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IMPRENSA EM CRISE
O empresário, o editor e o cavalo do inglês
Pedro de Souza (*), de Paris
Os jornais diários brasileiros estão passando por uma grave crise. O Jornal do Brasil está afundando, a Gazeta Mercantil parece ter naufragado, e agora assistimos ao início da queda de Valor Econômico. Muitos outros jornais, entre grandes e pequenos, também vão mal – de finanças, de publicidade ou de vendas.
Esse quadro não é apenas brasileiro. Um mês atrás o editor do tradicional diário alemão Die Zeit ameaçou fechar o jornal, caso as autoridades de regulação do mercado autorizassem a fusão de dois concorrentes em Berlim. O Financial Times, que estava vendendo em março passado uma média diária de 147.000 exemplares na Grã-Bretanha, contra 215.000 em março de 2000, acaba de ser relançado com uma fórmula enriquecida, para tentar recuperar parte do terreno perdido. O Le Monde continua perdendo dinheiro e deve anunciar em breve se vai ou não para a bolsa, para financiar o desenvolvimento do grupo de comunicações que vem constituindo, e sem o qual, em futuro não tão longínquo, o jornal não será viável. O Daily Telegraph passou no começo de maio por uma crise da caixa que surpreendeu o mercado.
Esse descalabro que se vai generalizando entre os diários europeus tem várias origens: a economia da maioria dos países da União Européia está beirando a recessão, a publicidade está sendo posta em causa em seus métodos e se faz rara, os estabelecimentos financeiros da City londrina despediram milhares de funcionários desde 2000 até hoje, os classificados estão se deslocando das páginas do jornais para a internet.
No Brasil, dizem-nos, os jornais dão lucro. O problema seria o endividamento das empresas jornalísticas. Essa afirmação, que se aparenta a um sofisma, necessitaria de cuidadoso exame, e sobretudo pode servir para esconder uma situação diversa e mais grave. Na realidade a atual crise dos jornais não é conjuntural, as suas raízes mergulham mais fundo. Trata-se de uma crise no modelo econômico da mídia jornal. A informação se banalizou, virou matéria-prima. O mercado está sabendo disso, muitos consumidores também. O jornal diário não é mais o companheiro inseparável do café da manhã.
Qualidade insubstituível
Do ponto de vista do consumo, entre os vários tipos de mídia, a internet hoje concorre sobretudo com os jornais. Não só a enorme oferta de notícias e serviços mais ou menos gratuitos desvia leitores e compradores dos jornais, como o hábito da gratuidade da notícia favoreceu a criação e sucesso dos jornais gratuitos. Por que razão os leitores dos jornais gratuitos europeus são na grande maioria jovens profissionais bem formados? Provavelmente porque para essa geração é normal que a informação seja gratuita, como no rádio, na tv aberta e na internet.
Face a essa crise de liquidez dramática, as empresas jornalísticas brasileiras seguem o velho remédio: pegam na tesoura e cortam na carne das redações para tornar os jornais atrativos, e obter novos empréstimos que lhes permitam rolar a dívida. É claro que o jornal é também uma empresa e, em conseqüência, é necessário que as suas contas batam – o que, sejamos justos, com os juros brasileiros, não é propriamente um passeio.
Se os jornais fossem produtos como outros quaisquer não haveria inconveniente em que acabassem sendo substituídos pela internet. Afinal é normal que produtos e empresas nasçam e morram. Porém, será que a internet pode assumir todas as funções de um jornal de qualidade? Na realidade, a internet é o reino da informação pura e dura, é uma mídia fragmentada e individualista. O que tenho eu de comum com meu vizinho norueguês que todas as manhãs se delicia com as fofocas dos fiordes?
Os jornais de qualidade produzem informação e "significado", valores, que refletem os valores da sociedade e nos quais a sociedade se vê. A mágica que produz esse efeito se chama edição. Os jornais precisam de grandes editores. Editar um diário significa endereçar todos os dias uma mesma mensagem aos leitores, à sociedade. Esse gesto dá origem àquilo a que se chama de comunicação social, que é mais que uma técnica jornalística, é o prolongamento da informação no corpo social, contribuindo para estabelecer a sua agenda. O jornal diário de qualidade é insubstituível.
Empenho e consciência
Em conseqüência, a atual crise dos jornais poderá ser uma boa ocasião para que eles recuperem o brilho e a influência, como está fazendo o Financial Times através da sua nova fórmula. Para reconquistar leitores os jornais têm de se afastar do modelo internet, da informação bruta, da informação que entra pelos poros. A política de cortes para os transformar em "empresas sãs" é uma variante da velha piada do cavalo do inglês, que, quando finalmente se havia habituado a não comer, morreu.
O modelo desses jornais reduzidos ao osso é quando muito o do jornal gratuito. Os jornais precisam investir em boa reportagem, precisam de grandes editores, e de um marketing ativo e competente, incluindo serviços na internet. Para tentar salvaguardar seus interesses no mercado de classificados devem lançar serviços na internet, associando-se a jornais de outros estados em rede nacional. Na França, jornais concorrentes como o Figaro, Le Monde e Libération se uniram para lançar um serviço único de classificados de emprego.
A batalha não é fácil, mas vale a pena lutar. Num momento em que o próprio mercado está exigindo transparência (vide caso Enron e outros) parece impossível que numa economia do tamanho da brasileira não exista pelo menos um grande jornal de negócios independente. Mas sem um mínimo de estratégia nunca se ganhou uma guerra.
As restrições ao investimento dos grupos de comunicações estrangeiros no Brasil estão jogando a imprensa brasileira nas mãos de bancos e outros empresários endinheirados. Veremos se serão bons editores, se vão se empenhar com a competência e o apetite necessários para a reconstrução da imprensa brasileira. Tudo é possível: afinal, na França, os dois maiores grupos de comunicação estão nas mãos de empresas de vendas de armamento, e apoiaram o governo francês na sua cruzada pacifista no Iraque. Mas pode acontecer também que esses empresários se limitem a gerir a penúria, aguardando apenas que a lei permita vender seus ativos na imprensa a grupos de mídia estrangeiros.
Jornalistas, políticos, eleitores e governo deveriam se debruçar sobre essas questões. Para que voltem a existir bons jornais não basta que estejam em mãos de brasileiros, e que os jornalistas sigam rigorosos códigos éticos. É sobretudo necessário que haja empenho, consciência da importância da imprensa para a sociedade, e grandes editores de talento. Alternativas de investimento e controle aparecem, quando há vontade de ir ao seu encontro.
(*) Jornalista
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