IMPRENSA EM QUESTÃO

IMPRENSA & LULA
Apontamentos sobre um sonho adiado

Wladir Dupont (*)

Nunca, como agora, o Brasil e seu governo, sobretudo a figura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, despertaram tanto a atenção do mundo. Não foi diferente neste fim de semana, no pequeno balneário de Vale de Bravo, a 140 km da Cidade do México, sob um céu limpo e um silêncio reconfortante, em meio a bosques, cascatas e riachos, onde se realizou a quarta edição do Encontro Europa-América Latina (Fórum de Biarritz), com a presença de 150 convidados entre políticos, empresários, intelectuais e jornalistas dos dois continentes. Tratados como príncipes pelos anfitriões mexicanos, discutiram problemas diversos do mundo de hoje, incluindo o fortalecimento das relações entre as duas regiões – com ênfase, em quatro dos painéis, no papel dos meios de comunicação na chamada globalização (e seus efeitos deléterios, entre eles, o crescente servilismo aos interesses e objetivos de marketing).

O Brasil foi mencionado, num certo tom laudatório, nos demais painéis como estimulante exemplo da experiência bem-sucedida, pelo menos até agora, de um governo de esquerda. Mas a participação de dois jornalistas brasileiros acabou moderando o tom das discussões e colocando as coisas nos seus devidos lugares – pelo menos no que se refere a Lula e suas relações com a imprensa e a situação geral desta no país.

Otavio Frias Filho, diretor de redação da Folha de S.Paulo e José Antonio do Nascimento Brito, presidente do Conselho Editorial do Jornal do Brasil, um no seu jeito retraído, o outro mais expansivo, os dois se expressando num espanhol fluente, esfriaram um pouco o clima de "já ganhou" da platéia, com suas intervenções sóbrias e pertinentes.

Nascimento Brito ficou mais no geral, relembrando o papel corajoso e inventivo da imprensa brasileira na época da ditadura militar. "Acredito sinceramente que os meios de comunicação, com todas as dificuldades no caminho, têm contribuído, e muito, para a paz e a democratização no mundo; e nós, brasileiros, não ficamos atrás nesse processo." E ao agradecer os calorosos elogios de colegas mexicanos e argentinos sobre a tradicional qualidade do jornalismo brasileiro, ele disse "sí, pero tenemos nuestros problemas", sem dar nomes nem mencionar situações específicas.

Luta pelo mercado

Frias não deixou por menos e foi no fígado, lendo anotações com o cuidado de quem fala uma língua estrangeira: "Acabou a lua-de-mel, a imprensa está vigilante. A mudança no Brasil foi ilusória. Lula adotou a política de FHC e não cumpriu as promessas. A bem da verdade, ele se viu obrigado, pelas circunstâncias, a contemporizar com os mercados e assim adiar o sonho".

Quanto a atual situação da imprensa brasileira, pelo visto ignorada pelo público presente, a julgar pelas perguntas, ele pouco escondeu ou contornou: "As pesquisas", disse Frias, "têm influência crescente e o resultado é um jornalismo superficial. Redações e departamentos comerciais funcionam não mais como antigamente, quando a separação era bem nítida, e esse é um dos perigos da globalização: os jornais, na corrida pelos leitores, ficam cada vez mais parecidos, com conteúdos menos profundos. As políticas de mercado só acentuam as diferenças sociais e, em muitos casos, influem no desempenho dos jornais em favor de seus objetivos." Nesse contexto, reconheceu, a situação ficou muito difícil, cresceu de forma dramática o endividamento do setor, sendo o caso mais complexo o das Organizações Globo, segundo Frias de "de difícil solução".

Algumas outras conclusões dos quatro painéis sobre os meios de comunicação e a globalização:

** O tema da livre expressão está resolvido. O prioritário (e difícil) agora é contribuir para o fomento da responsabilidade social da imprensa, na formação de melhores cidadãos. Os meios de comunicação não têm a missão de buscar a paz, mas a de informar e esclarecer a realidade, ajudando a sociedade a viver melhor e assim contribuindo para o entendimento entre nações e tendências diversas.

** É fundamental democratizar a informação para que as pessoas possam formar suas próprias opiniões. A "ditadura da audiência" faz com que os meios de comunicação confundam sua responsabilidade social de informar, porque não criam opções de reflexões de temas importantes para a sociedade; ao contrário, dedicam seus espaços a preencher o lado emocional das pessoas, oferecendo-lhes sensações fugazes e baratas. É a mistura perigosa e inadequada de informação e entretenimento, o que os americanos chamam de infotainment.

** Pairam ainda hoje sobre os meios de comunicação reminiscências da Guerra Fria, quando se sacrificava a verdade a favor das causas. Agora essa antiga luta ideológica se transforma numa luta pelo mercado, para obter mais leitores e mais dinheiro. É vital, para a saudável sobrevivência dos meios de comunicação, evitar esse caminho.

(*) Jornalista e escritor brasileiro radicado no México