IMPRENSA EM QUESTÃO

ÉTICA
Na prática, a teoria é outra

Vera Silva (*)

A edição de 25/7/2001 do Observatório da Imprensa apresenta muitos artigos sobre o desempenho ético da imprensa. Artigos que discutem quem deve controlar o conteúdo do que se divulga, se os jornalistas ou o Judiciário. E ainda artigos que discutem se o direito de informar justifica todos os meios usados para obter a informação (a ética da informação).

São discussões cruciais para o desenvolvimento da sociedade, pois permitem que se escolha em que bases se erguerá o Estado brasileiro daqui para a frente. Digo isto porque é claro que não o fizemos até hoje. Com licença dos que entendem, dos que escrevem e dos que aplicam as leis no Brasil, como cidadã, observando a sociedade em que vivo, aqui no meu cantinho no Distrito Federal, creio que nossa Constituição e a grande maioria de nossas leis são muito boas, contudo não as aplicamos, porque não sabemos em que bases queremos edificar o nosso Estado.

Vamos começar nossa análise por estes dois trechos:

** "(...) será preciso acabar com esta preguiçosa epidemia que confunde a transcrição taquigráfica de gravações com investigação jornalística". Alberto Dines em "Entre o grampo e a mordaça (II)", OI 25/7/2001;

** "(...) não existe a tal da liberdade de imprensa, e sim liberdade de pensamento e expressão (...)". Chico Bruno em "Todo cuidado é pouco", OI 25/7/2001.

Parece algo simples, mas muitos não sabem que apenas transcrever o que alguém falou não é investigação jornalística. Ora, se temos uma Constituição, leis e um Estado organizado segundo estas leis, deveríamos saber que liberdade de pensamento e expressão é maior do que as necessidades corporativas de jornalistas, radialistas, publicitários etc. A prática profissional de quem divulga informações deveria sobrepor esta liberdade à liberdade de sua categoria, pois abrange inclusive o cidadão sobre quem fala a notícia.

Seria oportuno perguntar por que não o fazemos. Por que, na prática, a lei é outra? Teria a imprensa razão em se considerar objeto de discriminação pela Justiça?

Leiamos mais:

** "Folha, Estadão, JB e Globo referem-se aos jovens [que protestavam em Gênova] como anarquistas de forma pejorativa. Os estudantes não são ouvidos, não há aspas para as pessoas comuns (...)". Cláudia Rodrigues em "A canção de ninar da imprensa brasileira", OI 25/7/2001. Mais do que circunscrever uma liberdade, a de pensamento e expressão, a uma categoria profissional, parece que a imprensa faz escolhas sobre a forma de gerência dos Estados nacionais, quando dá muito espaço aos que dirigem e quase nenhum aos que são dirigidos, às pessoas comuns. Quem o diz é uma jornalista. Quem está cerceando quem?

Voz do dono

A lei, na prática, continua sendo outra. A voz caracteriza a liberdade de pensamento e expressão. Quando a pessoa comum não tem voz na imprensa, ela não tem liberdade de pensamento nem de expressão. A percepção dessa liberdade é adquirida pelo exercício diário – próprio e por modelos públicos. Não importa que a lei o diga, é preciso que o garanta, e garantia de liberdade é o exercício da liberdade. Ao tirar a voz pública da pessoa comum a imprensa lhe nega a percepção da liberdade de fazê-lo. Ao dar enorme espaço aos donos do poder, a imprensa ajuda a formar a consciência de que voz tem-na quem manda.

Seria muito longo discutirmos aqui as várias formas de cassação da liberdade de pensamento e expressão. Prefiro fazê-los reler estes dois trechos:

** "Defendo políticas nacionais públicas que tenham continuidade e que não sejam de partidos. Políticas dessa natureza têm ressonância extraordinária num país que precisa firmar-se como nação. Fazem parte da condição de ser brasileiro, questão de identidade nacional. A sociedade ganha a segurança de que o governo A, B ou C vai continuar com os programas. (Eduardo Jorge Martins Alves, secretário de Saúde da cidade de São Paulo, numa entrevista ao Jornal da Tarde, em 16/7)". Alberto Dines em "Cores, cruzadas, combinações", OI 25/7/2001.

** "As distorções sociais ficam verdadeiramente perigosas quando perdemos a capacidade de responder a elas. Crianças dormindo em calçadas infectas (...), mais de 70 milhões de pessoas vêem todas as noites o mesmo telejornal e a mesma telenovela. (...) É um espantoso caso de esquizofrenia coletiva. Mais espantoso, no entanto, é não nos espantarmos mais com isso (...). Em todo o planeta, veiculador veicula e monta a sua grade. Produtor produz (...)". Nelson Hoineff, OI 25/7/2001.

Estes dois trechos mostram a falta de percepção do Estado como uma Nação, um todo composto de cidadãos com os mesmos direitos. Diz-se neles que não há continuidade na gerência do Estado, que nos acostumamos a conviver com o abandono das crianças, que a grande maioria dos brasileiros (se somarmos aos 70 milhões os que nem casa onde colocar TV têm) recebem o mesmo tipo de informação todos os dias. Este estado de coisas existe porque a pessoa comum não tem voz e quem não tem voz aceita passivamente a voz do outro.

Colunas de areia

A ética da informação no Brasil, na prática, não é a ética que diz que uma ação não pode ser boa só para mim, deve sê-lo para todos. Desta forma, ao negar a liberdade de pensamento e expressão à pessoa comum e ao ferir a liberdade do poderoso em desgraça com os "famosos" grampos a imprensa está contribuindo para a manutenção de um Estado edificado sobre colunas de areia. Uma espécie de Nação-Torre-de-Pisa.

É preciso ficar claro de uma vez por todas que não há vários tipos de ética, e que botar o povo na TV para pedir pão, saúde, lote, para escolher "interativamente" o filme que quer ver etc. não tem relação com liberdade de pensamento e expressão.

Seria a hora de jornalistas e pessoas comuns perceberem que são cidadãos de um país inserido num mundo em que não há real liberdade de pensamento e expressão. Seria o momento de, entendendo isto, aqueles que trabalham na imprensa se cuidarem de ser usados para a opressão e não se enganarem com migalhas de liberdade.

(*) Psicóloga