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DENUNCISMO
O Caso da Fita, verso e reverso

Alberto Dines

Na última edição da IstoÉ nenhuma linha sobre a fita que tanta celeuma provocou. Celeuma, em grande parte, a respeito da legitimidade dos procedimentos jornalísticos (que não encontrou nenhuma voz de apoio). IstoÉ deve uma explicação aos seus leitores.

É indispensável que a controvérsia em torno do desempenho da mídia seja empreendida com um mínimo de objetividade e dissociada das preferências partidárias dos que nelas se engajam. Claro que de um político não se pode exigir tal isenção, mas o fórum político tem outro endereço. Não é aqui. Se é para discutir a mídia que se discuta a mídia e apenas ela.

O escândalo do TRT paulista está aí, visível, colossal. Com implicações e desdobramentos em todas as direções. E em função desta gravidade precisa ser acompanhado e investigado pela mídia com todas as precauções. Para evitar que a contestação sobre os métodos de apurar comprometa os próprios resultados da apuração. A fita da IstoÉ e a forma com que foi divulgada antes mesmo de qualquer perícia não se enquadra nos padrões mínimos de cautela profissional. Quando se critica a inocência e/ou malícia dos envolvidos no episódio pretende-se evitar um vale-tudo que, além de por em xeque a lisura da imprensa, acaba por proteger os implicados.

O denuncismo desenfreado dos últimos anos acabou por criar um antídoto natural nos setores mais esclarecidos da sociedade. A imprensa brasileira nunca foi tão questionada. O Painel dos Leitores da Folha é a prova disso: deixou de ser a tribuna do leitor para converter-se numa instância onde as fontes e os personagens noticiados julgam o comportamento daqueles que produzem a notícia. Espécie de meta-jornal, a posteriori, onde a verdade absoluta da edição anterior foi relativizada ou até negada.

Quando há dois anos este Observador ousou condenar a cruzada armada pela Rede Bandeirantes e pela Folha de S.Paulo para macular a vida pessoal do presidente de honra do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, não apareceu ninguém para dizer que esta atitude o tornava cúmplice da corrupção. Agora, enxovalha-se quem pretende discutir procedimentos indevidos da mídia num espaço dedicado exclusivamente a isto.

O texto publicado por Luís Nassif na sua coluna no caderno Dinheiro da Folha (29/7/00, pág. B-3) ]veja abaixo] é uma das peças mais arrasadoras contra a irresponsabilidade na edição do noticiário sobre o edifício do TRT paulista. Conviria lê-la, conviria estudá-la. Luís Nassif é um dos mais credenciados jornalistas de economia do país, membro do Conselho Editorial da Folha de S.Paulo. Critico independente e pertinaz do governo. Nos últimos anos tem tratado regularmente da mídia. Não é por acaso [veja abaixo entrevista com Luís Nassif].

Lembram-se do Caso Ricupero? No programa de TV do Observatório da Imprensa, em 18 de julho, aconteceu coisa parecida. Estava em pauta justamente a fita da IstoÉ. E antes de começar o programa os dois convidados no estúdio em Brasília conversavam despreocupadamente sobre o assunto. Um era procurador do Ministério Público e outro jornalista do semanário. E porque a canalização da Embratel já estava armada, este Observador ouviu perfeitamente a conversa. Um dos interlocutores dizia que a fita colocava em xeque os principais desafetos do ex-senador Luiz Otávio e o outro concordou. Por que razão não se explorou no programa esta conversa informal? Justamente porque era uma conversa informal, ouvida indevidamente.

Jornalismo é um conjunto legitimado de métodos e meios para obter, verificar e divulgar informações. Observar é também um método ou meio, igualmente legitimado, de intervir num processo ou fenômeno. Métodos e meios jamais podem comprometer os fins.




ENTREVISTA / LUÍS NASSIF

Tudo por uma manchete

No sábado 29 de junho, Luís Nassif publicou, na Folha, coluna intitulada "Dos fatos e das manchetes". Foi um exemplo de crítica aos procedimentos da mídia hegemônica nas páginas da própria mídia hegemônica. Em 9 pontos, todos exemplos factuais, Nassif faz o que chamou de "um breve apanhado do uso da manchete por diversos jornais que cobrem a crise política". Para ler e guardar.

Eis sua entrevista ao Observatório:

Os erros apontados no seu levantamento têm origem na edição apressada ou decorrem de uma apuração insatisfatória? Ou dos dois?

Luís Nassif – Decorrem da necessidade de produzir uma manchete de impacto sem a devida apuração. Ou de desconsiderar a apuração, quando pode levar à perda de impacto da manchete.

Acredita que entre os fatos e as manchetes há um viés ideológico ?

Nassif – Não acredito. Há um viés de sansacionalismo, porque esse tipo de "esquentamento’ afeta indistintamente todos os partidos.

Mais de uma destas manchetes digamos impróprias, foram produzidas pela Folha. Além disso, a conclusão do seu texto (sobre a pesquisa do DataFolha) também mexe com o Grupo. Alguém reclamou?

Nassif – Ninguém. Até hoje a Folha sempre respeitou a autocrítica. A menção à pesquisa DataFolha não foi a de manipulação de manchete (que, nesse caso, não ocorreu). Foi para demonstrar que, com todas aquelas manchetes, não poderia ter sido outro o resultado da pesquisa.




ASPAS

Luís Nassif

"Dos fatos e das manchetes", copyright Folha de S. Paulo, 29/7/00

"Um breve apanhado do uso da manchete por diversos jornais que cobrem a crise política:

  • Francisco Lopes informa que almoçou com FHC no dia da crise cambial, que o informou sobre o risco sistêmico do mercado, mas nada disse sobre a operação de salvação dos bancos Marka e FonteCindam. Manchete: ‘FHC sabia da crise na BM&F, afirma Lopes’.
  • O empresário Pedro Paulo, da Encol, conta que teve contato com FHC, que se sensibilizou com o pleito da empresa, devido ao fato de ter 22 mil funcionários e 42 mil clientes. FHC incumbiu-o de conversar com Eduardo Jorge. Indignado, Pedro Paulo informa que não conseguiu nenhuma ajuda nem conseguiu viabilizar um único empréstimo. Manchete de um jornal: ‘FHC pediu por Encol, diz ex-dono’. Manchete do outro: ‘Ex-presidente da Encol disse que teve promessa de ajuda’. Outro jornal: ‘Encol: MP vê indícios de tráfico de influência de Eduardo Jorge’.
  • O jornal da TV fala em suspeitas de vazamento de informações do BC. Ouve o procurador, que diz que vai abrir inquérito. O repórter pergunta: ‘Quais as evidências que o senhor possui?’. O procurador: ‘Nenhuma, mas o inquérito vai levantar’. Isso para 40 milhões de telespectadores.
  • O ex-diretor de Fiscalização do Banco Central Gustavo Mauch vai prestar depoimento na Justiça sobre operação de salvamento do Marka. O juiz pede que ele explique o tal ‘risco sistêmico’, possibilidade que estava nas manchetes de todos os jornais que cobriram a crise cambial na época. Mauch explica e utiliza termos técnicos que o juiz não entende. Manchete: ‘Procurador afirma que Mauch se comprometeu porque não conseguiu explicar risco sistêmico’.
  • José Maria Monteiro, presidente da Brasil Saúde, convoca a imprensa para explicar que jamais teve envolvimento com Eduardo Jorge e que recorreu a ele apenas uma vez, por sugestão de FHC, na condição de presidente da Cosesp -seguradora do governo do Estado de São Paulo-, ameaçada de liquidação pelo Instituto de Resseguros do Brasil. Manchete: ‘Monteiro confirma ação de EJ na Cosesp’.
  • Grampo mostra conversa de um diretor de fundo contando como foi buscar ajuda de Eduardo Jorge para enfrentar um conluio de deputados do PPB, liderados pelo notório Eduardo Cunha. Manchete: ‘Fitas expõem ação de EJ nos fundos’.
  • Reportagem com Eduardo Cunha em que ele atribui a Eduardo Jorge a indicação do diretor do fundo que, segundo o grampo, resistia ao assédio dele e de sua turma. Manchete: ‘EJ é acusado de infiltrar amigo em fundo’.
  • O ministro Pedro Malan presta depoimento, diz que não foi informado do socorro ao Marka e ao FonteCindam e afirma que essa ausência de comunicação ‘não pode fundamentar nenhuma ilação sobre a natureza das operações realizadas’. Manchete: ‘Procurador diz que suspeita aumentou’.
  • Pesquisa do Datafolha informa que 45% da opinião pública acha que caso Eduardo Jorge envolve FHC. (...)"




FIM DO L’UNITÀ

Mudou o Natal, mudaram os leitores

Entrevista de Armenio Guedes a Mauro Malin

Armenio Guedes foi dirigente do PCB (Partido Comunista Brasileiro) entre as décadas de 40 e 80. Começou na imprensa em 1941, dirigindo a redação e a oficina da revista Seiva, em Salvador. Está na Gazeta Mercantil desde 1987. Como é de seu costume, Armenio mata a charada com simplicidade: o que provocou o fechamento do L’Unità foi a mudança de natureza do Partido Comunista Italiano. Na medida em que se institucionalizava, suas posições foram sendo divulgadas pela grande imprensa. Ficou para trás o tempo em que o jornal era a voz do partido. E um jornal sem publicidade, dependente da caixa do partido, tornou-se inviável.

Armenio começa esta entrevista fiel a seu papel de corifeu da linha democrática da esquerda: cita Antonio Gramsci, o fundador do PCI e do L’Unità: "Na fundação, Gramsci dizia que o jornal deveria ser um jornal da esquerda operária, fiel à luta de classes, mas capaz de analisar com isenção a atividades de ‘anarquistas, republicanos e sindicalistas’. Ou seja: não seria só um boletim das coisas do PC". E a termina com emoção, torcendo para que o bravo L’Unità consiga encontrar algum tipo de recuperação.

Em seu comentário ao mesmo tempo acurado e indignado, o também jornalista Araujo Neto [veja abaixo, depois da entrevista de Armenio] dá informações preciosas sobre desatinos que aceleraram o processo de fenecimento do jornal, que, escreve, "se tornou vítima de dois desastrosos diretores: Massimo D’Alema (de 1988 a 1990) e Walter Veltroni (1992 a 1996), atualmente os dois mais importantes líderes dos Democratas de Esquerda, último nome encontrado [por D’Alema] para um partido que esperava herdar os 12 milhões de votos do PCI mas sem ser identificado como seu herdeiro e sucessor político, com o disfarce de um moderado partido progressista". Araujo Neto termina como começa Armenio: citando Gramsci.

A entrevista

O L’Unità era um bom jornal?

Armenio Guedes – Sendo de esquerda, sim. Com as limitações que tem um jornal de opinião, de partido. Mas, comparado com outros jornais comunistas fundados de acordo com as normas da Terceira Internacional, tendia a evitar as limitações quanto a ter liberdade de crítica, inclusive à política do partido. Era um ponto de referência da esquerda e da democracia italiana. Sua posição diante do terrorismo de esquerda, por exemplo, das Brigadas Vermelhas, foi benéfica, como foi no Brasil a posição do PCB e sua imprensa, porque tornou menos prejudicial, nos dois casos, a ação da luta armada.

Teve também um papel importante na tentativa de Palmiro Togliatti e seu grupo de formar um "partido de novo tipo". O jornal refletia idéia do PCI de conquistar a hegemonia, afastando a idéia de um assalto ao poder do qual resultasse a instauração da ditadura do proletariado. Em 1948, quando houve o atentado neofascista contra Togliatti, L’Unità ajudou a sustentar uma posição contra a tentativa de repetir o que houvera meses antes na Tchecoslováquia, ou seja, a expulsão da direita e do centro do poder para a criação de uma "república popular" na Itália. O próprio Togliatti, tão logo recuperou a consciência, no hospital, disse "não" a essa tendência de setores do partido, em meio a grandes manifestações de massa em todo o país. É preciso ter em conta que L’Unità era o jornal de um partido realmente muito grande, que no período áureo chegou a ter algo em torno de dois milhões de filiados.

Após o XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética (1956), o LUnità se tornou cada vez mais crítico em relação à atividade do próprio partido.

Quando você o leu?

Armenio – Inicialmente em 1945, logo depois da guerra. Nós o recebíamos aqui, esporadicamente. Era uma folha só. E só tinha política. Uma informação orientada, dirigida: destacava certos fatos para produzir uma orientação.

O PCI teve posição bem nítida contra a invasão da Tchecoslováquia, em 1968…

Armenio – …e o jornal não hesitou. Tanto que nas festas do L’Unità não havia representantes do Rude Pravo, jornal do Partido Comunista da então Tchecoslováquia.

Como você explica a situação dramática a que chegou o jornal?

Armenio – Na medida em que o PCI, depois o PDS (Partido Democrático da Esquerda, sinistra em italiano), passou a ser um partido cada vez mais institucional, sua própria atividade não requeria mais esse tipo de jornal. O L’Unità quase não tinha anúncios, por ser um jornal comunista. E você só pode ter um jornal com centenas de milhares de cópias, e toda a equipe para produzi-lo, se tiver publicidade. Ele dependia diretamente da caixa do partido. Situação insustentável. Os partidos social-democratas, há muito institucionalizados, geralmente não têm jornais. O Partido Trabalhista inglês não tem, assim como o PT, no Brasil, não tem, não precisa ter. Suas posições são divulgadas pelos grandes meios de comunicação. Na Itália, por sinal, a vida política continuou por longo tempo ligada a jornais. O Partido Socialista tem até hoje o L’Avanti!

E o PDS atua hoje numa sociedade bem diferente. Fizeram nestes dias uma grande passeata contra o racismo. E o secretário do partido, em carta ao diretor do jornal, diz que é a primeira grande manifestação de rua em dez anos. Ora, o PCI tinha capacidade de mobilizar massas na Itália várias vezes por ano, até mais de uma vez por mês…

Jornais comunistas brasileiros também tiveram problemas financeiros?

Armenio – Depois da guerra, o PCB teve seis títulos em capitais: Fortaleza, Recife, Salvador, Rio, São Paulo e Porto Alegre. Mas eles viviam na penúria. Não fechavam porque o partido tinha as máquinas e agüentava as despesas. Jornalistas e gráficos faziam vales e iam tocando o barco.

Dói ver o fechamento do L’Unità?

Armenio – O episódio me abalou muito. Repito que, como jornal de esquerda aberto, foi o ponto mais alto a que se chegou ao longo do século. A posição do L’Unità dentro do PCI certamente contribuiu muito para a transformação do partido. Ou seja: contribuiu para a própria mudança da relação do partido com a atividade jornalística. Para seu próprio fim.

Isto é doloroso, principalmente para os comunistas renovadores – aí incluídos, lógico, os jornalistas. Mas parece que há integrantes do PDS que não se conformaram.

Imprensa comunista na Itália não era só o L’Unità.

Armenio – Havia uma grande atividade. A revista Rinascita, fundada por Togliatti, os Editori Riuniti e outras editoras, vários jornais, gráficas. Numa delas, por sinal, em Roma, foi rodada a Voz Operária, do PCB, entre 1976 e 1979, ano da anistia. Eram mil exemplares, enviados a pessoas que formavam opinião no Brasil: jornalistas, sindicalistas, professores universitários. Curioso é que a Voz Operária também teve seus momentos de choque com a direção partidária. Por exemplo, recusamo-nos a publicar a notícia da expulsão de Marco Antônio Coelho. Seria uma indignidade, porque Marco Antônio não tinha nada de "traidor", foi uma vítima da tortura.

Você considera que L’Unità contribuiu em alguma medida para manter altos os padrões da imprensa, algo que se reivindica fortemente hoje no Brasil?

Armenio – Destaco a boa e ampla cobertura dada à cultura. O Festival de L’Unità, que por sinal continuará a se realizar, sempre foi uma oportunidade para debates e exposições importantes. Já nos anos 70 o L’Unità era um jornal que não tinha visão sectária ou estreita na análise dos fatos da Itália. E tinha uma boa seção de esportes. Não dramatizava as situações, como é comum na esquerda, que tende a ver cada crise como a crise decisiva. Nessa época, refletia o pensamento de Berlinguer [Enrico Berlinguer foi o dirigente do PCI entre 1972 e 1984, e o protagonista principal do "eurocomunismo"]: o partido devia ser ao mesmo tempo de governo e de ação. E era governo, sim, porque o PCI participava de muitos governos provinciais e municipais. A oposição à Democracia Cristã não era antagônica. No L’Unità nunca se diria, como alguns fazem aqui, que o governo de Fernando Henrique é uma "ditadura".

O que significou a aproximação de Moro? [Aldo Moro havia sido primeiro-ministro da Itália e em 1978 era presidente da DC. Aceitou o "compromisso histórico" proposto por Berlinguer. No dia em que o acordo ia ser consagrado no Parlamento, Moro foi seqüestrado pelas Brigadas Vermelhas e, depois de longa negociação fracassada, assassinado.] Por que ele quis o entendimento? Por que foi atacado? Porque a DC não era simplesmente um "partido burguês". O PCI estava certo: a democracia cristã era um partido que tinha componentes de massa, tinha saído da Segunda Guerra com setores católicos progressistas. A atitude oposicionista de L’Unità diante da DC era de crítica não negativista. Combatia o que considerava negativo no regime do "pentapartito", a coalização liderada pela DC – e depois pelo Partido Socialista –, mas procurava o entendimento onde era possível.

O jornal foi também um grande ponto de apoio no esforço para colocar o mundo dos subalternos, o mundo do trabalho, num plano importante da vida italiana.

Você conheceu algum jornalista do L’Unità?

Armenio – Conheci Alfredo Reichlin. Estive com ele duas vezes no Rio, depois em Roma. Deixou-me a impressão de ser muito competente. Mas o primeiro jornalista comunista italiano que conheci se chamava Gianni Totti. Veio ao Brasil como correspondente de uma revista italiana de atualidades, tipo Manchete. Na década de 60. Foi conversar conosco na redação de Novos Rumos [jornal do PCB antes do golpe de 64]. Disse que L’Unità não gostava de publicar artigões de Togliatti na primeira página, mas que isto era inevitável: "Quando publicamos, vendemos mais 300 mil exemplares…"

Novamente, é preciso pesar os prós e contras de ser o jornal de um grande movimento político. Mas no L’Unità, ter posição e tomar partido era algo explícito, transparente. O jornal não praticava a hipocrisia de dizer que não tinha posição política.

Recentemente o Le Monde Diplomatique publicou um artigo simpático, algo simplório, mas totalmente maniqueísta do subcomandante zapatista Marcos. Pratica aquelas análises um tanto toscas, que servem mais à retórica, ou à ideologia, no sentido dogmático da palavra. No L’Unità era raro encontrar manifestações desse tipo.

Armenio – Era uma análise sofisticada, com o instrumental que se tinha na época. A Itália é um país em que a herança de Maquiavel perdura. Fortuna e virtù. No L’Unità não se encontrava o subjetivismo de querer que a crise ocorra de determinada maneira preconcebida.

Não quero encerrar sem uma palavra de afeto. Torço para que L’Unità consiga sobreviver, ainda que seja improvável que volte a ser o que foi na vida do PCI, porque se sabe como a Itália mudou. É torcida, mesmo. Estive na festa nacional do L’Unità no ano passado, em Modena. Minhas lembranças desse grande jornal ainda estão bem vivas.




Dos games às promoções perdulárias

Araujo Neto, de Roma

Com a simplicidade e a objetividade de sempre, Armenio Guedes mais uma vez falou e disse. Deu uma explicação quase completa para o lamentável fechamento de L’Unità, jornal idealizado, fundado e batizado em 12 de setembro de 1923 por Antonio Gramsci, o mais lúcido e original analista e intérprete do marxismo.

A meu ver, a análise de nosso bom amigo e colega Armenio só não foi completa porque não mencionou as responsabilidades da má gestão que L’Unità teve, principalmente na última década do século passado, isto é, depois da extinção do PCI – quando se tornou vítima de dois desastrosos diretores: Massimo D’Alema (de 1988 a 1990) e Walter Veltroni (1992 a 1996), atualmente os dois mais importantes líderes dos democratas de esquerda, último nome encontrado (por D’Alema) para um partido que esperava herdar os 12 milhões de votos do PCI mas sem ser identificado como seu herdeiro e sucessor político, com o disfarce de um moderado partido progressista.

Ainda agora, alguns dos mais antigos e ilustres jornalistas de L’Unità conservam de D’Alema só uma forte recordação: da sua paixão pelos video games. Quem não quisesse ser inoportuno e degradável, deveria ter a sensibilidade de não interromper as intermináveis horas de recreação com os jogos eletrônicos que D’Alema passava em seu gabinete de diretor-administrador-editor do L’Unità. Assim como nunca fez segredo de seu amor pelo vide game, D’Alema, com a mesma franqueza, nunca escondeu o desprezo que sentia por seus coleguinhas jornalistas italianos, em particular por aqueles de l’Unità. Desprezo que aumentou com o passar dos anos, quando o mesmo D’Alema chegou a ser o secretário nacional do Partido Democrático de Esquerda (1994 a 1998) e quando se tornou o primeiro ex-dirigente comunista a chefiar um governo de centro-esquerda.

Ainda há poucos dias, os jornais italianos voltaram a publicar uma das frases com que D’Alema gostava de provocar e chocar os que ouviam: "Toda manhã, ao encontrar L’Unità em minha mesa, sem sequer ler seus títulos, atiro-o na cesta de lixo".

Mais suave, Walter Veltroni, identificado por toda a crônica política italiana como o "líder do buonismo", expoente do bom-mocismo, nunca será recordado como um ex-diretor intratável e antipático. Mas ninguém o esquecerá – e tampouco o perdoará – como o diretor que esbanjou fortunas em prêmios e promoções que deveriam promover aumentos consistentes da circulação de L’Unità. Como os contratos caríssimos que fez com distribuidores de grandes filmes italianos e estrangeiros para pagar o direito de incluir nas edições do jornal videocassetes de clássicos cinematográficos que poderiam interessar até mesmo a quem não lesse L’Unità. Ou ainda como o oneroso contrato que assinou com editores dos álbuns de coleções para reimprimir e redistribuir, com as edições do jornal que Gramsci propôs como promotor de uma sólida aliança dos operários com os camponeses, as figurinhas mais difíceis dos ídolos do futebol italiano de todos os tempos.

Mesmo reconhecendo que D’Alema e Veltrone não foram os únicos responsáveis pelas gestões desastrosas da história de L’Unità, não se pode esquecer que suas culpas podem ser consideradas mais graves. Porque, ainda meninos de calças curtas, como filhos de pais comunistas, D’Alema e Veltrone – hoje homens de 50 anos – deveriam ter aprendido que L’Unità morreria no dia em que tentasse ser um jornal como tantos outros: condicionado e pronto para enfrentar a economia de mercado.

Ainda meninos de calças curtas, D’Alema e Veltrone fizeram parte do grande e eficiente exército dos difusori militanti, mobilizado todas as semanas pelo partido-igreja (o velho PCI). Exército que saía pelas ruas de todas as cidades da Itália, batendo nas portas de todas as casas, sem ganhar uma só lira, para vender mais de 1 milhão de exemplares da cada edição dominical ou especial do jornal que ao Comitê Executivo do PCI.

Antonio Gramsci disse como deveria ser e a que serviria: "Creio que seja muito útil e necessário, dada a situação atual italiana, que o jornal seja feito de modo a ter existência legal por um tempo que seja o mais longo possível. Um jornal que não deverá ter qualquer indicação de partido, que deverá ser redigido de modo que sua dependência de fato do PCI não apareça claramente. E que deverá ser um jornal da esquerda."




Morte à míngua

Victor Gentilli

Na segunda metade da década de 70, o Partido Comunista Italiano, então sob o comando de Enrico Berlinguer e sob o impacto político do golpe de Pinochet no Chile, operava mais um aggiornamento. Desta vez rumo ao que foi chamado, para o bem ou para o mal, de eurocomunismo. O PCI era, então, o maior partido comunista do Ocidente, com centenas de milhares de filiados. Era também a segunda força política na Itália, perdendo apenas para a Democracia Cristã, mas jamais alcançava o poder nacional. Dominava, é certo, algumas prefeituras – como a de Bologna, chamada de "cidade vermelha".

A política do PCI era, então, definitivamente gramsciana: voltada para a sociedade italiana, para o fortalecimento da sociedade civil (considerada, como a brasileira, gelatinosa). O PCI tinha várias publicações, com destaque para o Rinascita (semanário de cultura e política) e o L’Unità (jornal diário).

Mas não era apenas o PCI que percebia que a sociedade italiana mudara. Nesta mesma segunda metade da década de 70 foi lançado o diário La Repubblica, jornal denso, de idéias, europeu, mas não partidário.

Três países tentaram o mesmo modelo na mesma época: a Espanha, que vivia sua transição, com o lançamento de El País, a Itália, com o La Repubblica e o nosso Brasil, com o Jornal da República. Embora contasse com o comando de Mino Carta, tivesse a participação ativa de Cláudio Abramo e o apoio do general Golbery do Couto e Silva, o matutino brasileiro fracassou. Não durou mais do que quatro meses.

Mas na Itália e na Espanha os modelos deram certo. Talvez porque os jornais espanhóis e italianos ainda eram muito antigos: franquistas na Espanha e ostensivamente partidários na Itália.

No início da década de 90, antes ainda do desabamento da União Soviética, os comunistas italianos entenderam encerrado o ciclo do comunismo, incorporaram seu patrimônio e seu passado mas pensaram num novo agrupamento político. Conseguiram atrair ambientalistas, feministas e outros grupos militantes, mas a "coisa" (que eles não desejavam que fosse um partido político) virou enfim um partido político.

Não houve, como erroneamente se diz, uma mudança de nome. Houve a compreensão de que um modelo havia encerrado seu ciclo histórico e a necessidade imperativa de um novo agrupamento político. O aggiornamento do eurocomunismo fora insuficiente.

Em 1991, criou-se o PDS (Partito Democratico della Sinistra), mais tarde alterado para democratas de esquerda. Este novo partido, social-democrata, beneficiou-se, é claro, da Operação Mãos Limpas. Mas finalmente conseguiu alcançar o poder na Itália, onde permanece até hoje. Alcançou o poder, mas perdeu os instrumentos de sua máquina.

Incompreensível, na aparência, a opção que o novo PDS fez em 1991: fechar o Rinascita e manter o L’Unità. Hoje, o L’Unità fechou as portas. Não serve mais. E a sociedade italiana certamente sente falta do Rinascita, semanário de idéias, ensaios, debates. Curioso que, poucos anos antes de fechar, o Rinascita sofreu uma reforma que o modernizou, com capas em quatro cores e uma edição mais jornalística.

Os ex-comunistas italianos agora conhecem o poder, mas perderam seus jornais.


Leia também

A crise dos jornais de esquerda na Itália – Victor Gentilli (dez 97)




O último editorial (em italiano)

"L’Unità chiude", por Giuseppe Caldarola, copyright L’Unità, 28/7/00"

"Doveva proprio finire così? Lo strappo c'è stato, duro, improvviso, feroce. Persino il film della giornata restituisce fotogrammi incredibili con il liquidatore che interrompe un'assemblea per convocare il Direttore e comunicargli la cessazione delle pubblicazioni e la messa in cassa integrazione di tutti i dipendenti (direttore compreso, cosa di cui sono fiero). La segreteria Ds spera di convincere l'editore Dalai a migliorare un'offerta che il sindacato ha sentito bollare dal liquidatore come inconsistente. In molti sperano che le pubblicazioni riprendano. Per noi è un dramma, ma questo può persino essere messo da parte. È il dramma della sinistra. È una ferita aperta nel cuore di un mondo immenso che va al di là dei lettori dell'Unità. Moriamo per debiti, moriamo per una crisi finanziaria pazzesca.

Ma può morire così una parte viva della storia della sinistra? Insisto: questo giornale non è solo una grande storia, non è solo la memoria della sinistra, era una delle sue armi migliori. Lunedì è venuta a trovarmi in redazione un'anziana signora pensionata («ho ottant'anni, vi leggo da ragazza») che mi ha consegnato un assegno di un milione e mi ha praticamente intimato di non chiudere il «suo» giornale. Non ce l'abbiamo fatta.

La sinistra, tutta la sinistra, da oggi è più debole. Esiste per gli esseri umani, ma esiste anche per un giornale che ha accompagnato la vita di milioni di persone, il diritto alla buona morte. Neppure questo. Non so se il giornale riprenderà, non con molti di noi, non con me. C'è una pagina di storia che viene voltata, ad altri toccherà riaprirla, se sarà possibile. L'atrocità di questo epilogo dell'Unità è che avviene di fronte a una sinistra che non sa che dire. Una parte ha cercato di fare, un'altra è rimasta a guardare. Ora se non c'è uno scatto d'orgoglio, se la sinistra non
trova una propria ragione d'essere la vicenda dell'Unità prepara altri drammi. Tutti noi possiamo fare qualcosa. In un momento così grave di sconfitta storica bisogna guardare in faccia la realtà e ritrovare le ragioni per riprendere a combattere. Ricordo questo verso di Neruda: «Altri avanzarono e vinsero, avanzando con la storia». Noi no. Eppure non si può rinunciare ad avanzare con la storia, neppure in un momento come questo."




ASPAS
Carlos Picassinos

"E o ‘L'Unità’ fechou", copyright Público, 29/7/00

"Depois de meses de negociações, e dos esforços das últimas semanas, a comissão liquidatária do diário italiano ‘L'Unità’ interrompeu, na quinta-feira ao fim da tarde, um plenário de trabalhadores para comunicar a mais brutal das notícias -’não existem condições para prosseguir com a publicação’. Inconformados, os jornalistas vão manter-se em plenário contínuo mas, apesar dos anúncios de um novo ‘Unità’ em Setembro, sabem que ‘este Unità não voltará às bancas’.

‘Andaram a brincar connosco e com os nossos leitores’, diz o comunicado do conselho de redacção que apareceu ontem publicado no último número do ‘L'Unità’. Os trabalhadores mostram-se ‘amargurados, revoltados e desiludidos’, mas não resignados. ‘Não desmobilizaremos. Não abandonaremos os nossos postos de trabalho, o nosso jornal. Recusamo-nos a assistir à liquidação de uma história e de um património que pertence a toda a Itália’.

Numa tentativa de conservar o património do jornal e garantir os direitos dos trabalhadores, os jornalistas pretendem apropriar-se do título até que surja uma ‘proposta séria de aquisição’ e não ‘ um acordo ridículo’, referindo-se à solitária oferta de Alessandro Dalai, proprietário da editora Baldini & Castoldi.

A reivindicação poderá afectar a estratégia dos Democratas de Esquerda (DE) - detentores do capital maioritário da sociedade proprietária do jornal - que já anunciaram o regresso do título às bancas no próximo mês de Setembro. Mas, depois de um processo longo e desgastante, ninguém acredita nas intenções do secretário geral dos DE, Walter Veltroni. ‘Querem criar um novo jornal, mas se é para criar um novo jornal não se chamará Unità’, afirmava ontem um dos jornalistas no meio da manifestação de protesto, frente à sede dos Democratas de Esquerda. ‘Palhaços, ‘Vergonha’ eram alguns dos ‘slogans’ que os trabalhadores gritavam. ‘Este jornal saiu até durante o nazismo’, explicava, irritado, Enrico Fierro, um dos redactores.

Na quinta-feira, entre os surpreendidos que escutaram o anúncio da suspensão do jornal contava-se o ex-primeiro-ministro, ex-redactor, ex-editor e ex-director do ‘L'Unità’, Massimo D'Alema que, em reunião com os trabalhadores, se mostrou disponível para relançar o título. O ex-dirigente da DE, que preside à recém-criada fundação Italiani-Europei, afirmou que ‘a fundação pode participar, ainda que não em matéria de capital, no relançamento do novo 'L'Unità'‘.

Confrontada com a suspensão do jornal do ex-Partido Comunista Italiano, toda a imprensa italiana expressou ontem posições de solidariedade com os trabalhadores do ‘L'Unità’. O ‘Corriere della Sera’ anunciou mesmo que , até à retoma da publicação, Giuseppe Caldarola, o director do ‘L'Unità’, passará a escrever nas suas páginas uma crónica diária de opinião, ‘em nome da pluralidade de informação’.

Mas, apesar de todos estes sinais de solidariedade, Caldarella, ontem no seu último editorial estampado numa desoladora primeira página em branco reclamava o direito a uma boa morte. E acrescentava: ‘recordo-me deste verso de Neruda - 'Outros avançaram e venceram, avançando com a história'. Nós não. E no entanto não se pode deixar de evoluir com a história, nem mesmo num momento como este’."




JORNAL PESSOAL

Debaixo da floresta que cai

Lúcio Flávio Pinto

Em 1975 fiz um jornal alternativo em Belém, o Bandeira 3, tomando por base minha experiência de outsider num suplemento com o mesmo nome feito em A Província do Pará, jornal da grande imprensa local, em O Pasquim e no Opinião, do qual participara intensamente como correspondente em São Paulo, entre 1972 e 1974. Nosso Bandeira 3, feito em equipe, que pode ser exibido sem constrangimento até hoje, em qualquer redação, durou sete números (o resto a pagar sobrou para mim, exigindo sete meses de trabalho até a completa quitação da dívida).

Para conseguir publicidade, era preciso ir diretamente aos anunciantes, amigos ou simpatizantes, muito poucos. As agências não nos programavam. Resistiam ao interesse manifestado pelos clientes sobre a mídia, mesmo com sua cota de 20% garantida. A incompatibilidade era política, ideológica ou pessoal. Tão ou mais forte quanto o retinir das moedas sonantes no caixa. As agências, que nada contribuíram para o surgimento do nosso tablóide de 24 páginas, embelezado pelos recursos gráficos então de vanguarda, devem ter mandado rezar o dobre de finados pelo fim da experiência.

Dediquei-me então, integralmente, ao projeto que me fizera retornar de São Paulo para Belém: implantar a primeira sucursal regional de O Estado de S.Paulo. O projeto, eu o apresentara pessoalmente ao doutor Júlio de Mesquita Neto, dono do jornal. Ele gostara e aprovara. O Estado teria uma sucursal em Belém e correspondentes em todas as capitais da maior fronteira de recursos naturais do planeta, com dois terços do território nacional, inclusive em algumas cidades menores, como Santarém e Marabá. Os textos chegariam à capital paulista no tamanho certo, previamente acertado com a sede e definido na pauta. Uma vez reconhecido o enquadramento técnico da matéria, ninguém tocaria nela, que passaria diretamente para a oficina. Nada de cobra gigante no meio da rua ou onça engolindo caboclo.

Em que consistia a inovação? Em expurgar do tratamento jornalístico da Amazônia o tom de exotismo, de colonialismo, de superficialidade e de preconceito da grande imprensa nacional (e internacional), inclusive o preconceito que evoluiria, com todas as boas intenções que pavimentam o caminho do inferno, para um viés ecológico (criando na opinião pública sensibilidade para com o destino da fauna e da flora, mas a anestesiando em relação à maior fábrica de alumínio do continente, a melhor mina de minério de ferro do mundo, a maior mina de bauxita em operação e outros artefatos econômicos complexos, numa estrutura mínero-industrial de significado internacional, capaz de atirar o homem de ontem no mundo de amanhã sem um único esquadro ou compasso, órfão na história).

Durante os anos iniciais do avanço das fronteiras econômicas sobre o vasto território amazônico, O Estado de S.Paulo registrou em suas páginas a melhor crônica desses dias incríveis. Tornou-se fonte de referência para tudo o que se escreveu sobre o período, inclusive em clássicos dessa literatura da colonização, como o livro escrito em 1977 pelo nosso presidente – à época, apenas sociólogo – Fernando Henrique Cardoso, que usou na bibliografia, à larga, reportagens do tradicional diário da plutocracia paulistana.

Eu tinha sonhos de que o Estadão consolidaria esse papel, à sombra de um liberalismo sem igual na imprensa brasileira. Mas aos poucos a linha editorial foi mudando: ao invés de abrigar tanto a voz dos colonizados quanto a dos colonizadores, foi-se deixando ficar apenas com estes, quase todos em casa. A execução do projeto foi sendo adiada, mas não cancelada: a cada viagem a São Paulo, o doutor Júlio pedia paciência. A empresa realmente vivia tempos difíceis. Mas a idéia não fora descartada. Seria reaquecida quando vacas gordas mostrassem seu desejado focinho no departamento financeiro posto em risco pela geração de "engenheiros".

Três tiros

Em 1981 transformei em newsletter quinzenal o Informe Amazônico, a coluna diária que escrevia no maior jornal da Amazônia, O Liberal. Desta vez, a empreitada era do eu sozinho. A circulação, entre assinantes. A distribuição, por mim mesmo. A duração? Doze números. Quase nada diante da intenção, mas um pouco além da investida anterior.

Continuei a girar por toda a Amazônia, enviado especial do Estadão, e a drenar minhas reflexões dessa itinerância numa coluna de acento pessoal em O Liberal. Assuntos que eram tabus no mais influente periódico do país podiam ser tratados sem-cerimônia na maior folha informativa da Amazônia – e vice-versa. E assim ia o mundo girando, enquanto a Lusitana rodava.

Em junho de 1987 vi o corpo ensangüentado de um amigo, morto com três tiros num posto de gasolina à saída de Belém, cidade que chegou a ser a terceira mais importante do Brasil no início do século, quando só a Amazônia fornecia borracha, matéria prima fundamental para o crescente parque industrial mundial. O primeiro tiro, na têmpora, foi fatal. Os outros dois eram apenas excesso de zelo, ou de profissionalismo, do pistoleiro. Paulo Fonteles nem teve tempo de se espantar. Continuou com a perna cruzada, sentado do lado do carona do carro, no lugar em que o motorista o deixara para ir atrás de água para o carro, que não precisava dela para resfriar o motor. O cigarro nem caiu de entre os dedos dele. Do lado da entrada das balas, apenas pontos negros na cabeça. Do outro lado, sangreira desatada.

Dias antes eu tivera uma longa e excepcionalmente íntima conversa com Paulo. Uns meses antes ele havia deixado de ser deputado estadual, eleito pelo PMDB. Tentara um vôo mais alto, para a Câmara Federal. Complicações e mudanças na sua base de atuação, o violento sul do Pará, recordista nacional em conflitos de terra, onde era advogado de posseiros, truncaram sua carreira. Voltou ao seu partido subterrâneo, o PC do B, e à atividade militante. Fazendeiros o juraram de morte, no ajuste de contas que a perda da imunidade parlamentar estimulara. Um deles, selecionado pelas regras de uma confraria misteriosa, mandou matá-lo.

Crimes de encomenda não são propriamente novidade na Amazônia, mas a morte de Paulo foi o primeiro crime político cometido nos limites da capital, sede dos poderes constitucionais. Até então, a lei da selva vigorava apenas no sertão, no hinterland, à distância dos resíduos de modernidade que chegavam à jungle. Desde então, o darwinismo social se generalizou. Os matadores estavam liberados. Ninguém tinha mais nenhuma daquelas garantias que os advogados e os legisladores plantam na constituição e nas leis em geral, mas que não medram no sertão. Deus, se quiser vir a ele, que se arme, como diz o feiticeiro Guimarães Rosa na abertura do seu Grande Sertão: Veredas.

Achei que a imprensa não podia permitir essa barbárie. Durante três meses me apliquei integralmente à investigação do crime, como uma questão pessoal, profissional, política, de cidadania, de honra. Quando tinha uma história completa, da reconstituição do atentado até os seus mandantes, tentei publicar a reportagem no jornal no qual então também trabalhava, O Liberal. Mas "eles" tiveram medo.

Eu acusava os dois homens mais ricos do Estado de terem mentido em seus depoimentos e, dessa maneira, favorecido o acobertamento dos autores intelectuais do assassinato, que talvez conhecessem. Uma das proprietárias da empresa, depois de ler o longo texto e lamentar não poder publicá-lo, se dispôs a me ajudar na solução do impasse que sempre se cria quando um jornalista quer publicar e o dono do jornal não quer: fiz o meu próprio jornal, mais uma vez sozinho, dispensando publicidade (80% do faturamento de uma empresa jornalística convencional), vivendo exclusivamente da venda avulsa, indo para as bancas de rua e não restrito a assinantes. Ela o imprimiria, e de graça, desde que eu não citasse a gráfica, para não transferir-lhe responsabilidade (detalhe da repressora Lei de Imprensa, de 1967, para inibir gráficas de abrigar publicações independentes e incômodas, que a empresária utilizaria seis anos depois, para tentar calar o mesmo jornal, quando já estávamos em lados opostos).

Essa matéria inaugural me deu um dos dois Prêmios Fenaj (da Federação Nacional dos Jornalistas), que ganharia no ano seguinte, e provocou um impacto local significativo. Mas para fazer a matéria principal do segundo número, perdi a gráfica e passei a perder a proximidade com a poderosa família Maiorana, dona de O Liberal, até me tornar um de seus mais perseguidos oponentes, processado cinco vezes para calar.

Sem anúncio, sem foto

Fui informado de que o presidente interino do Banco da Amazônia comandava uma quadrilha que agia dentro da instituição, a maior da rede financeira regional. Haviam provocado um "rombo" equivalente a 30 milhões de dólares, em valor da época. Mas nenhuma só linha a respeito saía nos três jornais diários de Belém. Augusto Barreira Pereira era procurador de O Liberal e tinha apoio político do hoje senador Jader Barbalho, dono do Diário do Pará. Um dos envolvidos no desfalque, o delicioso compositor paraense (radicado no Rio de Janeiro) Billy Blanco, era irmão do superintendente de A Província do Pará.

Poucos dias antes, o secretário de Finanças da Pensilvânia, nos Estados Unidos, no curso de uma campanha de denúncias da imprensa local, se suicidara com um tiro de revólver na boca, diante das câmeras de televisão e de repórteres chocados. Ele era acusado de desviar 300 mil dólares. Ou seja: 100 vezes menos do que o rombo no Basa, banco essencial de uma terra bem menos rica do que o tradicional Estado americano.

Mas desta vez, não: O Liberal não cederia suas máquinas, nem que eu pagasse. Fui para outra gráfica, onde rodei o Jornal Pessoal n.º 2, na segunda quinzena de setembro de 1987, o ano recorde de queimadas e desmatamentos na Amazônia, uma destruição de floresta nativa (80 mil quilômetros quadrados postos abaixo em seis meses) sem igual em toda a história humana. Mas o número três eu tive que passar para outra gráfica: o dono da anterior não gostara do que eu havia dito sobre o uso de cocaína no high society paraense. E assim migrei de gráfica em gráfica, estabilizando-me na oitava por omitir sua identificação, até que o pessoal de O Liberal recorreu ao Ministério Público para fazer valer a lei da mordaça. Fui para a lona, mas assim que pude voltei à antiga casa, com o mesmo despistamento que os repressores nos impõem. Hoje, comemoro a 11ª gráfica, sem me perguntar sobre o tempo da festa.

Nem mesmo há tempo para comemorar. Infelizmente, a trajetória do Jornal Pessoal, que chega a 13 anos na primeira quinzena de setembro, revela um fato inquietante: algumas das suas principais matérias jamais apareceram, pouco apareceram ou só emergiram nas páginas da grande imprensa sob pesada maquilagem ou profunda distorção. Para saber o que de fato aconteceu na região que constitui a segunda preocupação mundial (segundo pesquisa da Unesco, depois do efeito estufa), será preciso recuperar dos arquivos essa publicação em pequeno formato, oito páginas, sem anúncio, sem fotografia, sem o bric-a-brac de "photoshops".

Dou um único exemplo. Em dezembro de 1991, um rapaz elegante e bonito de uma das mais tradicionais famílias da sociedade, colunável por berço, foi assassinado quando dirigia seu carro pela estrada de acesso a Belém. Uma caminhonete emparelhou com o automóvel dele, a 90 quilômetros por hora. Uma pessoa fez um único disparo, atingindo Bruno Meira Mattos na cabeça. Ele morreu na hora. Seu carro, desgovernado, foi parar no meio-fio. Ninguém viu os ocupantes do veículo que serviu ao crime.

Nem viu matérias a respeito na grande imprensa. A partir dessa situação estranha, investiguei. Na verdade, Bruno usava sua empresa de câmbio e turismo como fachada para o seu principal negócio: a cobertura do narcotráfico internacional. Em 1991, ele intermediara a passagem de 100 milhões de dólares em cocaína para a Europa e os Estados Unidos. Um mundo aparentemente limpo ocultava o submundo delinqüente, com tentáculos subindo aos patamares do poder.

Durante meses publiquei sozinho fatos que me impressionavam, atingindo pessoas que conhecia, criando problemas, incomodando, contrariando interesses poderosos, deixando feridas à mostra. Tentei passar informações para colegas, dividindo o alvo. Nada. Cada fechamento do JP era uma fonte de angústia. Diante do volume e da qualidade do meu noticiário, edição após edição, certo dia os três jornais deram com destaque matéria com o mesmo texto: a viúva, vasculhando roupas do marido, encontrara um bilhete perdido no qual Bruno anunciava que se suicidaria. Era isso: ele não fora morto, se matara. Não importa as circunstâncias, que colocavam esse "suicídio" como único na crônica mundial em todos os tempos: tiro disparado da esquerda para a direita da vítima, de uma distância mínima de três metros, dado de cima para baixo – Bruno, que era destro e não era atirador, dirigindo seu carro a 90 quilômetros por hora, em plena rodovia federal, e fulminado cirurgicamente por uma única bala.

Assim ficaria até que a Polícia Federal apreendeu uma tonelada de cocaína, a maior apreensão feita no Brasil até então, de uma quadrilha internacional que usava a Amazônia como caminho de passagem da droga. A imprensa então regurgitou. A televisão toda foi para cima do delegado José Sales, numa concorrida entrevista coletiva. Eu estava lá. Ouvi tudo em silêncio. Apagados os refletores, desmobilizadas as equipes, continuei sentado e calado. Um colega perguntou o que eu ia fazer. Disse que ia trocar figurinhas com o delegado. O colega voltou a se sentar: "Bom, agora é que vai ser bom", anunciou para os outros.

Ponderei que não há off coletivo. A conversa reservada só existe por uma relação de confiança a dois. Mas eu aceitaria a presença de todos, desde que se obrigassem a publicar as informações que surgiriam nesse papo informal. Automaticamente, todos se levantaram e sumiram. O delegado, boquiaberto, se virou para mim: "São teus amigos, hein?".

Foi um dos momentos mais tristes da minha carreira. Meus colegas, em época de democracia plena, rara no nosso país, fazem a autocensura, tentando adivinhar o que delas espera o patrão, livrando-os do peso do conflito que purga consciências e relativiza o controle particular da informação, impedindo a total manipulação da opinião pública, a sociedade unidimensional que nos ameaça, o pensamento único que nos inquieta.

Móveis e utensílios

O momento profissional mais feliz desse período, eu o vivi em Roma, numa iluminada noite de verão de junho de 1997, quando recebi o "Colombe d’oro per la Pace", uma escultura esculpida em ouro puro e lazúli para o reconhecimento, pelo Archivio Disarmo – ONG chefiada pelo senador socialista Anderlini –, a quatro personalidades destacadas do ano. Fui indicado para o comitê de seleção por Maurizio Chierici, um dos principais enviados especiais do Corriere della Sera, o maior jornal italiano. Segundo ele, meu jornalzinho contribui para combater as injustiças sociais e a violação dos direitos humanos. Recebi o prêmio ao lado do deputado irlandês John Hume, no ano seguinte novamente premiado, agora com o Nobel da Paz.

Na belíssima solenidade estavam os embaixadores da Irlanda do Norte e da Inglaterra, lado a lado, fato lembrado pelo apresentador e aplaudido intensamente pela platéia. Também lá estava o embaixador da Albânia, junto ao jornalista Fatos Lubonja, mantido no cárcere de Enver Hoxha por 19 anos, em função das poesias heréticas que escrevia. O embaixador do Brasil mandou um obscuro representante. Tinha coisas mais importantes a fazer. De Brasília, à qual recorreu para saber quem eu era, disseram que eu era um jornalista irritantemente chato, crítico demais. Não merecia os louros verde-amarelos.

Talvez não mereça mesmo. Em 1998, depois de 17 anos na casa, da qual já era móveis e utensílios, pedi demissão de O Estado de S.Paulo. O projeto da sucursal regional, contracanto ao uníssono solilóquio do poder, evolara. Com o cosmopolita FHC, nossos barões da informação viriam a sentir-se um pouco no poder também. A Amazônia era a selva selvaggia aspra e forte, reduto menor, apesar de geograficamente maior, miticamente imensa, utilitariamente vital. Dei adeus à grande imprensa. Tornei-me ousider até a medula. E quem vai para a chuva tem mesmo é que se molhar, como sabemos muitos de nós, habitantes deste outro país nomeadamente brasileiro, no qual as chuvas são constantes e abundantes. Ou ao menos o serão enquanto permitir o grande bwana, em sua face crua no QG ou através das máscaras do fantasma-que-anda — e que depreda, que explora, que mata e que faz esquecer com sua história oficial.




MEMÓRIA / BARBOSA LIMA SOBRINHO

Um exemplo de reta ação

Vera Silva (*)

"Tomei todas as atitudes que deveria tomar em todas as idades." [ Barbosa Lima Sobrinho ao fazer 100 anos, conforme Wilson Tosta e Roberta Jansen – em "Trajetória pessoal confunde-se com vida do país no século 20", copyright O Estado de S.Paulo, 17/7/00, reproduzido no Observatório da Imprensa nº 93, 20/7/00 ]

Esta é uma declaração que impressiona. Agir pelo dever, a assim chamada reta ação, meta a alcançar pelo homem que deseja ser feliz, é hoje uma raridade. Poucos são aqueles que aceitam pagar o preço de agir pelo dever. Acredito que seja este comportamento de Barbosa Lima Sobrinho o que mais tenha impressionado os brasileiros destes tempos.

Talvez por isso tantas loas a este homem, tantas homenagens. Contudo, podemos perceber em muitas delas a nostalgia do fim. O desânimo da perda daquele que nos parecia o exemplo da integridade. Sua morte parece dizer que acabou, não temos mais onde nos mirar e enxergar a dignidade humana. Essa dor foi o que mais me impressionou ao ler o que se escreveu sobre este homem após a sua morte.

Não, ele não morreu, o espelho não desapareceu. A Justiça, o Bem, o Amor são eternos, como eterna será a possibilidade de cada ser humano usar a vida para refleti-los. Barbosa Lima Sobrinho fez isso e disso tinha consciência. Agia pelo dever, mesmo que isso parecesse estranho aos demais e lhe causasse transtornos.

Não posso pensar em homenagem maior a sua memória do que nos dedicarmos em nossas ações a imitar-lhe o exemplo de agir pelo dever. Sem tergiversar. Ele é um exemplo de ação e não de contemplação mística. Sua vida de ação inspira ação. Ação pessoal, ação pelo que se deve fazer.

Só nos resta agradecer o privilégio de ele haver estado conosco e executar a reta ação como o vimos fazer.

(*) Psicóloga




ASPAS

SUCESSÃO NA ABI

"Novo presidente da ABI", copyright Informe ABI <www.abi.org.br>, 28/7/00

"Fernando Segismundo Esteves é o novo presidente da Associação Brasileira de Imprensa, eleito que foi pelo Conselho Administrativo da entidade, por 34 votos entre os 37 conselheiros que votaram (2 dos 45 titulares ainda chegaram a comparecer, mas a votação já tinha se encerrado). A posse foi imediata e Segismundo, homenageando Barbosa Lima Sobrinho, disse que considerava a presidência da ABI ‘um lugar para trabalhar pelo país’, acrescentando que também teria de se preocupar com as questões da categoria e administrativas.

O novo presidente tem longa tradição de atuação na ABI, onde secretariou Herbert Moses e participou de várias diretorias. Atualmente presidia o Conselho Administrativo. Sob o regime militar instaurado em 1964, foi presidente substituto de Prudente de Morais, neto, e Danton Jobim, por dilatados períodos, e presidente eleito pelo Conselho Administrativo, no ano de 1978, até passar o cargo a Barbosa Lima Sobrinho, para cuja eleição colaborou.

‘E talvez só houvesse concordado definitivamente em disputar a presidência da ABI quando apelei para que Fernando Segismundo viesse colaborar conosco e ele concordou, num gesto que o dignifica e enobrece, aceitando um posto que oferece maiores perspectivas à sua inteligência e ao seu nunca desmentido amor a esta Casa de Jornalistas.’ (Barbosa Lima Sobrinho, discurso de posse, maio de 1978).

Segismundo trabalhou em vários jornais, especialmente no Diário de Notícias, onde ficou 37 anos. Em defesa da ABI e do ideal democrático, foi detido várias vezes, preso e processado (inquéritos policiais-militares ), mas absolvido sempre. Dentre os muitos episódios vivenciados em favor da ABI e da sociedade, gosta de recordar a delegação que lhe foi conferida pelo Conselho Administrativo para negociar com o ministro Petrônio Portela o retorno do país ao Estado de Direito (governo do general Ernesto Geisel, 1977/1978).

Ao lado de Prudente de Morais, neto, e Barbosa Lima Sobrinho, concorreu para desfazer a versão oficial do ‘suicídio’ de Vladimir Herzog (1975). Era presidente em exercício quando da explosão de uma bomba no 7º andar da sede da ABI, destruindo-o parcialmente. Por causa disso foi detido pela polícia e submetido a inquérito."



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