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ASPAS

CASO ABRAVANEL
Luciana Garbin, Valéria Rossi,
Rogério Panda, Renato Lombardi
e Marcelo Godoy

"Libertada, Patrícia só fala em Deus" copyright O Estado de S. Paulo, 29/08/01

"O seqüestro da filha do apresentador de TV Silvio Santos terminou ontem como um grande espetáculo. Depois de sete dias de cativeiro, a universitária Patrícia Abravanel, de 23 anos, saiu na varanda de sua mansão no Morumbi, zona sul, às 16 horas, para responder a perguntas sobre o drama que viveu.

Em vez de lamentos, a evangélica Patrícia falou o tempo todo da ajuda que recebeu de Deus. Sorridente, disse ter se sentido ‘cúmplice’ de uma ‘missão’ divina. Perdoou os seqüestradores - ao contrário do ‘sistema de corrupção’ do País.

Patrícia comparou sua experiência à do protagonista do filme A Vida é Bela - que mantém a felicidade num campo de concentração durante a 2.ª Guerra Mundial. Garantiu ter feito os seqüestradores se arrependerem. Segundo ela, a família não pagou resgate, apesar de o secretário da Segurança Pública, Marco Vinicio Petrelluzzi, ter informado o contrário. Policiais disseram que o valor foi de R$ 500 mil. Dois seqüestradores já foram presos.

‘Tubarões’ - Com os cabelos soltos, blusa cor de rosa e calça branca, Patrícia disse que foi bem tratada pelos seqüestradores. A estudante afirmou que eles eram muito jovens, permaneceram o tempo todo ‘mascarados’ e a chamavam de princesa, enquanto exigiam que ela os chamasse de ‘tubarões’. Disse ainda que em nenhum momento ficou sedada.

‘Deus tava lá comigo. Eu nunca vi um seqüestro igual a esse. Eu joguei baralho com eles, orei com eles’, contou, horas depois de ter sido libertada, às 2h55, próximo do Palácio dos Bandeirantes. ‘Tava eu e mais um, que me deixou e falou: conta até 25 e vai embora.’ Dali, Patrícia seguiu para casa dirigindo seu Passat, que estava sem as placas e com o pára-lama direito amassado.

A estudante tinha sido levada no Passat, às 8 horas do dia 21, da garagem da casa. Os bandidos entraram na casa depois que um deles, disfarçado de carteiro, dominou o segurança da mansão. Eles abordaram Patrícia quando ela saía para a faculdade.

Patrícia chorou após a libertação. À tarde explicou que as lágrimas eram de gratidão a Deus. Garantiu ter passado a semana de seqüestro ‘em paz’. Atribuiu o crime à corrupção. ‘O povo brasileiro é bom e está sendo mal cuidado pelos governos’, disse. ‘Quando você passa fome e vê filhos e amigos passando fome, o que você faz?’ Mais adiante, criticou a desigualdade do País. ‘Uns têm muito e outros têm pouco. Os que têm muito, em vez de dividirem, ficam só enchendo o saco de dinheiro.’

Sobre o cativeiro, a estudante revelou que ele ficava num ‘bairro bom’, perto de sua casa. Nos sete dias de duração do seqüestro, foi mantida num quarto com cama e janela ‘pregada’, só tomou banho duas vezes e, no início, esteve com as mãos amarradas. ‘Eles compraram roupas para mim e me levavam chá e pipoca’, disse. Pouco depois, em resposta a um jornalista, afirmou que não concordava com seqüestros. ‘A Justiça pertence a Deus e Deus vai fazer a Justiça deles.’

‘Chega?’ - Animada, Patrícia só parou de falar quando seu pai também saiu na varanda, meia hora depois. ‘Paty, chega, não?’, disse Silvio Santos. Recusando-se a comentar contradições do caso, como o pagamento ou não de resgate, o apresentador agradeceu aos jornalistas pelo tratamento dado ao seqüestro e disse que sua família passou a semana aprisionada, como a filha.

O empresário elogiou a polícia, orientou famílias que passam pela mesma situação a procurar ajuda das autoridades e brincou com a filha. ‘Vocês já perceberam que ela é uma pastora’, disse. ‘Não se surpreendam se ela amanhã se candidatar a algum cargo eletivo.’

Sobre as declarações da filha, comentou que Patrícia mostrou uma força que ele desconhecia. ‘Não tenham dúvidas de que o que ela disse eu endosso. Eu endosso e me surpreendo com essa filha que me dá um trabalho fora do comum. Eu deveria pedir aos seqüestradores que ficassem mais tempo com ela.’ Depois, abraçou a filha.

Com o fim do seqüestro, Patrícia pretende retomar a rotina, sem seguranças. ‘Deus é comigo e essa é minha segurança.’ Também prometeu conversar com Silvio Santos para que ele reavalie seu modo de ver a vida. ‘Meu pai não tem Deus ainda. Isso foi uma lição para ele’, afirmou. ‘Meu pai podia achar outras formas de dar para esse povo, porque não é dando uma casa, é mais profundo, é dando educação, é dando equilíbrio social.’"

 

O Estado de S. Paulo

"Ética do respeito à vida", copyright O Estado de São Paulo, 30/08/01

"Em rápidas palavras, na entrevista que deu da sacada de sua casa, após a libertação de sua filha Patrícia Abravanel - que fora mantida em cativeiro por seqüestradores durante oito dias -, o empresário e apresentador de televisão Sílvio Santos conseguiu sintetizar a melhor conduta a ser assumida pelos veículos de comunicação, em episódios de seqüestro como esse: a divulgação ou não dos fatos, enquanto o seqüestro estiver em andamento, deve depender - como acontece nos Estados Unidos - da orientação da polícia. Cada caso é um caso. Só os especialistas em seqüestros da força policial têm condições de dizer quando convém e quando não convém a divulgação dos fatos. Aí está implícito - embora o apresentador não o dissesse - que o critério que leva a uma opção ou outra deve ter em conta, acima de tudo, a segurança da vítima.

Como a vida do seqüestrado sempre está sob sério risco, que pode ser substancialmente aumentado, caso os seqüestradores recebam determinadas informações - sobre a própria vítima e/ou seus parentes - transmitidas pelos veículos de comunicação, é claro que sobreleva a ética do respeito à vida humana, sobre o valor de quaisquer coberturas jornalísticas. No caso do seqüestro de Patrícia Abravanel, essa ética prevaleceu para a maioria esmagadora dos veículos de comunicação de São Paulo - jornais, emissoras de rádio e de televisão e até sites da Internet, que após darem a notícia inicial a retiraram -, sobretudo depois que o pai da seqüestrada, com a aflição colossal que qualquer ser humano que já teve filhos pode facilmente avaliar, deixou para todos um bilhete de próprio punho, que dizia: ‘Meus colegas, gostaria que vocês me ajudassem neste momento tão aflitivo. Prometi aos responsáveis pelo acontecimento que não envolveria a polícia e a imprensa. A vida de minha filha Patrícia depende da minha palavra empenhada e da colaboração de vocês.’

Quase todos os veículos - inclusive o Estado, que, aliás, sempre age assim, independentemente de apelos de familiares - colocaram seus profissionais no acompanhamento permanente do seqüestro, mas abstendo-se de divulgá-lo para não prejudicar as negociações que pudessem garantir a vida da seqüestrada.

No entanto, houve a notória exceção da Rede Globo de Televisão e os demais veículos do mesmo grupo. A Globo - do alto da sua costumeira pretensão à onipotência - não apenas divulgou o seqüestro, como manteve repórteres permanentemente postados em frente da casa da vítima - que entravam no ar, em todos os telejornais, mesmo para dizer que não havia notícia alguma sobre o fato. Também manteve helicópteros que faziam vôos rasantes sobre a casa de Sílvio Santos - até para mostrar a ‘falta de circulação de pessoas’ na mesma.

Como foi noticiado esta semana, em março a Globo foi condenada, pelo juiz Teodozio de Souza Lopes, da 17.ª Vara Cível da capital, por expor a vida do garoto Gonçalo Lara Campos Matarazzo, de 12 anos, ao não respeitar os apelos de sua família para que não divulgasse o seqüestro. Segundo a ação, movida pelo pai do garoto, empresário Luiz André Matarazzo, ao noticiar o seqüestro, a Globo forneceu informações aos bandidos que estavam sendo escondidas. O empresário queria evitar que os bandidos soubessem do sobrenome Matarazzo, por causa da costumeira associação dessa família com riqueza e poder. Por isso identificou-se como Lara, sobrenome de sua mulher.

Ao noticiar o crime, o Jornal Nacional alertou os seqüestradores, que indagaram ao garoto seu sobrenome. Como o menino insistisse no Lara, os bandidos o deixaram sem comer e beber até o dia seguinte - quando confessou ter o sobrenome Matarazzo. Haveria ilustração melhor para o risco dessa precipitada divulgação?

Na sentença, o magistrado considerou que a emissora ‘expôs de forma irresponsável e dolosa a vida de uma criança que estava em cativeiro, desrespeitando o direito à intimidade da família e da criança’. No Tribunal de Justiça, onde referida ação se encontra em grau de apelação - e onde a emissora se defende alegando ter sua ‘própria ética’ -, a posição crítica de alguns desembargadores já foi manifestada em frases como esta: ‘Eles colaboram para o bom andamento do crime, acabam quase como parceiros no delito.’ Ou esta: ‘É uma atitude de muita prepotência tomar a decisão de noticiar um seqüestro, alardeando que isso ajuda a desvendar o caso. Isso a imprensa não sabe e não deve fazer.’

Realmente, a imprensa não é Polícia, não tem uma onisciente ‘linha direta’ para a ‘solução’ de crimes que as autoridades policiais não conseguem resolver, assim como não tem o direito de pretender ter uma ‘ética própria’ - no caso uma ‘ética do ibope’ - que coloque o valor do ‘espetáculo noticioso’, e seus respectivos índices de audiência, acima do respeito à vida humana."

 

OESP

"A atitude do 'Estado'", copyright O Estado de S. Paulo, 29/08/01

"O Estado não publicou antes a notícia do seqüestro da estudante Patrícia Abravanel a pedido da família. O jornal adota essa política em casos de seqüestro, porque a publicação pode significar risco de vida para a vítima.

Apesar do embargo, os repórteres do jornal acompanharam o caso passo a passo."


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