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MÍDIA E NARCOTRÁFICO
Perguntas ausentes
Entrevista de John Burns, por Mauro Malin

ohn Burns foi padre católico. Chegou ao Brasil em 1958 para trabalhar na paróquia dos Jardins, bairro rico de São Paulo. "Logo que cheguei, conheci a Brahma gelada. E me realizei. Adorei. Ser padre era minha profissão. Beber, minha vocação." Em 1968, deixou a batina, não o álcool.
Foi diretor do programa Voluntários da Paz, do governo dos Estados Unidos, conheceu todo o Nordeste. Casou-se com uma brasileira. "Em 1978, o governo americano me encaminhou para um instituto de psiquiatria em Washington."
No início dos anos 80, tinha deixado o álcool. Voltou ao Brasil e, com apoio da Johnson & Johnson, criou no Rio de Janeiro a Vila Serena, centro de tratamento de dependência química, que hoje funciona em dez cidades do país.
Burns está convencido de que a grande imprensa, no Brasil e nos Estados Unidos, é incapaz de fazer perguntas cruciais a respeito de sua própria relação com o assunto drogas:
- Será que as notícias, na maior parte provenientes da Polícia, estimulam o uso?
- As atividades de prevenção nas escolas são eficazes ou produzem efeito contrário ao esperado?
Mas acha que a mais importante pergunta também está sendo esquecida:
- Por que se consomem drogas nas escolas?
"Essa pergunta não é feita, e todo o enfoque da imprensa recai num julgamento moral. Entretanto, as drogas que mais matam são as legais, plenamente apoiadas pelos meios de comunicação", constata. "Imagine como seria o noticiário se cada dia caísse um Boeing 747 com 250 passageiros. Pois nos Estados Unidos a nicotina está associada à morte de mil pessoas por dia. São quatro Boeings por dia. O álcool, à morte de 250 mil pessoas por ano. Já as mortes por overdose de drogas ilegais não chegam a 25 mil por ano."
Na publicidade, o cigarro está associado ao estilo do caubói, ou à habilidade e à coragem dos pilotos de corrida. Cerveja é confraternização. Vinho e uísque, requinte.
- Maconha, cocaína e anfetaminas são consideradas imorais. Questionam a estrutura da sociedade. A imprensa adota uma atitude que reforça o aspecto moral. Combate a droga como uma ameaça à sociedade.
Promoção da heroína
Por não fazer as perguntas certas, segundo Burns, a mídia acata, no Brasil como nos Estados Unidos - embora sejam formações sociais e culturais muito diferentes -, concepções policiais estreitas, ou, de modo mais abrangente, idéias feitas de quem ganha a vida combatendo as drogas ilegais. E serve inadvertidamente aos interesses de quem produz e vende drogas.
O ex-padre nascido no Ohio, numa família de origem irlandesa e bávara que teve dez filhos - dos quais seis se tornaram freiras, três se tornaram padres e um casou-se e teve catolicamente dez filhos - dá o exemplo da heroína:
"No Brasil, a heroína praticamente não existe. Em nossos dez centros, do Ceará ao Rio Grande do Sul, jamais nos deparamos com um só caso de dependente de heroína. Mas certamente esses casos vão aparecer. Sabe por que tenho esta certeza? Porque no Congresso da Abead (Associação Brasileira de Estudo do Álcool e outras Drogas) de 1997 havia um estande promovendo a metadona, heroína sintética. O que se diz? Que ela não tem o mesmo impacto negativo da heroína natural, mas alivia a compulsão. Agora, aparece o Denarc (Departamento de Narcóticos da Polícia Civil do estado de São Paulo) dizendo que a heroína está no Brasil."
Relembra toda a divulgação dada às drogas do "Santo Daime":
- Há mais de 150 plantas psicoativas de fácil acesso na Amazônia. Criou-se na época uma grande procura. E é uma péssima droga, que faz a pessoa vomitar, provoca mal-estar.
Há 15 anos vai a congressos sobre alcoolismo no mundo inteiro e nunca viu ninguém abordar um assunto crucial, que também não encontra na literatura especializada: a relação entre o uso de drogas psicoativas e a criatividade.
"Jack London, Hemingway, Steinbeck, ganhadores do Prêmio Nobel, todos alcoólatras. Tim Maia morreu e não se tocou praticamente no assunto (ver abaixo remissão para artigo de Ruy Castro). Mozart morreu jovem por causa do álcool. Na televisão e no cinema, não tem solução. Faz parte do clima. Mas o que ninguém se pergunta é se as pessoas são criativas por causa das drogas ou apesar das drogas."
Burns está entre os que consideram o uso de drogas uma questão essencialmente cultural:
- Não existe cultura humana que não use substância psicoativa. Vinho e cerveja são registrados nas sociedades mais antigas. Até os animais usam plantas fermentadas. O homem sempre teve acesso a drogas para modificar o que estava sentindo.
A pergunta seguinte é: por que a sociedade americana é a maior consumidora de drogas do mundo?
- No começo do século, heroína e opiáceos eram drogas legais nos Estados Unidos. Mas as perguntas certas não foram feitas. Ao contrário, foram evitadas. Hoje, a DEA, agência americana que combate as drogas, já mede o volume de cocaína apreendida em toneladas métricas. Não contam mais o dinheiro, pesam. Como americano, entendo o que acontece. Vou tentar transmitir o que sinto. Existe um ideal americano, um puritanismo conservador que procura proteger um estilo de vida essencialmente cristão, monoteísta. Mas a necessidade de manutenção do american way of life está cada vez mais em conflito com o que acontece no resto do mundo. Nasce daí o que lá se chama de "diferença cognitiva". Se a pessoa não consegue suportar esse confronto, apela para as drogas. É difícil agüentar ser americano sem usar alguma substância.
Já o Brasil, segundo Burns, tem condições muito melhores para enfrentar o problema: "O Brasil é politeísta."
"Just say k(no)w"
A proposta de John Burns para tratar com a questão das drogas, em empresas ou em escolas, é dar às pessoas as explicações necessárias:
- Quero explicar a cada pessoa o que é a cola, o álcool, a nicotina. Como se usa, em que circunstâncias, o contexto social. Então essa pessoa pode fazer uma escolha. Isto se aplica principalmente aos jovens. Todos, com certeza, vão experimentar. O que proponho é que estejam preparados para escolher, ou para rejeitar.
Faz um jogo de palavras com programas de prevenção nas escolas americanas baseados no slogan "Just say no" ("Apenas diga não", o equivalente a "Diga não às drogas"), que, como muitas pessoas nos EUA, critica (ver abaixo). Transforma o "no", "não", em "know", "sei", "saber". "Just say know": "Diga eu sei".
Legalizar ou descriminalizar seriam soluções?
- Não, ninguém sabe o que aconteceria. O correto seria talvez medicalizar. Você vai a um profissional que lhe dá uma receita para sua Brahma, sua nicotina, sua cocaína. Por sinal, no Brasil, se realmente há ameaça, é no terreno dos tranqüilizantes e estimulantes, os Lexotans e os Prozacs. Já recebemos telefonemas de muitas empresas perguntando se podemos ajudar. É grande o número de médicos que não sabem deixar de receitar. Não controlam a situação. São incapazes de questionar o estilo de vida da pessoa, então medicam. Medicalizar seria colocar a droga no contexto da saúde, retirá-la do terreno moral.
Escola questionada
Burns aborda novamente o comportamento da Polícia e da imprensa. Não pensa que a Polícia queira conscientemente incentivar o uso de drogas, mas que o faz inadvertidamente, nisso acompanhada pela imprensa, incapaz de desenvolver linhas próprias de investigação e debate.
- O crack está aparecendo nos canaviais do interior de São Paulo - adverte. Não há mistério: quantas horas de televisão a criança vê no interior? Todo mundo tem televisão. Ao mesmo tempo, o Denarc adora falar em traficantes, pipoqueiros e sei lá mais o que na porta das escolas. Mas ninguém faz a pergunta certa: por que na escola? Apenas se diz que é errado, imoral, ameaça nossa escola e nossa sociedade. Será que os 50% de brasileiros que não querem ir à escola estão inteiramente errados?
Exibe reportagem de uma página do jornal brasileiro que mais respeita, a Gazeta Mercantil, como demonstração de que o Brasil está seguindo irrefletidamente o modelo americano dominante (ver texto seguinte de M.M.).
A linha de argumentação se articula aqui com uma ordem de problemas distinta. John Burns está convencido, como muitas outras pessoas, de que o formato atual da escola é insano, completamente superado. Comenta o livro The Overworked American: the unexpected decline of leisure, de Juliet Schor, ("Excesso de trabalho do americano: o declínio inesperado do lazer", em tradução livre, publicado nos EUA em 1991):
- Juliet Shor explica primeiro como pessoas não habituadas ao trabalho industrial resistiram naturalmente a ele. Depois, diz que muitos empregadores e reformadores sociais convenceram-se de que a população adulta era irremediavelmente inapta para o trabalho na fábrica. Voltaram-se então para as crianças, esperando que "a escola primária pudesse ser usada para forçar as classes trabalhadoras a adquirir a disciplina do trabalho agora necessária para a produção industrial. (....) Colocar criancinhas na escola, por longas horas, para estudar assuntos muito enfadonhos, era visto como algo positivo, porque as tornava habituadas, quase naturalmente adaptadas, ao trabalho e ao cansaço".
Burns mostra em seguida mensagem que recebeu do filho de um ex-padre jesuíta recentemente formado na Escola de Economia de Stanford, a respeito do livro The Credential society: an historical sociology of education and stratification, de Randall Collins ("A Sociedade de credenciamento: uma sociologia histórica da educação e da estratificação", em tradução livre, publicado nos EUA em 1979):
"O que emerge", escreve o rapaz, chamado Sean, "é principalmente a história de como profissões ergueram barreiras à entrada em seu território, barreiras que restringiram artificialmente o suprimento de seus serviços e, assim, tanto aumentaram a garantia do emprego como inflacionaram as remunerações. Há também uma história das profissões protegendo seus empregos, status e remuneração da competição com campos associados muito próximos, como, por exemplo, os médicos em relação às enfermeiras. (....) E há a história igualmente importante da indústria educacional de massa - desde a escola primária até as faculdades -, que teve um papel amplo na manutenção do statu quo e em apresentar-se como única fonte válida de conhecimento."
Impossível discutir o avanço das drogas nas escolas sem discutir o atraso das escolas. Impossível entender os assuntos, e capacitar-se a lidar com eles, quando se pratica jornalismo com antolhos, segmentado, desarticulado.

Mídia pautada pela polícia, escolas incapazes de se questionar, M.M.
Dare's effectiveness questioned
Dare we admit it? Drug war is a bust with our children
The Six-Lesson Schoolteacher, John Gatto
VIOLÊNCIA
Roteiro para discussão, Victor Gentilli
Na TV, mata, Isak Bejzman
O Circo da Notícia, Alberto Dines
Drogas : a dubiedade dos Poderes Públicos e de parte da mídia, Arthur Pinto Filho
Paradas de sucessos das FMs são termômetros da escalada das drogas, Ruy Castro
Ainda a violência, Entre aspas
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