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IMPRENSA & GOVERNO
Folha contra Folha
José Antonio Palhano (*)
"A lógica é precisa: um Calabi ganha importância porque os empresários são calabis, os intelectuais são calabis, os políticos são calabis, o Brasil é um país de calabis. Ou melhor, é um território de calabis, que país é outra coisa muito diferente."
O parágrafo acima foi o fecho de "Arremedo de país", artigo em que Janio de Freitas (Folha de S.Paulo, domingo, 27/2/00), mostrou-se horrorizado com o processo de calabilização que tomou conta da imprensa nos dias que se seguiram à degola de Andrea Calabi do BNDES, instância de terceiro escalão do governo federal.
O tiro de Janio, cirurgicamente preciso, atingiu a própria Folha em suas partes nobres, a começar pelo editorial "A Corte Fernandina". Apenas na página de opinião, seguiram-se Clóvis Rossi, Eliane Cantânhede e Carlos Heitor Cony, todos gravemente ocupados com Andrea Calabi e seu destino cruel. Curiosa e virulenta coincidência: a página 2, calabilizada até a medula, foi assim destroçada na mesma edição por Janio que, postado estrategicamente ali perto em sua casamata, se fez numa espécie de hacker endógeno, implacável, iconoclasta e mau feito um pica-pau.
Vá lá que tenha, ao longo do seu texto, lançado mão de indispensáveis prerrogativas, tais como citar a expressão "espeto de pau". Além disso, tem rodagem suficiente para sarrafear o jornal que o contratou de forma a não suscitar escândalos e hipocrisias costumeiras. Não é isto que importa. Uma leitura mais acurada daquela dolorosamente contraditória edição dominical dá margem a interpretações de diversidade inversamente proporcional ao maniqueísmo oficialista impresso na página 2. Impossível, por exemplo, fugir à constatação segundo a qual a síndrome calabítica, magistralmente descrita em "Arremedo de país", é entidade de terrível poder contaminante, para a qual ainda não se vislumbra a perspectiva de uma vacina eficaz.
Feito um vírus terrivelmente mutante, ataca de forma a fazer estragos tão graves como múltiplos e distintos entre si. Pouco lhe importa que a Folha siga heroicamente se afirmando como o-maior-jornal-e-mais-politicamente-correto-e-crítico-e-descolado-do-poder-do-Brasil. Ali, como se viu, sentiu-se em casa e não fez a menor cerimônia em inocular-se em quem lhe aparecesse pela frente.
Veja-se como agiu no editorial "A Corte Fernandina". Seu autor, movido por inspirações cult , foi pego numa crise de ingenuidade franciscana. Não que a referência à remotíssima e européia Versailles tenha sido supérflua. Nunca é demais comparar nossas elites ao tripé clero-nobreza-monarquia do período pré-Bastilha. Mas fulanizar o processo histórico, atribuindo a Fernando Henrique Cardoso o poder de – reencarnando reis franceses e malvados – comandar um operação de clonagem dos tipos e dos ventos daqueles tempos é um pouco demais.
A coisa, por irresistíveis critérios de antigüidade, nativos por definição, é bem maior que FHC e sua tribo (ou corte). Reconhecer isto, mais que livrar o sociólogo de tal fardo adicional, é tão somente entender que se trata de algo muito mais grave. "Corte Fernandina", assim, não passa de um libelo ao nosso (este sim atavicamente ligado à colonização) paternalismo velho de guerra. Mirar em FHC é insistir na bocejante tese de que o Brasil necessita dramaticamente de um herói. Ou de um vilão, o que é a mesmíssima coisa, apenas com o sinal trocado. O "episódio Calabi" não á um fato isolado. Protagonizou, no máximo, uma agudização de um mal terrivelmente maior, aquele que transformou as primeiras (e segundas e terceiras) páginas dos jornais tupiniquins em capitanias do poder. Novamente, não importa se com textos chapa-branca ou oposicionistas. O espaço é do governo e ponto final.
Trovões e relâmpagos
Descendo a malsinada página 2, depara-se com uma crise de calabilite bem distinta da anterior, à la Clóvis Rossi, folhetinesca por excelência. O moralismo aqui é gritante, a dizer de pérolas como "Calabi não escondeu a frustração pela maneira como se processou a defenestração...". ou "fez, portanto, papel de bobo durante duas semanas". No mais, o manjado batidão no qual supostas malvadezas e peçonhas do presidente da República são analisadas à luz do tratamento que dispensa "aos amigos". Já se disse, entre os anglo-saxões, que leis por aqui não pegam em razão de insistirmos numa exagerada intimidade com as instituições. Rossi se deu, assim, a uma performance extraordinária: desce a lenha em FHC, como sempre, mas paradoxalmente sugerindo que pode-se dar ao luxo de criticar o sistema escalando-se como um correspondente lotado na cozinha do Alvorada. Suas apreciações sobre Calabi , FHC & Cia são intoxicadas de julgamentos subjetivos, avocatórios, nos quais burila conceitos como o bem ou o mal, "isso não se faz", "que barbaridade!", "tinha que ser de outro jeito, onde já se viu!". Bem coisa de copeiras tagarelas e de motoristas indiscretos, há décadas doutrinados pela teledramaturgia do bairro do Jardim Botânico.
Um pouco mais abaixo, depara-se com Eliane Cantanhêde, cujo texto, mais abrangente e genérico, discorre sobre a crônica política nacional. Mesmo assim, não resistiu à calabilização do dia. A síndrome agora encontra lugar legitimando-se como uma variável dos nossos costumes capaz de explicar temas mais complexos e reais como, por exemplo, a tal greve de juizes trabalhistas. Não importa para quê, calabilizar é preciso.
Quanto à Cony, salvou-se pela sua condição de cronista consagrado, o que lhe obriga a se manter de plantão tão ligado como um médico intensivista (ou um mastim napolitano). A síndrome calabítica foi por ele tratada de forma a esculachar todo mundo, bem ao seu estilo. Assim como em inúmeras outras patologias, faz o tipo imune sem que ninguém saiba a causa. Mas não deixa de ser doloroso constatar que calabis e calabilizações representem a nossa mórbida tendência a curtir o poder de modo a se extasiar com a sua grandiosidade e, em conseqüência, com os estrondos de acomodação tão surrados e previsíveis pelos quais se perpetua. Somos algo como um povo primitivo adorador de trovões e relâmpagos. Não importa saber como Brasília carnavaliza o poder. O importante é que o barulho seja o maior possível. Aí é só comprar o jornal e não ter medo de ser feliz.
Mas, justiça seja feita, Janio não foi assim um solitário atirador de elite. Renata Lo Prete também disparou nos coleguinhas. Só discordou do primeiro na contagem das páginas calabilizadas. Registrou oito, contra as dez de Janio. Mas os dois merecem uma rodada de chope. A ele, por mais velho (e cavalheiro), deverá caber a conta.
(*) Médicon e jornalista
VEJA & CACÁ DIEGUES
Crítica no rés-do-chão
Paulo Polzonoff Jr
Sou um admirador da ironia. Mas acredito ser esta uma forma muito perigosa de fazer jornalismo. Ou o veículo está em sintonia perfeita com o leitor – e aí a ironia se torna expressão da inteligência – ou não está – então a ironia vira apenas um subterfúgio rasteiro para uma crítica ainda mais rasteira.
É neste último grupo que se incluem a Veja e os recentes artigos sobre Orfeu, o filme de Cacá Diegues que ganhou o Prêmio Glauber Rocha, numa canhestra clonagem do Oscar à moda tupiniquim, mas que não foi indicado à estatueta hollywoodiana. Desde já é bom afirmar que nada tenho a favor de Cacá Diegues. Os últimos dois filmes do diretor a que assisti considerei belas porcarias: Tieta e este Orfeu. O primeiro coube muito bem como novela global, como, de resto, a maioria dos livros de Jorge Amado; o segundo, baseado muito remotamente no mito grego, já teve uma filmagem aqui mesmo no Brasil, dirigida por Marceau, filmagem esta que à época deu a estatueta à França. Cacá errou feio a mão ao deixar-se levar pela intelligentsia global, que muito mal imita o mainstream de Hollywood.
A Veja há muito vem criticando irresponsavelmente o cinema nacional. Lembro que, quando do lançamento de O quatrilho, o semanário não poupou farpas à película; semanas mais tarde, quando o filme foi indicado ao Oscar, a revista lhe concedeu uma elogiosa matéria de capa. Grandes filmes que o capenga cinema nacional vem produzindo, como o competente Mauá e o encomendado O primeiro dia, mereceram comentários maldosos da revista que melhor reflete o pensamento de uma casta arrogante de jornalistas, que se pretendem perpetuar a fama (má) do crítico como dono-da-verdade. Tenho calafrios ao ler seus comentários de literatura e cinema, e posso sentir, como leitor, jornalista e apreciador tanto de literatura quanto da "sétima arte", o altivo ar de quem se pensa encontrar a mil pés de altura, no limbo dos supra-sumos, mas que escreve com a pena de quem nada enxerga do rés-do-chão onde realmente está.
A Veja, por seus críticos de pouca valia, pretende ditar o que o Brasil pensa, lê, vê e ouve. É muita prepotência para uma revista só. Portanto, mesmo sem gostar dos filmes de Diegues, entendo o porquê de seus "chiliques" quando a Veja pretende entrevistá-lo.
Qualquer pessoa de bom senso faria o mesmo. Desde que, claro, não tenha a cara-de-pau de muitos dos nossos "artistas".
Coisa fina
Que tipo de jornalismo é este que a Veja faz? Cultural eu tenho certeza de que não é. Um jornalismo "de idéias democráticas" também não. Um jornalismo "de verve humorística" muito menos. Um jornalismo à Village Voice não mesmo, porque neste semanário americano pelo menos os artigos são fundamentados e usam um mínimo de caracteres para compor uma resenha legível. Cacá Diegues ocupou espaço minúsculo, certamente a maior concentração de insultos por centímetro quadrado da imprensa, na semana.
Não saio, disse e repito, em defesa de Cacá Diegues; saio, sim, em defesa de um jornalismo cultural do qual sou representante, com um mínimo de respeito por cineastas, escritores, cantores, atores, por piores que sejam seus trabalhos. A regra é muito simples: se não gosta e não é relevante este ou aquele filme ou este ou aquele livro, simplesmente ignore. O público e os leitores agradecem.
PS: Sugiro aos jornalistas da Veja a leitura urgente de Oscar Wilde e Machado de Assis. Quem sabe eles aprendem a escrever com ironia fina...
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