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ASPAS

CASO ABRAVANEL
Luiz Carlos Merten

"Se fosse ficção, roteirista acha que seria inacreditável", copyright O Estado de S. Paulo, 31/08/01

"Na sexta-feira, o SBT deveria ter exibido à noite o thriller O Preço de um Resgate, de Ron Howard, com o astro Mel Gibson batendo e arrebentando os criminosos que seqüestraram seu filho. O filme foi suspenso por causa do seqüestro da filha do dono da rede, Silvio Santos. Uma semana depois, o próprio Silvio estava seqüestrado em sua casa. Di Moretti, como milhões de brasileiros, acompanhou o caso pela TV. Moretti é um dos melhores roteiristas de cinema do País. Ganhou o prêmio da categoria no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro do ano passado, pelo filme Latitude Zero, de Toni Venturi.

‘Não tem como fugir ao que talvez seja um chavão, mas a realidade é mais forte que a ficção’, disse ontem Moretti ao Estado, depois de seguir os eventos que dariam um filme. E que filme! ‘Se a gente colocasse aquilo na ficção a maioria das pessoas ia achar inacreditável.’ Analisando todo o episódio do ponto de vista dramatúrgico, ele não pode deixar de comentar o comportamento dos ‘personagens’. Acha que é isso que faz a riqueza do caso todo e estimula a imaginação de um escritor para cinema, como ele.

‘Se fosse ficção, ia dizer que o autor do script estava trabalhando com a reversão da expectativa do público’, ele diz. De que maneira? ‘O seqüestrador que busca proteção com o seqüestrado é uma novidade na ficção, que foi inventada pela realidade deste caso.’ Pelo menos ele diz que nunca viu ou ouviu nada parecido. Compara com O Preço de um Resgate: ‘Lá também havia uma reversão, mas o seqüestrador, para disfarçar, assumia o papel do seqüestrado; aqui, a novidade dramatúrgica é o desespero que leva o criminoso a buscar socorro justamente naquele que queria golpear.’ Ao fazer isso, o seqüestrador Fernando Dutra Pinto com certeza estava lutando pela própria vida.

Ferido no flat onde procurara refúgio, ele pressentiu que seria um alvo vulnerável na mão da polícia e foi em busca de socorro. ‘Embora um dito popular afirme que o criminoso sempre volta à cena do crime, não é isso que ocorre na prática; é muito raro o criminoso fazer o caminho de volta, como o Fernando fez’, avalia Moretti. Tantas idas e vindas tornam o serqüestro do empresário Sílvio Santos o ponto de partida para um roteiro muito interessante, de um thriller que Moretti não sabe se algum dia será realizado.

Se depender de Walkíria Barbosa, esse filme sai. A produtora da Total Filmes estava em visita à redação do Estado, minutos após o desfecho do seqüestro.

Confessou que havia passado o fim de semana siderada, pensando nas possibilidades dramáticas do seqüestro da filha de Sílvio Santos, Patrícia Abravanel. O desdobramento do caso mexeu ainda mais com sua cabeça. O efeito que esse seqüestro produziu sobre um roteirista e uma produtora talvez ainda coloque na tela, em formato de ficção, a história da vida real que deixou o Brasil em transe no dia de ontem."

 

Luiz Costa

"Emissoras cancelam programas e transmitem seqüestro ao vivo", copyright O Estado de S. Paulo, 31/08/01

"Cerca de 2,18 milhões de casas na Grande São Paulo, quase metade (48%) das que têm televisor na região, ficaram com aparelhos ligados até 14h30. O indice habitual, segundo o Ibope, é de 29% de casas com TV.

O episódio foi transmitido ao vivo por Globo (a partir das 8 horas), SBT (a partir das 9), Band (7h30), Record (8) e RedeTV! (das 8h30 às 13h30). Gazeta só exibiu flashes. Cultura, que não transmitira a entrevista de Patrícia Abravanel na terça-feira, manteve-se fora do caso. Globo News e Band News também irradiaram o seqüestro.

A transmissão ao vivo aumentou a média de audiência. A experiência na cobertura policial favoreceu a Record. Com José Luiz Datena no comando, a emissora foi uma das que proporcionalmente mais ibope ganharam com a cobertura. Com informações completas do fato, pulou de 4,6 pontos, às 8 h, para 8,8 pontos, uma hora depois. E manteve sua audiência até fechar o caso com 7 pontos de média (a habitual é de 3 pontos).

A Globo, que teve 12 pontos entre 8 e 15 h de quarta-feira, cravou o dobro ontem (23,2 pontos de média). Num expediente raro, derrubou sua programação e intervalos. Ao abrir a transmissão, tinha 9 pontos. No horário do SPTV, pico de 31.

A Band aumentou bem a própria média de audiência, de 1 para 1,7 ponto. A RedeTV! manteve sua média no horário, que varia entre o traço e 1 ponto.

Coube ao SBT, no entanto, a cobertura pitoresca. Às 10h20, uma repórter descrevia minuciosamente o volume de armamentos que a polícia mantinha de prontidão diante da casa, enquanto Carlos Massa, o Ratinho, vociferava teses sobre que atitudes esperar do seqüestrador. Entre o exagero e sincera preocupação, fez da transmissão uma extensão de seu programa. ‘O mundo inteiro está pasmo’, disparou, ao vivo.

O caso ganhou destaque também na mídia internacional."

Carlos Franco

"Anunciantes queriam saber o que ocorreria com a publicidade", copyright O Estado de S. Paulo, 31/08/01

"Durante as sete horas e meia do seqüestro do apresentador e empresário Silvio Santos, o departamento de jornalismo das emissoras falou mais forte do que a área comercial, conforme explicou o presidente da Agência de Publicidade Neogama, Alexandre Gama. ‘Tanto que ninguém arriscou tirar as imagens do ar, abrindo espaço apenas para pequenos intervalos comerciais ou nem isso quando a tensão era maior.’

Neste período em que durou o episódio, muitos telefones de agências dispararam, com anunciantes do horário querendo saber o que ocorreria com seus comerciais. O presidente da Ogilvy, uma das maiores multinacionais da publicidade, Sergio Amado, afirmou que as emissoras oferecem uma compensação rápida ou até abrem espaço para veiculação em horário melhor - isto ocorre raramente, apenas em fatos excepcionais, como o de ontem.

Domingo - A expectativa do mercado publicitário se voltou para a programação de domingo das emissoras. As apostas são de que o SBT de Silvio Santos irá registrar picos de audiência, especialmente pela curiosidade natural de como o apresentador irá se portar e o que irá dizer depois do drama de ontem. Amado arrisca um palpite: ‘Não acredito que Silvio Santos permita a exploração do episódio na sua emissora, mas é inegável que a audiência de domingo do SBT tem tudo para subir, especialmente se ele não cancelar suas aparições.’"

 


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