a Frente havia acabado quando eu, Emerson Gasperin e Marcelo Ferla começamos a assumir trabalhos individuais que impossibilitariam que continuássemos trabalhando na revista.

Em que momento você e os outros editores da Frente sentiram que não seria mais possível voltar com o titulo?

R.A. – Falando muito francamente, a Frente não era a revista dos nossos sonhos – no sentido de que a Rolling Stone é a revista do sonhos do Jan Wenner ou a Trip a revista dos sonhos do Paulo Lima. A Frente era o que nós achávamos mais interessante de fazer com a estrutura que tínhamos (ou seja, nenhuma estrutura) – talvez soe meio blasé assim, escrito, mas quem é jornalista entende do que eu estou dizendo. Não tínhamos nem redação para receber cartas, nem mesa para reuniões – combinávamos a pauta na padaria, para você ter uma idéia.

Fazíamos a revista com o maior amor, com 150% de nossas vidas nela não porque acreditássemos no rock’n’roll ou na "causa" independente, mas porque achávamos que era possível fazer jornalismo musical àquela altura do campeonato, por um esquema absolutamente independente, com um cuidado de acabamento, de edição e de pauta comparáveis aos das revistas das grandes corporações, senão melhor.

Bem, nós conseguimos, mas a custa de um processo mecânico de edição muito cruel – você não imagina a trabalheira que dava aquilo que chamávamos de "show de edição", com matérias cheias de boxes, depoimentos etc. Você vê, a maior parte das revistas independentes é feita de matérias com uma, no máximo duas fontes por pauta. Um fotão, um textão, pingue-pongue de preferência, um monte de artigos e um abraço. Nós não admitíamos essa pobreza na Frente. No momento em que vimos que todo esse trabalho não revertia capital (financeiro e conceitual) para a gente, decidimos que só seguiríamos sob outro método de trabalho (o que era uma possibilidade, porque tínhamos três ótimas revistas como portfólio para oferecer a outra editora). Como esse acordo nunca houve, a revista acabou, mais ou menos seis meses depois de acabar de fato.

A Frente surgiu com a proposta de ajudar na "reconstrução do pop nacional". A revista conseguiu ser eficiente nesse item de seu projeto editorial ou não houve tempo para isso?

R.A. – A história da reconstrução do pop nacional nasceu um pouco como um mood sobre o qual se desenrolaria toda a edição da Frente, uma espécie de "conceito" sobre o qual trabalharíamos. Hoje, eu acho que não haverá mais pop nacional. Acho que estamos entrando em uma era (de, talvez, 10 ou 15 anos) em que a música será muito pouco importante para as pessoas. Isso é numérico. As pessoas que compram discos hoje são as mesmas que compravam discos em 1989: há uma lacuna geracional enorme acontecendo, o público da MTV, da internet e da Capricho, que tem música o tempo todo e para quem música não significa lhufas.

O público da Frente (que era uma revista de bandas novas, de molecada mesmo) tinha a maioria de seus leitores com mais de 25, 30, às vezes de até 40 anos. Engenheiros, advogados, caras assim, gente que ainda se importa com música, mas que não tem esse engajamento que só o tempo ocioso permite nos nossos 15 anos...

Então, voltando à pergunta, acho que o pop nacional não será reconstruído, ele continuará fragmentado e repleto de "nichos", nos quais os maiores artistas venderão, 10, 15, 20 mil discos. Pode parecer ruim pra mim, que sou "de outro tempo", mas talvez seja um respiro necessário na história. Uma banda como Skank que, na minha visão, é o ideal do pop (eles vieram do circuito independente, são sofisticados e populares pra caramba etc.), só vai existir enquanto Skank existir. Depois, babau.

E a questão do CD que vinha encartado na revista? Quais os fatores que fizeram com que ele fosse deixado de lado na terceira edição?

R.A. – Vários: 1) as três edições eram para experimentar mesmo, ainda mais depois das baixas vendas da primeira; 2) revista com CD precisa vir lacrada: como o nosso papel era bem fino, apesar de bem-impresso, a revista parecia muito mais fininha do que era na realidade; 3) revista com CD tem tradição de picaretagem, de revista só para justificar o CD, não era nosso caso, mas, como a revista vinha lacrada, o leitor não podia conferir nossa qualidade folheando a revista na banca; 4) o preço de produção de um CD precisa ser multiplicado pelo percentual do distribuidor, do jornaleiro e do lastro de equilíbrio da operação, ou seja, encarece a revista pra burro; 5) o valor "metafísico" de um CD está muito reduzido, por causa da pirataria e do Mp3. Como cobrar algo que o público pode ter de graça ou bem baratinho?

Nossa idéia inicial era, com nossos discos, estabelecer um trânsito com rádios universitárias, fazer hits underground em cima do nosso disco, mas elas não se mostraram muito receptivas – "a gente pode baixar da internet, não precisa do CD da revista", eu tive de ouvir. Então tá, né?

Qual era a circulação paga da Frente?

R.A. – Se eu falar a venda de verdade, vocês vão desacreditar imediatamente da venda de todas as outras revistas independentes brasileiras, que falam em 20 mil, 30 mil... Digamos que era vexatória.

Os problemas de distribuição que aconteceram na primeira edição, quando leitores de outros estados não conseguiram encontrar a revista nas bancas, chegaram a prejudicar seu desempenho?

R.A. – Claro, mas seria muito fácil e desonesto botar a culpa nisso. Não: a culpa foi da gente, que foi incapaz de criar um produto que centralizasse as aspirações de um número de pessoas suficientemente grande para manter o título vivo e nosso padrão de vida minimamente decente. Ou de propor uma parceria com alguma editora que previsse algum tipo de estrutura de trabalho ou um borderô mínimo de trabalho. Superestimamos o número de pessoas como nós no Brasil – uma ilusão que a internet cria, como num jogo de espelhos: no fim, tínhamos a certeza de que muito mais pessoas reclamavam de uma coisa ou outra do que realmente comprava a revista. Eu acho realmente que, se um produto gera interesse, ele vende: nego encomenda ao primo que mora em São Paulo, viaja e compra etc. Ainda mais com uma tiragem de 30 mil exemplares.

Quais as reportagens que você destacaria dessas três edições?

R.A. – Fizemos coisas muito interessantes, como aquele dossiê sobre o Brasil 2002 ou a maneira com que o sucesso de Supla foi tratado. Mas acho que meu maior motivo de orgulho é ver que, sem borderô, sem sequer redação, nós fizemos uma revista que podia perfeitamente trazer o logotipo da Abril na capa. Nosso sonho era constranger as grandes editoras por elas não terem uma revista de música em suas carteiras, era constranger os coordenadores das FMs por reclamarem que "não tem nada de novo e bom", os diretores de gravadora pelo mesmo motivo, e a concorrência que fazem revistas baixando tudo da internet ou simplesmente copiando o que sai na imprensa gringa.

Éramos meio pretensiosos, isso éramos. Talvez se fizéssemos só o que nos desse na telha a compreensão da revista seria mais fácil.

Qual seria a contribuição deixada pela Frente no jornalismo musical?

R.A. – Será que deu tempo para isso? Creio que não houve repercussão suficiente para tanto. Para mim, posso dizer que hoje domino muito mais estágios da produção de uma revista do que quando entrei nessa aventura. Só por isso, já valeu a pena.

Você acompanhou a denúncia feita pelo Lúcio Ribeiro em sua coluna na Folha Online sobre picaretagens no jornalismo cultural? Segundo ele, há jornalista que inventa entrevistas. Conhece algum caso assim?

R.A. – Bem, o caso mais famoso foi aquele envolvendo o Pepe Escobar, na Folha, que eu conto com detalhes no meu livro e tudo, mas, claro, sei de vários outros casos. Não me sinto confortável para opinar sobre isso, porque estou mais fora do que dentro da grande imprensa, e pode soar como revanchismo, mas... acho que tudo se relaciona com uma visão bastante infantil e contraproducente sobre o que é rock’n’roll, sabe? Um clichê de pobreza mental, da perversão do "menos é mais", que quando usada como resistência produz o movimento punk, mas usada como regra produz um cenário pop desengonçado e irrelevante como nós temos, sem artistas, sem revistas, sem nada. Isso chega até os jornalistas.

Quantas vezes você não ouviu um crítico musical dizer que "ora, não dê tanta importância para as bobagens que eu escrevo, isso é só rock’n’roll"? Ou "vá cobrar profundidade do noticiário de política"? Ou "uma crítica não tem poder para tudo isso"? Apologia da irresponsabilidade. Todo mundo acha bonita essa "irreverência", e quem se insurge contra isso passa por conservador. Então, teremos de conviver com o colunista que passa a vida apenas repercutindo revistas estrangeiras, o jornalista que comenta os melhores do ano dizendo que os prediletos de seu próprio leitor são um lixo, o outro cara orgulhoso de ter escrito um livro em quatro meses copiando tudo na internet e ganhando espaço no Fantástico dado por seu amigo...

Assim, que diferença faz se o cara copia tudo da Uncut e assume, ou se ele copia da Rolling Stone e disfarça? Vai dar no mesmo: em país sem imprensa musical, uma imprensa sem leitores e uma música pop sem credibilidade. O abismo cultural que o Brasil defende, se achando muito "rock'n'roll".

Como está o desempenho de Dias de luta, seu livro-reportagem sobre a cultura pop nos anos 80?

R.A. – Foi uma experiência maravilhosa, realmente. Saiu com uma tiragem de 4 mil exemplares que deve se esgotar no próximo check-up trimestral. Vamos reimprimir e tal. Claro que, em números absolutos, isso representa pouca coisa, mas, a julgar pelo tamanho do nosso mercado editorial... De qualquer forma, foi muito bom porque eu pude falar com um público diferente do leitor de jornal/revista, e pela acolhida calorosa da imprensa fico feliz em ver que cada vírgula do livro foi bem compreendida (que é um temor indescritível logo que o bichinho vai para a rua). Acho que muitos jornalistas se sentiram representados, tipo "era um trabalho com essa profundidade que o jornalismo pop brasileiro precisava!" ou "vamos mostrar que dá para falar a sério disso!" etc.

Você mudou sua opinião sobre a crítica musical? Ainda há repórteres que cobrem lançamentos de discos como cobririam enchentes ou medidas-provisórias?

R.A. – Olha, eu vou falar uma coisa meio chata para jovens jornalistas culturais, mas quero deixar claro que ela ainda não está muito certa na minha cabeça, se como uma certeza que eu tenho ou se não passa de um mecanismo de proteção mental. Eu acho mesmo que o que a indústria musical fez nos últimos anos, inventando e desinventando artistas de proveta, apostando na praticidade em detrimento da qualidade (os micro-systems substituindo os aparelhos modulares, o CD substituindo o LP etc.) nos levou a um beco sem saída.

Quem não se importa com qualidade de som, nem com capinha bacana ou encarte jóia, apenas com a praticidade, se contenta com o Mp3; quem quer artista descartável compra o disco pirata (pra escutar só por um mês). Acho que, isso somado à crise de credibilidade da indústria do entretenimento (que vai da publicidade ao Hulk feito de computador) e à assombrosa facilidade tecnológica de gravar e distribuir música, produzirá uma grande era de gente desinteressada por música, embora se continue consumindo música o tempo todo.

Então, vai ser assim: o público do Rouge não quer ler uma matéria profunda sobre as minas (a Caras já basta), então não vai comprar a reportagem que você escreveu com tanto zelo; o público do DJ Patife não é numeroso o suficiente para garantir boas vendas. Hoje, se estivesse começando no jornalismo, talvez me especializasse em cobrir enchentes ou medidas provisórias para garantir meu sustento e, por lazer, fazer um blog sobre música – só de opiniões, ou chupando notícias de outros sites, porque, ora bolas, vai ser de graça mesmo.

Já deu pra ver que passar seis anos pesquisando sobre o rock brasileiro dos anos 80 não vai mais rolar, OK?? Acho que, em linhas bem gerais, este será o retrato da imprensa musical até que, daqui a uns 20 anos, quem sabe, surja um Bob Dylan com um violãozinho e uma voz fanha encerrando essa crise de credibilidade em que todos nós nos enfiamos.

Qual o seu futuro profissional a partir de agora?

R.A. – Não sei e não me preocupo mais com isso. Na verdade, eu só fiz a Frente porque queria escrever e não havia nenhum veículo interessado em mim – ou em todos aqueles jornalistas que escreveram na Frente depois de comandar redações importantes. Mas não valeu a pena, porque eu passava 90% do tempo resolvendo questões burocráticas, e só conseguia escrever de madrugada, cansado e fulo da vida. Certamente, um novo negócio próprio está totalmente descartado de meu futuro profissional. Estou muito animado com o mercado de livros – estou desenvolvendo mais dois projetos ligados a música, um terceiro ligado a história e um romance. Fazendo muitos free-lances para revistas, como Viagem & Turismo e Carta Capital, e resoluto em me preocupar menos com salvar o jornalismo cultural e mais com minha qualidade de vida. Andando de bicicleta, comendo bastante salada, namorando mais e estudando a Bíblia. Ando bem mais feliz, no duro.

(*) Colaborador dos sítios Ruídos, Canal B, Esquizofrenia, 3am e Papo de Bola; blog pessoal: <http://onzenet.blogspot.com>

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