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A HISTÓRIA SEGUNDO VEJA
Entre o documento e o entendimento

Francisco Moreno de Carvalho

Há sempre duas maneiras de se acertar um alvo: procurando com afinco acertar a meta ou dando um tiro e depois pintando o alvo à volta do orifício feito pelo projétil. Parece que há jornalistas e historiadores que optam pela segunda maneira.

O jornalismo procura a notícia, o "furo". Vende mais jornal, ou revista, quem divulgar antes dos outros, ou quem descobrir o que era até então inédito. Processo parecido existe também na vida acadêmica. Quem divulga antes sua descoberta, ou descobre primeiro algo inédito, leva os méritos. Por alguns meses Freud perdeu a possibilidade de entrar para a história, também, como aquele que descobriu os efeitos anestésicos da cocaína. A patente do elevador, então, foi uma questão e horas.

A imprensa costuma noticiar "grandes e inéditas descobertas". Sem dúvida, a divulgação de novos achados é papel importante exercido pelos meios de comunicação. Mas o tom bombástico que acompanha algumas destas matérias pode talvez vender um pouco mais de jornal mas com certeza colabora para apequenar a imprensa que a publica. Uma matéria menos histriônica e mais comedida pode também vender jornal e informar melhor o público. Tivemos nas últimas semanas dois exemplos ilustrativos.

A revista Veja, edição de 19/3/2000, trouxe matéria sobre novos documentos (na verdade, parte deles já conhecidos) encontrados nos arquivos do Itamaraty, demonstrando o racismo de diversas autoridades brasileiras em relação aos judeus durante a ditadura Vargas. Se história é feita de documentos, não é menos verdade que entendê-los é condição fundamental para qualquer trabalho de pesquisa. Isto significa que o documento precisa ser contextualizado; mapeado em meio a seus congêneres e analisado à luz de fatos que gerou ou em relação aos quais foi produzido. Nos anos 30 do século 20 não apenas o Brasil empreendeu uma política discriminatória em relação aos judeus, mas quase todos os países do mundo fizeram o mesmo. Ninguém menos que Leon Trotsky, numa célebre e esquecida entrevista a um jornal de língua idisch, em 1938, declarava que o planeta havia se convertido numa prisão para os judeus. Sem a compreensão deste fenômeno, é impossível entendermos fatos tão díspares como a criação do Estado de Israel, em 1948, e a política da ditadura Vargas em relação aos imigrantes judeus. Sem conhecer-se a extensão e influência do fascismo, nada poder-se-á saber sobre o integralismo, o modelo populista de Estado criado por Vargas e o preconceito contra os imigrantes de parcelas significativas da elite brasileira de então.

Novela mexicana

A matéria de Veja fez tábula rasa de todo este assunto. Sem nuances, sem tratar de entender o que os documentos realmente diziam, misturando e confundindo opiniões díspares de diversos historiadores, fez um Aqui Agora com o tema do anti-semitismo no Estado Novo. Montada a lona e o picadeiro, no circo das vanidades e vaidades (jornalísticas e acadêmicas) fica a imprensa reduzida ao sensacionalismo e o público parcialmente informado.

Melhor fez o Estado de S.Paulo, edição de 28/3/2000. A chamada "ditadura Vargas evitava judeus nas forças armadas" traz apenas um aspecto da matéria publicada e do documento encontrado. O jornal, se tivesse sido menos bombástico, teria acertado em revelar um documento de setores das forças armadas, durante a ditadura Vargas, que lutava contra o preconceito anti- semita! É este o teor do documento revelado e mais importante do que a posição que ele vem combater, contra a inclusão de judeus nas forças armadas. Não só demonstra que havia um "racha" nas forças armadas, como traz à luz a disposição de parte da inteligentsia militar em lutar contra este tipo de preconceito – fatos bem assinalados por historiador entrevistado pelo jornal, numa prova a mais de respeito ao leitor. O Estadão também não deixou de assinalar dados relevantes, como ter sido o Brasil um dos países que mais recebeu judeus nos anos 30 e 40 e trazendo testemunho inequívoco da posição anti-nazista de Oswaldo Aranha.

Fica assim claro que há formas distintas de se abordar o tema da novidade e do achado, sem que com isso o leitor tenha que se sentir diante de uma novela mexicana.

Temas que envolvem o Holocausto são vulneráveis a ser banalizados por um roteiro rastaqüera de mocinho contra bandido. Só que neste bang-bang, no qual os alvos são pintados a posteriori, sai perdendo o leitor e qualquer tentativa séria de se entender o passado.

(*) Médico e historiador

 

ASPAS
Pedro Corrêa do Lago

Seção de cartas, copyright Veja, 29/3/00

"O que foi revelado de tão novo na reportagem ‘Preconceito oficial’? O fato de que diplomatas brasileiros de menor importância eram anti-semitas? Não há dúvida de que havia vários anti-semitas notórios no Império, na República Velha e no governo Vargas. Repetir frases revoltantes dessas figuras ou ‘pesquisar’ aqui e acolá novos textos chocantes é muito fácil e de efeito sempre garantido. Difícil é partir da simples coleta da amostragem e escrever história. A história que a senhora Tucci Carneiro oculta é que nenhum país do mundo recebia imigrantes livremente, e o Brasil, apesar das restrições, foi a segunda nação que mais acolheu judeus de 1938 a 1942, enquanto Oswaldo Aranha era chanceler. Para alcançar os quinze minutos de fama que sua abalada reputação acadêmica não lhe traz, a senhora Tucci Carneiro requenta periodicamente o intragável café frio do suposto ‘engodo’ Oswaldo Aranha. Prefiro ficar com a conclusão de VEJA em 15 de abril de 1998: ‘Aranha foi acusado erradamente de cúmplice do holocausto ao recusar vistos de imigração para judeus.’"

 

TANGO DESAFINADO
Rosário de clichês

Isac Nunes da Luz Cordeiro

Dispus-me a ler a longa reportagem publicada na revista Veja, edição de 29/3/2000, de autoria do Sr. Raul Juste Lores, a respeito da crise na Argentina, e a única crise que pude constatar é a crise ética do pretenso jornalista, que não conseguiu escrever uma só linha sem mostrar pérolas de lugar-comum, preconceitos, parti pris. Percebi que estava tudo reunido ali: um rosário de clichês repisados, triviais, que não acrescentam absolutamente nada à idéia preconcebida de que os argentinos não gostam dos brasileiros e ponto final. Isso não é verdade. Qualquer pessoa que for à Argentina verá que isso não existe, é um sofisma inventado do lado de cá da fronteira e alimentado de tempos em tempos pela imprensa brasileira.

Qual interesse haveria por trás disso? Por que levar sempre o problema econômico a uma esfera de inimizade em relação aos brasileiros? É preciso ter muito tato para separar o que são produtos fabricados no Brasil de brasileiros como povo, gente.

Povo "caprichoso"

Quanto aos argentinos, a reportagem leva a entender que, já que eles têm, em conjunto, dados econômicos e sociais mais positivos que os do Brasil, não precisariam lutar para melhorá-los, o velho "chorando de barriga cheia". Não é bem isso que mostra a realidade atual. Eu vejo que na Europa há freqüentes manifestações de trabalhadores alemães, franceses, espanhóis para melhorar sua situação ou para garantir a manutenção das conquistas. Isso é legítimo e salutar em países democráticos. Por que na Argentina seria um "capricho"?

Percebo também uma pontinha de ironia quando o repórter diz que "eles" também têm favela, como se não fosse sabido que este é um problema das grandes cidades em todo o mundo, das européias inclusive. Em Berlim e Paris há pedintes na rua; em Buenos Aires também, infelizmente.

Quanto à frase do escritor Jorge Luis Borges que o repórter cita, quem não sabe que o escritor fazia ironias para depois rir da cara dos que as levavam a serio? Há testemunhos de pessoas que conviveram com o poeta: Borges nunca dizia o que realmente pensava; remeto-me ao outro poeta, o português, que disse: "O poeta é um fingidor."

 

BRASIL OUTROS 500
Censura ou incompetência

Thiago Benichio
(*)

Realmente o monopólio das comunicações no Brasil torna os veículos de imprensa cegos a acontecimentos importantes. Em 22/3, um ato organizado pelo Comitê Brasil Outros 500 (do qual não fazem parte apenas estudantes) levou cerca de 800 pessoas, segundo o comando da PM, à Av. Faria Lima, em frente ao Relógio da Globo, em São Paulo. O protesto era contra as comemorações oficiais dos 500 anos do Brasil, promovidas pelas elites, que há 500 anos são responsáveis pelo eterno estado de barbárie deste país.

Infelizmente, a Globo não está sozinha entre os grandes manipuladores do povo brasileiro, que tentam esconder passado e presente, proporcionando apenas a euforia unfanista de um país que fecha os olhos a sua história. O Grupo Folha (dos jornais Folha de S.Paulo, Agora, Notícias Populares, parceiro da Abril no site UOL e de O Globo no Valor, o novo jornal de economia – monopólio ou não?) simplesmente ignorou ou distorceu os fatos.

Para a Folha, nada aconteceu na Av. Faria Lima na tarde quarta-feira. O jornal simplesmente não noticiou um ato que parou o trânsito por cerca de três horas, em uma das mais importantes avenidas do país, e deixou marca visível qualquer paulistano que passasse pelo local (o relógio foi atingido por bombas de tinta e pedras).

O Folha Online, no site do UOL (Grupos Folha e Abril), distorceu de forma absurda a realidade: disse que o ato era contra o prefeito Celso Pitta (!!!) e que cerca de 300 estudantes – a PM calculou 800 pessoas, e a organização, 1.500 – haviam entrado em confronto com a tropa de choque (outra inverdade, pois eram PMs comuns), sem explicar os motivos, ou dar detalhes do ocorrido (quando não dá para mentir, é só não contar).

O jornal Agora, apesar de contar uma versão próxima do acontecido, simplesmente ignorou o mais importante: o motivo do ato. Disse que os estudantes estavam passando pela Av. Faria Lima e resolveram apedrejar o relógio. Aliás, não é citado o nome da Globo: "Manifestantes jogaram tinta e pedras em relógio da Av. Faria Lima que marca a chegada de 22 de abril – data da comemoração do descobrimento do Brasil"). Ora, "em um relógio"...

Estado de violência

Entre os veículos impressos, a melhor cobertura ficou com o Diário Popular, que trouxe relato imparcial da manifestação. Deu nome aos bois e não distorceu a realidade. O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde JT deram o mesmo texto: frio, mas, de certa forma, fiel aos fatos.

Na televisão foi pior ainda. Nenhuma emissora estava presente. A Bandeirantes conseguiu imagens e divulgou a mesma mentira do UOL, só que de forma mais reacionária e sensacionalista: disse que o ato era contra Pitta, que havia 300 pessoas e que os "estudantes baderneiros", sem motivo, resolveram quebrar o relógio da Globo.

Infelizmente, esta é a realidade de um país em que a esfera pública é literalmente dominada por interesses particulares. Enquanto esta máfia, formada por políticos, órgãos de imprensa, montadoras de automóveis, empresas de telecomunicação privatizadas, fiscais da prefeitura, e outros integrantes da elite nacional e internacional não desaparecer, o Brasil continuará neste crescente estado de violência, miséria e barbárie. Já basta deste oligopólio que há 500 anos explora e violenta o povo brasileiro.

(*) Estudante, São Paulo

 

PÉROLAS
A Folha e o papa

Carlos Müller

Estamos apenas em abril, mas a Folha garante o troféu Umbigo de Ouro por antecipação! "Papa João Paulo refaz percurso de colunista". O título publicado em 23/3/00, pag. 3-2, foi inacreditável! Só vendo para duvidar. É preciso reproduzir para provar e, mesmo assim, considerando-se o que se anda fazendo com tratamento de imagens, sempre restará uma dúvida: será que trocaram os títulos das colunas da Barbara Gancia e do Macaco Simão? Afinal, tudo é possível num jornal que já enforcou (sic) Cristo.

 

Estadão chove no molhado

Cristiane Carvalho

Graças à matéria publicada em 29 de março pelo Estado de S.Paulo, agora podemos afirmar o óbvio com certeza absoluta. Ao comentar pesquisa de Ricardo Paes de Barros, do Ipea, sobre a Previdência Social, a jornalista Eliane Azevedo afirma: "Ao contrário do senso comum, o estudo de Barros mostra que os velhos são mais bem-assistidos pelo governo do que as crianças. A pesquisa constata que, na faixa de (sic) etária até 10 anos, há duas vezes mais crianças pobres do que idosos."

Não é formidável? Entre os menores de 10 anos há mais crianças pobres que idosos!!! Estaria a jornalista querendo dizer que há mais pobres nesta faixa etária do que entre os idosos? Esperamos que sim, já que para saber que entre crianças há mais crianças basta ir ao parquinho mais próximo.



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