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Por que medram Pimentas
Nivaldo T. Manzano (*)
Dois anos atrás, o Observatório da Imprensa publicou um artigo meu intitulado "Carta aberta aos jornalistas – Os novos bárbaros" [ver remissão abaixo], no qual eu chamava atenção para a expansão avassaladora do poder imperial, por parte dos chefes, no ambiente das redações. Manifestava estupefação diante do exercício narcisista do mandonismo desbragado, que, se não convém a nós, jornalistas, tampouco convém aos patrões, como é fácil observar agora no caso dos Mesquita, e muito menos aos leitores.
Alertava para a necessidade de se pôr cobro ao autoritarismo das chefias, que se acreditam acima do bem e do mal, e propunha, a exemplo do que ocorre em países do Hemisfério Norte, que se cortem as asas do arbítrio. Sugeria a criação de critérios explícitos e de instrumentos de decisão que removam o poder absoluto dos chefes. Para o pesar de todos, vê-se agora, no caso Pimenta Neves, que infelizmente minhas observações pareciam pertinentes.
Ir até o fundo da questão, no caso, implica que se repense a maneira como se exerce a autoridade nas redações. O mando a bel-prazer é uma ameaça a todos; não apenas pelo fato de mandar, mas porque, mandando, inibe-se a capacidade de discernimento e de reação por parte das vítimas, que, se não morrem de tiro, como Sandra, morrem um pouco a cada dia, adubando com sua defecção o terreno em que medram Pimentas.
(*) e-mail: <nmanzano@u-net.com.br>
Os novos bárbaros (trechos)
N.T.M.
Trechos do artigo publicado no Observatório da Imprensa nº 39, de 20/2/98.
Para ler a íntegra, clique aqui
(...) Estamos vivendo um Camboja em nossa vida profissional, desde o advento dos novos bárbaros que passaram a dar feições pavorosas ao exercício do poder nas redações. Não haveria por que deter-se no lado sombrio de nosso cotidiano – na verdade, mera extensão da violência institucional que grassa por toda parte, abatendo gente ainda mais indefesa que nós. Ocorre que à diferença de muitos, nós, jornalistas, nos consideramos por profissão e vocação um dos instrumentos das mudanças que apontam para um convívio melhor entre os homens. Sabemos, mais do que ninguém, que o autoritarismo é a mais pesada das poitas que nos retêm próximos da selvageria. Mas como converter nossa fé e esperança em tarefa, se nos golpeiam fundo na vontade, castram nosso moral, anulam nossas energias e comprometem a eficácia de nosso trabalho?
A quem interessa e a quem beneficia o saldo do mando a bel-prazer?
Aos nossos empregadores, em primeiro lugar, certamente que não. Embora sejam senhores absolutos da decisão de contratar e demitir, não pode passar pela cabeça de ninguém que estejam jogando dinheiro fora ao recrutar com o esmero de hoje os talentos que sua máquina irá moer amanhã. A propósito, por muito tempo o debate foi bloqueado pelo maniqueísmo. Por isso, retomá-lo [na direção aqui proposta] pode sugerir que se pretende escamotear o essencial, desviando-o para o conforto do oportunismo. Aos que assim pensam, respondo: pelo menos metade de minha vida profissional consumiu-se em funções de chefia – a serviço dos patrões, portanto. Nunca jamais me foi sequer de longe insinuado que perpetrasse as barbaridades que hoje presenciamos (...)."
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"(...) Diferentemente do mundo da fábrica, a corporação jornalística não passou pela primeira revolução na organização do trabalho nem pela última. Desde a invenção da imprensa até os dias de hoje, pouca coisa mudou na forma como estabelecemos nossa rotina de trabalho ou no modo como promovemos a interação entre os indivíduos que dela participam. Ao contrário do que ocorria na fábrica de Ford, não operamos como partes mecânicas, isoladas e inertes, sem interação. Se a cor do capacete devesse indicar o lugar que ocupamos na estrutura arborescente de Ford e Sloan, cada um de nós deles portaria uma coleção inteira – não importa a função, fazemos necessariamente de tudo um pouco e conjuntamente, de modo que a obra final é sempre resultado de um esforço comum. (...) Assim, nas redações o trabalho de A pode tornar possível o aprimoramento do trabalho de B, e o trabalho de B, por sua vez, pode ser utilizado para melhorar o trabalho de A. E a melhoria de A tornará possível o crescimento da eficácia de B, e assim por diante. Um por todos e todos por um é o lema de nossa prática mosqueteira que está por trás de cada matéria, de cada título, de cada manchete. (...) A organização de nosso trabalho só é comparável em flexibilidade, agilidade, leveza e improvisação às asas da imaginação. Tudo orientado para captar o novo, o singular. (...)"
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