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ARTIGO 222
Observatório vai à Câmara
para esclarecer debate
Alberto Dines
Reconhecendo a instituição que acionou o debate público sobre a modificação do artigo 222 da Constituição (que trata da propriedade dos meios de comunicação), a Comissão Especial da Câmara dos Deputados convidou o Observatório da Imprensa para informar os seus integrantes sobre as razões que a tornam premente.
A iniciativa partiu do deputado Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP) primeiro relator do Projeto de Emenda Constitucional (hoje encarregado de relatar a Reforma do Judiciário) e foi endossada pelo atual presidente da Comissão, deputado Ayrton Xerez (PSDB-RJ) e o seu relator, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN). O depoimento ocorreu no dia 26/5/99, às 14h30.
A questão da propriedade das empresas jornalísticas vem sendo acompanhada ultimamente pela mídia nos seus aspectos mais sensacionais: a permissão para a entrada de grupos estrangeiros no setor, até agora claramente proibida no texto constitucional. A própria exposição deste Observador foi registrada de forma imprecisa: sendo favorável à participação de capitais estrangeiros considera a questão como secundária (mesmo porque 90% dos grandes grupos nacionais já têm participação estrangeira velada). Mais importante é a democratização do capital das empresas jornalísticas através da abertura acionária e a livre captação de recursos no mercado de capitais.
A exposição foi iniciada como uma radiografia da situação das empresas jornalísticas brasileira e a constatação da gravidade da situação em que se encontram. Eis um rápido resumo:
** Os principais grupos são familiares e apesar da nossa extensão territorial o seu número é inferior a dez. O New York Times, a empresa jornalística mais rentável do mundo, é também uma empresa familiar mas grande parte das suas ações podem ser compradas no mercado - o que garante a sua sobrevivência e expansão.
** Todos estão muito endividados, alguns tecnicamente falidos. O único grupo que não tem dividas em eurobônus é a Folha de S.Paulo [veja remissão abaixo].
** A maioria dos grandes grupos foi obrigada a diversificar em atividades não jornalísticas em sociedade com capitais internacionais (telefonia, telecomunicações, TV por assinatura, TV por satélite, Internet, listas telefônicas, gráficas, etc.)
** Para gerar receitas, as empresas jornalísticas entregaram-se de maneira irresponsável a malabarismos de marketing e à comercialização de outros produtos dentro dos seus veículos numa clara secundarização da sua atividade-fim. A produção de informações, voltada para aumentos de tiragem/ audiência e atropelando os procedimentos mínimos de responsabilidade social, denotam uma perigosa hegemonia dos interesses pecuniários. A descapitalização é, em ultima análise, a responsável pelo desvario jornalístico ora em curso.
** Atinge não apenas as empresas que operam nos grandes centros. Afeta também, e talvez até mais duramente, as empresas do interior dos estados. O estado de São Paulo, que possui a mais antiga e rica imprensa interiorana, assiste hoje ao seu paulatino desmantelamento.
** As quase 100 escolas de jornalismo colocam no mercado a cada semestre um número de profissionais que, nas condições atuais, jamais terá acesso ao mercado de trabalho. Ou dele participarão em condições aviltantes.
** Uma sociedade cuja imprensa vive à beira do abismo - isso sem mencionar a crise de identidade que assola o jornalismo mundial - não pode estar tranqüila.
Este Observador também entregou à mesa que dirigia os trabalhos da sessão um aide-memóire sobre a questão da propriedade das empresas jornalísticas, abaixo transcrito integralmente.
Por que alterar o artigo 222?
Para permitir que a empresa jornalística brasileira possa desenvolver-se em condições de normalidade e, devidamente capitalizada, assuma plenamente suas responsabilidades sociais
Para permitir a democratização do capital da imprensa brasileira e evitar que a empresa jornalística deixe de ser instrumento de algumas poucas famílias ou grupos de pressão econômicos, políticos ou religiosos.
Para permitir que pessoa jurídica possa ser proprietária de empresas jornalísticas sem limite de capital.
Para permitir a entrada legítima de recursos nas empresas jornalísticas através do mercado de capitais atraindo fundos de investimento e fundos de pensão. Nesse sentido, as ações em mãos de pessoa jurídica devem gozar plenamente do direito a voto.
Para evitar a concentração da mídia e, sobretudo, oligopólios.
Para permitir de forma transparente a entrada de capitais estrangeiros no mercado da mídia dentro de certos limites. Esta participação estrangeira em nossa mídia já acontece de forma velada e informal. Mas, no caso de uma instituição da importância da imprensa, para que sua credibilidade não fique comprometida, é indispensável que as associações entre grupos nacionais e internacionais sejam claras.
Para atrair investidores para o mercado regional de jornais, hoje muito aquém do seu potencial e, em grande parte, dominado pelo coronelismo político.
Para criar mais postos de trabalho (razão pela qual a idéia foi apoiada no passado pela Fenaj).
Para melhorar a qualidade da mão de obra que assim poderá sair da universidade para os jornais regionais, deles para os jornais metropolitanos e, depois, para as revistas e redes de TV nacionais.
Para aumentar a concorrência e melhorar os padrões (especialmente na imprensa diária).
Conclusão: A entrada de capitais estrangeiros na mídia brasileira é secundária. As alterações propostas não visam sua desnacionalização, mas a democratização do capital."
Outra questão que está provocando grande celeuma dentro da Comissão Especial é a proposta endossada pelos deputados ligados às seitas evangélicas. Querem criar dentro da Constituição um dispositivo, casuístico, que isentará de tributos as entidades filantrópicas proprietárias de emissoras de rádio e TV.
A questão confronta a Globo, a Bandeirantes e o SBT de um lado e a Record de outro. Provocou um racha na Abert com a saída da Record e da TVA e a criação da Abatel (a Abril, no caso, movimenta-se apenas em função de seus interesses contra a Globo).
Indagado pelos deputados ligados às seitas evangélicas a respeito de suas pretensões este Observador foi claro: uma República verdadeiramente democrática deve ser secular. Religião deve estar separada do Estado, portanto atividades religiosas não podem gozar de privilégios.
Voltaremos ao assunto.
Um só jornal em cada cidade
Wilson Marini (*)
A imprensa do Interior paulista acaba de perder mais um jornal importante. O Diário de Bauru anunciou o seu fechamento, após mais de 50 anos de existência. Bauru é uma cidade de 103 anos, portanto o jornal cobriu exatamente a segunda metade de sua história. Meio século batendo diferentes rotativas, até chegar na era do colorido e morrer na praia.
Em seu lugar, os proprietários decidiram lançar um semanário, Dia D. Não cumpre o mesmo papel, pois a cidade fica agora limitada na informação diária a apenas um veículo, o Jornal da Cidade.
Em 1997, Araçatuba perdeu A Comarca, após 70 anos de circulação diária. Sucumbiu à concorrência da Folha da Região.
Em Campinas, o Correio Popular incorporou em 1996 o concorrente, o Diário do Povo, que pertencia a Orestes Quércia. Continua com dois jornais, mas de uma mesma empresa jornalística.
São três exemplos do processo de enxugamento da mídia impressa paulista nos últimos anos.
Há uma tendência nítida de concentração da mídia impressa regional do Interior paulista. Desenha-se para os próximos anos o perfil de apenas uma empresa jornalística em cada região. O fenômeno já é verificado nas maiores cidades do estado, desde o começo dos anos 80. No ABC paulista, domina sozinho o Diário do Grande ABC (Santo André). Em Santos, reina A Tribuna e em São José dos Campos, o ValeParaibano.
Outras cidades tendem a seguir o mesmo caminho, mais cedo ou mais tarde. Piracicaba ficou com um diário, o Jornal de Piracicaba. Em São José do Rio Preto, o Diário da Região domina o mercado e dispara como o grande jornal regional sem ser incomodado pelos dois pequenos concorrentes, Dia e Noite e Folha de Rio Preto.
Paradoxalmente, cidades importantes do estado, nos pólos de expressão econômica do segundo maior mercado consumidor do país, contam com apenas um jornal, quando agora, mais do que nunca, precisariam da pluraridade.
O que conduziu a essa situação foi a modernização gráfica e dos processos, na tentativa de se equiparar aos padrões da chamada "grande imprensa" do eixo Rio-São Paulo.
Não foram os grandes jornais da capital paulista que sufocaram a concorrência nessas cidades, mas sim a limitada capacidade de investimento das empresas locais no momento em que os mercados se expandiram e assumiram novos estágios.
A concorrência direta de jornais como a Folha de S.Paulo e O Estado de S.Paulo nas cidades do interior paulista não é predatória. Os leitores, por natureza, dão preferência aos veículos locais e regionais.
Ainda existem cidades médias do interior com mais de um jornal. É o caso de Jundiaí, Americana, Limeira, Rio Claro, Araraquara, São Carlos, Marília, Presidente Prudente, Franca, Sorocaba e Ribeirão Preto, para mencionar algumas. Mas nada indica que esse quadro irá persistir nesta virada de milênio. Muitas das empresas ora parecem teimar em sobreviver, endividadas, ora fazem acordos políticos e diversificação de foco, comprometendo a independência editorial - o que põe em risco sua sobrevivência futura como empresas.
Com base no que está se verificando nas maiores cidades, pode-se prever com segurança de que cada cidade está fadada a ficar com apenas um jornal.
Em todo o interior há apenas dois casos de investimento como tentativa de quebrar o monopólio, nos últimos cinco anos. Em Americana, lançou-se o TodoDia para combater o tradicional O Liberal. E em Presidente Prudente, o Oeste Notícias foi criado para se colocar como alternativa ao O Imparcial. Em ambos os casos, os jornais mais antigos se prepararam bem para a guerra e estão, por ora, levando a vantagem. O que mostra não só o quanto é difícil romper com o hábito de leitura, mas também a dificuldade de sucesso empresarial em novos empreendimentos, fator que certamente é levado em conta quando se cogita o lançamento de novos títulos.
É por isso que a forte Ribeirão Preto, capital econômica do interior, clama por um jornal, mas ninguém tem coragem de estabelecer concorrência aos dois diários ali existentes, mesmo sendo estes fracos.
É digno de análise mais profunda o fato de nas maiores cidades (como Campinas, São José dos Campos, Santos e Santo André) num raio de 100 quilômetros em torno da capital, ter sobrevivido apenas uma empresa jornalística em cada uma delas.
São cidades influenciadas pela tendência de descentralização industrial e que por isso apresentam os maiores índices de crescimento demográfico. Teria sido uma depuração de mercado imposta pela necessidade de modernização do produto e conceitos jornalísticos?
Campinas tem 1 milhão de habitantes e é cidade-pólo de uma região que abriga 2,5 milhões de habitantes. Santos, Santo André e São José dos Campos, igualmente, são as "capitais" das regiões mais importantes de São Paulo, depois da capital.
Nas cidades mais distantes da capital e com menor concentração urbana e econômica, as empresas jornalísticas produzem baixas tiragens, estão descapitalizadas e vivem a crise existencial de uma indústria que exige investimentos e atualização permanentes para fazer páginas coloridas e chegar mais cedo aos leitores; ao mesmo tempo, revelam baixa capacidade de aprimoramento jornalístico, que seria obtido com investimento em pessoal, esforços de reportagem e qualificação geral das equipes. Esse será o fator que proximamente conduzirá à extinção de mais jornais.
Daí, vale perguntar o que é melhor para a uma cidade. Ter um só jornal, porém forte e consciente do grau de independência, ou dois ou três jornais medindo um espaço que parece exíguo a todos?
(*) Jornalista, consultor editorial e sócio-diretor da Marini Jornalismo Regional S/C Ltda. E-mail clipping@blv.com.br
ASPAS
Ricardo Lessa
"O grupo multinacional Hebdomag, com sede em Paris e controlador de mais de 100 jornais de anúncios classificados em todo o mundo, entre eles o poderoso Autotraders, dos Estados Unidos, está estendendo seus braços para a América Latina. Um ano e meio depois de arrematar o argentino Segunda Mano, comprou o jornal Balcão, editado no Rio de Janeiro.
O negócio, fechado em março, transferiu a totalidade do capital do Balcão para o grupo multinacional, que manteve à frente do negócio como seu diretor delegado o fundador e ex-proprietário, John Fletcher. O Grupo Hebdomag, que está trocando de nome para Traders.com, faturou no ano passado US$ 250 milhões e veiculou 30 milhões de anúncios em todo mundo.
A compra do carioca Balcão custou US$ 1 milhão e, enquanto negociava a operação tentou, também a compra do paulista Primeira Mão. O proprietário do jornal, Franco Ucceli, confirmou as intenções do grupo no seu veículo, mas afirmou que sua publicação não é vendedora e está em plena reestruturação, depois de amargar alguns anos de prejuízo. (...)
Diante da possibilidade de a transação ferir a legislação brasileira, que veda a propriedade de veículos de informação a estrangeiros, Fletcher garantiu que todas as precauções foram tomadas e a compra foi possível porque o Balcão não é um jornal de informações e não influi na opinião pública. ‘Tentamos até entrar na Associação Nacional de Jornais (ANJ) e não conseguimos porque não nos consideravam jornal, apesar do nome’, lembra o principal executivo do Balcão."
"Hebdomag compra jornal de classificados no Rio", copyright Gazeta Mercantil, 24/5/99
Milton F. da Rocha Filho
"A TVA, do Grupo Abril, com a venda da DirecTV para a Galaxy Latin America e de 10% do controle da Galaxy Latin America para a Hughes Electronic, além da recompra de títulos da Tevecap nos Estados Unidos, deve conseguir uma redução de US$ 390 milhões em seu endividamento, anunciou ontem o presidente da TVA, José Augusto Moreira.
De acordo com Moreira, com isso a companhia terá melhores condições de ampliar seus serviços de televisão a cabo no país. Sem o peso do endividamento, a situação será outra, ‘pois teremos condições de crescer’. O serviço de televisão via satélite, segundo Moreira, estava saindo caro para a TVA. ‘É um serviço que terá seu lugar no mercado, sem dúvida, até com o lançamento de novidades ao longo dos próximos anos, mas, para nós, não foi interessante; vamos continuar ampliando a TVA’, disse.
José Augusto Moreira entende que a oferta de recompra de títulos da Tevecap, a holding da TVA, que foram lançados nos Estados Unidos, com um preço de cerca de 65% do valor do dólar, é uma boa oferta, um preço melhor do que a cotação do mercado. ‘Se tudo der certo, poderemos reduzir efetivamente nosso endividamento e voltar a crescer’, comentou Moreira. (...)
Moreira observou que foi feita uma oferta para a recompra dos títulos com deságio. A venda da DirecTV já está sendo analisada pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), que deverá dar seu aval. Segundo José Augusto Moreira, não há razão para que a agência não aprove a venda. Com o negócio da compra da DirecTV no Brasil, além dos 10% da Galaxy Latin America, o grupo americano Hughes passa a ser o maior controlador desse tipo de comunicação via satélite no país, com o Grupo Cisneiros, da Venezuela, detendo 20%, ante os 80% dos americanos. A Tevecap, a holding da TVA, é controlada pelo Grupo Abril, com 62,2% do capital, pela Hearst-ABC, com 17,4%, pela Falcon, com 12,3%, e o Chase, com 8,1%. (Agência Estado)"
"TVA consegue reduzir dívidas em R$ 390 milhões com venda da DirecTV", copyright O Estado de S. Paulo, 26/5/99
Roldão Arruda
"A rádio paulistana Musical FM, que há cinco anos transmite apenas música popular brasileira, vai mudar sua programação. A partir do dia 1º [de junho], passará a apresentar músicas evangélicas. A mudança deve-se a um acordo firmado entre a Rede L&C de Mídia, que controla a Musical, e um grupo formado por três denominações religiosas evangélicas: Comunidade da Graça, Evangelho Quadrangular e Assembléia de Deus. Por esse acordo, as igrejas controlarão a programação por um período de quatro anos.
De acordo com informações do pastor Carlos Alberto de Quadros Bezerra, do Ministério da Comunidade da Graça e porta-voz do grupo, o arrendamento custará R$ 3 milhões por ano às igrejas. Ele também disse que essa foi a primeira vez que três denominações diferentes se uniram para um acordo na mídia. ‘Vamos oferecer uma opção descontraída e moderna de divulgação cristã, com música gospel e entrevistas’, anunciou.
A Rede L&C continuará responsável pelo pessoal e pela manutenção da emissora, segundo seu diretor e sócio, Luiz Casali. ‘Locamos apenas os espaços’, disse ele.
Desde 1993, quando passou a executar apenas MPB, a Musical tornou-se uma das mais prestigiadas pela crítica. Foi vencedora de 3 prêmios da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA), nas categorias melhor emissora do ano e melhor programação musical. A rádio também ajudou a lançar novos artistas, como Chico César, Vânia Abreu e Zeca Baleiro.
Com 70 mil watts, potência suficiente para atingir um raio de 100 quilômetros ao redor da capital, a emissora teve em abril uma base de 30 mil ouvintes por minuto, de acordo com números do Ibope. Era uma audiência selecionada: 68% das pessoas pertenciam às classe sociais A e B. Apesar do prestígio, a emissora enfrentava dificuldades financeiras. ‘Não vendemos espaço para as gravadoras e dependíamos apenas de publicidade’, disse. ‘Nos últimos anos, não era suficiente.’"
"Evangélicos vão assumir controle da Musical FM", copyright O Estado de S. Paulo, 25/5/99
MÍDIA & MERCADO
Política x jornalismo
Victor Gentilli
A política venceu o jornalismo neste primeiro round da sucessão presidencial de 2002. Os jornais esqueceram sua função pública e tornaram-se - voluntariamente, é claro - porta-vozes de grupos, grupelhos e personalidades ocultas.
Perderam os cidadãos, perderam os leitores
A cidadania não espera muito do jornalismo: quer apenas entender o que acontece, saber quem se beneficia e quem se prejudica com os lances da política.
Reproduzir denúncias, fitas e gravações é moleza. Difícil é contextualizar os fatos, explicar por quê:
1) Waldick Ornellas e José Serra batem boca;
2) As fitas do BNDES foram parar na Folha;
3) O deputado Miro Teixeira "descobriu" o que os jornalistas deveriam investigar.
Aliás, os jornais parecem até esquecer de cobrar declarações de janeiro. Por que os jornais não vão ouvir declarações de economistas e oposicionistas garantindo que estaríamos no pior dos mundos depois da liberação do câmbio?
Cidadão é consumidor
V. G.
Veja comprou a versão oficial da morte de PC Farias e a vendeu aos seus leitores como produto de excelente qualidade. Omitiu prazo de validade, precauções e outros cuidados.
E se os leitores de Veja acharem aqueles velhos exemplares e forem com eles debaixo do braço aos Procons da vida reclamar de que compraram produto estragado?
BOCHINCHO NOS PAMPAS
Imprensa gaúcha,
governo e o caso Ford
Isak Bejzman (*)
Em 14/5/99, a página 2 do jornal Zero Hora, de Porto Alegre, publicou carta do senhor Guaracy Cunha, secretário especial de Comunicação do governo do estado do Rio Grande do Sul, que o jornal intitulou "O governo reclama". A carta questionava a linha editorial seguida pelos veículos da RBS e seus jornalistas em relação às ações do governo do estado.
"Não se trata de um comportamento critico e de questionamento, próprio da atividade jornalística. Pelo contrário, fica evidente a postura sistemática de distorcer fatos, manipular informações e construir versões no sentido de desgastar o governo. Não compramos elogios, nem vendemos virtudes...", escreveu o senhor secretário.
Em "A RBS responde", se lê: "...É o caso da carta ao lado: entendemos que sua origem e, especialmente, o seu conteúdo exigem uma resposta que ofereça à sociedade rio-grandense elementos para uma apreciação integral da questão. Trata-se, no nosso entendimento, de uma tentativa primária de pressão, o que a maioria dos governos faz quando vê os seus interesses contrariados pela divulgação livre e independente de fatos..." E mais adiante: "...Esta resposta, portanto, não tem o propósito de polemizar, nem a pretensão de ser a última palavra sobre o assunto, embora não tenhamos a intenção de prolongar o debate...".
Não sei quando a imprensa mudou, deixou de ser reportagem e passou a ser notícia, nem quando a chamada objetividade neutra entrou em ação.
Um diretor comercial entrou pela primeira vez na sala da redação do Los Angeles Times em 1997, mas antes disso muitos jornais tinham incorporado a diretoria comercial às reuniões de pauta. Com isso, a notícia passou a ser, para esses jornais, produto de compra e venda. Eu me pergunto: poderá o jornal-empresa sobreviver se a redação for totalmente independente da diretoria comercial?
Não pretendo entrar no mérito das queixas do senhor secretário nem tampouco da resposta da direção do jornal, porém chama a atenção na carta do secretário o fato lamentável de ele não especificar as distorções cometidas pelo jornal e generalizar a atuação dos jornalistas.
Há leitores que concordam com a linha editorial e as matérias jornalísticas de Zero Hora, e outros não; a própria página 2 diariamente é uma demonstração de que as mais diversas opiniões de leitores encontram guarida no jornal, assim como há profissionais que desempenham suas funções com independência.
O acontecimento me dá a oportunidade de tomá-lo como gancho e fazer uma reflexão sobre dois temas: o uso da fotografia no jornal e o chamado jornalismo público ou comunitário.
A matéria da página 10 de ZH de 30/4/99, assinada pelo jornalista José Barrionuevo, é emblemática.
Duas fotos coloridas: a primeira, de Adriana Franciosi, mostra o senhor Zeca Moraes (secretário de Desenvolvimento e Assuntos Internacionais) ladeado por dois auxiliares, com o titulo: "Quem negociou com a Ford", e a legenda: "Zeca Moraes, que cuidava das negociações com os camelôs na prefeitura de Porto Alegre, recebeu a incumbência de negociar, sem autonomia, com ajuda de dois assessores".
Abaixo, a segunda foto, de Mário Brasil, retrata o governador do estado, com o vice-governador à direita e o secretário Zeca Moraes à esquerda, com o titulo: "Quem deveria ter negociado", e a seguinte legenda: "Olívio e Rosseto não participaram das negociações, desprezaram pedidos de audiência e só entraram em campo para denunciar o que consideram intransigência da Ford".
O jornalista e cômico americano Finley Peter Dunne diz que "a função do jornal é confortar os aflitos e afligir os tranqüilos". Já Robert Steele pergunta se jornalistas devem se preocupar em descobrir falhas no sistema social ou apontar soluções. Simplesmente observar a distância e relatar, ou ser um participante ativo dos fatos? Devem os jornais ser simples observadores dos acontecimentos ou praticar o jornalismo-cidadão, público ou comunitário? Cada vez que um jornalista se propõe a cruzar a linha que separa o observador e o repórter do "agente" na realidade está cruzando a linha de sua independência.
Na minha leitura, o Rio Grande do Sul inteiro se empolgou com o caso Ford-governo do estado. Muitos jornais e jornalistas acabaram padecendo desta empolgação. Deslumbraram-se com a idéia de mais uma montadora no estado, e partiram para o tal jornalismo público. Envolveram-se, tomaram partido, ultrapassando muitas vezes os limites da crítica.
Respeito o ponto de vista do editor/redator de ZH em hipervalorizar a questão Ford/governo, ao concluir que uma negociação de tal magnitude (para ele) - a revisão do contrato entre a Ford e o governo do estado - deveria ter sido levada a termo pelo governador, e não pelo secretário Zeca Moraes. Mas quem se detiver na matéria referida verá que o mínimo que se pode dizer é que, salvo melhor juízo, eivada pelo calor da torcida e pelo desejo de ter a planta da Ford no estado, ainda que de forma involuntária, a matéria passa mensagem negativa sobre Zeca Moraes e o governador.
Para Roland Barthes, o jornal é "um complexo de mensagens que contribuem com a fotografia, que é o centro, e de adjacências construídas pelo texto, pelo título, o cabeçalho, o layout e o próprio nome do trabalho". Ele separa a totalidade da representação em duas estruturas, a visual e a textual. A foto, segundo Barthes, "transmite... a própria cena, a realidade literal, isto é, ela fornece um análogo perfeito". Isso quer dizer que a foto de um cachimbo não é um cachimbo, é simplesmente uma foto que retrata um cachimbo.
Por outro lado, como jornalista, ao me servir de fotografias pretendo enviar uma mensagem aos leitores, e para obter resultado a foto deve ter uma linguagem. Estou pedindo aos leitores que olhem e vejam nas fotos algo que posso insinuar com o texto ou não. Para isso me sirvo da cor, do retoque, de efeitos de luz, da pose dos retratados, objetos na foto que indicam certas coisas, fotogenia, estética, se a imagem ilustra o texto ou vice-versa. Enfim, o texto pode repercutir na imagem, enchendo-a com uma cultura, uma moral, uma imaginação.
Assim como uma imagem fotográfica é usada para fins publicitários - e portanto ela sempre será a mais explicita possível -, ela pode ser dissimuladora por si só e mais dissimuladora ainda quando ancorada pelo texto, levando o observador/leitor como que por controle remoto a um significado previamente escolhido.
A publicação de uma foto num jornal envolve uma grande questão ética para o editor, principalmente quando retrata pessoas e é legendada.
Não tenho um trabalho de campo para avaliar o impacto que a matéria em questão causou nos leitores de Zero Hora. Naturalmente isso vai depender da sensibilidade e da percepção de cada leitor/observador. Salvo melhor juízo, aqueles que nada sabem sobre o senhor Zeca Moraes devem se subdividir no mínimo em dois grupos: os que vão aceitar fielmente a mensagem enviada pelo jornal e os que tentarão se informar sobre ele.
Um velho judeu muito rico resolveu se aposentar. Procurou seu rabino, a quem revelou seu projetos: fecharia todas as suas indústrias e firmas comerciais para poder se dedicar mais a praticar os preceitos determinados pela Tora. Levou uma baita reprimenda do rabino, que o chamou de egoísta, pois ao pensar em si mesmo fecharia centenas de empregos. Eu concordo com o velho rabino. Empregos são muito importantes. Mas às vezes... eles podem custar tão caro que merecem ser substituídos por outros, já que numa economia de mercado que seja sustentável todo projeto econômico é pensado em termos de custo/benefício.
O caso Ford/RS, alguém o conhece na íntegra? Não tive oportunidade de ler uma reportagem completa sobre o assunto que me fornecesse elementos para uma reflexão total sobre o tema, pois a imprensa só publicou fragmentos.
A idéia da vinda da Ford para o Rio Grande deslumbrou os gaúchos. O deslumbramento, mal freqüente na medicina, é muito perigoso. Um novo remédio, uma nova técnica deveriam deslumbrar mais o leigo do que o médico; mas com freqüência é o médico que se alucina com a novidade. O deslumbramento ofusca os olhos até dos mais entendidos. À não-vinda da Ford sobreveio a frustração, só que desmesurada. Frustração que invadiu povo, jornalistas e jornais.
Todos os jornais do Rio Grande do Sul amam o Rio Grande. Todos os jornalistas gaúchos, idem. Todos queriam a Ford no estado. Todos estamos frustrados. Mas o Rio Grande do Sul e seu povo são muito mais do que uma simples fábrica de automóveis.
(*) Médico-psiquiatra e jornalista
MUNDO ANIMAL
Bichos e censura
Luiz Augusto Araujo Pereira (*)
É lamentável constatar o declínio profissional que vem apresentando o programa Globo Repórter, exibido às sextas-feiras na Rede Globo.
Famoso ao longo dos anos por apresentar grandes reportagens, atualmente o programa vem se portando talvez de maneira ecologicamente correta, mas nem um pouco socialmente correto. Com tantos problemas sociais, econômicos e políticos em nosso país, como no caso das CPIs e outros, até agora nenhuma reportagem a respeito. Sabe-se lá o motivo dessa cegueira social. Em contrapartida, o programa exibe uma ótima visão do mundo animal. Não que se tenha algo contra documentários ecológicos, mas para isso a emissora tem um produto específico, o Globo Ecologia.
O Globo Repórter tornou-se antiprofissional, negando-se a reportar os acontecimentos do país e do mundo. E abdicou de sua função social, revelando-se, com sua autocensura, um agente manipulador.
(*) Estudante do 3º período de Jornalismo, Centro Universitário do Triângulo, Uberlândia, MG

Mídia endividada preocupa a sociedade
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