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ASPAS

CASO ABRAVANEL

JB

"Vidas por um Fio", editorial copyright Jornal do Brasil, 31/08/01

"Do seqüestro duplo sofrido pela família do empresário Sílvio Santos, saga acompanhada com estupor no Brasil e mesmo no mundo, fica na opinião pública a certeza de que o Brasil precisa pensar enfim com profundidade sobre a questão da segurança nas cidades.

Um simples marginal, um tipo esperto e ousado, com sangue frio para eliminar à queima-roupa policiais em seu encalço, pôs o país de cabeça para baixo durante algumas horas, como a demonstrar que basta ser ousado para desafiar a polícia em especial e todas as autoridades em geral. O fato de que ele se sentiu à vontade para repetir o feito, no mesmo lugar, com as mesmas pessoas, em menos de 48 horas, embora com objetivos diferentes, revela a fragilidade dos esquemas tradicionais de segurança.

O bairro do Morumbi, onde se localiza a residência de Sílvio Santos, tem duplo sistema de segurança: geral, de patrulhamento das ruas, e particular, à vontade de qualquer um. Apesar disto, o delinqüente Fernando Dutra Pinto circulou à vontade, nas barbas das empresas de segurança e da polícia, saltando muros, tomando reféns, fazendo o que desejava fazer.

Diante de tal constatação, ou todos neste país estão seguros ou ninguém está seguro - daí a necessidade de elaborar com amplitude planos de segurança indispensáveis para a situação em que o Brasil se encontra.

Na Itália, um planejamento global a respeito de seqüestros produziu excelentes resultados. Naquela época, final dos anos 80 e início dos anos 90, a partir da constatação de que em dois decênios foram seqüestradas 623 pessoas, das quais 71 nunca voltaram às suas casas, aplicou-se remédio amargo. A anonima sequestri era uma das mais rentáveis indústrias italianas. A epidemia seqüestrativa se alastrou para outras partes do mundo. Na primeira metade dos anos 90 uma onda de seqüestros dominou países da América Central e do Sul, incluindo a outrora tranqüila San José, capital da Costa Rica, que chegou a assistir à média de quase um grande assalto por dia. Na Colômbia em especial, onde o tráfico de drogas praticamente se entronizou como Estado dentro do Estado, a criminalidade se banalizou tanto que seqüestravam-se pessoas para exigir resgate de 10 dólares...

Tratando-se de seqüestros, nada pode ser tão singular. Não basta editar leis ou sair atrás de bandidos em correrias descabeladas pelas ruas. Há um conjunto de providências a serem tomadas simultaneamente como aconteceu na Itália com eficácia, de ordem legal e de ordem policial, sem o que não se eliminará a possibilidade de ressurgimento das ondas de seqüestro.

O governo italiano começou por aprovar uma lei impossibilitando o pagamento de qualquer resgate em troca da liberdade de pessoas seqüestradas. O decreto abriu uma polêmica, mas fechou a torneira dos seqüestros. Incluía três pontos básicos. O primeiro era confiscar preventivamente todos os bens das famílias de seqüestrados (confisco extensivo aos parentes até quarto grau); o segundo, considerar ilegal qualquer contrato de seguro feito - na Itália ou no exterior - para pagar resgates; e, terceiro, proibir qualquer empréstimo ou fundo que possa se destinar a seqüestradores e carcereiros de vítimas desse crime, que na Itália era considerado o mais infame de todos.

Mesmo polêmico, o princípio orientador da lei era o de eliminar o objetivo, a própria razão de ser do seqüestro de pessoas, isto é, a relativamente fácil e inevitável troca de dinheiro pela vida de um refém.

No Brasil, as ondas de seqüestro nas duas maiores capitais, São Paulo e Rio, funcionam em ritmo de gangorra. Ora a epidemia ocorre num dos estados, ora no outro. Ainda assim, dentro de cada estado, quando a polícia combate um tipo de crime, os meliantes migram para outros, dependendo das circunstâncias. Tráfico de drogas, assalto a bancos, seqüestros e outras modalidades se alternam ao sabor das conveniências do submundo, com ou sem cumplicidade policial.

Quando o então chefe da DAS fluminense, Hélio Luz, posteriormente chefe da polícia civil, pronunciou a mais famosa de suas frases, ‘A partir de agora a Divisão Anti-Seqüestro não seqüestra mais’, vivia-se momento de incerteza e de confusão. O Rio chegou a ter 12 seqüestros em andamento (junho de 95). Vigorava uma lei do silêncio que em tudo beneficiava os seqüestradores. A imprensa nada noticiava, a pretexto de não prejudicar negociações de resgate e, ainda por cima, os bandidos costumavam impor às famílias a obrigação de manter a polícia afastada. Assim trabalhavam na sombra, com toda a comodidade. Situação invertida, São Paulo já teve 102 seqüestros em 2001, dos quais quatro em andamento até o instante em que o seqüestrador voltou à casa de Sílvio Santos, em dia que registrou mais dois seqüestros.

O Jornal do Brasil foi o primeiro diário brasileiro a romper a chantagem do submundo, partindo do princípio de que a sociedade precisa estar informada de suas mazelas com transparência e lealdade, sobretudo para não beneficiar marginais. Seqüestro é mais do que crime hediondo: é uma violência insuportável aplicada contra vítimas inermes, adultas ou crianças, arrancadas de sua rotina diária, jogadas em cativeiro às vezes imundos, passíveis de tortura e outros meios intoleráveis de persuasão.

Mais do que nunca, chegou o momento de o Brasil tomar posição em relação às epidemias de seqüestro, elaborando uma estratégia a médio prazo que conjugue ação policial com ação legal, e tudo ao mesmo tempo, sem o que não se eliminará possibilidade de ressurgimento das ondas de seqüestro, nos estados onde a criminalidade se sente livre para agir sem constrangimento. E o que dizer dos seqüestros que eram dirigidos de dentro das prisões de segurança máxima, por telefone celular?

Às famílias, principalmente, e à opinião pública repugna serem abaladas por este tipo de extorsão."

 

Luis Fernando Verissimo

"Parece filme", copyright O Estado de S. Paulo, 31/08/01

"‘Coisa de cinema’ é a sucinta descrição de tudo que é incomum ou espetacular demais para não ser encenado. Mas poucas coisas na nossa experiência são como nos filmes, sabe quem já se envolveu em alguma briga e descobriu que a vida real não é coreografada, ou em algum romance e descobriu que a frase brilhante não vem na hora. E falta a trilha sonora, e a montagem, e a maquiagem, e a possibilidade de refazer as cenas que não dão certo. Assim ‘parece coisa de filme’ nunca é uma descrição exata, a realidade fica sempre aquém do cinema. Mesmo quando se esforça para ser igual, como no caso do seqüestro em São Paulo.

Não se sabe qual foi a influência do cinema nos planos e ações desse novo personagem nacional, o Fernando Dutra Pinto, ou nos planos e ações da polícia que o prendeu. Talvez Fernando não precisasse de nenhum exemplo de filme para realizar o seqüestro, matar dois policiais, descer nove andares pela parede externa de um prédio, voltar à casa do Silvio Santos e exigir a presença do governador do Estado para se entregar sem o risco de ser executado. Talvez a polícia não dependesse da inspiração em heróis cinematográficos para o seu voluntarismo desastrado, que custou as duas vidas. Mas até nos helicópteros da TV cobrindo a ação do alto (São Paulo finalmente Los Angelizada como sonhava) havia a consciência de envolvimento em algo que parecia - mais do que qualquer outro episódio na memória de qualquer um - coisa de cinema.

‘Parece filme’ foi o que mais se ouviu, durante o desenrolar do drama. Mas não era filme, nunca é filme. No cinema não existe a confusão policial, a não ser se for comédia, e aí é de propósito. No cinema as cenas erradas podem ser refeitas: as gafes são corrigidas, os mortos não ficam mortos, as vidas tocadas pelo horror são de mentira e - o melhor de tudo - você sabe que está assistindo a uma encenação que aconteceu em outro lugar, não a realidade terrível do seu país, com nenhum final feliz à vista."


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