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CARTAS
O grande crime

Não bastassem os pequenos assassinatos diários cometidos pelos jornalistas (chapa-branca, assessorias etc.), agora comete-se um grande crime, sangrento e covarde. Só espero que, agora, a imprensa não cometa mais um assassinato: a reputação da morta. Vou "observar" como a imprensa trata seus medalhões.

Aliás, o medalhão em pauta pode ter "um dos melhores currículos" da imprensa, no entanto, como homem e ser humano o cara é um lixo. Está na hora de lavar a roupa suja.

Tom Paine



Ana Arruda

Foi brilhante a participação da jornalista Ana Arruda Callado neste debate. Ela foi capaz de traduzir o que todas nós, jornalistas, sentimos como mulheres em relação a este caso, independentemente da nossa posição profissional e da nossa imparcialidade.

Também concordo com a opinião do advogado da família de Sandra Gomide: a imprensa só divulgou claramente o assassinato porque se viu pressionada pelo público.

Rosely de Oliveira Martins



Perguntem aos colegas

O que se vê, e o que se lê, neste lamentável episódio, é um acobertamento de parte da imprensa. O "suspeito" tenta, depois de ingerir cápsulas na casa de conhecido publicitário, manchar a imagem da vítima. e se esconde em clínica para milionários, fugindo de qualquer julgamento. Trabalhei com Pimenta Neves duas vezes, e não foram momentos agradáveis. Tudo que está vindo à tona sobre o caráter do assassino confesso e comportamentos "profissionais" só confirmam o que eu já sabia. É fácil, agora, ter opinião sobre o Pimenta?

Até pode ser. Mas perguntem aos que trabalharam na mesma época que eu na Gazeta Mercantil. Certamente, zelosos (para não dizer outra palavra) que são, não vão contar nada. São cúmplices do comportamento maluco deste sujeito. Se há justiça, que seja feita. Pimenta no xadrez!

Severino Goes



Difícil isenção

Acho difícil, muito difícil que os jornalistas tenham isenção suficiente fazerem uma cobertura isenta. Não acho que está sendo nada isento o UOL, suas chamadas no fórum que dizem "o que leva uma pessoa a matar outra? Será que em qualquer circunstância uma pessoa pode cometer um assassinato"? Essas formulações parecem ser uma forma de conduzir a opinião pública. Não foi "uma pessoa que matou outra", mas um homem que matou uma mulher, isso já revela que houve violência sexista, sentimento de propriedade sobre a mulher. Por que acham que existe Delegacia da Mulher, já visitaram uma? Já viram mulheres acuadas? Li também uma análise segundo a qual a cobertura inicial da Folha era totalmente preconceituosa, sem fundamento eles acusavam a jornalista assassinada de "desonesta", enquanto qualificavam o assassino de "notável". Também não sei se a nota oficial da empresa O Estado de S.Paulo foi ética. Ela foi reproduzida nos jornais e também no UOL. Achei uma reportagem posterior da Folha um pouco mais isenta, até colocaram a nota do Estado somente no final. Mas ainda é difícil acreditar na isenção dos jornalistas, eles não são sobre-humanos. Em casos como esse deveria haver uma auditoria da sociedade sobre o que vão publicar.

Elisa Sayeg, psicóloga



A Globo acertou

Ao assistir o programa sobre o caso Pimenta e particularmente sobre o excelente trabalho de reportagem feito pela Rede Globo, filmando o depoimento do "imperador", fiquei abismado com os depoimentos do senador Arthur da Távola e em especial do advogado do tal senhor. Depoimento de suspeitos ou criminosos, como é o caso, deve ser uma peça pública, até para salvaguardar o próprio depoente das distorções do kafkiano processo de justiça brasileiro, como também das "tentações" pecuniárias de "aliviar" a culpabilidade ou as pressões políticas de "carregar" a culpa do depoente etc..

Lamento que os advogados deste país entendam que a interpretação dos fatos tenha que ser apenas no enfoque "jurídico" da questão, em cima de instrumentos legais defasados, anacrônicos, patrimonialistas e corporativos. O mundo mudou, as pessoas mudaram, as relações sociais mudaram, a cidadania cresce a cada dia e a imprensa tem um papel fundamental na mudança dos velhos paradigmas de controle social da sociedade. Lamento que o programa não dê espaço a uma participação mais ativa daqueles que o identificam como um programa sério, que merece ser assistido.

O exemplo da Globo é um marco de transparência que deveria ser adotado para que todos passem a conhecer mais do que a ponta do iceberg dos problemas do Judiciário brasileiro e da atuação dos advogados. Num país que vende mais livro que a Itália, o povo tem condição de julgar que valores devem ou não ser legitimados. A imprensa, por questão de tempo, espaço ou qualquer outro motivo objetivo, deve ser ética no processo de edição, fato muito bem abordado pelo representante do jornal O Estado de S. Paulo.

Adauto Lima Rodrigues



A Globo errou

Vejo que pior do que o próprio crime é a Globo bisbilhotar a intimidade do assassino. Fazer de nós xeretas, me fazer voyeur dessa tragédia. Queremos ser cidadãos responsáveis, com leis, julgamentos, condenações. Mas tudo dentro da ética. Não aprovei.

Helena Maria Bruno Pinto e Silva



Ilícito, imoral e antiético

1) A atitude da Rede Globo de subornar alguém para entrar com uma câmera na sala do depoimento é inaceitável, e os jornalistas não podem aceitar este tipo de recurso ilícito, imoral e antiético para dar uma notícia. Será que a Globo tem agora moral (já teve alguma vez?) para criticar aqueles corruptores que suas famosas câmeras escondidas costumam pegar? Por que não colocaram uma câmera escondida para mostrar o repórter da Globo pagando à pessoa que levou a câmera escondida?

2) A Rede Record tem tratado o caso (como sempre faz em seu pseudo-jornalismo sensacionalista) como mero recurso de ibope. Tenta dar ao caso um ar de escândalo que efetivamente não tem. Foi um assassinato bárbaro, que tem de ser punido exemplarmente, como muitos outros crimes cometidos no Brasil.

3) Não há que se reclamar de prisão preventiva para o jornalista, como pretendem muitos. Não se justifica. O Sr. Pimenta Neves cometeu um assassinato, mas é réu primário, não representa perigo para a sociedade e não há indícios de que vá fugir do país. O Sr. Pimenta Neves cometeu um crime, é verdade, mas não é um assassino contumaz e, ao que tudo indica e até que provem o contrário, também é vítima de sua própria estupidez. O juiz não pode decretar prisão preventiva sem os elementos exigidos por lei, acima mencionados. Parabéns pelo programa. Gosto muito.

Marcos Ferraz, Salvador



Operação-abafa

Executivo, Legislativo e TV Globo já há muito tempo não demonstram ter nenhuma credibilidade. Com o caso Pimenta, Judiciário e imprensa acabaram de enterrar a nação. Começou a operação-abafa.

Daniel Zanini Filho



Três crimes

De um modo geral, entendo que a imprensa tem se comportado de maneira tímida na cobertura do caso, ainda mais se tratando de uma situação na qual as "fontes" estão literalmente ao lado dos repórteres. Vejam só o caso da Folha, que publicou ampla reportagem a respeito, tendo o cuidado de manter em off todas as declarações. Por quê? Do ponto de vista ético, Pimenta Neves cometeu (segundo informações publicadas na imprensa) pelo menos três deslizes imperdoáveis:

1) Misturou o lado pessoal com o profissional ao promover em curto espaço uma repórter ao posto de editora;

2) Demitiu-a e, utilizando-se de seu cargo, ameaçou editores e donos de assessorias caso a contratassem – gozado, quem são estes editores e estes donos de assessorias? Por que ninguém se pronunciou até agora?

3) Censurou arbitrariamente notícias referentes à Rede Globo (talvez esteja aí seu segundo "crime", não é? Comprou uma briga com Deus).

Corajosos, amigos como Enio Mainardi, Inácio Loyola Brandão e Roberto Muller se pronunciaram em defesa do jornalista. No entanto, algumas dúvidas permanecem (falando sempre do ponto de vista ético): os diretores do Estadão tinham conhecimento dos antecedentes (namoro, posterior contratação e censura às matérias sobre a Globo)? Por que nunca se pronunciaram? Pimenta Neves é um homem muito bem relacionado. Como é réu confesso, as testemunhas de defesa deverão ser chamadas para comprovar o caráter e a idoneidade do acusado. Pois bem: qual será a posição de um veículo cujo diretor de redação ou editor-chefe for convocado para depor como testemunha de defesa? Já pensaram nesta hipótese? Creio que este assunto, meio a contragosto de alguns, ainda vai render muita discussão entre os jornalistas.

Guilherme Meirelles



Onde estava a direção?

O caso Pimenta Neves abriu uma ferida em nossa corporação. A verdade é que o conselho diretor do Estadão tem sua parcela de responsabilidade nesse episódio lamentável. Como puderam aceitar a demissão sumária de um profissional, a exemplo do que ocorreu com Sandra Gomide? Concordaram com o fato de que um homem ferido usou seu poder contra a mulher que o feriu?

Houve manifestações na porta da clínica onde Pimenta Neves se internou, mas não seria o caso de haver manifestações na porta do Estadão? Afinal, o jornal não foi conivente com a história, permitindo que ela chegasse a este clímax? Não seria mais fácil a direção vetar a demissão em função do caso público e notório entre os dois, porque Pimenta não teria condições éticas para tomar essa atitude? Aliás, cadê a ética nessa história? Não seria o caso de afastar os dois?

O crime cometido pelo Pimenta Neves é passional e totalmente injustificável, mas não teria ele se sentido protegido pelo Estadão, já que fez e aconteceu – demitindo e pressionando colegas para não arrumarem emprego para Sandra, usando seu poder?

São discussões que precisamos levar a fundo. Casos como o de Pimenta Neves se multiplicam nas redações, e outras tragédias passionais podem ocorrer. Podemos evitar isso se pelo menos entre nós não formos hipócritas, como o foi a direção do Estadão, conservadora. Nem tanto por admitir o desmando, ou permitir a violência contra Sandra, mas por ser capaz de perdoar Pimenta Neves e mantê-lo à frente redação mesmo ciente de sua situação frágil.

Ana Paula Lobo



Profissionalismo e corrupção

Como sempre, há dificuldade para tratar um assunto de morte recente. Ora, mas é confesso que houve privilégio e, eu diria, corrupção: promoções, salários imediatamente triplicados, poder, em troca de tratos pessoais. Não foi isso? O corruptor não nega. A corrompida não pode mais ser ouvida. Há assassino, é claro, e disso a Justiça que conhecemos cuidará. Valeria a pena lembrar as longas e duras batalhas de muitos anos para retirar da mulher a função de objeto. Sinto muito, mas ninguém dorme com o inimigo impunemente.

A. M. Biezok



Jornalistas chocados

Entendo que os jornalistas estejam chocados com o crime. Mas esta não deveria ser a reação normal? O fato de o assassino ser jornalista não os está constrangendo além da medida? Foi um crime praticado por um jornalista que vitimou outro jornalista. Mas poderia ter sido praticado por médico, advogado ou trabalhador comum. E não deixaria de ser hediondo.

Vera Lyra



Abaixo-assinado nas redações

O que é isso companheiros? O editor do iG virou jurisconsulto? Cadê a isenção mínima que se espera de um jornalista?

"Abaixo-assinado circula nas redações, 09:50 27/08

Heloisa Ribeiro, repórter iG em São Paulo (helorib@ig.com.br)

Dezenas de jornalistas participam de abaixo-assinado elaborado nas redações, contra assassinato de Sandra Gomide.

Além do abaixo-assinado feito por Erica Benute, ex-colega de Sandra Gomide, jornalistas das redações São Paulo elaboraram um segundo texto, e recolhem assinaturas para ajudar na defesa de Sandra. A seguir, o texto na íntegra do abaixo-assinado. Os interessados em participar podem enviar nome e telefone para <editorultimosegundo@ig.com.br>:

‘Um tiro pelas costas, para imobilizar a vítima. Em seguida, o assassino se aproxima e dispara outro tiro, direto no ouvido. Sem chance alguma de defesa. Assim a jornalista Sandra Florentino Gomide, de 32 anos, foi morta pelo ex-namorado, o também jornalista Antônio Pimenta Neves, de 63 anos. Aconteceu no dia 20 de agosto. Agora, como em outros tantos assassinatos de mulheres, o advogado de Pimenta Neves argumenta que o homicida estava sob ‘forte emoção’, que ‘não oferece risco em liberdade’, que ‘não é nenhum bandido’, que apenas ‘cometeu um crime de ímpeto’.

Prepara-se, como em outras tantas ocasiões, o terreno da farsa para que viceje a impunidade. Vamos lembrar:

1. Pimenta Neves preparou-se meticulosamente para o crime, o que contraria a idéia da ‘forte emoção’, do ‘crime de ímpeto’. Durante um mês, andou armado, ameaçou, assombrou a vida de sua vítima. Perseguiu Sandra e aterrorizou os que quiseram protegê-la. Isso é premeditação.

2. Na hora de cumprir as ameaças, Pimenta Neves agiu como assassino frio e consciente. Atocaiou Sandra e disparou tiros certeiros. Depois, executou perfeitamente o esquema de fuga. Tudo planejado.

3. Por fim, o homem que o advogado agora quer fazer parecer um indivíduo transtornado pela dor da paixão ainda procurou – e encontrou – guarida para fugir do flagrante. Bem racional.

Os abaixo-assinados sabem que se prepara o terreno da farsa e não aceitam isso. Durante todo o longo período em que foi perseguida, ameaçada e agredida, Sandra Florentino Gomide pediu ajuda. Mas não se conseguiu protegê-la. Agora, quando tudo já é tarde demais, quando a família dela já chora a perda, exigimos que o assassino seja punido como deve ser. Estamos fartos da violência e da impunidade. A farsa da ‘forte emoção’, os bons antecedentes do assassino, o currículo profissional e as homenagens que recebeu não haverão de impedir que se faça justiça. Acompanharemos com atenção o andamento do caso e denunciaremos publicamente qualquer tentativa de distorção dos fatos.’"

Cláudio Fonseca



Internet vs. papel I

Acho que o fato de os sites terem feito boa cobertura sobre o assassinato [ver remissão abaixo do artigo "Internet versus papel", de Luiz Antonio Magalhães] ainda não nos pode levar à conclusão de que eles estão ficando mais ágeis do que a imprensa tradicional. É bom lembrar que eles puderam fazer a tal cobertura por terem fontes entre os jornalistas das grandes redações. Foram os colegas dos jornais que certamente forneceram as informações publicadas em primeira mão nos sites. E, todos nós sabemos, jornalistas adoram receber informações em primeira mão e passar informações em primeira mão. Em muitos casos, era mais interessante passar esses dados para um site, fora do circuito das redações tradicionais.

Considerando essa peculiaridade do acesso facilitado às fontes, creio que a cobertura do assassinato não é um bom parâmetro para avaliar se os sites estão superando os jornais e as TVs em termos de reportagem.

Maria Teresa Jesus de Souza

Luiz Antonio Magalhães responde: Em primeiro lugar, obrigado por seus comentários. Não tenho uma opinião consolidada sobre as causas da melhor cobertura dos sites em relação a jornais e redes de TV no caso da morte de Sandra Gomide. Acho plausível a hipótese de que os sites estejam cobrindo o caso de maneira mais "livre" porque a internet ainda não se tornou veículo de comunicação de massas. Ou seja, na rede as informações estariam sofrendo menos "interferências" de editores preocupados com os efeitos da cobertura. É bem verdade que, desde o dia 24/8, quando meu artigo foi escrito, a cobertura da mídia impressa e da TV mudou muito, está mais sensacionalista. É o fenômeno do "estouro da boiada": quando alguns veículos começam a dar muito destaque a determinado assunto, os demais correm atrás. De toda maneira, acredito que a comparação entre a cobertura dos sites e das demais mídias é válida para mostrar o potencial da internet no jornalismo. Um grande abraço, escreva sempre. L. A. M. (Editor-assistente do O. I.)



Internet vs. papel II

O que fez a diferença na cobertura do assassinato da jornalista Sandra Gomide foi o trabalho da repórter Angélica Santa Cruz. Ela saiu na frente de todos, num verdadeiro trabalho de reportagem. Quem queria saber os bastidores do caso procurava o site No. Não é exagero: se Angélica estivesse trabalhando num jornal impresso, a cobertura dos jornais seria melhor que a da internet.

Pascoal Gomes

L. A. M responde: Prezado Pascoal, sem dúvida alguma o trabalho da Angélica foi admirável. Não creio, no entanto, que a diferença entre a cobertura dos jornais impressos e a dos sites tenha sido tão grande em função do trabalho dos repórteres. A Folha Online, por exemplo, disponibilizou, sobretudo no início da cobertura, muito mais informações do que a Folha de S. Paulo. O mesmo ocorreu com o site da Agência Estado e jornal O Estado de S.Paulo. Um abraço, L. A. M.



A reação dos perseguidos

Ser jornalista é mediar entre água e fogo conquistando amigos fiéis ou inimigos mortais. Agora, deixemos de lado o sentimentalismo do caso Pimenta:

* Quantos "daqueles que se dizem perseguidos" por Pimenta devem estar sorrindo com essa desgraça?

* Quantos colegas jornalistas "que se dizem injustiçados" pelo fato de se verem despedidos por Pimenta estão "aliviados"?

* Quantos anos de serviço em busca de uma promoção essa tragédia encurtou para os próximos diretores de redação de O Estado de S. Paulo?

Perguntas que não nos cabe responder. Porém nos fazem refletir seriamente sobre nossas atitudes ásperas nas redações, nossa prepotência em nome do bom jornalismo e até dessa entrega, quase masoquista, de dedicar uma vida inteira à profissão. Muitas vezes nos esquecendo que atrás de gravatas apertadas e mesas desarrumadas bate um coração de homem comum, único ser racional que ama por saber e mata por prazer, imperfeito demais para quem procura sempre a clarividência de fatos, um jornalista.

Hermann Stipp, 26 anos, 4º ano de Jornalismo da Unitau, Taubaté, SP



Trunfo para a defesa

Para mim, o episódio apenas comprova um amor oportunista e interesseiro, um aspecto nojento, sobre até aonde pode chegar o ser humano – à corrupção também de sua própria alma. Isto seria um grande trunfo na defesa do criminoso.

Eitel Couto Rosa Jr., Franca, SP



Perda de tempo I

É lamentável que num momento em que o país chafurda na lama da corrupção, quando às portas das eleições de outubro próximo, e o espectro da fraude a nos rondar, como se ainda vivêssemos na época das eleições a bico de pena, o Observatório se ocupe de bobagens como o programa No limite, da TV Globo (que aliás nem sei direito de que se trata, posto que não perco tempo com tais coisas). Como se não bastasse, o programa se ocupou do caso Pimenta Neves. Trata-se de um assassino como tantos outros que existem por aí e que não deveria merecer mais do que umas poucas linhas nos noticiários policiais (prato cheio para O Dia ou O Povo).

O povo está passando fome (todos os dias eu vejo gente idosa apanhando, nas caixas coletoras de lixo, latinhas de cerveja e refrigerante para sobreviver). O Brasil está ameaçado na sua soberania e no entanto vocês perdem tempo com coisas menores. O caso Pimenta Neves ficaria melhor num tratado de teratologia, como ilustração de um caso típico. Ao matar a jovem jornalista o assassino objetivava destruir a prova mais cabal do seu fracasso, da sua impotência. Ao contrário dele, ela era jovem e cheia de vida. Na sua fragilidade, Pimenta Neves alimentou a ilusão de que com seu poder, oferecendo cargos e salários à jornalista, poderia tê-la. Ledo engano; vã ingenuidade. Este senhor, que deve ter lá os seus 60 anos, já deveria ter aprendido a lição de que algumas mulheres se realizam melhor com dois homens de 30 anos do que com um de 60.

Pimenta Neves não poderia dar à jovem o que ela verdadeiramente precisava. Logo, ela procurou outro, provavelmente mais jovem. E daí? Deveria ser esta uma história comum, com o protagonista reconhecendo a derrota e saindo de cena, agradecendo à moça os bons momentos que ela lhe proporcionou. Mas não, pois estamos diante de um indivíduo mal-resolvido sexualmente, desajustado. O drama (quiçá uma tragédia ) é o desdobramento natural, uma conseqüência lógica.

Não quero mais perder tempo com esse sujeito. Fiz estes comentários apenas para mostrar a vocês que o tema poderia ser tratado num outro nível e que certamente atenderia muito mais ao interesse público: por que homens velhos se envolvem com mulheres jovens e podem chegar a matá-las quando rejeitados? Alguns psicanalistas poderiam discorrer adequadamente sobre o tema. Referências históricas e literárias não faltariam. E nessa abordagem o Pimenta Neves não teria importância nenhuma.

Certamente que o sistema de poder dominante (FHC & Cia.) está gostando do espaço que a grande imprensa está dando a estas baboseiras, deixando de lado as nossas misérias sociais resultantes do modelo neoliberal seguido pelo atual governo. Nesse sentido, o Observatório da Imprensa em nada difere da grande imprensa chapa-branca.

Alfredo Pereira dos Santos

Nota do O.I.: Caro Alfredo, agradecemos sua carta. Lembramos que o Observatório da Imprensa faz crítica da mídia – e exclusivamente neste sentido está sendo aqui tratado o caso Pimenta Neves, que afeta profundamente as redações e as relações nelas vigentes. O leitor não pode imaginar o que seja um redação de jornal diário. O que torna esta uma questão de claro interesse público. Cabe acrescentar que não fazemos crítica da alma masculina, e jamais poderíamos, portanto, convidar psicanalistas para debater o tema. Um abraço, M. C.



Perda de tempo II

Acho que a imprensa deveria se preocupar com coisas mais importantes em nosso país, informações úteis que possam ajudar o Brasil a deslanchar, crescer, pois temos tudo para ser uma grande potência. A imprensa, nosso quarto poder, deveria se preocupar em debater algo que trouxesse benefício ao nosso povo, e não ficar aí perdendo tempo com essa atitude torpe, baixa, de uma pessoa como o Sr. Pimenta Neves, atitude essa igual a dezenas que acontecem em nosso dia-a-dia.

Adenilson A. Matos



Por que ninguém contestou?

O caso Pimenta Neves lembra um ponto pouco discutido, no qual vejo o grande problema: a questão ética da relação pessoal entre chefe e subordinado. Isso acontece em várias empresas. E nós, jornalistas, que na maioria das vezes assumimos a defesa da justiça, como admitimos relações como essa em nosso meio?

Em primeiro lugar, se Sandra Gomide foi promovida por influência de Pimenta Neves, por que nenhum chefe contestou essa decisão? E quando a moça foi demitida? Ninguém contestou também? Devemos entregar sempre aos diretores de empresa este poder absoluto?

Precisamos discutir o que é determinante hoje no jornalismo: competência, beleza?

Num mundo em que a maior parte dos profissionais é de mulheres (considerando-se a proporção de alunos nas faculdades) e nas chefias predominam os homens, está em jogo a relação de poder. Que exige ética. Temos ética nas redações? Ou se é ético por inteiro ou não se é. Questão de caráter.

O crime é claro, trata-se de um homem que quis tornar sua parceira uma propriedade, uma escrava de sua vontade, senhor de sua existência. Dizer que matou em defesa da honra! Vejam o tamanho do absurdo!

Sandra Regina Santos



Trajetória de um crime

Aí vão algumas considerações sobre o caráter e o "papel" da imprensa neste odioso caso. É bom sempre lembrarmos que um facínora não surge da noite para o dia. Ele tem gestação lenta e cresce em ambientes propícios, às vezes incentivado por quem o contrata. Com o Pimenta Neves não foi diferente como você poderá ver abaixo.

Pimenta tem longo e nada invejável histórico de assédio sexual. Desde que voltou ao Brasil, no final de 1995, ele parece ter se deslumbrado em ver um bando de jovens, muitas belas, repórteres reunidas em uma mesma redação, no caso a Gazeta Mercantil. Como ele passou muito tempo nos Estados Unidos e casado, ele deve pode ter incorporado o espírito do "lobo mau" (disposto a tirar o atraso e conquistar, através do cargo, o amor de meninas na faixa dos 20 anos!). Para saber maiores detalhes, basta você entrevistar as repórteres que atuaram na Gazeta nesta época. Falo especificamente do período entre dezembro de 1995 e agosto de 1996. Antes de ele ter começado a namorar Sandra Gomide.

A rotina de assédio, sem qualquer disfarce era contínua. O sujeito "pulava" de mesas em mesa se insinuando para todas as meninas. Às vezes o jogo era bruto. O linguajar era, digamos, meio papo de borracharia mesmo! E isto acontecia à luz do dia. Não era pelos cantos mas sim em plena redação, e em festas, como no aniversário dele, ou eventos ligados ao pessoal da redação. Onde houvesse um "rabo de saia" com menos de 30 anos de idade, lá estava ele azucrinando o juízo! Para chegar a estas "vítimas" basta recorrer aos arquivos e consultar o expediente da Gazeta Mercantil desta época. O nome de todas as repórteres está lá.

Outro dado sobre a medida exata do caráter deste sujeito é o seguinte. Antes da privatização da Vale do Rio Doce, a sucursal do Rio da Gazeta recebeu um convite da CVRD para mandar um representante do jornal a Carajás. Nesta viagem-pauta seriam mostrados vários segmentos da empresa que certamente enriqueceria o nível de conhecimento de qualquer um que se dedique a escrever sobre a área de minério de ferro. Ou seja, não era um jabá do tipo para "comprar" jornalistas. Além do mais, não existem vôos regulares para Carajás. A única maneira de fazer uma matéria sobre aquele fantástico complexo é usando a infra-estrutura da Vale.

Pois bem, o pessoal em São Paulo autorizou a viagem. A repórter embarcou e voltou com uma bela matéria. Isenta, séria e crítica, como era do feitio dela. Contudo, um detalhe quase foi mortal para a repórter em questão: Pimenta estava ausente da redação (creio que no exterior) e não foi consultado sobre a viagem. Foi o bastante para que ele, sentindo-se traído (pela repórter, pela chefe da sucursal do Rio e pelo mundo) iniciasse uma odiosa campanha de perseguição contra a repórter. Que continuou no jornal apenas para ser humilhada. Seus textos não eram mais assinados (na Gazeta, até decreto presidencial tem texto de abertura assinado pelo repórter) e a publicação de qualquer matéria escrita por ela tinha que passar pelo crivo pessoal do louco. Se havia dúvida sobre o caráter da repórter, o lógico seria demiti-la. Mas ele preferiu espezinhá-la porque sabia da correção moral da pessoa em questão. Usou aquilo para se afirmar como um homem acima do bem e do mal. Já a chefe da sucursal do Rio perdeu o cargo, mas continuou na empresa.

No Estadão, em que pese o fato de ele ter levado profissionais de bom caráter pessoal e talento profissional para substituir os demitidos, ele instalou um espécie de circo de horrores. Acho que vale a pena conversar mais detidamente com os demitidos. Descontando-se a carga, no máximo 10%, de rancor dos depoimentos, certamente, ilustrarão com mais clareza o caráter covarde deste cidadão. O pior de tudo é que ele tinha "carta-branca" da direção de O Estado de S. Paulo para perpetrar toda sorte de arbitrariedades. Intrigas, fofocas, perseguições, linchamento moral e profissional, essa era a rotina do Estadão na gestão Pimenta Neves.

Isto tudo para dizer o seguinte: ele não pirou da noite para o dia. O tal currículo invejável do cara nunca foi capaz de suplantar a personalidade mesquinha que ele demonstrou ter. Nem o eximiu de adotar a covardia como modus operandi.

Como todos os canalhas, até ele foi capaz de uma atitude decente nestes quatro anos. Ela ocorreu no final de 1995 ou início de 1996 (não me lembro ao certo) quando o editor-associado da Gazeta Mercantil Glauco Melo sofreu um atentado, enquanto caminhava pelas ruas dos Jardins com a mulher. Vítima de uma tentativa de assalto, Glauco foi alvejado na têmpora, à queima-roupa, pelo ladrão que tentava roubar-lhe a carteira. O fato causou uma forte consternação na Gazeta, até porque Glauco é muito estimado por todos. Pois bem, para demonstrar solidariedade, Pimenta escreveu um longo artigo (acho que o primeiro e único nos últimos seis anos!) publicado na capa da Gazeta. Neste artigo, citado de forma confusa na Vejinha, que fez matéria sobre o atentado, ele discorreu sobre a violência, a brutalização das relações pessoais e alertava para o fato de, pela covardia e a intolerância, estarmos caminhando para um cenário digno dos filmes Mad Max. Ele não apenas cuidou de apoiar o amigo como "batalhou" para que Glauco tivesse o melhor tratamento possível. Parcialmente curado, Glauco foi reconduzido a seu posto na Redação e apesar de ter perdido boa parte da capacidade de raciocínio (o tiro foi na cabeça!), Pimenta o manteve no cargo de editor-associado. Um belo gesto, sem dúvida!

Apesar disto, passados quatro anos, descobrimos que aquelas palavras escritas na capa da Gazeta eram, sem dúvida, premonitórias. Hoje, poucos se surpreendem ao descobrir que o Mad Max, na realidade, sempre foi o próprio autor do artigo.

Carlos Augusto Cambraia, Aldeota, Fortaleza cobra4000



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Os novos bárbaros – Nivaldo Manzano

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