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CASO ABRAVANEL
Tudo e nada, ao vivo e em cores
Nelson Hoineff (*)
A repórter de TV é destacada para cobrir um show
de música no extinto Circo Voador, no Rio. De volta à
redação, conta: "Pouco antes de começar,
rolou uma briga generalizada. Quebraram tudo. O espetáculo
foi cancelado". O editor fica feliz com o fato jornalístico.
Pede para ver as fitas. Mas a repórter não havia gravado
nada. Estava lá para cobrir o show de música.

O fato é real e se encaixa perfeitamente num dos inúmeros modelos do anedotário jornalístico. Em jornalismo, sabemos, há coisas que não se aprendem na escola. Dependem do feeling, do talento, da capacidade de adaptar-se às circunstâncias.
Isso ajuda a explicar o fiasco da mídia no episódio Silvio Santos. O cartel do silêncio já havia sido incapaz de avaliar o rombo de credibilidade gerado pela decisão de manter o leitor – ou espectador – desinformado. Não foi capaz também de interpretar o estado mental de Patricia Abravanel, mesmo porque jogar sobre ela o rótulo Patricia Hearst era mais rápido e confortável, além de demonstrar uma erudição quase tão grande quanto saber de cor os nomes dos Pokemon.
Mas quando Fernando Dutra Pinto, o FDP, foi bater à porta da esperança, não só ficou claro que as avaliações estavam erradas como tornou-se necessário que as emissoras de TV mergulhassem no que o jornalista Rubens Furtado costumava chamar de "cobertura total" – e para a qual o despreparo era maior ainda.
Fora dos eventos programados – Copa do Mundo, Olimpíadas, etc – há poucos casos recentes onde esse tipo de cobertura tenha se tornado imperioso. O velório de Ayrton Senna foi um; outro foi o seqüestro do ônibus da linha 174. Mas se este caso durou pouco, aquele tinha hora marcada para começar e acabar. Tampouco a situação na vulnerável e horrenda mansão dos Abravanel lembrava a "cobertura total" da agonia de Tancredo Neves, por exemplo. Porque a morte anunciada do presidente estava reservada para qualquer um dos boletins lidos rotineiramente por Antonio Britto, enquanto o desfecho do seqüestro poderia acontecer a qualquer segundo. E quem perdesse justamente este segundo seria motivo de chacota durante anos.
Mas a dinâmica da "cobertura total" choca-se com a assepsia através da qual as redações acreditam se fazer seguras. Não há tempo para pesquisar; muito menos para cunhar frases que se pretendem de efeito e que, na maioria das vezes, não passam de pernósticas manifestações de ignorância. A "cobertura total", ao contrário de um velório, não tem hora para começar nem para acabar. E o que é pior: não é possivel editar imagens em slow motion e muito menos inserir paisagens douradas para cobrir o áudio que não quer dizer nada. Não há sequer um O.J. Simpson fugindo lá embaixo O thrill não está no movimento, mas na expectativa de que ele ocorra. O modelo está bem mais para Hitchcock do que para John Woo.
A expectativa por este segundo é que dobrou a audiência das emissoras naquele horário. O problema é saber o que fazer durante essa espera. Noticiários, seja lá em que mídia estejam, jogam com a notícia acontecida; coberturas como essa, com a notícia acontecendo.
Os elementos da equação: um casarão visto de fora; a certeza de que lá dentro estão um seqüestrador ferido e um seqüestrado famoso; que há em curso uma negociação a cujos termos ninguém tem acesso; e que há pela frente um tempo indeterminado até o desfecho.
Mole para os noticiários, que a essa altura já podem até ir entrevistando os especialistas de praxe. Mais complicado para a cobertura ao vivo, que não pode sair da casa e não tem nada a mostrar sobre ela.
Agenda prévia
Nas pessoas, o tempo ocioso costuma ser ocupado com auto-avaliações. Talvez as TVs pudessem ter feito o mesmo. Aproveitado sete horas do nada para se perguntar por que o complemento do seqüestro está em rede até por quem não tem tradição noticiosa (como, digamos, o próprio SBT). E o seu início, uma semana antes, havia sido grotescamente sonegado ao público, que assim mesmo sabia de tudo. Ou se os efeitos da súbita glamurização de um discurso feito em vísivel estado de histeria haviam sido melhores para a sociedade que os resultados da autocensura.
Mas o tempo não foi usado para isso. No seu lugar, pequenas especulações, intermináveis entrevistas com um advogado que nem o cliente conhecia, e, no final, o samba do crioulo doido das pistas falsas. O seqüestro termina na Band mas continua na Globo. Silvio foi levado para o hospital na Globo, mas está sorrindo na varanda de sua casa na Record.
Objetivamente, não se pode dizer que uma cobertura tenha sido melhor ou pior do que outra. Faltou em todas a habilidade e a experiência para lidar com a notícia em andamento. Entre outras coisas, FDP ajudou também a revelar como as emissoras estão despreparadas para montar uma "cobertura total" sem que haja um calendário para ela.
Talvez sejam precisos ainda mais uns dois ou três FDPs para fazer a tropa do engodo, em todas as mídias, vir a público e dizer: "Erramos sim, enganamos vocês, rasgamos as informações pelas quais estamos fazendo você pagar, não somos dignos da sua confiança".
Mas é bom que isso seja anunciado com antecedência – para que as emissoras se preparem para cobrir.

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