HOLOFOTES INOCENTES
E David Kelly continua morto
Alberto Dines
O primeiro nome foi "WMD" (weapons of mass destruction)
e depois que as tais armas de destruição em massa
recusaram-se a aparecer no Iraque, o verbete passou a ser designado
como "Caso Blair", justa homenagem ao afobado premiê que garantiu
a existência de um mortífero arsenal capaz de ser acionado
em 45 minutos.
Quando ficou claro que as tais armas não existiam e a BBC
começou a mostrar que o relatório secreto do qual
serviu-se Tony Blair havia sido sexed up (esquentado) para
impressionar a opinião pública, o caso virou "BBC
vs. Blair".
Logo em seguida, ficou evidente que também a BBC havia sexed
up, esquentado, suas investigações sobre a má
conduta do governo. Resultado: o nome passou a ser "Blair vs.
BBC".
Então apareceu o cadáver de um cientista especializado
em armas químicas e biológicas, suposto informante
da BBC e o affaire transformou-se em Caso David Kelly.
Agora, com a divulgação das conclusões de lorde
Hutton, o foco (e o nome) do episódio vão para o magistrado
que produziu um conjunto de sentenças tão disparatadas
que a própria vítima parece culpada e o móvel
do inquérito, esquecido [leia outras matérias sobre
o caso na rubrica Monitor da Imprensa, nesta edição].
Secretário inocentado
Da dramática sucessão de manipulações,
simplificações, linchamentos e injustiças sai
uma conclusão preliminar: continuam todos ensandecidos. A
carga de emoção gerada pela discussão sobre
as razões da guerra contagiou todos os seus desdobramentos.
E o que deveria transformar-se numa avaliação serena
e profunda sobre as razões que levaram um homem maduro a
dar cabo de sua vida – a tremenda exposição pública
a que foi submetido –, evaporarou-se.
Todos estão sexing up, esquentando, as respectivas
versões, todos distorcem evidências e manipulam os
fatos numa bacanal de meias-verdades que não honra a fleuma,
a racionalidade e o senso de justiça da sociedade britânica.
David Kelly foi morto num fogo cruzado e deixado só no campo
de batalha – esta é a verdade que as partes e os implicados
recusam-se a enxergar. Matou-se não porque era um fraco mas
porque os protagonistas eram fortes demais.
Chocado com esta morte e comprometido apenas com a discussão
sobre a mídia, este Observador publicou cinco dias depois
de encontrado o cadáver do cientista (Observatório
nº 234, de 22/7/03) a matéria intitulada "David Kelly foi
vítima dos holofotes" [remissão abaixo]. Kelly
foi executado "num patíbulo dominado pelos fantasmas dos
reis-facínoras criados por Shakespeare":
** A BBC dominada pela paranóia
de provar a sua independência e valorizar-se perante o mercado
internacional de TV all news.
** A mídia comercial, sobretudo
o grupo Murdoch, proprietário da Fox News, doida para desmoralizar
o mais bem-acabado e mais bem-sucedido paradigma de TV pública
em todo o mundo.
** A feroz imprensa inglesa que nos
momentos de grande tensão nivela-se aos tablóides.
** O governo Blair desesperado com
o seu desprestígio pela adesão ao fundamentalismo
de George Bush.
** A oposição conservadora
inglesa doida para ver-se livre de Blair.
** A ala esquerda do Partido Trabalhista,
idem.
Quem trouxe o David Kelly para o noticiário foi o secretário
de Defesa do governo britânico, Geoff Hoon, que vazou o nome
do cientista para a imprensa. Ao invés de uma investigação
interna, sigilosa (como convém em matéria de segurança
nacional), o governo inglês preferiu queimar a fonte da BBC
e não teve escrúpulos em escancarar publicamente uma
falha disciplinar.
Geoff Hoon, que expôs o nome de um funcionário antes
mesmo de ser considerado culpado em qualquer inquérito, foi
agora plenamente inocentado por lorde Hutton.
Vazamentos e esquentamentos
A BBC errou exatamente no mesmo momento. Quando a direção
da emissora descobriu que o repórter Andrew Gilligan, no
programa Today, havia sexed up, esquentado, as informações
que o cientista Kelly lhe passara off the records, deveria
pronta e publicamente assumir a falha. Deste modo, tiraria David
Kelly do palco e assumiria a responsabilidade já que esta
é de quem veicula a informação confidencial,
e não da fonte.
Ao agarrar-se à sua infalibilidade, a BBC foi arrogante
e nesta arrogância deixou Kelly sozinho no banco dos suspeitos.
Um pouco mais de humildade, compromisso com a transparência,
espírito público, solidariedade humana e um pouco
menos de altivez poderiam proteger Kelly dos holofotes e poupar
a sua vida.
A BBC foi severamente julgada por lorde Hutton mas não o
governo. A complacência com o Estado em detrimento de uma
instituição pública compromete o equilíbrio
da avaliação e põe sob suspeita não
apenas o avaliador mas também o poder que representa (a Câmara
Alta).
Quando o New York Times escancarou suas entranhas e puniu
exemplarmente o repórter-embusteiro Jayson Blair, correu
todos os riscos. A BBC poderia ter feito o mesmo se fosse menos
imperial, mais ágil e mais justa ao reconhecer que Gilligan
exagerou as informações que recebera de Kelly. Preferiu
ir em frente na disputa com o governo e o governo foi em frente
na tentativa de desmoralizar uma das mais importantes instituições
inglesas.
Estavam todos em guerra e nestas circunstâncias ninguém
lembra das eventuais vítimas. Ironicamente, único
a lembrar-se de David Kelly foi lorde Hutton: sem a possibilidade
de defender-se, enterrado, o cientista foi exumado pela condenação
de falar com o repórter da BBC sem autorização
dos superiores.
Quem garante que um dos chefes de Kelly não lhe deu o sinal
verde? Será que os escalões superiores não
pressentiam a eminente desmoralização dos serviços
de inteligência ingleses e deixaram que vazassem algumas dúvidas
preventivas?
Onisciente e certamente com poderes para comunicar-se com o Além,
lorde Hutton declarou-o culpado. Sem direito a apelação.
Esta onipotência traz até nós o protesto de
um importante jornalista português e também advogado
especializado em questões ligadas à liberdade de informação.
Escreveu na revista Visão (15/1/04, pág. 40)
o seu diretor, José Carlos de Vasconcelos:
"Nunca vi um magistrado ser responsabilizado por erros mesmo
grosseiros; vi, sim, muitos bons jornalistas injustamente no
banco dos réus".
O Relatório Hutton não esclareceu coisa alguma: o
governo, aparentemente vitorioso, ficou ainda mais vulnerável
e a BBC, aparentemente derrotada, como todas as vítimas da
injustiça parece prestigiada por seu público.
Apesar das condenações, os holofotes foram inocentados.
E, com eles, os procedimentos jornalísticos que provocaram
a tragédia: vazamentos e esquentamentos. O resto é
política.
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