IMPRENSA EM QUESTÃO



JORNALISMO FITEIRO
Caso Boechat, os crimes e o castigo

Luiz Weis (*)

Otto von Bismarck, o "Chanceler de Ferro" que governou a Prússia de 1862 a 1890, detestava a democracia, desprezava o parlamento e apreciava frases de efeito. Disse certa vez: "Ah, se as pessoas soubessem como se fazem as leis e as salsichas!"

E se as pessoas soubessem como se faz uma notícia?

Muitas delas, pelos ingredientes e a forma de preparo, decerto são ainda menos saudáveis para os seus consumidores do que os embutidos que se comiam na Alemanha de mais de 100 anos atrás.

Na maior parte dessas notícias, o que faz mal ao leitor incauto é a massa de erros, omissões e meias-verdades, que antes o cegam do que o ajudam a exergar melhor o mundo em volta.

Geralmente, engana-se o leitor sem que haja dolo: o que passa por jornalista e o que passa por jornalismo produzem o mesmo efeito de uma intenção deliberada de deformar a realidade para desinformar quem procura conhecê-la.

Mas, do lado de cá do balcão, a intenção faz toda a diferença.

Ao vexame: na última semana de junho, a revista Veja posou de prestadora de um serviço de reconhecida necessidade numa sociedade democrática, ao dizer ao leitor que lhe estava oferecendo "um exemplo extraordinário de como funcionam os bastidores de algumas grandes negociações", que de um modo ou de outro, cedo ou tarde, afetarão pelo menos o seu bolso. Ouro puro, portanto.

Para contar uma briga de tubarões no bilionário setor da telefonia, Veja se valeu, como se sabe, de uma coleção de gravações clandestinas de conversas, apropriadamente, telefônicas – os infames grampos do jogo abjeto nos negócios e na política, que de há muito infestam a imprensa, com a sua gostosa aquiescência, como se ignorasse que isso não é apenas um crime: é uma torpeza.

Como também se sabe, a fita mais quente da Veja contém um diálogo no qual o colunista Ricardo Boechat, do Globo, acerta os ponteiros da edição de uma matéria com um amigo, Paulo Marinho, unha-e-carne de um dos tubarões em conflito, Nelson Tanure, o qual vem ser o novo dono do Jornal do Brasil, o arqui-rival do Globo. A matéria é má notícia para o outro tubarão, Daniel Dantas.

Boechat não só troca idéias com Marinho sobre os prós e contras de o texto sair assinado, como ainda lê a íntegra para o amigo do peito, que anuncia o seu caloroso veredicto: "A matéria tá muito bem feita, meu querido. Tá na conta. Não precisa botar mais p... nenhuma, não".

Curandeirismo moral

A promiscuidade revelada custou o emprego a Boechat. Muito justo – embora o modo como O Globo o puniu, no vapt-vupt, sem lhe dar o menor direito de defesa, esteve mais para cassação do que para demissão.

Só que o inocente leitor da Veja, o qual, à maneira dos compatriotas de Bismarck diante das leis e das salsichas, não tem idéia de como se faz uma matéria – nem, principalmente, por que e para que ela foi feita –, ficou sem perceber o essencial: que a revista teve uma conduta tão ou mais antiética, tão ou mais desonesta, do que o promíscuo e desavisado colunista (que, pelos anos de janela, devia ao menos saber o que se pode fazer com o telefone de um jornalista importante).

Pois, ao omitir a origem das fitas de que se cevou – e que certamente não foram grampeadas nem pelo cardeal Eugênio Salles, nem pelo presidente do Supremo Tribunal, como diria Boechat – Veja privou o leitor do direito de avaliar se a reportagem "Os bastidores de uma guerra" era realmente um serviço público, como a revista quis fazer crer, ou um serviço particular prestado a um tubarão, da telefonia ou da imprensa; ou isso acrescido de uma vendetta contra algum desafeto – a alternativa mais crível para todos quantos, por força do ofício, conhecem o recheio oculto de uma notícia.

"Imprensa não é tribunal de exceção nem pode se dar à prática do curandeirismo moral", escreveu no Jornal do Brasil (26/5) a colunista Dora Kramer. Pode, menos ainda, deixar a suspeita de que é um tribunal de fachada e que o curandeirismo só é moral para leitor ver.

O crime de Boechat foi castigado. O(s) da Veja, não.

(*) Jornalista