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DENÚNCIA VAZIA
A lambança do New York Times

Marinilda Carvalho

The New York Times erra pouco, mas quando erra faz uma lambança. Na edição do dia 26 de setembro o jornal pediu perdão ao leitor, em longo editorial de três colunas, repleto de explicações vacilantes, constrangimento e autocrítica. Era uma retratação por reportagem publicada em 6 de março de 1999, na qual acusou a China de roubar segredos nucleares dos Estados Unidos. A matéria saiu num sábado. Num primeiro momento destruiu o fim de semana apenas dos moradores da Casa Branca, em Washington, e do Palácio do Governo, em Pequim, que vinham entabulando importantes negociações.

Mas o estrago inicial atingiu principalmente uma casa suburbana em Los Alamos, Novo México, onde morava o cientista sino-americano Wen Ho Lee, que mesmo não tendo seu nome explicitamente citado na matéria – apenas insinuado – foi detido na manhã de domingo por espionagem. Os agentes do FBI que bateram à porta de Lee levavam o jornal nas mãos como "evidência". Solto logo depois, foi demitido em seguida do laboratório militar onde trabalhava. Em dezembro, voltou à prisão, confinado em solitária por nove meses, de onde só saiu em 13 de setembro. Das 59 acusações que pesavam sobre ele apenas uma foi mantida: a de baixar arquivos confidenciais para um computador inseguro.

A matéria era cruel: mencionava o casal Ethel e Julius Rosenberg, cientistas também do laboratório militar de Los Alamos (onde foi gerada a bomba atômica americana que arrasou Hiroxima e Nagasaki e deu fim à guerra no Pacífico, em 1945), igualmente acusados de repassar segredos nucleares a Moscou. Os dois foram eletrocutados nos anos 50 por alta traição.

Num efeito-cascata, a reportagem, assinada por James Risen e Jeff Gerth, repercutiu no Panamá, em Hong Kong, em Belgrado, na Otan. Antes, a direita americana já atacava como "demonstração de fraqueza" e "submissão" a política do presidente Bill Clinton de "parceria estratégica" com a China, mas a matéria funcionou como um aval, uma confirmação do respeitado NYT aos temores conservadores. Nos meses seguintes, jornais bem menos cuidadosos entraram no circo de notícias-bomba sobre "o perigo amarelo". O próprio Times publicou em 12 de maio, na primeira página, que outro cientista americano de origem chinesa, Peter Lee, era acusado de passar a Pequim dados sobre tecnologia de radares anti-submarino graças a seu cargo na TRW, empresa privada parceira do Pentágono em várias pesquisas.

Avalanche de pressões

O incidente internacional estava criado. As relações bilaterais sino-americanas atingiram seu pior estágio desde a Guerra Fria, com um rosário de conseqüências graves, até perigosas para a paz mundial. Algumas delas:

** Os esforços de aproximação do governo Clinton com a China quase foram por água abaixo. Os republicanos se apoiaram no tom alarmista da matéria do insuspeito NYT para iniciar uma caça às bruxas. Relatório de 700 páginas de uma das nove comissões que investigavam o assunto desde 1997 "provava" que a China vinha roubando segredos tecnológicos americanos ao longo de duas décadas. Cheio de futuros do pretérito como "teria" e "poderia", o documento foi esmiuçado pela mídia, mas não passava de uma clara peça contra o governo Clinton – embora a comissão fosse constituída por cinco republicanos e quatro democratas. Depois do escândalo Lewinsky, nem correligionários do presidente se arriscariam por ele no ano anterior às eleições. Flavia Sekles, do Jornal do Brasil, contava em 26/5/99:

"Os republicanos, que controlam o Congresso, vêm usando as acusações à China para criticar o governo Clinton por sua atitude em relação a Pequim, que teria comprometido a segurança dos EUA – embora muitos fatos relatados tenham ocorrido antes de 1992, em governos republicanos."

Os jornais americanos pouco destacaram que os republicanos estavam em campanha contra o que consideram privilégios comerciais chineses nos Estados Unidos. A crise eclodiu quatro meses antes que o status comercial da China nos EUA – que garante a importação de produtos chineses pelas tarifas mais baixas – voltasse a ser debatido pelo Congresso. O resultado do debate impulsionaria o ingresso da China na Organização Mundial de Comércio. Que afinal não foi abortado porque a China tem um mercado gigantesco demais para ser rejeitado, até mesmo por cowboys republicanos e seus representantes na mídia.

** Em meados de abril de 1999, a visita do primeiro-ministro Zhu Rongji aos Estados Unidos – a primeira em 15 anos – foi um fracasso. A fúria política contra os chineses estava no auge.

** A matéria do NYT viria a amplificar os efeitos do bombardeio à Embaixada da China em Belgrado pelos aviões da Otan, em maio de 1999, durante a Guerra de Kosovo – uma falha patética dos mapas da CIA, mas que Pequim julgou retaliação de Washington. Manifestantes apedrejaram prédios americanos em toda a China.

** Pegando carona no sentimento geral anti-China e recorrendo à tradicional proteção dos republicanos, Taiwan, ilha que o governo chinês considera uma "província rebelde", exigiu do continente tratamento de Estado. Em poucos dias a área do Mar da China vivia grande tensão.

** Em plena crise, tropas americanas deixavam suas bases no Panamá, que ocuparam por 85 anos, nos preparativos para a entrega do Canal do Panamá em dezembro de 1999. A Hutchison Whampoa Ltd. – empresa de Hong Kong com valor de mercado de US$ 36 bilhões e atividades em telecomunicações e portos em 20 países, incluindo a Inglaterra, onde gerencia três portos – venceu a licitação para dois terminais do Canal de Panamá. E comeu o pão que o diabo amassou. "Braço chinês no quintal dos EUA", bradavam os republicanos, diligentemente ouvidos pela mídia americana. "Se não fizermos nada a respeito, posso lhes garantir que dentro de uma década um regime comunista chinês que detesta a democracia e vê os EUA como seu principal inimigo vai controlar o pequeno país do Panamá, e portanto dominar o Canal do Panamá, um dos pontos estratégicos mais importantes do mundo", esgüelava-se a deputada Dana Rohrabacher, da Califórnia, reproduzida por todas as agências internacionais.

Segundo ela, os comunistas chineses se aproveitariam das companhias de Hong Kong, que mantêm "laços estreitos" com Pequim e são de fato "agências de espionagem disfarçadas". Até o experiente Caspar Weinberger, secretário de Defesa no governo Reagan, caiu fulminado pelo provincianismo e publicou artigo na revista Forbes sobre a "ameaça chinesa no Panamá". Pequeno país que, por sinal, estava em campanha eleitoral.

A candidata da oposição Mireya Moscoso se elegeu, mas sob uma avalanche de pressões. Militares e republicanos americanos aproveitaram a onda para pressioná-la a aceitar, se não a permanência de uma base americana em seu país, como queriam os conservadores mais radicais, pelo menos um centro de monitoramento de aviões de narcotraficantes colombianos. Ela resistiu. A visita que o vice-presidente eleito do Panamá, Arturo Villarino, fez à China em agosto acabou interpretada pelos republicanos – vocalizados pela mídia – como parte do complô pró-China. Mireya foi obrigada a visitar Clinton em Washington, numa embaraçosa e mal-sucedida audiência, para tentar esclarecer os fatos.

** A partir de junho de 1999, 5 mil cientistas de laboratórios americanos que trabalham com projetos militares secretos foram obrigados a se submeter a testes de polígrafo, o detector de mentiras. Wen Ho Lee foi reprovado no teste – como outros inocentes. Muitos culpados também já passaram incólumes pelo aparelho, facilmente enganado por QIs privilegiados.

** Se quisesse, o democrata Al Gore poderia agora deitar e rolar com este erro do New York Times. Na fase crucial da crise, o então pré-candidato republicano George W. Bush aderiu ao coro conservador. A política do presidente Clinton para a China, disse, é "um fracasso". E foi além: "A China é nossa rival, e uma rival que não partilha nossos valores, mas infelizmente partilha muitos de nossos segredos nucleares". Humilhado várias vezes pela mídia por sua economia de conhecimento nas questões internacionais, Bush falou demais. O vice-presidente Gore disse na época à CNN que o roubo de segredos nucleares, se ocorreu, foi em governos anteriores, e que Clinton não mudaria sua política de cooperação com Pequim, "a melhor via para democratizar a China e abrir seus mercados".

Segredos de polichinelo

As conseqüências portanto da matéria do NYT não foram poucas. As desculpas do jornal no editorial de 26/9 nem de longe levam em conta tais estragos. Parecem contritas, mas limitam-se ao desastre pessoal sofrido pelo cientista Wen Ho Lee. "Esta confusão – e os riscos envolvidos, a liberdade e a reputação de um homem – nos convenceu de que uma prestação de contas é necessária", disse o jornal. Garantiu que verificou exaustivamente as informações da matéria, com múltiplas fontes criteriosamente avaliadas, "apesar dos enormes obstáculos impostos pelo silêncio oficial e os esforços do governo para identificar as fontes do Times". Curioso: o editorial critica esses "enormes obstáculos impostos pelo silêncio oficial", mas em 24/9 a porta-voz do jornal, Kathy Park, recusou-se a dar a Sérgio Dávila, da Folha de S.Paulo em Nova York, informações sobre a posição delicada do Times após a libertação do cientista. Ela disse que o jornal falaria, se falasse, em suas próprias páginas. Dois dias depois, saiu o editorial.

Chama atenção a interpretação quase generosa, neste editorial, do "tom" da matéria de Jeff Gerth – 23 anos de Times, um Pulitzer na bagagem –, conhecido "caçador" dos Clinton. Foi ele que deu repercussão nacional, também no NYT, mas em 1992, ao caso Whitewater, sobre falcatruas imobiliárias de Bill e Hillary Clinton no Arkansas, processo arquivado em setembro por falta de provas. "Ocasionalmente usamos linguagem no mesmo tom alarmista de alguns relatórios oficiais", disse candidamente o editorial. "Embora esta caracterização tenha sido acuradamente atribuída a ‘funcionários e congressistas, especialmente republicanos’, tais observações deveriam ter sido, no mínimo, contrabalançadas com visões mais céticas dos que duvidavam das acusações contra o Dr. Lee." Trecho bonito...

Feia, no entanto, foi a explicação sobre a principal fonte de Gerth na matéria. Faltou, disse o texto, "um olhar mais atento sobre Notra Trulock, o funcionário da inteligência no Departamento de Energia que fez soar os alarmes mais estridentes sobre a espionagem chinesa; e uma exploração dos vários suspeitos que os investigadores federais deixaram de lado em favor do Dr. Lee". Trulock não era um funcionário. Era o chefe do serviço de inteligência do Departamento de Energia. Que por acaso cultivava ódio antigo aos chineses. Então o Times precisava de um "olhar mais atento" para perceber o perigo de tal fonte?

A China, embora prejudicada em seus objetivos comerciais mais urgentes, tratou tudo com desprezo. "Essa tecnologia tão secreta está disponível para qualquer interessado, livremente publicada nos Estados Unidos", disse o porta-voz do governo chinês, Zhao Quizheng. "O poder destruidor, as dimensões e outros detalhes de sete tipos de armas nucleares são abertos para consulta em bibliotecas dos EUA e na internet; não há qualquer segredo, logo não há o que roubar." E citou nominalmente entre os tais sete tipos a mais sofisticada ogiva nuclear americana, a W-88 – cujos segredos, segundo o NYT, Lee teria roubado nos anos 80, tendo sido descoberto apenas em 1995. A George W. Bush, o sempre sarcástico Zhao pediu juízo no trato das questões internacionais. Ouvido então pelo Washington Post, John E. Meredith, diretor-gerente da Hutchison Whampoa, afirmou secamente que não havia chineses entre os 500 empregados já contratados para operar a partir de janeiro os dois terminais do Canal do Panamá. "Somos uma empresa comercial que responde apenas aos acionistas", afirmou. "Cooperamos com governos no mundo inteiro, mas não servimos como frente ou ferramenta de qualquer um deles."

Futuro do pretérito

É bom que fique claro não há mocinho nesta história. O bom convívio entre as duas principais potências militares do mundo é um anseio de qualquer cidadão sensato. Para muitos analistas, o relacionamento EUA-China será o ponto nevrálgico da agenda internacional no próximo século. Afinal, a China tem 1,3 bilhão de habitantes e uma economia fadada ao crescimento – para não mencionar seu poderio militar, por enquanto obsoleto, mas em processo de modernização. Credenciais suficientes para poder competir com os Estados Unidos – e melhor que seja no comércio e outras perfumarias. Chega a espantar que os diplomatas americanos, normalmente portas insensíveis, tenham recomendado esta "parceria estratégica construtiva". E é preocupante que um jornal sério como o Times tenha tentado retardá-la.

Pelo menos é o que se depreende da "revisão interna" confessada no editorial de 26/9. "Encontramos coisas que, se tivéssemos feito de modo diferente durante a cobertura do caso, teriam dado ao Sr. Lee o completo benefício da dúvida. Deveríamos ter alertado sobre as debilidades das acusações do FBI contra Lee." Por fim, o crème de la crème das desculpas: "Enviamos uma equipe de repórteres, incluindo os que revelaram o caso, para novas reportagens, com base em fontes e documentos que não foram previamente avaliados. Nossa cobertura sobre este caso não está encerrada".

Quer dizer que depois do estrago o New York Times vai apurar a matéria? Igualzinho a qualquer pasquim do Terceiro Mundo? Citando Alberto Dines em "Teoria e prática do denuncismo" [ver remissão abaixo], cabe perguntar: a função do jornalismo é fazer barulho ou esclarecer? Aqui, erros da imprensa têm prejudicado pessoas e carreiras. Mas é óbvio que quanto maior o prestígio do jornal, maior o poder de destruição. Na principal potência do planeta, o Washington Post fez tudo certinho e derrubou um presidente. O Times poderia ter provocado pelo menos umas duas guerras.

Ainda bem que esbarramos num futuro do pretérito.



Leia também

Teoria e prática do denuncismo – Alberto Dines



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