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VERÃO DO TOPLESS
O boom das tetas
Carlos Vogt
Das três revistas semanais de informação mais importantes no Brasil, duas – Época e IstoÉ – trouxeram, na semana de 22 a 29 de janeiro, capas com belas fotos de belos seios. A IstoÉ escolheu a atriz e cantora Daniele Danmerie bronzeando-se bonita, em topless, na Praia do Leblon, no dia 19, quarta-feira; a Época publicou um busto nu de mulher, anônimo e molhado de beleza. A Veja não falou de seios, preferindo tratar de sexo entre adolescentes e estampar um casalzinho-romeu-e-julieta-franco-zefirelli, na capa. Claro, não falou fora, mas falou dentro, dedicando quatro páginas ao assunto que incendiou o calor do verão carioca na sua primeira edição do milênio: a prisão de Rosemari Moura Costa e de seu marido, porque ela tomava sol sem o sutiã do biquíni e porque ele a defendeu no seu direito de desnudar-se contra a sanha de pose moralista da polícia, na Reserva Biológica do Recreio, Zona Oeste do Rio.
A reação foi formidável: nas praias, principalmente na Zona Sul, manifestações de adesão ao topless reverberaram o esplendor da natureza; os jornais, as revistas e a mídia em geral viajaram da beleza de imagens inesquecíveis ao mau gosto escatológico dos antológicos predadores do mundo animal que povoa a televisão. Debates, imprecações, hipocrisias, ladainhas, elogios, impropérios, piadas, sacanagem, socio e antropologismos invadiram as comunicações do país, tudo por causa da tímida descontração de uma senhora de subúrbio carioca a quem a polícia escolheu para armar o seu circo de moralidade planejado para as câmeras da Rede Globo – que, depois de avisada pelos torquemadas de quepe, foi pacientemente esperada, antes que eles dessem início ao pífio espetáculo do descabido auto-de-fé.
Nenhuma publicação ou reportagem mais competente, entre elas a das três revistas de informação, deixou de anotar o fato social e sociologicamente importante de que o ato liberador partiu, não das vanguardas libertárias de Ipanema, mas da contramão, como escreveram, dos subúrbios cariocas.
Veja , feijoada absurda
As três revistas seguiram, basicamente, o mesmo roteiro na apresentação do evento-verão-2000, não faltando em nenhuma delas a enumeração dos grandes acontecimentos praia-mar-rio-de-janeiro desde a nudez autóctone de nossas índias até a Ilha do Sol de Luz del Fuego, o biquíni grávido da saudosa Leila Diniz, a sunga de Gabeira e as exuberâncias de Monique Evans e Luma de Oliveira, sem esquecer as globelezas e as mulatas semi-desnudas que enfeitam nossos carnavais.
Das três, só a Veja quis ser mais "séria" e acabou sendo ranzinza. Misturou, na mesma reportagem, tetas e bundas, o desastre ecológico provocado pela Petrobras na Baía de Guanabara e os corpos esquartejados que apareceram boiando entre a Praia do Vidigal e o Arpoador, transformando o pitoresco sensual dos costumes nacionais na escatologia denuncista da incúria de nossas autoridades.
Claro que isso é papel da imprensa. Mas a coisa, como foi apresentada, estava fora de lugar, como na música da boiada ou como num quadro cubista sem o gênio do artista capaz da harmonia estruturadora das partes descontínuas que formam a figura estranha. A reportagem ficou como que uma feijoada de ingredientes absurdos.
No mais, com maior ou menor sisudez, o fato é que, com todo o sociologismo que temperou as matérias nas três publicações, o que está mesmo acontecendo, na mídia/imprensa, é a ouverture do Carnaval. E aí, mais do que em qualquer ocasião, vale o preceito latino – quod abundat non nocet – adaptado pela malícia interpretativa de nosso gênio às abundâncias sensuais do comportamento do brasileiro: o que abunda não prejudica.
Peitos na capa
Douglas Duarte
No domingo 23/1, quem chegava às bancas via, reluzente e orgulhoso, o par de peitos da capa da Época. Estampada na capa, a palavra "livres". Já na IstoÉ, as mamas apareciam em companhia de sua dona, devidamente adornados por um dragão tatuado. "O verão do topless". A capa de Veja não foi menos airosa: a matéria, gaveta óbvia, tratava do sexo entre adolescentes.
Será que os diretores de redação de Época e IstoÉ ignoravam o que acontecia em outras praias do mesmo estado do Rio de Janeiro? Na semana anterior, a Petrobras despejara na Baía de Guanabara cerca de um 1,3 milhão de litros de óleo, matando peixes, caranguejos, manguezais, aves marinhas e o sustento de várias colônias pesqueiras. Com o desastre, a Petrobras bateu mais um recorde: a maior poluição da Baía de Guanabara até hoje.
Sim, as duas revistas noticiaram o que estava acontecendo. Na Época, oito páginas de peitos e controvérsia fútil e duas de desastre ambiental, com enormes proporções e desdobramentos. Na IstoÉ, não foi diferente, e o placar ficou em 7 a 1 para os peitos. Ambas com informações vencidas.
Preservando outras tetas
A Veja teve reportagem inegavelmente diferenciada. Apesar de apoiada no mesmo mote ("Nem tudo é festa no verão do topless" ou algo assim), mostrou que, além de peitos de fora, desastres ambientais e assassinatos têm acontecido nas areias cariocas. O que não chega a ser positivo: no caso das três, o destaque é para o banal. Mesmo em Veja, quem abre a matéria dá de cara com uma "toplesseira". O biguá agonizante fica no pé da página.
Qual o porquê destas escolhas? As revistas se "bundizaram" e querem seguir o exemplo de Playboy, hoje a segunda mais vendida em bancas do país? No caso de Época é ainda mais grave: a foto sequer reportava o acontecido. Era uma foto produzida em estúdio, e não é possível deixar de pensar que saiu na capa com o intuito de polemizar. E vender, claro.
O tema não interessa? É desagradável ver morte e poluição nas capas? A resposta a isso vem em outra pergunta: ainda podemos nos dar o luxo de pensar assim? Os três produtos acima têm uma bela embalagem, mas não há como negar que as semanais estão cada vez mais longe de um jornalismo responsável.
E é bem possível que haja outra razão, tão mundana quanto as anteriores. Mostrando essas tetas inconseqüentes na capa, as revistas salvaguardam outras tetas: as de grandes anunciantes, como a Petrobras e o governo, de onde mamam uma rica verba. É a nova censura, totalmente "legal".
Por mais incrível que pareça para o Brasil, já está chegando aqui o costume de boicotar, e alguns postos BR andam vazios. Será que algum dia chega às revistas o boicote motivado por essa escala de valores louca?
A mídia banalizou
Cláudia Rodrigues (*)
É muito raso, de maneira geral, o que se vê, lê e ouve sobre o direito da mulher de expor seus seios em público. No Brasil, independentemente de ser legal ou ilegal, seios de fora só representam sexualidade para as principais revistas e jornais brasileiros, que gastaram uma semana polemizando sobre um assunto sério sem oferecer conteúdo suficiente para reflexão.
Por má sorte ou falta de competência, as brasileiras herdaram o pior do feminismo americano, cheio de dureza e falta de feminilidade, um feminismo que se orgulha de fabricar distanciamentos que tornam as mulheres incapazes de aceitar as principais e mais importantes condições do ser feminino.
A imprensa, com toda a polêmica, não conseguiu sair dos porões da vaidade que pulsa dentro e fora dela. Em vez de aproveitar a ocasião para ampliar o debate e o conhecimento das pessoas, embruteceu ainda mais as pautas com questões menores.
Cirurgia é indústria
Não apareceu viva alma para falar que o topless não é apenas mais uma maneira para a mulher usar o corpo como arma de sedução, mas um direito de lidar com o seio de forma pacífica, sem subjugá-lo ao uso de sutiãs e principalmente a cirurgias desnecessárias. Topless é liberdade para o peito primitivo das mulheres, um peito que quando se esconde ou se traveste de menor ou maior do que é perde o seu lugar mais importante: sentir prazer e produzir leite.
Na república das bananas com cobalto, ter peito de verdade, sensível, que produz leite com hormônios humanos – específicos para desenvolver a inteligência e o crescimento adequado dos bebês – é o que menos importa. Esses seios livres, plenamente dispostos a amamentar, proporcionam também sensações sexuais de prazer inigualáveis, para quem os possui principalmente, não importando idade, tamanho ou formato.
Cirurgias plásticas, que deveriam servir para atenuar mutilações que a própria medicina criou como método ideal – criatividade cartesiana – de extirpar o câncer de mama, são feitas no Brasil, em larga escala, em senhoritas que sequer pariram.
Abaixo o aperto
Faltou perguntar se a Sociedade Brasileira de Medicina não estaria com as rédeas muito soltas nessas cirurgias. Faltou perguntar por que os médicos optaram pela pesquisa de câncer extirpando seios em vez de estudar substâncias que poderiam excretá-lo; afinal, o seio tem buraquinhos para liberar líquidos. Não é o que está sendo feito, mas como foi pensado em sua origem que interessa agora.
E o que o topless tem a ver com isso? O topless, ao contrário da forma como foi abordado, é um procedimento nada exibicionista e muito saudável. É mais do que andar sem o top do biquíni na praia. É andar sem sutiã, sem blusa apertada e provocante de la femme de papa. Quem disse que usar sutiã e roupa apertada faz bem para a saúde dos seios das mulheres?
É alto o preço dessas vaidades, dessa mulher pré-fabricada que grande parte das revistas e programas femininos não cansa de promover. Entre outras coisas traz títulos tristes para o Brasil, como o alto índice de cesarianas e de desmames precoces. Tudo porque a luxúria, levada aos extremos, como é aqui, trabalha contra o corpo feminino como um todo integrado, violentando as condições primárias – e não por isso menos importantes – da mulher.
Até o Verissimo
Tudo pela imagem a ser apresentada à sociedade, e nada para o prazer genuíno dos peitos das brasileiras, seja no sexo ou na maternidade. E o mais triste é que se a moda do topless pegar só teremos a lamentar, porque o peito de fora no Brasil será apenas um meio a mais para sexualizar, de forma pervertida, o corpo humano feminino, que não deveria ser motivo de vergonha, por certo, e menos ainda de vaidade em grau tão alto.
Pintou topless na praia, vêm logo a polêmica e suas questões menores.
Até o Luis FernandoVerissimo, com todo o respeito, se perdeu na jogada, e saiu falando sobre garantia de qualidade para seios à mostra, referindo-se a estética. Desculpe, conterrâneo, foi só uma gauchada passageira.
Pobres menininhas
Para todo lado a questão do topless fica centrada na vaidade ou no tal pudor, cada vez mais sem nexo e ridículo diante da realidade, totalmente moralista e mascarada, do uso indiscriminado do seio como objeto de desejo sexual. Cada vez mais objeto e menos desejo, ou será que ninguém sabe que um peito que sofreu plástica pode perder parte ou toda a sensibilidade? E porque isso é tão triste, tão desolador, a medicina deveria urgentemente buscar formas menos invasivas de tratar o câncer de mama. O topless não é uma questão de vaidade. Está muito longe desse olhar clínico, frio e estético-segmentado.
No nosso país é mais fácil uma mulher ter vergonha de amamentar um bebê em público ou trocar a blusa na praia do que exibir a última cirurgia plástica usando roupitas provocantes. O que é moral? O que é imoral? O que deveria, afinal, ser amoral?
A onda "tire-me o top que eu sou vaidosa demais para tirar", escondida em sutiãs, decotes e roupas sedutoras é aceita como algo absolutamente natural; e o que deveria ser amoral, uma relação pacífica com os seios, vira sexualização precoce incutida em menininhas de 4 ou 5 anos. Que pobreza de educação para as pequenas!
Direitos a conquistar
Como se pode esperar das mulheres uma relação íntima com o corpo, que façam auto-exame, se esses seios não pertencem a elas, mas à sociedade arcaica, que as ensina a usar os próprios seios como objeto, como arma de sedução?
Como se pode querer que uma mulher amamente seus bebês, sem problemas de mastite ou rachaduras, com tanta mitificação a essa parte tão importante do corpo?
A função biológica principal dos seios é produzir leite, mas deixar-se ordenhar por um bebê, ajudá-lo a tirar o leite que precisa, pode ser bem complicado quando a mãe já entra na relação de nutriz com vaidade. Por ser uma herança biológica muito antiga no desenvolvimento evolutivo, amamentar exige sentimentos e atitudes que respeitem um mínimo de primitividade.
A vaidade, com essa coisa de silicone, sutiã que amassa, levanta, estica, gruda, provoca e seduz, acaba invadindo – de uma forma que as tias feministas chamariam de machista – o território da mulher como um ser com livre arbítrio.
Andar sem a parte de cima do biquíni na praia, deixar o peito boiar na água, não usar sutiã, ir fundo nas sensações sexuais que o peito proporciona, sentir prazer em amamentar – deixando que o bebê escolha a hora de parar quando se sentir seguro – são direitos a ser conquistados pelas brasileiras, ainda.
Enquanto se distanciam desses direitos femininos, tão bem representados pelo topless, e encaram o peito de fora na praia com olhar sexualizado, luxurioso, obsceno, perverso, brasileiros e brasileiras também fazem outras escolhas, como a esdrúxula compensação que aniquila o prazer em nome da imagem.
(*) Jornalista em Manguinhos, ES
Verão fundamentalista
Marinilda Carvalho
Triste quinzena de verão. O Sol carioca testemunhou um comportamento da mídia que só pode ser qualificado de fundamentalista.
Primeiro, o caso do topless, em que uma moça foi presa na praia por exibir os seios. A imprensa mostrou de início uma polícia enérgica, cumpridora do dever, obediente ao nosso jurássico Código Penal – um tenentinho alegou que o artigo tal prevê prisão para comportamento "obsceno". Mostrar o peito é obsceno! Demorou 24 horas para que a atitude caipira do PM fosse devidamente ridicularizada. Na seqüência, insinuações sobre o marido da moça presa, que defendeu o direito dela ao topless. Tudo devidamente acompanhado de fotos de seios, nacionais e estrangeiros, além de textinhos jocosos, carregados de falas moralistas. Enojante.
Depois, as cartas do Edmundo. A mídia deu a maior força aos PMs que "flagraram" o atacante do Vasco jogando baralho na praia. Baralho! Desde que eu me entendo por gente se joga baralho na praia, valendo mate, picolé, batida ou tostões. Nunca vi ou ouvi um caso sequer de interferência da polícia. Mas era o Edmundo, e a mídia moralista caiu de cabeça. "Edmundo se mete em nova confusão." "Edmundo é preso por jogo." Ninguém contestou o papelão da polícia.
Argh, que atraso. Vai ser fundamentalista assim no Afeganistão dos talibãs ou no Irã dos aiatolás.
MERCADO DE TRABALHO
Essa gente especial
James Görgen (*)
Pode ser um fenômeno isolado, mas as redações de jornal em Porto Alegre estão recheadas de gente "especial". Não, não espere nenhuma reencarnação das gerações que protagonizaram o efervescente cotidiano do Correio da Manhã, nos anos 50, ou ainda do Correio do Povo, até o final dos 70. "Especial" é o termo que jornais como Zero Hora utilizam para designar um batalhão de futuros repórteres que destilam, em suas páginas diárias, um misto de ansiedade e desinformação sob a forma de matérias. Por uma questão legal, a empresa dribla a fiscalização dos órgãos governamentais assinando os textos de repórteres que ainda não são formados – e de free lancers – com o sufixo "Especial/ZH".
Não se trata de atribuir aos novos jornalistas os efeitos perversos de sua permanência nas redações. A distorção causada por essa juvenilização tardia não é apenas uma coincidência. Sustentados por dogmas administrativos, executivos comandaram a assepsia intelectual das redações, provocando a queda da qualidade no noticiário. Outros processos de reestruturação de redações nacionais foram razoavelmente bem sucedidos na idéia de compor o novo com o velho. Em Porto Alegre, não parece ser o caso.
Em tempos de espetacularização da notícia, esses jornalistas caem como uma luva de pelica no perfil de profissional buscado pelas empresas de comunicação. Características como o descompromisso no trato de questões sociais e a leviandade na abordagem de determinados temas casam com a hipervalorização sensorial de um fato jornalístico. No mundo intangível do mercado – onde as relações editoriais de veículos e anunciantes são fundamentais para a consolidação de relações comerciais paralelas –, a falta de personalidades questionadoras com o bloco na mão passou a ser um mérito.
Garotos perdidos
Quem os são "especiais"? Homens e mulheres na casa dos 20 anos. Cresceram nos ensimesmados anos 80. Vieram das classes médias e abastadas de suas cidades. Alguns possuem sobrenomes influentes. Parecem garotos perdidos em um ambiente competitivo que os força a ter a sagacidade de um Elio Gaspari, mas os municia com a bagagem de um Cid Moreira. Conhecem as últimas da informática, mas não as primeiras da história da exclusão no Brasil. Dominam o inglês. Estiveram em muitos países. Ao mesmo tempo, ficam estarrecidos ao entrar pela primeira vez em uma favela próxima.
Formados nos "escolões" de jornalismo, os "especiais" chegam às redações carentes de um guru que os inicie no metiê. Encontram o vazio como referência. (No Rio Grande do Sul, gente do porte de um Cláudio Abramo foi praticamente exilada das quatro maiores redações. Tudo porque cismam em ter idéias próprias sobre política e economia, além de insistirem em receber uma remuneração condigna à experiência que possuem.) Sem tempo para cultivar fontes, os novos colegas são obrigados a desenterrar o furo do ano. Sem reconhecer o valor da apuração, entregam matérias de capa sustentadas por um único entrevistado. Sem (in)formação, enfrentam dificuldade para fazer remissões históricas ou análises conjunturais. Acabam se especializando em produzir notícias a granel com o desinteresse de quem engole um Big Mac.
Matando a mãe
O resultado pode ser colecionado em seções do tipo "Erramos". Zero Hora estampou na capa do seu Segundo Caderno, em meados do ano passado, informações sobre uma releitura teatral de "Hamlet". No dia seguinte, uma discreta errata foi publicada. A nota corrigia a matéria, salientando que o clássico texto de William Shakespeare conta a história de um príncipe que volta ao reino e vinga a morte de seu pai – e não de sua mãe, como havia sido publicado. Correção digna de entrar no hall da fama ao lado do notório enforcamento de Jesus Cristo publicado pela Folha de S.Paulo.
A intenção deste artigo não é crucificar ninguém. Muito menos, enforcar. Como colegas dessa gente especial, está mais do que na hora de retomarmos a discussão a respeito das conseqüências da juvenilização para o futuro do jornalismo. Conseqüências talvez mais cruéis do que a censura aberta do regime militar, quando os profissionais sabiam o que reportar, mas eram proibidos. O predomínio dos "especiais" sobre o jornalista experiente passou a moldar um noticiário superficial, podado por uma tesoura de corte muito mais sutil: o esvaziamento do conteúdo. Tudo sobre os auspícios do mercado global.
(*) Jornalista, 28 anos
HUMOR NA TV
Ernesto Casseta, o repórter
Spacca
É bem coisa de americano. O nome do programa é The Awful Truth, traduzido como Verdade Cruel, e passa no canal por assinatura Film & Arts (TVA).
O apresentador é um gordo de boné e paletó xadrez, parece um caminhoneiro ou um lenhador (dos de lá). Recebido no auditório com palmas e gritos, anuncia uma reportagem sobre as condições de trabalho nos parques da Disney. Entra o vídeo.
O repórter veste uma fantasia amarela de galinha, daquelas bem fuleiras, com máscara e capa roxas, e se apresenta como "Crackers, a Galinha Combatente do Crime Empresarial" (não disse que era coisa de americano?).
Crackers entrevista desempregados e grevistas da Disney, e é curioso ver que todos eles respondem a sério às perguntas do repórter fantasiado. Falam sobre salários atrasados, indenizações não recebidas, reclamam da temperatura altíssima dentro das fantasias. A galinha fica abismada com as denúncias: "Meu amigo Mickey Mouse não deve estar sabendo dessas coisas horríveis que acontecem em sua própria casa. Tenho que avisá-lo!"
"Cai fora, Crackers"
E assim, misturando ingenuidade com perguntas pertinentes, Crackers vai à "casa de Mickey", ou seja, o parque Disneyworld, pilotando um conversível cor-de-rosa. Lá, começa um busca engraçadíssima. O repórter pergunta aos bichinhos que encontra: "Você viu o meu amigo Mickey?" Um garoto o abraça, como se fosse um dos personagens Disney. Crackers não se detém: "Desculpe, garoto, estou em missão".
A reportagem é ilustrada com algumas intervenções eletrônicas bem-humoradas. Uma delas diz que o presidente da Disney ganha 60 mil dólares por hora, "até quando está dormindo", e vemos o retrato dele com os olhos fechados e um barulho de ronco. Um funcionário conta que pegou micose nos genitais depois de usar uma fantasia não-lavada do esquilo Teco (ou Tico?). Crackers está cada vez mais espantado e ansioso por encontrar o dono da casa.
Súbito, vê um Mickey no alto de um carro alegórico, participando de um desfile, mas o camundongo não escuta seus chamados. "O sucesso subiu à cabeça de Mickey", lamenta. Finalmente, Crackers é percebido pelos seguranças do parque. Diálogos reais: "Problemas em Fantasyland, câmbio." "Ele não é um dos nossos." Crackers é levado atrás de um "ameaçador portão verde" e revistado "até em suas partes mais íntimas". A seguir, é expulso do parque. O segurança diz (acho que a sério): "Você não é bem-vindo na Disneyworld".
"Cai fora, Mickey"
Longe de mim achar que devíamos copiar um modelo importado para fazer uma reportagem com humor. Mas essa proposta, séria na intenção e um humor absurdo na realização, me lembrou uma mistura do saudoso Ernesto Varela – personagem do Marcelo Tass que fazia perguntas inocentes e ao mesmo tempo incômodas e irreverentes – com o estilo do Casseta & Planeta. Não que os cassetas devessem mudar seu humor e começar a fazer denúncias. Mas alguém poderia usar a criatividade gasta nas pegadinhas, por exemplo (como os caras conseguem inventar tantas vezes a mesma coisa?), para revelar outros lados da realidade.
Nunca me esqueço de quando Varela, com aquela simplicidade peculiar, perguntou ao Nelson Piquet: "Mas afinal, atrás do que vocês correm tanto nessa pista?" Resposta do velho limão de imprensa: "Grana, meu amigo, grana".
A reportagem do Awful Truth termina com Crackers dando uma carona a um falso Mickey – um ator numa fantasia bem barata. "Gee, Crackers – diz o camundongo naquela vozinha falsete que teria sido inventada pelo próprio Disney – vou fugir com você. This place stinks!"
– Ei, Mickey, que tal se nós montássemos o nosso próprio negócio?
– He, he, legal! Eu conheço uma fábrica de brinquedos no Haiti que vende bem barato...
Crackers pára o carro.
– "Cai fora do meu carro, seu rato!" – e expulsa Mickey a pontapés.
GENTE INOCENTE
Chega de ingenuidade
Rafael Teixeira (*)
Não dá para comparar o Gente Inocente, da Rede Globo, com os saudosos Vila Sésamo e Sítio do Pica-Pau Amarelo e, mais recentemente, Castelo Rá-Tim-Bum. Mas, se não educa, o programa também não deseduca [veja remissão abaixo]. Até porque, grosso modo, desenhos que não incomodam ninguém, como Tom e Jerry e Pica-Pau, não acrescentam nada à cultura dos pimpolhos. Isso para não lembrar erros crassos cometidos em desenhos contra a história, como dinos e homo sapiens dividindo a mesma era nos Flintstones.
Já tive a oportunidade de ver Gente Inocente em duas ou três ocasiões. Não vi ninguém rebolar ou dançar na boquinha da garrafa. Márcio Garcia, garotão, não ensina de fato música clássica às crianças. Mas achar que perguntas como "sua namorada beija bem?" são sintomas de uma erotização precoce é ignorar o mundo em que vivemos hoje.
A informação está aí, disseminada (felizmente para uns, infelizmente para outros). Há exageros, é claro, e longe de mim querer defender a superexposição das crianças a sexo, violência e manifestações diversas de mundo-cão através da TV. Por outro lado, salvo engano, se o Raul Gil promove um concurso de Carlinhas Perez, em que meninas de 7 anos ficam rebolando de shortinho em frente às câmeras, é porque há pais que permitem que as filhas participem. Ou não?
A mídia não é nada inocente, é certo. Mas os pais estão precisando deixar a ingenuidade para trás.
(*) Estudante de Jornalismo

Dólar flutuou, mídia boiou e, um ano depois, ninguém naufragou
A mídia também flutua... junto com o dólar
A que nível descemos
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