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TORDESILHAS
A chocante parceria Globo-Folha

 

Mais do que isso, preocupante.

A mais grave ameaça sobre a imprensa brasileira desde os tempos da ditadura.

Pela primeira vez surge nítido e recortado o fantasma do poder econômico.

Apesar da promessa dos 150 novos postos de trabalho nas redações.

Apesar da promessa de investimentos de 50 milhões de dólares.

O novo jornal de economia de negócios anunciado na segunda-feira no Rio por João Roberto Marinho e Luís Frias concentra ainda mais a super-concentrada mídia brasileira.

Quando a Folha dizia por intermédio de seu Diretor de Redação (aliás, ausente da solenidade embora seu nome constasse do convite) que O Globo fazia "jornalismo chapa branca", isso era bom para todos. Quando O Globo respondia chamando a Folha de "arrogante e irresponsável", também era muito bom para todas as partes.

Exibiam, além da falta de compostura, uma polarização salutar, uma diversidade de opiniões saneadora. Apesar das agressões, a democracia saía fortalecida. Agora, os dois grupos são sócios num terceiro negócio.

Sócios não brigam, sócios tendem a se entender.

Acabou a guerra, mas a paz que se prenuncia é tenebrosa.

O cidadão comum será o grande prejudicado. E os homens de negócio, se ganharem algo com o novo veículo, será pouco, pouquíssimo, comparado com os prejuízos que este Tratado de Tordesilhas, amaciante e sufocador, causará à sociedade brasileira.

Chama a atenção que o acordo tenha sido anunciado antes que seja aprovada a emenda que altera o artigo 222 da Constituição, que corre célere na Câmara. Alterada nossa Carta, a Gazeta Mercantil poderia perfeitamente convocar sócios estrangeiros ou capitalizar-se normalmente por meio da adesão de pessoas jurídicas.

Fica evidente que a nova associação visa canibalizar a Gazeta Mercantil. Não é avanço, é massacre, retrocesso.

Os 150 novos postos de trabalho serão preenchidos com o pessoal que será dispensado dos cadernos de economia do Globo e da Folha. Ou da Gazeta Mercantil.

Chama a atenção também que a Editora Abril, parceira estratégica e política do Grupo Folha, tenha sido informada meia hora antes do anúncio oficial por um jornalista de outro veículo que desejava confirmação da notícia. (Folha e Abril são sócios fifty-fifty no provedor Universo Online.) Isso na esfera dos comuns mortais tem um nome: traição.

A Folha, que se assume publicamente como baluarte contra o neoliberalismo e o capitalismo selvagem, joga pesado quando se trata de sua ambição hegemônica. Sua pregação em favor de uma sociedade equilibrada vale tanto quanto os compromissos morais que assume e rasga. Suas cruzadas, à luz do que acaba de armar, estão arquivadas.

Estamos assistindo a um dos piores momentos da história da imprensa brasileira. A instituição-modelo despojou-se voluntariamente da fantasia para apresentar-se como uma vestal hipócrita, mesquinha e vil. (Alberto Dines)

Em tempo: Este Observatorio errou quando noticiou que a Direção da Editora Abril fora informada do pacto Globo-Folha meia hora antes do anúncio formal. Quem informou a Direção da empresa foi a redação de VEJA que puxou da informação da Internet, cerca de quatro horas antes do anúncio. A substância da informação permanece inalterada: a Folha traiu sua parceira. A.D.

 

A BARRIGA DO ANO
O dia em que a imprensa
brasileira mudou o FMI

A Folha fez o seu barulho e todos foram na onda

 

Alberto Dines

O Fundo Monetário Internacional, quem diria, conseguiu revelar a precariedade de uma prática jornalística que começa a tomar conta da imprensa brasileira. O modelo Folha de jornalismo, hoje generalizado e voltado apenas para fazer barulho, sofreu um duro golpe. Foi ridicularizado e classificado de "amador" nos círculos especializados internacionais.

O FMI foi o artífice involuntário do episódio. Mas foi um colunista da própria Folha – um dos mais sólidos e sóbrios da área econômica – quem enfiou a carapuça no próprio jornal.

A história é esta:

*** Na terça-feira, 28/9, em Washington, na Assembléia de Governadores do FMI (que reúne os ministros da Economia e presidentes dos bancos centrais dos 182 países-membros, sem qualquer representante do poder executivo), o diretor-gerente Michel Camdessus anunciou um programa social conjunto com o Banco Mundial, acoplado ao perdão da dívida dos 29 países mais pobres.

*** A matéria da Folha no dia seguinte (quarta, 29/9, págs. 1-1 e 2-5), assinada pelo repórter que acompanhou o evento – com chamada no alto da primeira página e manchete de página interna –, apesar do tom de "guinada" ou "reviravolta" foi inequívoca. "Não foi reconhecimento de culpa. Ao contrário: Camdessus salientou o sucesso das políticas econômicas do Fundo que, apesar das críticas...", etc. etc.

*** Diante da repercussão da matéria da Folha (também de O Globo, mais discreta porém igualmente equívoca), o colunista de economia do jornalão paulista, Celso Pinto, um dos mais competentes e responsáveis da imprensa brasileira, apressou-se no dia seguinte a desfazer o mal-entendido. Título: "FMI: a fumaça da pobreza".

Lead: "Existe mais fumaça política do que fogo nesta suposta conversão do FMI em paladino das políticas sociais e do combate à pobreza. Antes que os políticos se animem com um suposto ‘novo fundo’ é bom entender o contexto do que aconteceu e do que ainda é fantasia". E, em seguida, contextualizou precisa e didaticamente, como sempre faz, o que realmente aconteceu (Folha, quinta, 30/9 pg. 1-11)

*** Tarde demais. Naquela mesma edição da Folha o factóide já havia se convertido em fato de grande dimensão: manchete de primeira página ("Malan admite ‘agenda social’ do FMI") e nenhum destaque na primeira página ao balde de água fria do seu colunista. (Fizeram, sim, uma chamada a outro texto do mesmo Celso Pinto que nada tinha a ver com a "reviravolta" do FMI. E era importante sustentar a "reviravolta"...) Logo abaixo da manchete, o onipresente e onisciente Clovis Rossi, diretamente da Alameda Barão de Limeira, São Paulo (SP) comentava a "guinada" ocorrida em Washington, D.C. (EUA) com a sua teoria conspiratória do dia ocupando manchete de página ("FMI questiona ‘Consenso de Washington’"). Outro jornalista da Folha com larga experiência internacional, Carlos Eduardo Lins da Silva, de Brasília, foi mais cauteloso ("Mudança é de tom, não de conteúdo", pág. 1-6) mas também embarcou na mesma canoa. Neste dia, a Folha dedicou ao assunto seis páginas, sendo que numa delas havia seis infográficos desses que nada têm a ver com o fato em si, mas servem para engrossar o noticiário.

*** Neste mesmo dia, O Globo (que hoje se assumiu como jornal-espelho do seu arqui-rival paulista) desenvolveu sua grande especialidade: repercutir. Manchete da primeira página: "FMI é elogiado por Lula e ACM e criticado por Malan" (isso mesmo, com as duas conjunções "e" na mesma sentença!).

*** Diante desta reviravolta espetacular, a Presidência da República não podia ficar em silêncio e dos seus laboratórios saiu uma nota oficial "saudando" a nova estratégia do FMI. Malan, sempre mal assessorado, atrapalhou-se. As sumidades do PFL como Inocêncio de Oliveira e ACM correram atrás para "posicionar-se" como progressistas. Delfim Neto apressou-se em sair da toca para fingir-se inteligente. Os colunistas políticos fofocaram, cartunistas cartunizaram, comentaristas fizeram profundas reflexões e as emissoras de rádios – que não fazem outra coisa que não copiar os matutinos – berraram as manchetes dos mesmo matutinos.

*** Tanto o Financial Times como o Wall Street Journal nada mencionaram nas edições de quarta, quinta e sexta (29-30/9 e 1/10) sobre a sensacional guinada que a imprensa brasileira deu em nome do FMI.

*** Afinal, na sexta-feira, na própria Folha (pág. 1-9), desmascarava-se a grande farsa jornalística pela mão de Celso Pinto. O jornalista foi ao próprio Camdessus para checar a veracidade daquela paranóia. Incrível: a ninguém havia ocorrido a providência comezinha de pedir esclarecimentos à fonte de tão importante mudança. E Celso Pinto teve a coragem de passar um pito indireto não apenas nos seus afoitos coleguinhas como no próprio jornal:

Título da coluna: "O FMI e os ‘jornalistas amadores’".

Lead: O suposto "novo FMI" com preocupações sociais significa que acabou a crença nos princípios liberais do chamado "Consenso de Washington"? "Só os jornalistas amadores entenderam assim", respondeu ontem o diretor-gerente do FMI dando uma boa risada. Dada a versão equivocada e exagerada no Brasil sobre esse "novo FMI" ontem houve uma profusão de esclarecimentos. [veja abaixo a íntegra do texto de Celso Pinto]

*** Como é que a Folha engoliu o pito? Dando uma de Pitta, isto é, fingindo que não é com ela: na chamada de primeira página disse que "para o FMI, o ‘consenso de Washington’ não acabou". E não faz a menor referência à tremenda gafe jornalística nem à declaração de Camdessus sobre os jornalistas amadores.

*** Na sua edição de sábado (2/10) a Folha passou ao largo da barrigada. Não saiu a coluna de Celso Pinto. No jornal-espelho, O Globo, nenhuma palavra. O barulho era agora outro: a declaração de Armínio Fraga sobre investimentos em Minas Gerais.

*** Registre-se que o Estado de S.Paulo e o Jornal do Brasil não foram com muita convicção na onda da "guinada social". Mas também não tiveram a firmeza para desmascarar a barriga e colocar as coisas nos devidos lugares.

*** Como os jornais de domingo são fechados na quinta e na sexta, nas edições dominicais ninguém comentou o escorregão amadorístico. Ao contrário: em três matérias distintas (uma entrevista com José Serra, outra como ACM e uma matéria noticiosa na área de economia), o O Globo continuou "repercutindo". Para salvar a cara, a Folha fez uma entrevista com o criador do "consenso de Washington", desancando as distorções do seu projeto. Para o leitor desatento, pareceria que o jornal não havia errado.

*** A ombudsman da Folha (que fecha a sua coluna na sexta à tarde, portanto já tendo lido a gozação de Celso Pinto no jornalismo amador praticado pelo seu jornal) nada comentou na sua coluna de domingo.

*** E as pobres semanais, pegas de surpresa pela reviravolta da reviravolta bem na hora do fechamento, foram em frente. Época e Veja assumiram às pressas que o FMI está efetivamente preocupado com a pobreza.

Conclusões:

  • Esse é um caso destinado a converter-se num clássico do novo jornalismo brasileiro.
  • Mostra a leviandade e pressa com que a mídia brasileira tira conclusões.
  • Revela como – por mimetismo e medo de errar – todos os veículos adotam a estratégia "Maria vai com as outras".
  • Escancara a irresponsabilidade dos políticos de esquerda, centro e direita, em tirar casquinhas do noticiário para ganhar uma fugaz exposição na mídia.
  • Desvenda em toda a sua extensão a bizarra transformação de um factóide gerado por amadorismo num fato consumado que ninguém tem coragem de contraditar.

Nota: Este Observatório, preocupado em dirigir o olhar crítico para as instituições e o sistema mediático, tem evitado a nomeação e personalização. Neste caso, seria impossivel detalhar o episódio sem mencionar o desempenho e os textos do jornalista Celso Pinto. E por um dever de justiça não poderíamos deixar no anonimato aqueles que comportaram-se de modo oposto.

 

ILUSÃO DE ÓTICA
O FMI e os ‘jornalistas amadores’
(*)

 

Celso Pinto

"Washington – O suposto ‘novo FMI’ com preocupações sociais significa que se acabou a crença nos princípios liberais do chamado ‘Consenso de Washington’?

‘Só os jornalistas amadores entenderam assim’, respondeu ontem o diretor-gerente do FMI, Michel Camdessus, dando uma boa risada. Dada a versão equivocada e exagerada, no Brasil, sobre este ‘novo FMI’, ontem houve uma profusão de esclarecimentos.

Camdessus, seu braço direito, Stanley Fischer, e a diretora-adjunta do Departamento de Hemisfério Ocidental, Teresa Ter-Minassiam (que negocia o programa brasileiro), passaram exatamente a mesma mensagem. O programa brasileiro já embute uma ênfase a programas sociais, especialmente em educação e saúde, e não há nenhuma razão para reabri-lo.

‘Nós sempre pensamos em dar mais ênfase a gastos sociais, mas respeitado o contexto de controle fiscal’, disse Ter-Minassiam à coluna. ‘A única coisa diferente que aconteceu nesta reunião é que, no caso dos países (de extrema pobreza) que terão parte de sua dívida perdoada, será feito um esforço para dirigir os recursos poupados para a área social’, explicou. ‘De resto, não mudou nada no FMI.’

Além deste programa para países muito pobres a ser desenhado junto com o Banco Mundial, Camdessus acha que, nesta reunião, conseguiu ‘colocar a pobreza como uma questão permanente, urgente na agenda da comunidade financeira internacional’. Os países membros ‘reconheceram que a pobreza e a justiça social são ingredientes chave no contexto da formulação das políticas nacionais’. Na entrevista à imprensa, ele disse não achar necessário incluir metas sociais entre as condicionalidades dos programas do FMI, uma questão polêmica.

Na prática, nada disso tem a ver com uma ‘guinada no FMI’, mas com seu esforço de incorporar, junto com o Bird, uma ‘dimensão social’ como pilar da ‘nova arquitetura financeira mundial’. Não há consenso entre os países sobre como ou quando fazer isso, mas está claríssimo que não muda um milímetro as prioridades do fundo em relação ao ajuste fiscal e das contas externas, a partir de reformas liberais.

Aliás, Camdessus voltou a defender a liberalização dos fluxos de capitais, feita de forma cuidadosa e voluntária. A análise feita pelo FMI das experiências de controle da capital, disse, mostram que elas ‘não são tão boas quanto dizem’.

Em parte, a ênfase na pobreza foi um exercício de relações públicas do FMI, submetido a fortíssimas críticas nos últimos dois anos. Aparentemente, só funcionou no Brasil. O ‘novo FMI social’ foi um assunto virtualmente inexistente na imprensa americana e européia.

A verdade é que continuou a não haver consenso, nesta reunião, para as questões mais controversas da ‘nova arquitetura financeira’. O FMI continua a sinalizar apoio tanto para o câmbio flutuante, quanto para o câmbio fixo do ‘currency board’ e Fischer, numa entrevista ao colunista, disse que a dolarização ‘é uma idéia muito interessante’. A liberalização do fluxo de capitais continua dividindo opiniões.

O ponto mais polêmico são as formas de envolver o setor privado em pacotes de resgate de países em crise. O FMI e o Tesouro americano foram duros no caso do Equador, deixando a moratória acontecer sem organizar um amplo pacote de resgate. É um sinal de que o princípio valerá também para países maiores? O mercado acha que não e o próprio FMI insistiu em dizer que esta questão tem que ser tratada ‘caso a caso’. Ou seja, quando vier a próxima crise (e ela, sem dúvida, virá), as incertezas continuarão as mesmas.

Para o Brasil, a reunião foi positiva. Continuam a haver dúvidas e preocupações, especialmente políticas, mas parece que, pela primeira vez em muito tempo, parecia haver um clima de mais confiança de que o ajuste fiscal será feito, isso pelo menos até a desastrosa decisão ontem do STF derrubando a contribuição dos inativos. Comparado ao clima de pânico da reunião do ano passado, foi uma melhora e tanto.

A Argentina também saiu-se relativamente bem, o que é uma boa notícia para o Brasil. Diminuiu a ansiedade sobre uma mudança no regime de conversibilidade do câmbio. José Luis Machinea, provável futuro ministro da Fazenda do candidato favorito à presidência, Fernando De La Rua, explicou porque: 90% da dívida pública e 75% da privada são em dólares, portanto o custo fiscal de uma desvalorização seria insuportável.

Está claro, contudo, que o novo governo argentino terá que fazer um enorme ajuste fiscal. Machinea disse que, considerando o impacto da privatização e de medidas fiscais temporárias, o déficit neste ano não será de US$ 5,5 bilhões (uns 3% do PIB), como diz o governo, mas US$ 8,7 bilhões. A meta do novo governo é reduzi-lo para US$ 4,5 bilhões em 2.000, o que exigirá medidas duras. A incerteza, entre os bancos, diminuiu, mas não desapareceu.

De forma geral, contudo, a mensagem desta reunião foi que o mundo, incluindo Ásia, Europa e América Latina, vai crescer mais no próximo ano e que o pior da crise já passou. Tomara que, pelo menos desta vez, o FMI tenha razão."

(*) Copyright Folha de S. Paulo, 1º/10/99

 

ÉTICA
Preocupações do Vaticano
(*)

El País

"Cidade do Vaticano – O papa considera que a imprensa, o rádio e a televisão tendem cada vez mais a privilegiar ‘o sensacionalismo’ frente à informação que de verdade ajudaria a entender o que ocorre no mundo, e se mostra a favor de um ‘comitê de ética’ que vigie a uma eventual manipulação. A afirmação está em mensagem entregue aos jornalistas da União Católica da Imprensa Italiana na quarta-feira [22/9/99], quando os recebeu no Vaticano pela passagem do 40º aniversário da associação.

O papa reiterou que a informação é um ‘valor irrenunciável, um bem social’. Também disse que a revolução digital ‘que caracteriza o mundo da informação no fim do milênio’ introduz uma ‘maneira nova de entender as comunicações’, e que ante a enxurrada de informação que chega às pessoas é muito difícil um controle de autenticidade.

‘A impossibilidade de controle cria autênticas inundações de notícias que não se podem verificar. Corre-se o risco de que nasça um sistema baseado nas grandes concentrações informativas que, em nível nacional e supranacional, possa operar sem regulamentação, criando condições de superioridade e, portanto, subordinação cultural’, sublinhou João Paulo II."

"Preocupação do Vaticano pelo ‘descontrole’ da informação", copyright El País, 24/9/99

 

"ARTES" GRÁFICAS
Assim não é, embora lhe pareça

 

Antonio Fernando Beraldo (*)

Jornais e revistas parecem sofrer de uma espécie de "excesso de criatividade", competindo entre si para ver qual consegue encaixar mais besteiras por centímetro quadrado quando se metem a "criar" representações gráficas para pesquisas de opinião.

Mas, na edição de domingo (18/9/99), a Folha de S.Paulo caprichou. Manchete na primeira página, quatro páginas inteiras no primeiro caderno, letras imensas, depoimentos de insatisfeitos e irados, e tabelas coloridas gritando os resultados da pesquisa feita pelo DataFolha sobre a popularidade e a aprovação de FHC. Uma festa, com direito a foto do presidente olhando de soslaio, contrariado, para as linhas do gráfico, que parecem tenazes ameaçando furar-lhe os olhos. Bela montagem, coerente com outros "infográficos", logo embaixo. A Folha caprichou e abusou: os gráficos não estão apenas tendenciosos (no mau sentido) – alguns estão errados. É isso mesmo, errados. Quer ver?

Comecemos pelo gráfico de colunas, na primeira página, logo abaixo da foto do presidente. O título é "Os brasileiros acham que FHC ..." "respeita mais os ricos", e, apesar de ser "muito inteligente" (67%) e "moderno" (54%), "trabalha pouco" (64%), "é falso" (62%), e "é indeciso" (56%). Enfim, um sujeito que ninguém quer para cunhado ou para tomar uma cerveja. Estes percentuais estão representados por barras verticais, vermelhas, contrastando com um fundo azul claro. Até aí, tudo bem. Só que, por serem barras de pequeno tamanho (a maior tem 15 milímetros), a impressão que fica, de uma primeira observação, é que, da segunda barra em diante, todas têm o mesmo tamanho – o que não condiz com os dados numéricos.

Pode parecer implicância, mas é preciso lembrar que os jornais são expostos na banca ou dobrados ou pendurados do lado de fora. Quem lê, está a uma distancia de, no máximo, 30 centímetros. Experimente o efeito você mesmo.

O pior ainda está ao lado direito da página: um gráfico de intenção de voto para presidente em 2002, com barras horizontais representando os percentuais de Lula (29%), Ciro Gomes (19%), Maluf e Itamar (8%), e outros menos "intencionados". A barra que representa Lula (29%) mede 18 milímetros. Por uma "regra de três" simples, a barra que representa Ciro Gomes deveria medir 12 milímetros, não é? Mas não, a barra do Ciro mede apenas 6 milímetros (perdão, leitoras; perdão, Ciro; perdão Patrícia). Cortaram a barra do homem pela metade, e apesar de ter mais que o dobro das intenções do Maluf e do Itamar, no gráfico as três barras praticamente coincidem. A Folha errou.

Mas o pior de tudo foi o tal do gráfico de linhas. Parece aquele jogo dos sete erros, dos almanaques de antigamente. Se não, vejamos:

1. O gráfico não tem escala vertical. A impressão que fica é que a popularidade do presidente cai até zero, o que não é verdade – cai até 13%.

2. A escala horizontal, onde estão as datas em que foram feitas as pesquisas, não obedece ao princípio básico de proporcionalidade. As datas vêm de mês em mês: junho, julho, agosto, setembro de 1998. Deste mês salta para dezembro de 1998, depois para fevereiro de 1999, depois para junho e setembro de 1999. Ou seja, os intervalos variam de 3 a 4 meses, mas a escala horizontal não corresponde a esta variação. O correto seria colocar intervalos iguais, seja de um em um mês, ou, vá lá, de três em três meses, mas sempre mantendo esta ordem. Do jeito que está feito, não está somente errado, mas induz ao leitor uma idéia totalmente distorcida da evolução dos percentuais. Em termos de Estatística, isto é crime.

3. Esta desproporção na escala horizontal, junto com a ausência de escala vertical, provoca um efeito de encolhimento na imagem, acentuando os ângulos de subida e descida das curvas. Torna mais abrupta tanto a evolução crescente quanto a decrescente – talvez um recurso para justificar o verbo "despencar" utilizado no título. Na verdade, segundo os dados, a popularidade do presidente "despencou" mesmo foi entre dezembro do ano passado e fevereiro deste ano (menos 14%). De lá para cá, a queda foi de 8% em sete meses. Mas quem vê não enxerga, de tanto que a figura é distorcida

4. O uso das cores também está tendencioso. O amarelo da curva "bom/ótimo" é realçado contra o fundo azul da parte esquerda do gráfico, e simplesmente desaparece contra o fundo branco do resto da ilustração. Qualquer pessoa que já trabalhou com cores sabe disso.

5. Já a cor vermelha para a curva de "ruim/péssimo" se destaca tanto na parte esquerda quanto na direita do gráfico, em contraponto.

Juntando estas pequenas e grandes perversidades, está feito o truque. Veja a seguir a comparação entre as imagens:

 

Que tal?

Ainda há muito a comentar. Estes "artistas" vivem se superando.

(*) Professor do Departamento de Estatística da Universidade Federal de Juiz de Fora

 

CRISE ECONÔMICA
Quem retrata o Brasil real?

 

Isak Bejzman

"Nunca estivemos tão longe do país que sonhamos um dia."

Celso Furtado

Para o jornalista Aloysio Biondi (Bundas nº 11), "é mentira que haja viradas imprevisíveis da noite para o dia na economia, em qualquer país do mundo". Para ele, "a estabilidade do real é uma invencionice nauseante" e, como o Brasil está num brete, "somente fugirá do desastre total se houver uma guinada nos rumos de sua política econômica".

Segundo o jornalista, existe um descompasso entre arrecadação e gastos com juros pelos três estamentos de governo do país, União, estados e municípios. E como o governo federal está sem dinheiro, paga os juros emitindo promissórias, títulos para ‘pagar’ no futuro, o que significa que já está quebrado; e essa política poderá nos levar a um desfecho trágico.

Biondi também critica a forma de privatização das empresas estatais, desnacionalizadas concomitantemente. Esta conduta levou o país a ser sangrado em dólares por três furos:

1. o comando empresarial está fora do país, e as compras (insumos, peças, componentes, produtos) serão feitas pelas suas direções no exterior, segundo os interesses das matrizes, e não os do país;

2. a remessa de lucros para o exterior, que era de US$ 700 milhões, está chegando, atualmente, aos US$ 6 bilhões anuais; e

3. o pagamento da dívida externa, que anda na casa dos US$ 230 bilhões, consome US$ 30 bilhões de juros por ano.

Mais ou menos empatando com as idéias de Biondi está o pensador Mangabeira Unger; só que ele não é favorável ao calote... externo. Se eu entendi bem o que ele disse em sua entrevista ao jornalista Clóvis Rossi, da Folha de S.Paulo, o que ele promove é a idéia do calote interno. Todavia, não é o que escreve ou fala a maioria dos jornalistas brasileiros que se dedica a comentar a economia nacional.

Lembro que no fim do ano passado uma porção de economistas tentou mostrar como o comércio vendeu bem no Natal, enquanto Biondi, em artigo de 31/12/98, dizia: "Falta um pacto contra o otimismo". Ele contestava aquelas maravilhas de vendas que muitos de seus colegas descreviam.

Os "infopobres" da Globo

Afinal, quem retrata o Brasil real? As telas de TV com suas novelas que mostram um país onde ninguém trabalha? O discurso neutro de jornalistas que nem sequer contestam Biondi? Ou o discurso de Biondi? Embora haja muitos neste país que pensam exatamente como ele, pouco aparecem na mídia.

Howard Frederic, da Universidade da Califórnia, diz que o mundo está dividido em "infopobres" e "inforicos". Que 65% da população mundial padecem da falta de livros, e que os países ricos têm 90% dos computadores no mundo. Conclusão: o povo brasileiro que diz ficar sabendo das coisas porque "deu na Globo" está totalmente desinformado. As TVs não retratam a realidade brasileira, os jornais também não, e a informação pública no Brasil está sujeita ao dono do poder.

Infelizmente, não tenho condições de fazer um estudo profundo sobre as pautas da imprensa especializada em economia, mas basta prestar um pouco de atenção e fica fácil perceber que a mídia vive numa única redação, e suas pautas parecem um uníssono monocórdio.

A Inês já estava morta

Em "Falta um pacto contra o otimismo", Biondi critica o "falso otimismo" da imprensa brasileira, chamando-o de "manipulação da informação", e sustenta que "nada surgiu da noite para o dia, como a crise asiática ou a crise da Rússia como se diz mentirosamente". Isto é uma realidade. Eu mesmo escrevi um artigo baseado num Op-Ed do New York Times de 14/10/98, intitulado "Next Stop: Brazil", assinado por Jeffrey Sachs e Steven Radelet, no qual eles demonstram como e por que o Brasil seria "a bola da vez".

Quando o real foi desvalorizado, os jornalistas, tomados de frenesi, espraiaram pelos jornais um nome feio: o "overshooting". Os brasileiros ficaram tão "overchutados" que se convenceram de que no dia seguinte à posse do senhor Armínio Fraga no Banco Central do Brasil a "verdinha" viria para R$ 1,20. Foi um orgasmo nacional. Mas aí o senhor Fernando Henrique Cardoso já estava reeleito.

Não bastasse o Biondi arrasar a mídia como o furacão Floyd, a Folha de S.Paulo publicou, em 14/9/99, o artigo de Tarso Genro "Quem tem propostas", no qual ele demonstra que o Brasil está acumulando um déficit público de 7% do PIB; o volume da dívida externa e interna é de R$ 500 bilhõezinhos; o desemprego em São Paulo beira os 20%; a dívida externa das empresas brasileiras anda pelos US$ 130 bilhões; e, por causa de tudo isso, o Brasil é um país que a) está quebrado e b) está próximo da inadimplência.

A oposição tem proposta

Mas isto não é tudo. Tarso Genro faz as seguintes denúncias: FHC e parte da mídia brasileira estão unidos para fazer o povo brasileiro acreditar que a oposição não tem propostas; o governo e os "donos da mídia" conhecem as propostas da oposição; o governo e a mídia parceira assim agem com a finalidade de interditar o debate para criar, no povo, uma idéia de que não existem possibilidades alternativas viáveis; o presidente e a mídia utilizam o processo da "legitimidade negativa", pelo qual se procura interditar, por todas as maneiras possíveis, o verdadeiro debate sobre o país, com a técnica de incutir no povo o medo da "desestabilização".

Reforçando o pensamento de Tarso Genro, o jornalista Elio Gaspari (Zero Hora/Folha/O Globo 15/9/99), no artigo "Presidente rejeitado é coisa perigosa", escreve: "O governo de FHC está chumbado porque seguiu uma politikekonômica ruinosa, baseada num populismo cambial que perseguia o mesmo objetivo central de seu primeiro mandato: a reeleição". Gaspari acha que é perder tempo falar nos desastres do senhor presidente, pois isto já é passado. "Vale mais conjurar os que vêm pela frente." Depois de qualificar as várias desqualificações de um presidente impopular, Gaspari, que ontem dava a entender que não existia oposição no Brasil, sugere que olhemos a oposição: "Essa história de que a oposição não tem projeto é uma das mais velhas lorotas da história nacional", frase antecedida por outra: "Desde já, é bom dizer que eles as têm".

Contraditoriamente, enquanto tudo isso está acontecendo, dois jornalistas do Jornal do Brasil, Cristiano Romero e Gabriela Mafort, escrevem o seguinte, afirmando a competência da equipe governamental liderada pelo senhor Malan: "Quando o presidente do Banco Central, Armínio Fraga, avisou que deixaria o cargo caso o ministro da Fazenda, Pedro Malan, pedisse demissão, foi dada a senha. O presidente se viu encurralado. Foi obrigado a demitir Carvalho, não porque não aceitou suas desculpas, mas para preservar a confiança da sociedade e dos investidores na equipe que está conduzindo, de maneira competente, a estabilização da economia".

Que saudades! Saudades do Stanislau Ponte Preta, o saudoso Lalau. O homem que inventou o "Samba do Crioulo Doido".

De pernas para o ar

Luis Fernando Verissimo, em O Globo (17/9/99), ao fazer um estudo sobre os ofícios liberais dos tempos medievais, contrapôs o "trivium" (que anda pelos caminhos da eloqüência) ao "quatrivium" (que anda pelos caminhos da sabedoria), dizendo que este último é superior ao primeiro, que é banal e inconseqüente, baseado numa virtude abstrata e narcisista. Se o "trivium" ou eloqüência é gramática, retórica e lógica e o "quatrivium" é aritmética, música, geometria e astronomia, os caminhos desta última devem ser bem superiores.

Mas o que vemos na mídia brasileira não é isto. Está tudo invertido. Para Verissimo, a eloqüência, incluindo o discurso oficial e publicitário, "superou as artes precisas, tornadas inconseqüentes pela irrelevância política. A gramática, a retórica e a lógica – ou a gramática, a retórica e a lógica a serviço das abstrações e do narcisismo no poder – definem a realidade. As palavras substituem os fatos".

Não satisfeito com o que sua sensibilidade de artista percebe, Verissimo avança em suas reflexões: "Hoje, a eloqüência, em todas as suas formas, incluindo o discurso oficial e o discurso publicitário, faz ver o mundo que é de um jeito ser verbalizado de outro e, quem vive no mundo real não reconhece o mundo retórico e vice-versa." E conclui esse pensamento assim: "Vide o Brasil, onde o ‘trivium’ sepultou o ‘quatrivium’ e o governo vive nos seus discursos enquanto o povo regride para trevas medievais".

A vaca está no brejo

Como resultado dessa barafunda aconteceu que, segundo LFV, a economia, que é uma aplicação prática do "quatrivium", se mancou e entregou os pontos ao "trivium". Do que concluo que os números mimetizaram a vaca: foram para o brejo. E Verissimo encerra seu artigo assim: "A linguagem econômica se transformou no pior exemplo de discurso longe dos fatos, opondo à realidade da miséria e do sofrimento humano o pseudo-realismo de uma pseudociência. E a gramática da empulhação, a retórica que substitui a ação e a lógica dos interesses dominantes encontraram na pregação fatalista do caminho único para a nossa economia a sua eloqüência triunfal."

Decididamente o Brasil continua o mesmo.

 

LINGUAGEM ANÓDINA
A queda do ministro
segundo a Folha

 

José Corrêa Leite (*)

A liberdade de imprensa sempre foi um dos pilares da democracia moderna, mas a construção da notícia pela grande imprensa da atualidade vem se transformando num dos maiores obstáculos para o entendimento do que se passa na política pelos cidadãos comuns e, portanto, para o exercício da democracia. Afinal, pretende-se que as pessoas letradas possam compreender o mundo mais amplo a sua volta pela informação cotidiana que obtêm da imprensa escrita – esta é, inclusive, a forma como ela própria justifica sua sobrevivência e busca preservar um espaço diferenciado frente à televisão, que aparentemente seria mais superficial.

Mas os jornais de grande circulação, cada vez mais padronizados no mundo todo, pautando-se por um "mercado" de informações, freqüentemente transformam a tentativa de compreender o que se passa na política por meio da montagem impossível de um enorme quebra-cabeças em que as peças-chave são sempre escondidas. Isso é muito forte na imprensa brasileira, que atua no sentido de acentuar o déficit histórico de cidadania que caracteriza nossa cultura política. O "recorte" da realidade promovido pelas grandes empresas jornalísticas na constituição dos "acontecimentos", a definição editorial do que é a "notícia", a seleção de fontes e a escolha das citações a serem utilizadas, a reprodução acrítica do discurso que o poder vem utilizando há uma década para descrever e justificar seus atos são aspectos apresentados como técnicos na atividade nada técnica de manipulação de símbolos e ação sobre consciências e inconscientes.

A cobertura pela Folha de S.Paulo da queda do ministro Clóvis Carvalho, no início de setembro, oferece uma boa oportunidade para observarmos isso. Trata-se de um tema típico do cotidiano da grande imprensa, importante mas não carregado de conflitos sociais agudos (como seria, por exemplo, um episódio envolvendo o MST ou a esquerda "radical"); estamos nas disputas normais de dentro do sistema.

A demissão de Clóvis Carvalho foi um episódio importante, uma situação delicada para o governo. Mas ao acompanhar os acontecimentos somente pela Folha os leitores tiveram dificuldade de compreender o que se passou e suas implicações.

O pano de fundo: o governo Fernando Henrique enfrenta forte processo de desgaste, com a política governamental produzindo insatisfação crescente na população. ACM sistematicamente tem demarcado um espaço próprio frente ao governo, Tasso criticou abertamente a política oficial, Ciro Gomes se apresenta como alternativa política e a manifestação da oposição em 26 de agosto, em Brasília, demonstrou que a esquerda ampliou seu espaço de atuação. Apesar disso, a mídia não descreve os impasses da política nem debate alternativas, mas a recorrente disputa entre os grandes personagens.

A construção da "notícia"

Fernando Henrique tentava reverter esta situação em 31 de agosto, transformando a apresentação do Orçamento para 2000 em uma iniciativa de propaganda política e lançando o "Avança Brasil". Assim, dia 1º de setembro temos na capa da Folha "Imposto maior garante Orçamento" e como segunda manchete "FHC lança plano e vê ‘revolução’ no Estado".

Dia 2, nosso problema já aparece em um jantar de Malan com 23 senadores. A manchete da Folha: "Malan rejeita ‘bolha’ de crescimento", em resposta a pedidos de expansão imediata da economia (olho). A terceira das quatro colunas da matéria na capa é muito elucidativa: "O senador Ramez Tebet (PMDB-MS) afirmou ter saído com ‘com a sensação de que o ministro não se verga’ e de que Malan ‘está convicto de que o país está no caminho certo’". Vinte e cinco por cento da matéria é a citação de um político inexpressivo para elogiar a "firmeza" do ministro no curto texto de capa!

No dia 3 é noticiado o seminário "Desenvolvimento com estabilidade", promovido no dia anterior pelo PSDB, que levaria à queda de Clóvis Carvalho. Manchete: "Crescimento opõe Clóvis a Malan". Olho: "Enquanto o ministro da Fazenda prega estabilidade, o do Desenvolvimento diz que excesso de cautela será ‘covardia’". Numa coluna de fundo azul, ao lado da foto dos dois no seminário, são destacadas duas frases de Carvalho e três de Malan. Na matéria de capa, de quatro parágrafos, lemos no terceiro "Para o senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), a divergência pública mostra que o presidente Fernando Henrique Cardoso ‘deve unificar a linguagem do seu governo’", e no quarto, "O porta-voz Georges Lamazière disse que FHC ‘qualificou de retóricas as diferenças de ênfase’ entre os ministros e que Malan tem ‘apoio integral’ do presidente".

A edição do dia 3 dedica três páginas internas ao tema, com gráficos, boxes e tabelas, mas elas apenas repetem os chavões sobre o que consideram "o debate sobre a economia" entre "monetaristas" e "desenvolvimentistas". Ficamos conhecendo as frases completas dos ministros, inclusive "excesso de cautela, a essa altura, será o outro nome para covardia", de Carvalho (ladeando uma foto de um quarto de página dos dois ministros). E, na página 6, temos uma matéria central: "ACM culpa presidente por polêmica", enquadrada por duas colunas "Pedro Malan: Ministro é o avalista da atual política" e "Clóvis Carvalho: Discurso é agora dirigido a empresários", de Eliane Cantanhêde.

No centro da página 6 é apresentada, com a retranca "Análise" (como se tudo até então fosse "notícia", "informação neutra e objetiva", e só aqui existisse opinião), a matéria "Divergências são menores do que parecem". Neste texto temos uma pérola de oficialismo. Marta Salomon e Gustavo Patu, da "Sucursal de Brasília", nos explicam que as divergências entre "monetaristas" e "desenvolvimentistas" são menores do que parecem porque "os dois grupos não abrem mão nem do desenvolvimento nem da estabilidade da moeda". E o governo tem que enfrentar a pressão da oposição e da opinião pública, embora esta não surja, na análise dos jornalistas, como a mais importante. "Afinal, o governo tem outro público, estrategicamente importante, formado por investidores nacionais e internacionais e organismos que formam suas opiniões, caso do FMI (Fundo Monetário Internacional). Certo ou errado [sic], este segmento acredita que o país só será viável se ajustar muito mais profundamente as contas do governo e eliminar em definitivo os riscos de volta da inflação". O confronto entre "monetaristas" e "desenvolvimentistas" seria pendular, dentro deste marco maior. Vamos nos abster de comentar esta "análise".

Dia 4: "Clóvis recua e diz que Malan lidera gestão econômica", afirma a manchete, com a frase "Após crítica, ministro decide pedir demissão do cargo" no olho. Os dois primeiros parágrafos da matéria de capa: "O ministro Clóvis Carvalho (Desenvolvimento) manifestou ontem sua ‘adesão absoluta’ à ação de Pedro Malan (Fazenda), um dia depois de ter feito duras críticas públicas à atual política econômica. ‘Que não caibam dúvidas sobre uma identidade absoluta entre mim e ele’, disse Clóvis". E os dois últimos: "O ministro do Desenvolvimento foi à noite ao Palácio da Alvorada, disposto a pedir demissão. Não se sabia se o presidente Fernando Henrique Cardoso aceitaria sua saída. Em gravação de programa de TV, FHC criticou a atitude de Clóvis e disse que ‘tem ministro que atrapalha’". O mesmo conteúdo está nas páginas 4 e 5.

No dia 5, domingo, o tema vira o terceiro título da capa: "‘Minha vida pública acabou’, diz Clóvis" (a manchete principal é "ONG oferece adoção por US$ 5 mil" e a secundária "Índice Folha avalia SP). Abaixo, "Queda teve ação de Malan e Serra", texto de chamada para o comentário de Eliane Cantanhêde na página 2. O assunto foi tratado na página 10, com a manchete "Demissão de Clóvis dá fôlego a Malan" (olho: "Governo dividido: Cotados para o Desenvolvimento são Andrea Calabi (BNDES) e o empresário Alcides Tápias"). As outras matérias são "Presidente pede, em Manaus, ‘unidade’", "Vida pública ‘acabou’, diz ex-ministro" e "Saída foi evitada até a noite".

Aqui somos discretamente informados de que Carvalho não se demitiu, mas foi demitido por FHC. Completa a página o mesmo quadro de "monetaristas" e "desenvolvimentistas" publicado no dia 3. O assunto é ainda tratado na página de Elio Gaspari.

Dia 6 é a vez de Antonio Carlos Magalhães brilhar: "ACM diz que Malan tem três meses para mudar", é a manchete sob o olho "Senador defende ‘flexibilização’". Embaixo: "FHC e ministro discutem nome" (o ministro citado é Malan). O mais interessante sobre a crise política aparentemente nada tem a ver com o assunto: é a entrevista, na página seguinte, do senador Jader Bardalho, líder do PMDB, sob a manchete "Jader diz que tucanos patrocinam Ciro".

Dia 7, na capa, está a manchete: "Tápias vai para o Desenvolvimento". O olho: "Presidente da Camargo Corrêa se reúne com FHC e Malan e aceita pasta; posse ocorre na próxima semana". A segunda manchete: "Fiesp vê abertura de novo canal". Nas páginas 4, 6 e 7 temos muitas manchetes de matérias que nada esclarecem. É neste dia que as colunas de Janio de Freitas e Celso Pinto comentam o tema, como veremos abaixo. Dia 8, na capa da Folha: "Tápias fecha pacto com Malan contra disputas públicas". E, dia 9, "FHC convoca ministros para ‘guerra’".

Nos dias seguintes a questão já entrou para a história. As manchetes voltam à rotina: "Novo teto de servidor vai custar R$ 224 mi", "Câmara questiona o Orçamento", "Fundo de educação sofre desvio", "Indonésia cede e ONU envia tropa para Timor" e "FHC ataca ‘indecisão’ do Congresso". O dia seguinte, dia 15, justifica um destaque: a manchete é "FHC recua de crítica ao Congresso" (com uma foto, embaixo, do presidente como que fazendo uma vênia a ACM). Uma chamada da coluna de Elio Gaspari tem como título "Presidente rejeitado por 65% é uma coisa perigosa". Nos três dias seguintes as manchete são: "Pobreza cresce, diz Banco Mundial", "Déficit externo supera 5% do PIB" e "Brasil decide retaliar Argentina". Já a Folha de Domingo, dia 19, tem a pesquisa do Datafolha para concorrer com a do Vox Populi, e estampa: "Desemprego faz FHC bater seu recorde de reprovação" (56% de ruim e péssimo contra 13% de ótimo e bom estampados em um gráfico na capa).

Os colunistas

É claro que garimpando com cuidado temos um pouco mais do que isso sobre a saída do ministro. No dia 5 Elio Gaspari publicou, em sua página, uma matéria intitulada "O Saio de Malan frita FFHH", em que o jornalista lembra a colocação de Malan no jantar com os 23 senadores, quando disse que não estava no governo para promover uma bolha de crescimento e para isso não contassem com ele, que arranjassem outro: "Com o Saio, Malan jogou o cargo na mesa depois de responsabilizar FFHH por uma politikekonomica ruinosa na qual aceita a condição de adjunto, mas rejeita a de titular. FFHH caiu numa fritura inédita. Tem um ministro da Fazenda que não assume a responsabilidade de ‘condutor’ da politikekonômica, classifica de ‘fazedor de bolhas’ um eventual sucessor, diz que pode ir embora, mas quer mesmo é ficar."

E, no dia 7, discretamente colocados nas colunas de Janio de Freitas e Celso Pinto, alguns aspectos relevantes para o entendimento do processo aparecem. Celso Pinto lembra que o projeto de FHC para o segundo mandato dependia de quatro nomes: os irmãos Luiz Carlos e José Roberto Mendonça de Barros, André Lara Resende e Clóvis Carvalho. Como todos já caíram, o desafio do que fazer com o segundo mandato permanece. Afirma: "Dividir o governo entre ‘desenvolvimentistas’ e ‘monetaristas’ não é só uma simplificação; é uma bobagem. Clóvis não caiu porque defendia uma ‘bolha de crescimento’. Caiu porque enfiou três frases infelizes num discurso que, sem elas, poderia ser acusado, no máximo, de contradição. Ele pedia ‘ousadia’ com o desenvolvimento, mas se limitava a listar programas conhecidos ou providências limitadas". Celso Pinto afirma que FHC aposta no feijão com arroz da Fazenda para garantir alguma retomada gradual do crescimento que, lá na frente, volte a engordar sua popularidade. E termina perguntando: "Será suficiente?"

Para Janio de Freitas, "a cada confronto Malan precisa apenas cobrar a escolha entre a sua e a linha adversária. Sem concepção definida de política econômica, de governo ou do que quer que seja, com seu longo investimento feito todo na força das aparências, como um cheque sem fundo resulta porque aparenta um cheque normal, Fernando Henrique não tem elementos próprios de definição. Não pode decidir. Fica com a decisão encaminhada por outros ou pelas circunstâncias – essas, como a segurança pessoal de Malan e o seu apoio no exterior".

Não se trata, aqui, de chegarmos a uma conclusão sobre quais foram os motivos da queda de Clovis Carvalho, mas de observar a mecânica típica pela qual as notícias políticas são construídas na Folha de S.Paulo. Como disse Celso Pinto, a "análise" apresentada é uma bobagem, e o que seria uma crise política importante – seja como fato em si (falta de alternativas ou flexibilidade da política de FHC, poder de pressão dos "investidores e dos organismos que formam suas opiniões", acúmulo de problemas na base de sustentação do governo etc.) ou como indicador dos problemas de fundo que o projeto político de FHC vem enfrentando – se transforma em opereta (é só ver a foto de FHC, desfocado, e Malan ao fundo, descabelado e fazendo careta, na capa da Folha do dia 8).

A presença de colunistas que tratam o problema com seriedade é um elemento acessório mas indispensável. Nem todos os leitores podem ser tratados como débeis mentais, e um público mais informado pode encontrar aí a "informação" que permite construir as "notícias" (que aqui se transformam em "opiniões") com as quais operam as elites políticas. Os colunistas oferecem à Folha uma legitimidade e uma imagem pluralista que reforçam o jornal.

Dois discursos, um papel político

Temos, assim, a construção cotidiana de um discurso para a quase totalidade dos leitores da Folha de S.Paulo, que não lêem nas entrelinhas nem caçam passagens de análises de colunistas. É um discurso que torna a realidade opaca, que transmite a imagem da política como disputa de poder entre grandes personagens, que ajuda a corroer as condições de compreensão dos processos políticos e, portanto, a própria democracia. Como conceber a atividade cidadã se tudo é espetacularizado, estetizado e homogeneizado por uma linguagem anódina? Trata-se de uma construção consciente de notícias (porque é teorizada e defendida em seu método por seus responsáveis), que torna ainda mais caótica uma realidade política e social que surge para a maioria das pessoas, mesmo as relativamente informadas, como bastante fragmentada – alguns dos ideólogos da Folha de S.Paulo podem até contra-argumentar que nada é mais natural, estaríamos em um mundo pós-moderno!

E, para um pequeno número de leitores, que conseguem ler o debate real sobre o que se passa, temos um segundo discurso, em que colunistas e editorialistas tratam da política de gente grande.

A Folha pode sempre, desta forma, argumentar que não mente, que é pluralista e que debate os temas em foco com isenção. Mas, muito longe do jornalismo investigativo e de denúncia do poder que leva os jovens às faculdades de Jornalismo, temos a fabricação da notícia através de um discurso cifrado, que repete exaustivamente os chavões do poder, até transformá-los em verdades. A Folha recobre (não sozinha, verdade seja dita: provavelmente uma análise semelhante poderia ser escrita sobre Estado de S.Paulo, Globo ou Zero Hora) a vida política com uma névoa impenetrável, fortemente funcional para afastar dela todos aqueles que não são "especialistas" na área.

Seguimos aqui a cobertura típica de uma crise política e a visão que é transmitida dela ao leitor; como esta, podemos listar centenas na última década, que de conjunto tem um enorme impacto político, ideológico e cultural. A Folha não mente, mas encontrar a verdade em suas páginas é uma tarefa para poucos iniciados. E meias verdades são muito mais perigosas do que mentiras, porque são infinitamente mais eficientes em mistificar a realidade.

As meias-verdades são as piores mentiras.

(*) Pesquisador do Neamp e doutorando do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC/SP

 

VENEZUELA
Um susto para a AP

M. C.

A campanha da mídia internacional contra o governo da Venezuela, que o presidente Hugo Chávez tem chamado de "selvagem", rendeu um grande susto aos profissionais que trabalham no escritório da Associated Press, em Caracas. Oito intelectuais ocuparam – pacificamente, que seja destacado – durante oito horas a sede da agência, a mais irredutível contra Chávez. Não fizeram qualquer ameaça, mas se recusaram a sair.

Chávez estava em Washington, e pediu aos manifestantes, por intermédio de um ministro seu que telefonou ao líder do grupo, o cineasta Arturo Plasencia, que se retirassem porque a ocupação era "ilegal e contraproducente". "Concordamos em sair, pois não queremos aumentar os problemas do governo", disse Otto Paul Alvares, um dos intelectuais. Os oito são associados da organização Congreso de Artistas y Intelectuales.

Em comunicado de três páginas entregue ao se retirar, o grupo disse por que invadiu a AP, que opera no prédio do diário El Universal, àquela altura cercado pela polícia: "O presidente Chávez é sempre descrito como ‘um ex-militar golpista eleito com apelo populista". Por sinal, esta prática da mídia internacional foi mencionada aqui no Observatório em artigo de Paula Pires [ver remissão abaixo].

"Com meias verdades e mentiras completas, atacam o processo que os venezuelanos elegeram num exercício verdadeiramente democrático", diz o comunicado. "Trata-se de uma conjura de certos meios de comunicação e do escritor Mario Vargas Llosa contra o governo Chávez e as mudanças que vive o país."

Os manifestantes pediram que a ONU designe um tribunal para investigar "a violação dos direitos humanos e os atos de corrupção ocorridos na Venezuela desde 1961". Solicitaram também direito de resposta a jornais dos Estados Unidos e da Espanha – o correspondente do El País, Juán Jesús Aznarez, é impiedoso anti-chavista –, pela imagem "distorcida" que transmitem do processo político venezuelano.

Chávez estava nos Estados Unidos justamente para tentar mudar esta imagem [ver abaixo, no Aspas]. Entre outros encontros, tomou café da manhã com os editores do New York Times, deu entrevista exclusiva à CNN e várias coletivas.

Foi a primeira vez que um governante latino-americano alvo de ataques maciços da mídia partiu tão abertamente para a ofensiva na tentativa de esclarecer posturas. Sem querer forçar comparações, até porque os personagens são bem diferentes, Salvador Allende passou por tudo isso no Chile. Mas não reagiu.

 

Entre o passado e o futuro

Rogério Souza Silva (*)

Durante a campanha presidencial de 1998 na Venezuela, o candidato favorito e posteriormente vitorioso, o militar e ex-golpista Hugo Chávez, afirmava estar cumprindo um caminho político vinculado ao de Simón Bolívar. Curiosamente, o candidato rival, o democrata-cristão Henrique Salas Römer, dizia cumprir o mesmo papel. Surge daí uma visão difusa sobre a herança política do libertador da América. Liberal, conservador, revolucionário, reacionário? Talvez a expressão mais cabal de como idéias e imagens ficam fora do lugar em nosso continente.

Surge, também, a seguinte questão: afinal de contas, quem é Hugo Chávez?

Chávez tem chamado a atenção do mundo devido à retórica nacionalista, destoando de outros presidentes do continente, com suas cartilhas neoliberais ditando os rumos da inserção latino-americana no mundo globalizado. Nas últimas semanas o presidente venezuelano, além de estar em guerra contra o Parlamento e o Poder Judiciário de seu país, resolveu se intrometer nos assuntos da vizinha Colômbia, ao propor conversas com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).

Essa postura teve reflexo imediato no noticiário internacional. Um exemplo disso ficou evidenciado no jornal El Espectador, de Bogotá, que denunciou, no final de agosto, uma possível aliança entre o grupo guerrilheiro colombiano, Fidel Castro e Hugo Chávez, caso os EUA intervenham diretamente na guerra civil da Colômbia.

O próprio líder cubano apontou esta eventual intervenção como um "erro colossal", que "levantaria o patriotismo da Colômbia e da América do Sul". Afirmações que trazem enormes preocupações ao continente, numa década em que o renascimento do nacionalismo tem sido força motriz de grandes conflitos. Sem falar no papel de polícia do mundo que os americanos se atribuíram no contexto internacional.

Ideário iluminista

Tão preocupante quanto as questões acima colocadas é a forma como a Venezuela vem aparecendo na mídia. Essas aparições se dão num processo de construção de imagens negativas e positivas a respeito do presidente Chávez. Uma atitude que aproxima a mídia daquilo que Jünger Habermas denominou de Quarto Estado, ou seja, a sua capacidade de transitar entre interesses privados e públicos pelo poder da informação, muitas vezes determinante nos rumos de alguns processos políticos.

Porém, antes de adentrarmos nas construções da mídia, devemos olhar o discurso desta novidade política chamada Hugo Chávez, cuja inspiração não deve ser procurada na história recente. Não estaria em Fidel, Che ou Daniel Ortega, muito menos nos militares golpistas dos anos 60 ou 70. Ele estaria sim vinculado à fascinante figura de Simón Bolívar.

O líder venezuelano é sincero em sua admiração pelo personagem. Um estudo da trajetória de Bolívar mostra como suas ações políticas e posturas em relação ao poder, nas primeiras décadas do século 19, impregnaram as relações políticas em nosso continente – motivando neste século atores sociais à esquerda e à direita – e a visão global da América. Uma visão movediça, cheia de armadilhas para o observador pouco atento.

A América livre pensada por Simón Bolívar é tributária direta da Revolução Francesa. Bolívar foi um criollo que absorveu o ideário iluminista e se inspirou nos fatos ocorridos na Europa. Como um filho típico da elite da época, foi ao Velho Continente, com o amigo Simón Rodrigues, e viu os acontecimentos que marcaram a era revolucionária. Testemunhou, por exemplo, a coroação de Napoleão Bonaparte, em 1804. Na Itália, o jovem caraquenho, após atravessar toda a península, chegou a Roma onde, diante do Monte Sagrado, teve um momento especial de emoção ao prometer libertar a América do domínio espanhol. É inegável que as imagens napoleônicas o tocaram profundamente e, sem saber, Bolívar, naquele momento, plantava as sementes que viriam a dar origem a uma forma típica de autoritarismo em nosso continente: a figura do homem forte.

Na volta à América, vários acontecimentos europeus acelerariam o processo de emancipação continental. Com a invasão da Península Ibérica pela França, em 1810, o governo colonial começaria a ruir. Em 19 de abril daquele ano, os americanos de Caracas derrubaram o capitão-general espanhol da Venezuela e estabeleceram uma junta de governo. Bolívar foi um elemento ativo desses episódios, recebendo a patente de coronel e a indicação para uma missão diplomática na Inglaterra. A independência propriamente dita foi formalizada em 1811. Nascia assim a I República, cujo homem forte foi Francisco Miranda. Neste momento o movimento não foi homogêneo, não houve uma adesão total da população. A luta independentista foi claramente elitista.

Esses episódios não ocorreram sem reação da Espanha. Em 1812 os espanhóis retomaram a ofensiva, derrotando os criollos, prendendo e deportando Miranda para a Espanha. Bolívar também foi preso, mas conseguiu salvo-conduto, viajando para Curaçao e Cartagena. Nesse exílio Bolívar teve condições de elaborar suas idéias e analisar os acontecimentos. Foi então que assumiu a liderança na luta da independência. E ainda elaborou um dos principais escritos de sua trajetória: Memória dirigida aos cidadãos de Nova Granada por um caraquenho. No documento ficou claro o surgimento de uma característica perene na cultura política da América Latina: a visão do povo como massa despreparada:

"Falando genericamente, nossos concidadãos ainda não se encontram em condições de exercer por si próprios e amplamente seus direitos..."

Essa afirmação confirma o que se disse acima sobre Bolívar como semeador de uma forma típica de autoritarismo latino-americano. Eis, portanto, uma de suas primeiras manifestações a respeito.

Ação híbrida

Durante seu exílio Bolívar se instalou em Nova Granada, onde conseguiu apoio para invadir a Venezuela e retomar o poder. A chamada "Campaña Admirable" tornar-se-ia vitoriosa em 6 de agosto de 1813, com a invasão de Caracas. Naquele momento, a municipalidade daria o título de Libertador a Simón Bolívar.

Com a diminuição dos conflitos na Europa, a Espanha reconquistou o controle da Venezuela em 1814, após a Batalha de La Puerta. Bolívar refugiou-se em Nova Granada, mas logo teve que fugir: a reação espanhola estendeu-se à região. Fugiu, então, para a Jamaica, e lá procurou preparar uma estratégia pela qual a América independente se aproximaria da Inglaterra. Nessa estratégia, a América ofereceria as riquezas naturais e os ingleses, armas, navios, dinheiro. Da Jamaica, Bolívar estabeleceu uma série de contatos, ficando cada vez mais claro o caráter híbrido de sua ação política. Ele procurou, por exemplo, o presidente do Haiti, Alexandre Pétion, que lhe ofereceu apoio em troca da abolição da escravatura nas regiões libertadas. Pouco tempo depois, foi aos Estados Unidos, onde a questão da abolição era tabu.

Entende-se, assim, o caráter multifacetado da política latino-americana. Bolívar, o revolucionário, pega em armas contra a dominação espanhola; Bolívar, o reacionário, teme a participação maciça do povo, para ele pouco preparado. O mesmo homem que pregou a guerra de morte contra a Espanha para libertar a América e construir, nas suas palavras, a maior nação do mundo vislumbrou, como única saída para o futuro do continente, a dependência em relação à Inglaterra. O mesmo Bolívar que buscou apoio num país escravagista foi a outro onde as lutas pela independência e a abolição da escravatura andavam juntas.

Essas diversas imagens criadas pelos historiadores em torno de Bolívar – algumas oferecidas pelo próprio personagem – servem para entendermos os acontecimentos na Venezuela atual.

E nisso a imprensa vem sendo essencial. Temos tido aulas diárias de criação de imagens, para o bem e para o mal. Diversos setores da imprensa têm procurado criar uma espécie de cordão sanitário em torno do país. Desde 1992, ano em que o então desconhecido coronel tentou derrubar o presidente social-democrata Carlos Andrés Pérez, percebem-se duas tendências no tratamento dado a Hugo Chávez.

Peguemos exemplos da imprensa brasileira. O primeiro, representado por um jornalismo de postura mais à esquerda, segundo o qual a tentativa de golpe teria sido efeito dos excessos do neoliberalismo. Isto ficou evidente na manchete da revista Cadernos do Terceiro Mundo, na época: "O FMI por trás do golpe". Chávez era um ilustre desconhecido. A revista apenas o mostrou como fruto do vazio que tomou conta da caserna, em todo o continente, após os processos de redemocratização e o fim da Guerra Fria. Além do espanto diante dos fatos, pois a Venezuela escapou ilesa à febre golpista dos anos 60 e 70. Atualmente, nesta mesma imprensa, Chávez deixou de ser um ilustre desconhecido e se tornou uma possível alternativa contra a cartilha do FMI. Até alguns importantes nomes da esquerda nacional se referem a ele desse modo.

No conjunto da imprensa brasileira, porém, esta postura é minoritária. Na revista então IstoÉ-Senhor, o golpe de fevereiro de 92 foi comentado com toques hilários e reflexões pouco equilibradas. O título da reportagem: "A insurreição do ócio: munidos de armas modernas, teses velhas e falta do que fazer, tropas de elite tentam derrubar o governo venezuelano". Ao longo da matéria, o movimento liderado pelo atual presidente é qualificado de "loucura", "delírio", e suas idéias são "indigentes". Ao citar um trecho do discurso de Chávez, o jornalista o classificava como "o delirante coronel".

Mídia e populismo

Quando Chávez retornou à cena política como candidato vitoriosos nas eleições presidenciais, parte minoritária da imprensa e setores políticos mais à esquerda passaram a vê-lo como uma possibilidade de transformação, por seu discurso antineoliberal. Mas setores majoritários da mídia continuam olhando o líder venezuelano com muitas reservas. Em editorial recente do The New York Times, as ações de Hugo Chávez aparecem claramente como ameaça à democracia venezuelana.

Por outro lado, Chávez não é uma vítima passiva da mídia, dentro ou fora da Venezuela. Ele tem utilizado o rádio e a televisão (no melhor estilo dos nossos conhecidos apresentadores de programas de auditório) para se manter em evidência e fortalecer suas reformas e sua popularidade. Como já havia observado o cientista político mexicano Jorge Castañeda, Hugo Chávez resgata algumas características do populismo. Da mesma forma que lideres como Perón ou Vargas, ele tem usado os meios de comunicação.

No entanto, apesar do cordão sanitário da mídia internacional, o próprio Chávez tem colaborado para a construção dos mitos negativos e positivos em torno de sua pessoa. Por mais espantoso que possa parecer, ele encarna vários papeis. Quando conversa amigavelmente com as Farc, o ex-boina vermelha abre uma possibilidade de paz na conturbada Colômbia; quando comentou, num dos órgãos de comunicação que controla, os problemas dos caminhoneiros venezuelanos para entrar na Colômbia, afirmou: "É mais fácil entrar na Colômbia com tanques do que com caminhões". Este Chávez interventor e megalomaníaco lembra, sutilmente, a Grã-Colômbia construída por Bolívar após o processo de independência, quando as atuais Colômbia e Venezuela formavam um só país.

Portanto, se a historiografia criou imagens controversas em torno de Simón Bolívar, a mídia tem feito o mesmo em relação a Hugo Chávez. Chávez não é Bolívar. Entretanto, deve ser visto com os mesmos cuidados. Não devemos ser categóricos sobre eventos tão importantes para um continente em profunda crise social e política. Sem esquecer que é essencial, nesse olhar, percebermos os resquícios de nossa cultura autoritária. A partir daí poderemos pensar, com mais clareza, sobre os atuais acontecimentos da Venezuela, abrindo brechas e mudando os vícios de Macondo, avançando rumo a uma sociedade mais justa e democrática.

Nesse processo, a mídia deve se comportar de maneira sensata, evitando alguns erros do passado, quando demonizou ou santificou personagens políticos.

(*) Professor assistente de História da América Independente e História Econômica da Universidade Federal de Sergipe (UFS)

 

ASPAS
M. C.

"O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, tem encontro marcado terça-feira em Nova Iorque com o presidente Bill Clinton, aproveitando a sessão de abertura da Assembléia Geral das Nações Unidas, na qual deverá discursar. No mesmo dia Chávez verá empresários e congressistas americanos, e na quarta-feira viajará a Washington para reuniões com representantes da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, do Colégio Interamericano de Defesa e do Conselho Permanente da Organização dos Estados Americanos. Na pauta, um tema principal: a ‘imagem distorcida’ do processo político venezuelano.

Para os críticos, especialmente nos Estados Unidos, Chávez concentra poder em excesso e caminha para a ditadura, na mais estável democracia latino-americana. ‘É uma campanha selvagem de descrédito, que parte das oligarquias que jogaram o país numa situação traumática de exclusão e corrupção e agora vêem seus privilégios ameaçados’, disse Chávez em Caracas. ‘Convido a que nos visitem, analisem e tirem suas próprias conclusões.’

Crise – O governo considera urgente a mudança da imagem do país para conter a fuga dos investidores estrangeiros. O economista venezuelano Luis Henrique Ball, em artigo no diário El Universal, não vê motivo novo para esta fuga, que atribui à profunda crise venezuelana. Crise que não é produto de um evento fortuito. ‘É resultado da aplicação sistemática de um modelo de desenvolvimento equivocado, aliada a um péssimo gerenciamento das finanças públicas’, afirma. Ele reconhece que a incerteza da mudança e os conflitos políticos agravaram a situação. ‘Mas não podemos culpar o atual governo nem a Assembléia Constituinte pela magnitude da recessão. Esta começou há muitos anos.’

Ball situa em 1979, quando começou a desnacionalização da economia, o início das atribulações. ‘O processo de perda do controle nacional sobre as mais importantes atividades produtivas – a exploração do petróleo foi dividida com o capital transnacional, indústrias de aço e cimento, telecomunicações e bancos foram parcial ou totalmente privatizados – resultou em que a dívida externa quadruplicou, a capacidade produtiva caiu de 97% para 49%, o desemprego subiu de 4,3% para 20%, a inflação saltou de 8% para 40% (a moeda passou de 4,30 bolívares para 620 bolívares por dólar), o salário real caiu à metade e o patrimônio público e privado teve perda de quase 60%.’

Para o empresariado local, as disputas políticas entre Constituinte (governista) e Congresso (oposicionista), que duraram semanas, foram as grandes responsáveis pela má imagem do país. Em entrevista ao diário espanhol El País, Vicente Brito, 82 anos, presidente da Fedecámaras, que reúne 350 mil empresas, acha o processo de reformas de Chávez democrático, que deveria atrair investimentos estrangeiros ‘num país que é rentável, um paraíso’.

Brasil – Empresários brasileiros, por exemplo, concordam. Missão de 35 executivos viaja esta semana a Caracas, visando aumentar os negócios bilaterais nos setores de máquinas, metalurgia e mecânica para US$ 2,8 bilhões em 2000. Mas Vicente Brito quer medidas urgentes que atraiam mais estrangeiros.

Norair Hulian, articulista de El Universal, ironiza a preocupação com os capitais externos. ‘Os venezuelanos têm US$ 100 bilhões depositados no exterior’, diz. ‘Nenhum governo, inclusive o atual, se interessa em estender um tapete vermelho aos capitais nativos.’

‘A estabilidade é urgente, e também uma política econômica coerente de longo prazo’, insiste Brito. ‘De 70% a 80% das empresas estão no vermelho’, diz. Muitas fecham as portas. A Fiat acaba de anunciar que vai deixar o país. Brito defende também que os 20% da população venezuelana hoje na classe média sejam ampliados para 65% (algo próximo dos Estados Unidos), o que multiplicaria o consumo e elevaria o padrão de vida. O temor de Brito é que quando as reformas finalmente forem postas em marcha o setor privado esteja tão debilitado que se termine adotando um modelo econômico estatista. A nova Constituição estará pronta em 7 de outubro, mas ainda será submetida a referendo.

A preocupação com a imagem levou na semana passada três deputados da Constituinte, dois da oposição e um da situação, aos Estados Unidos, para maratona de visitas a funcionários do Departamento de Estado e a congressistas democratas e republicanos. Isaías Rodríguez (do Movimento Quinta República, de Chávez), Ricardo Combellas e Claudio Fermín contaram que em seu país ‘a Justiça não funcionava, se pisoteavam os direitos humanos, havia corrupção e impunidade’.

‘Para que as mudanças funcionem, porém’, disse Rodríguez, ‘a Venezuela precisa do apoio de todos os setores, inclusive dos partidos tradicionais e dos militares’. O problema é que Copei e AD, os partidos tradicionais, têm enviado emissários aos Estados Unidos para dar entrevistas qualificando o governo e a Constituinte de golpistas."

Esvaziamento – E os Estados Unidos não estão sabendo interpretar a situação venezuelana. Estudo do Conselho para Assuntos Hemisféricos (Coha), organização sediada em Washington especializada em América Latina, afirma que a Casa Branca por enquanto está confusa: oficialmente apenas apreensiva, internamente teme que Hugo Chávez se transforme num Fidel Castro.

Para o Coha, essa confusão ocorre porque foi esvaziado o Birô de Assuntos Interamericanos, agora ocupado por pessoal de nível médio sem visão do contexto regional, preocupado apenas com relatórios econômicos quadrimestrais. Na administração Clinton, o Tesouro e o Escritório de Comércio ditam a política regional da Casa Branca. ‘A economia virou obsessão burocrática, que vê na América Latina povos compostos por homo economicus’, diz o estudo.

Erro – Os analistas do Coha afirmam que ver Chávez como um caso isolado é um erro ‘lamentável’ de Washington: ‘Ele foi levado ao poder pela revolta dos venezuelanos com o desemprego, os rombos financeiros, as violações aos direitos humanos e os infamemente corruptos sistemas político e judiciário’, presentes em outros países. Diz o Coha que a Casa Branca não leva em conta o ponto de vista dos pobres da Venezuela – os dois terços que elegeram o presidente – nem a história dos últimos 20 anos, em que o país, rico produtor de petróleo, mergulhou na pobreza.

Segundo o estudo, o Departamento de Estado, que nunca teve problemas em cooperar com ‘democracias’ como a do Chile de Pinochet ou do Peru de Fujimori, não se importava se a venezuelana ‘era mais aparente que real’. ‘O governo da alegada ‘mais antiga democracia da América Latina’ abusava do nepotismo, da corrupção e das barganhas venais, alternadamente dominado desde 1958 pela social-democrata AD e pelo democrata-cristão Copei. Aos eleitores eram oferecidos empregos em troca de voto, enquanto a maioria agonizava na pobreza.’

O Coha também questiona a fama de respeito aos direitos humanos da antiga Venezuela: ‘De outubro de 1997 a setembro de 1998, a polícia venezuelana matou 104 pessoas, torturou 40 e tratou desumanamente 313 sob sua custódia’, diz o trabalho. Mas Washington continuou contente, segundo o Coha porque o pagamento dos juros e o petróleo continuavam a fluir.

Tiro – A instituição considera ridículo prever-se um cenário em que Chávez buscaria criar uma nova Cuba. Dependente das divisas do petróleo (75% de suas exportações) e do aval do FMI para empréstimos externos, a Venezuela não pode assustar investidores nem multinacionais. ‘Seria como Chávez dar um tiro em cada pé’, diz.

O Coha acredita que se Washington tivesse noção do que ocorre na Venezuela estaria preocupada com outros sinais. Por exemplo, a tendência de Chávez a nomear militares para altos cargos. ‘A história da América Latina mostra que o envolvimento de militares no governo é que ameaça as instituições democráticas.’

O estudo pergunta: ‘Terá Chávez sabedoria para ver este perigo a tempo? Com disciplina, ele poderia ser o precursor de um novo modelo econômico para o hemisfério – capitalismo com coração, economia com crescimento equânime e justiça social. Mas se falhar seu país pode cair na guerrilha, replicando a tragédia da vizinha Colômbia.’"

"Chávez faz ofensiva para mudar imagem", copyright Jornal do Brasil, 19/9/99

 

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