| ||
|
A IMPRENSA EM QUESTΓO CASO TIM LOPES José Antônio Silva (*)Subnutridos rancorosos (justificadamente) de um lado, e supernutridos arrogantes (alienadamente) de outro. Assim vivemos hoje no Brasil, em que uma pequena mas significativa parcela dos mais pobres busca no crime os seus momentos de luxo e consumo, e uma elite inacreditavelmente rica e cruel não aceita dividir o menor de seus anéis, e começa a perder a mão inteira e a vida em assaltos crescentemente ousados e brutais. Dividida entre estes extremos, a sociedade brasileira, em choque, não sabe o que fazer para barrar a criminalidade. É certo, porém, que não são os milionários os principais atingidos. A vítima preferencial dos criminosos parece ser uma extensa camada intermediária que vai desde a situação confortável de empresários médios e profissionais liberais bem-sucedidos ao extremo em que buscam se manter com alguma dignidade pequenos comerciantes, bancários, empreendedores, funcionários públicos e outros que não pode contar com equipes particulares de seguranças, com carros blindados ou helicópteros para deslocamento. Também sofrem, silenciosa e cotidianamente, na mão dos bandidos, trabalhadores braçais, empregadas domésticas, faxineiras, operários, garçons, frentistas obrigados a morar com suas famílias, em condições desumanas, nos mesmos morros, vilas e favelas, bem ao lado dos traficantes, assaltantes, seqüestradores. Mesmo sendo vítima apenas ocasional do banditismo, é a parcela mais bem-aquinhoada do país, no entanto, a responsável pela péssima distribuição de renda dos brasileiros, um caldo de cultura perfeito para a geração da criminalidade. Especialmente quando se junta à falta de empregos (e aos baixos salários de quem tem emprego), um descaso brutal do governo com a adequada e qualificada oferta de educação, saúde pública, política habitacional e outros itens que ampliam a auto-estima e as perspectivas de crescimento pessoal e profissional dos segmentos menos favorecidos. Em vez disso, o que se observa inclusive por parte do atual governo federal é a manutenção das mesmas e apodrecidas estruturas, algumas seculares, de beneficiamento interminável das elites e da submissão, dentro da mesma ótica, aos grandes interesses financeiros internacionais. Não resolve, mas ajuda É precisamente aí, como num jogo de armar, que se enquadra à perfeição a questão da reforma agrária. Movimento fundamental para que um país ingresse plenamente na modernidade, e já realizado há tempos em praticamente todas as nações do chamado Primeiro Mundo, a reforma agrária, em nosso gigante adormecido, em termos efetivos é pouco mais que uma grande encenação. O governo federal finge que a realiza (mesmo que compute como família assentada quem mal colocou seu nome entre os interessados em ganhar um lote, sabe-se lá em que ano) e termina jogando agricultores ou seus descendentes proletarizados em áreas muitas vezes inóspitas, sem insumos, ferramentas, serviços essenciais ou financiamento adequado. O Movimento Sem Terra (MST) é justificadamente famoso no mundo por levar adiante, com todas as dificuldades, a idéia do fim do latifúndio improdutivo e da divisão da terra entre os que a querem trabalhar. Este movimento, formado por seres humanos falíveis, comete também erros estratégicos (como a invasão da fazenda da família de FHC, em Buritis, MG), eventuais excessos e até crimes (como a rixa que culminou no assassinato de um assentado que não pertencia ao movimento, no interior de Jóia, RS). Pois já antes mesmo desses lances episódicos, que não deslegitimam a luta sofrida do MST pela reforma agrária, o movimento enfrenta uma guerra sem tréguas não só dos grandes proprietários do interior profundo do Brasil o que é compreensível. O pior: o MST é atacado também pela quase totalidade da grande imprensa brasileira, que nesta questão esquece sua postura oficial de isenção para colocar-se flagrantemente ao lado dos interesses conservadores, definindo os trabalhadores sem terra como criminosos, bandidos, quadrilheiros. De fato, chega a parecer irônico, embora seja dramático. A imprensa que se queixa, com razão, do aumento da criminalidade nos grandes centros (sempre a partir das periferias, onde ela germina fácil no solo do desemprego e da falta de perspectivas) é a mesma imprensa que ataca e joga a opinião pública contra os homens, as mulheres e as crianças que fogem deste destino marginal e pedem, precisamente, um pedaço de terra para trabalhar e viver com dignidade. Como se não compreendessem nada do que se passa sob seu nariz, articulistas e palpiteiros da mídia gostam de separar os dois assuntos aumento da criminalidade urbana e questão agrária. Mas no Brasil os dois temas só fazem sentido e podem formar um quadro coerente e inteligível quando analisados em conjunto. Seria ingenuidade, é claro, acreditar que mesmo uma reforma agrária efetiva terminaria com a criminalidade, especialmente com o crime organizado, nas grandes cidades brasileiras. Este é um fenômeno que transcendeu fronteiras nacionais e floresce, por exemplo, na disseminação mundial da cultura das drogas e associa-se, ainda, à lavagem de dinheiro em paraísos fiscais e a vários crimes de colarinho branco, incluindo a amoral ciranda financeira praticada alegremente por países respeitáveis. Histeria e indignação teatral Porém, situa-se na zona de fronteira entre a imbecilidade e a má fé não perceber que a retomada de empregos e a geração de renda, de forma descentralizada, pelo interior todo do Brasil, na esteira da reforma agrária, não só levaria progresso a regiões historicamente abandonadas, mas também desinflaria as periferias urbanas. Com isso, governos municipais e estaduais poderiam obter melhores resultados em itens como saneamento, preservação ambiental, educação, habitação, saúde, assistência e outras políticas sociais incluindo a segurança. Lembrando ainda: nos assentamentos, um dos pontos fortes é o processo educacional, e mesmo que a retórica seja em muitos casos revolucionária (assustando o conservadorismo), sua ênfase está na ética do trabalho e, até mesmo, na religiosidade. Ou seja, verdadeiros antídotos à cultura marginal de levar vantagem ou se dar bem de qualquer jeito, que incentiva o caminho da criminalidade para quem, numa favela sem educação nem valores , vê suas perspectivas de melhorar de vida cada vez mais reduzidas. O que parece tão claro (mesmo sabendo-se que não se trata de solução isenta de dificuldades) não é sequer mencionado nos comentários diários de jornais, revistas, rádios e televisões. Como norma, o que chega a nós leitores, ouvintes, telespectadores é a mesma cantilena que aposta tudo na repressão: clama por mais rigor e mais polícia contra o banditismo e, igualmente, como se fosse a mesma coisa, contra os conflitos agrários. O tom de histeria e indignação teatral sobe vários graus em épocas pré-eleitorais como a atual, quando a maioria da imprensa brasileira mesmo os segmentos que se pretendem de vanguarda, como a Folha de S. Paulo transforma-se num imenso e monocórdio Estadão (se é que me entendem). O mais curioso é que esta mesmíssima mídia, que brada, em causa própria, pela sagrada "liberdade de informação" (pretendendo agora colocar-se acima da ação da Justiça, quando enfrenta ações por calúnia e difamação, caso da condenação de jornalistas da RBS, por ofensa ao governador petista do Rio Grande) não mostra qualquer zelo pelos direitos ou liberdades dos movimentos sociais. Afinal, estes são aglomerados de infiéis, a serem tratados a fio de espada no Reino do Deus Mercado, do qual a mídia é, hoje, a sacerdotiza-mor. (*) Jornalista e escritor em Porto Alegre | ||