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ASPAS
FOTOGRAFIA
Luciano Trigo
"Leitura de uma foto", copyright O Globo, 24/7/01
"Não se lêem apenas palavras. A todo momento a realidade se apresenta à leitura como um livro, que está aí para quem souber e quiser ler. Sua mensagem, porém, nem sempre é agradável, e parece que, quanto menos agradável, menos vontade temos de lê-la. Mas é preciso, antes que seja tarde.
A morte de uma criança de 11 anos, baleada durante uma operação da PM na Favela Parque Alegria, no Caju, gerou protestos dos moradores, que apedrejaram carros na Linha Vermelha e tentaram fechar uma pista da Avenida Brasil. Um episódio a mais na rotina de violência urbana na qual somos forçados a viver, e a reportagem publicada no GLOBO (19/7) pode mesmo ter passado despercebida para muitos leitores.
Ilustrando o texto, porém, uma fotografia de Michel Filho nos arranca da apatia e do torpor. Ela mostra quatro policiais com capacetes, escudos e cassetetes em riste, a ponto de espancar um manifestante, que, apavorado, e ele próprio segurando nas mãos o que parece ser um pedaço de pau, tenta fugir.
A foto é eloqüente em sua simplicidade. Parece até posada. De um lado os policiais, coincidentemente brancos, equipados para uma guerra; de outro o manifestante, coincidentemente negro, sem camisa e descalço, com os olhos arregalados numa expressão que até poderia ser cômica, em outro contexto. O quadro inteiro, aliás, remete à captura de um negro fugido nos tempos da escravidão.
Não sei se os policiais cometeram excessos, nem conheço os antecedentes do manifestante. Seria fácil denunciar o abuso da força e a covardia, dada a situação de superioridade numérica que a fotografia registra, como seria fácil insistir no processo de inversão de valores que a polícia como instituição vem protagonizando: é verdade que temos cada vez mais medo de quem é pago para nos proteger, como também é verdade que está ficando cada vez mais difícil separar mocinhos e bandidos.
Menos fácil seria defender os policiais, alegando que afinal de contas estariam cumprindo o seu dever de reprimir a desordem. Defender a polícia, quando só se fala mal dela, não é muito prudente. Que o diga, onde estiver, o intelectual e cineasta italiano Pier Paolo Pasolini, que em maio de 1968, nas ruas de Paris, tomou o partido dos policiais contra os estudantes em protesto, por enxergar nestes filhinhos de papai pequeno-burgueses, e naqueles operários que estavam dando duro para ganhar seu pão. Foi crucificado.
Só acho bastante provável que os policiais escalados para reprimir os protestos na Linha Vermelha vivam numa situação tão precária quanto os manifestantes. Alguns deles devem morar em favelas, muitos serão honestos. Alguns terão entrado para a polícia para escapar do caminho fácil e tentador da criminalidade, outros justamente pelo motivo contrário. O policial que ergue ferozmente o cassetete pode ter perdido um parente para o tráfico, e o manifestante que foge pode ser um trabalhador a caminho de casa.
Não importa. O fato é que, olhando para a metade inferior da fotografia, só se vêem vítimas, armadas ou não, uniformizadas ou descalças. Os dois lados estão mergulhados na mesma guerra, no mesmo inferno da violência, e toda violência é ruim.
Mas a fotografia não acaba aí. Em sua metade superior um pedaço de outdoor mostra que nem tudo vai mal. O sorriso branquíssimo de um anúncio de telefones celulares assiste indiferente ao episódio, que não lhe diz respeito. O sorriso vive num mundo à parte, o sorriso não quer ou não sabe ler o texto que a realidade está lhe mostrando. O sorriso só quer saber de fechar seus negócios, enquanto anda com os vidros de seu carro importado fechados. O pau está quebrando na sua frente, mas não é com ele. O sorriso só sabe sorrir.
Pensei em concluir este artigo dizendo: que bom que ainda existe alguém que sorri, mas já não há espaço para a ironia. O sorriso, leitor, somos muitos de nós, que por algum mecanismo psicológico doentio assistimos passivamente ao esgarçamento do tecido social, ao entrincheiramento cotidiano das comunidades e ao esfacelamento de tudo o que esta cidade e este país já tiveram de bom. Quanto mais a violência cresce e se aproxima de nós, mais indiferentes ficamos, como o sorriso do outdoor: indiferentes aos indigentes, aos sem-terra, às crianças nos sinais.
No livro da violência urbana que está sendo escrito todos os dias, o episódio da Linha Vermelha ocupa apenas uma linha, e o caos de Salvador representa talvez uma página. Se todos nós, governantes e cidadãos, continuarmos nos fazendo de analfabetos, os próximos capítulos podem ser trágicos."
Eugênio Bucci
"O olho da gente no olho do furacão", copyright Jornal do Brasil, 26/7/01
"A capa do Jornal do Brasil de sábado me pegou pelos colarinhos, me arrancou do chão e me balançou no ar. Uma foto ocupava quase toda a metade de cima da primeira página. Era o rosto de alguém caído no asfalto. O rosto estava coberto por uma dessas máscaras de malha preta que os motoqueiros usam sob o capacete para se proteger do frio - e também banhado de sangue. Havia mais sangue sobre o chão. Era o rosto de um cadáver, o cadáver de Carlo Giuliani, morto pela polícia em Gênova, na sexta, dia 20 de julho, durante as manifestações contra a globalização. Tinha 23 anos. Na foto, não vemos o corpo de Carlo. Divisamos apenas uma parte do seu ombro direito, num primeiro plano, logo no canto inferior direito. Bem no centro, jaz a sua face, mas a máscara o esconde. Enxergamos somente seus dois olhos, para sempre fechados. Fechados diante dos nossos olhos.
É uma fotografia fortíssima e, ainda na terça-feira, na seção de cartas, leitores debatiam a sua publicação. Uns sustentavam que ela é agressiva, mas necessária. Outros alegavam que estampá-la daquele modo foi uma escolha de mau gosto. De minha parte, fiquei chocado a semana toda. Não com a opção editorial do JB, que não me pareceu imprópria, mas com o que aquela primeira página me esfregou na cara: uma sentença de morte para quem discorda. A manchete, numa linha única, dizia: ‘A globalização e seus descontentes’ (uma alusão ao Freud de A civilização e seus descontentes). Pois ali estava um descontente. Assassinado. Enquanto Carlo Giuliani perdia a vida, enfrentando um contingente policial que chegou perto de 15 mil homens, ali, na mesma cidade de Gênova, reunia-se o G-8. Os donos do mundo banqueteavam enquanto os descontentes eram contidos na base da força.
O que aconteceu em Gênova é de uma gravidade extrema. A morte de Carlo fez eclodirem manifestações de rua nas cidades mais importantes do mundo. Na minha opinião, mais do que justas. Retratar essa morte é um dever jornalístico. Note o leitor que não estamos aqui falando de um desses crimes bárbaros praticados por um perturbado qualquer. Quando a mídia explora em demasia esse tipo de violência cai, sim, no vício do sensacionalismo, nosso velho conhecido. Tampouco estamos falando de uma violação dos direitos humanos cometida pela polícia corrupta de uma ditadura periférica - coisa que não seria inusitada mas que, de toda forma, é sempre dever da imprensa noticiar (com o cuidado de evitar o vício da demagogia, que é uma espécie de sensacionalismo ‘do bem’). Aqui, o caso é outro: estamos falando de um assassinato perpetrado pelo esquema de segurança do G-8. Se isso não é um escândalo, o que é que ainda nos vai escandalizar? (Há os que jogam nos manifestantes a culpa da morte de Carlo Giuliani, dizendo que eles é que provocaram o caos. Chega a ser inacreditável. É como dizer que a mulher estuprada é a culpada de seu martírio.)
O que se passou foi tão grave que foi destaque em todos os jornais e programas jornalísticos a que tive acesso esta semana. Mas algo está faltando. O que me incomoda nessa cobertura toda não é o que ela vem mostrando, nem as tintas de que ela se vale, mas exatamente o que não ela mostra e não ilumina. É como se exibir a morte fosse o bastante. Para uma imprensa viciada em imagens de impacto, a cabeça ensangüentada de Carlo Giuliani é o olho do furacão. E basta. O nosso olho - nosso olho de público, nosso olho de jornalistas, tanto faz - fica hipnotizado e não consegue se desprender daí. Não vê o entorno, não estabelece as relações necessárias. Assim, caímos numa inversão: a imagem forte, que nos alerta, serve para nos cegar. As razões menos superficiais nos escapam.
Para resumir o que quero dizer aqui, recorro a um cartum do célebre Plantu, que saiu no Le Monde deste domingo. O cartum representa três cenas simultâneas. Ao fundo, protegidos por um muro, por uma cerca de arame farpado e por um brucutu de cara fechada, os figurões do G-8 conversam em torno de uma mesa redonda. Ao centro, logo em frente ao muro de concreto e do brucutu, há um corpo no chão, ladeado de sangue vermelho (é só aí que o artista faz uso de uma cor que não seja o preto) e de uma multidão de fotógrafos. Por fim, separados de todos os outros por uma segunda cerca de arame farpado, vêm os miseráveis, esqueléticos, que olham de longe para o tumulto dos fotógrafos sem expressar reação alguma. O desenho do Le Monde sugere que tanto a miséria quanto a cúpula do G-8 estão fora do alcance dos repórteres. Tendo a concordar com a sugestão. A miséria porque é chata e não vende jornal; quanto à cúpula, é ela quem manda e não quer ser incomodada.
É verdade que o olho da imprensa deve ajudar o olho do público a ver mais de perto aquilo que não é fácil de admitir, como a idéia de que os responsáveis pela paz mundial são capazes de assassinar um manifestante indefeso. No caso da morte de Carlo, essa missão foi exaustivamente cumprida. Mas a imprensa também deveria atentar para um outro dever que ela tem, que é o de afastar o olho do público daquilo que o fascina e, ao fasciná-lo, paralisa-o. Assim como dá o close, a imprensa deveria dar visões panorâmicas. Estas são as que mais fazem falta ultimamente.
O jornalismo cumpriu sua função ao retratar os enfrentamentos em Gênova, mas deixa a desejar quando não investiga as razões de fundo desses enfrentamentos - e quando aceita acriticamente, em seu discurso cotidiano, as premissas que presidem a globalização. Penso na imprensa brasileira de modo especial. Por mais que seja perigoso generalizar, noto que ela questiona essas premissas. Ela não se pergunta sistematicamente das conexões entre as tragédias sociais - desemprego generalizado, fome, trabalho escravo - e o processo de globalização, assim como não apura como e por que as demandas do capital, no nosso tempo, acabaram se transformando em metas públicas de governo pelo mundo afora: privatizações, desmonte da previdência, asfixia das universidades públicas etc. Em todos os países periféricos ou semiperiféricos as metas de governo são idênticas. Por quê? Ela não pergunta enfim por que a globalização virou um fato consumado que se impõe sem qualquer outro diálogo que não esses ‘de cúpula’. Antes, as razões de Estado é que eram indiscutíveis e indevassáveis. Hoje, são as razões do mercado. Por quê?
O sentido histórico das manifestações que se espalham pelo mundo tem a ver com essas perguntas. Ao não ouvir e nem enxergar o que está para além dos arames farpados e dos muros no cartum de Plantu, os jornalistas e o público ficamos sem entender direito por que, afinal, esse rapaz foi morrer em Gênova, sem firmar o nobre pacto entre o cosmos sangrento e a alma pura."

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