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CLUBE DA MORTE
A chacina do cinema,
primeiras avaliações

Mídia aceita e reproduz o espetáculo dos assassinatos que alimenta

 

Alberto Dines

  • Clube da Luta é um dos filmes mais violentos da safra dos filmes mais violentos. E no entanto o departamento comercial da TV Globo aceitou diversas inserções comerciais promovendo o espetáculo no Jornal Nacional, horário nobre, também assistido por crianças e adolescentes.
  • Testemunhas da chacina ocorrida no Shopping Morumbi durante a exibição do filme, declararam que o assassino Mateus da Costa Meira começou a atirar cinco ou dez minutos depois de uma cena idêntica, mostrada na tela. A fita está há mais de uma semana em cartaz mas nenhum veículo jornalístico lembrou-se de denunciar a carga de violência do filme. Foi assimilado com naturalidade.
  • A polícia encontrou na casa do assassino dois bilhetes amassados. Um deles dizia: "Mídia, realidade, sociedade hipócrita". Se alguém duvida do fatal entrelaçamento entre estes ingredientes pode consultar o próprio autor da denúncia.
  • O assassino não é miserável, desempregado ou analfabeto. Os rádio-repórteres desnorteados, ao longo da quinta-feira (4/11), insistiram no problema da violência nas ruas que agora chegou aos shoppings. Asneira grosseira e desviante. Essa é uma violência exógena, ambiental. Transmitida, magnificada e introjetada pela mídia.
  • O próprio cenário é cúmplice da chacina. E o cenário foi fornecido pela mídia.
  • Uma das poucas declarações do assassino antes de ser instruído pelo advogado está no Jornal da Tarde (quinta-feira, pág. 12-A): "Eu não sabia se ia atirar na tela, nas paredes ou na platéia". Reparem: todas as opções do assassino estão relacionadas com o filme. Ele não foi assistir American Pie - A primeira vez é inesquecível, comédia em exibição na Sala 1 do mesmo shopping center.
  • Na noite de quinta, os telejornais da Record e da Globo insistiram na tese do desequilíbrio mental. O clima e o ambiente onde exerceu-se a violência foram mostrados marginalmente. Como casualidade.
  • O desequilíbrio mental do assassino não o impediu de chegar ao sexto ano de Medicina. Mas esse desequilíbrio associado ao uso de drogas – qualquer droga – produz criminosos. O parecer é de uma cobaia humana altamente qualificada, um quase-médico que escreveu: "Isso é efeito da droga. Eu não sou assim" (texto do segundo bilhete encontrado pela polícia).
  • A CPI do narcotráfico, obviamente, ocupa-se com o narcotráfico. Mas não está investigando o narco-consumo. E a narco-promoção. E o narco-estilo de vida que glamouriza a cultura da droga. Sobretudo um certo tipo de música, de vídeos e seus arredores.
  • O âncora – e agora também editor-chefe – do Jornal Nacional encerrou a edição de quinta-feira lançando o debate na direção da responsabilidade dos shoppings centers pela segurança dos freqüentadores. O debate é, no mínimo, inconseqüente. O jornalista, certamente, não teve tempo de assistir ao capítulo da telenovela que precedeu à entrada do Jornal Nacional. Um bloco inteiro de terror e violência em horário nobre, made in Brazil, violência e terror que não chegam aos pés do Clube da Luta. Mas são capazes de produzir uma sociedade onde a brutalidade é banal.

Jornais e atualidade

A sessão da Sala 5 do Shopping Morumbi começou às 21h15, o assassino começou a atirar logo depois. Os jornais paulistanos só conseguiram enfiar a informação nas edições locais. O Estado de S.Paulo tascou 15 linhas na primeira página. A Folha, sempre mais ágil, trocou a manchete, mudou a capa do caderno local e deu matéria mais completa. O Jornal da Tarde finalmente justificou o nome e assumiu-se como semivespertino: destacou o caso na primeira página e produziu a única matéria com jeito de reportagem. A partir da meia-noite, as emissoras de rádios de São Paulo tornaram inútil a leitura dos jornais no dia seguinte.

Então para que servem os jornais?

 

PACTO FOLHAGLOBO
Dossiê Glolha, Globolha
ou simplesmente Rolha

 

Alberto Dines

A Urn@ Eletrônic@ deste Observatório – com todas as insuficiências deste tipo de aferição – flagrou uma convicção majoritária num segmento da cidadania preocupado com os rumos da imprensa brasileira. Em nenhum momento, ao longo das duas semanas em que transcorreu a sondagem, baixou para menos de 80% do total de respondentes o grupo daqueles que escolheram o "sim"; isto é, dos que viam com apreensão a parceria de dois grupos política e empresarialmente rivais para criar um novo veículo.

Durante o Observatório televisivo da noite de dia 26 de outubro, o contingente do "sim" chegou a 91%. No momento em que esta nota era fechada (9h30 de 3/11/99), os resultado apontavam o seguinte: dos 380 votos computados, 330 escolheram "sim" (87%) e 50 optaram pelo "não" (13%).

Não é aqui o lugar nem este Observador a pessoa indicada para fazer a análise desses números. Mas vale a pena considerar que a avaliação diária feita pela Folha para julgar a edição do dia, com opiniões provocadas e não espontâneas, tem entre 160 e 180 respondentes. Acrescente-se que o número dos inquiridos pelo DataFolha pode ser facilmente manipulado. Não é o caso da Urn@ do Observatório, que recusa a duplicação de votos por meio de um software do UOL ao qual não temos acesso [leia abaixo a nota "Só isso", do professor de Estatística Antonio Fernando Beraldo].

Isso significa que apesar do pacto de silêncio da grande imprensa e dos "grandes" jornalistas, apesar da omissão dos parlamentares, o mero anúncio da parceria foi capaz de sensibilizar os formadores de opinião. Significa também que existe um núcleo de cidadãos capazes de assumir posições, independente dos juízos emitidos pelos veículos de informação. Doravante, o rolo compressor da grande imprensa terá que agir com mais cuidado.

O balanço não quer dizer que este Observatório esteja encerrando a sua missão no caso. Continuaremos a apontar os indícios e conseqüências do Tratado de Tordesilhas mediático que estabeleceu num país recém-saído da ditadura a perigosa bipolaridade sem dissonâncias.

Estas as anotações para o Dossiê Globolha ou Glolha. Rolha para os íntimos:

  • Aumentou visivelmente o número de anúncios dos veículos do Grupo Globo na Folha de S.Paulo. E vice-versa. Como nem um nem outro estão empenhados em algum lançamento particular, evidencia-se o início de uma entente cordiale, pacto de tarifas favorecidas. Aguardem o lançamento do novo veículo para ver o poder de fogo combinado dos dois grupos. Imbatível.
  • O Globo publicou na primeira página da sua edição de quinta-feira (28/10/99) o espetacular flagrante de um assalto a um banco no Rio. A foto é de uma jornalista da Folha, Ana Carolina Fernandes. Difícil acreditar que em condições normais de temperatura, pressão e, sobretudo, competição haveria essa troca de gentilezas [ver comentário no Circo da Notícia, nesta edição].
  • Na cobertura televisiva localizavam-se com mais visibilidade os ferrões da Folha contra a Globo. O novo desenho do caderno TVFolha é o mostruário do novo padrão de "naturalidade" a ser adotado na cobertura da Venus Platinada. Na edição de 31/10, pág. 8, matéria extremamente favorável sobre nova iniciativa do jornalista Evandro Carlos de Andrade, diretor da Central Globo de Jornalismo, com direito a foto simpática. O jornalista foi o pivô da maioria das polêmicas entre os dois veículos. O reconhecimento dos seus méritos é justo e bem-vindo. Pena que resulte do Tordesilhas [veja remissão abaixo].
  • O crítico de TV do primeiro caderno da Folha, na mesma sexta-feira (22/10/99) em que fazia inusitado elogio ao Jornal Nacional a propósito de o âncora ter passado a ser também editor-chefe, publicava, também inusitadamente, a reclamação de um leitor. Antônio Kapka questionava a coluna por criticar "acerbamente o jornalismo global enquanto o jornal se junta alegremente ao poderio global num projeto conjunto". Concluia o leitor: "Que moral você tem para falar mal das Organizações Globo! Mas vá em frente, viva a hipocrisia!" Resposta em grande estilo do crítico: "Em frente, então."

 

Só isso

 

Antonio Fernando Beraldo (*)

Sabe aquele programa de TV, Você Decide? Uma espécie de micronovela é apresentada em blocos e o final da história é escolhido pelos telespectadores, a partir das respostas dadas por telefone – sim ou não – a uma pergunta simples, computadas ao longo dos blocos. No final, é exibida a cena determinada pela resposta vencedora.

Esta é uma "pesquisa" que não tem nada de científica, uma vez que não cumpre as exigências da Estatística. A amostra não é sorteada, o que contraria o requisito básico da aleatoriedade; e os telefonemas se sucedem ao longo do programa, ao invés de uma apuração única após a trama ser plenamente exposta (os que assistem o programa podem "mudar" de voto, ao sabor da narrativa). Há também a possibilidade de uma mesma pessoa telefonar várias vezes para a emissora. Não há controle do tamanho da amostra, da margem de erro, enfim, não há nada que se possa afirmar sobre o resultado da "pesquisa".

Os principais jornais do país estão enchendo espaço com "pesquisas" sobre "o que os leitores acharam da nossa edição de ontem". Qual foi a notícia mais interessante, as melhores fotos, se a manchete foi ou não adequada etc. São entrevistadas (não se fica sabendo como) umas 150 pessoas, ou pouco mais ou menos do que isso. No dia seguinte, sai lá no cantinho apropriado: 45% das 160 pessoas entrevistadas acharam que a melhor notícia foi: "Mais de 500 mortes em desastre de trens na Índia". Sabe o que quer dizer isso? Nada, ou quase. Se a amostragem foi feita aleatoriamente, se o nível de confiança é de 90%, a margem de erro da pesquisa é de 10%. Ou seja, o resultado correto seria dizer que: entre 35% e 55% das pessoas que leram o jornal acharam mais interessante a notícia do desastre de trens.

Na internet, nas edições eletrônicas dos jornais e revistas, o tipo de pergunta que se faz e o tipo de respostas que são dadas fornecem um outro tipo de informação, para ser analisada mais por um enfoque qualitativo do que quantitativo. Obtém-se tendências (os chamados grandes números), "visões gerais" das opiniões. Já que a pesquisa não é por amostragem, nem por recenseamento, trata-se apenas (e assim deve ser encarado) de uma espécie de levantamento: o que acham da cor de fundo da página, quais os links que preferem, quais as mulheres mais bonitas. E também o que acha o freqüentador do site sobre as fugas da Febem, se o juiz errou ao anular o gol ou se aquele ministro continua falando bobagem.

Ao contrário do Você decide, a opinião das pessoas é coletada em cima de uma questão simples, fechada, formulada de maneira objetiva (e não a respeito de um assunto que está sendo desenvolvido no decorrer da "pesquisa"). Não há "condução" do emocional e do subjetivo, nas respostas. Ao contrário das "opiniões dos leitores" do jornais impressos, o conjunto de pessoas que atende a esse tipo de consulta é bastante numeroso – quanto mais gente, melhor, lembrando que as respostas são indicativas, nunca determinantes quantitativas.

Na edição nΊ 77 (20/10/99), este Observatório colocou uma pergunta simples e direta sobre o acordo entre os grupos Folha e Globo: "Você acha que a associação entre empresas rivais como O Globo e a Folha – para lançar um terceiro veículo –, diminui a diversidade de opiniões na imprensa?" Até o momento que escrevo (noite de 1/11), o "placar" é o seguinte: 368 respostas, sendo 320 "sim" e 48 "não" (87% de "sim"). Se fosse uma amostragem estatística, a margem de erro seria de 4,5% (para mais ou para menos), ou seja: poder-se-ia dizer que entre 82% e 92% votaram "sim". Como esta não foi a metodologia da pesquisa, a informação que retiramos destes dados é de que há um claríssimo indicador de que os que acessaram o Observatório, os que estão por dentro do assunto e os que tiveram interesse em expressar sua opinião acreditam que a associação dos dois grupos diminui a diversidade de opiniões na imprensa. Um percentual deste valor prescinde de qualquer interpretação (ou análise) numérica. E é só, como dizia Nelson Rodrigues – outro que enxergava além dos números.

(*) Professor do Departamento de Estatística da Universidade Federal de Juiz de Fora

 

O pior cenário

 

Douglas Duarte

As preocupações sobre o acordo entre Globo e Folha não parecem ter ido muito além do território ocupado pelos que habitualmente pensam a imprensa [veja remissão abaixo]. Isso é alarmante, tendo em conta que são poucos. A natureza de tal união pede mais reflexão. Primeiro porque não são só duas grandes casas editoras que se unem num título, mas dois gigantes do conteúdo. Segundo porque a mídia de nosso país já é concentrada. Terceiro porque é um jornal de economia, um setor que está quase sempre próximo a interesses e favores de grupos privados ou de governos – preocupante, em ambos os casos.

Francamente, pouco importa que a Gazeta Mercantil esteja ameaçada. Preocupar-se com isto seria entrar no mesmo tipo de pensamento orientado a empresas em vez de ideais, números em vez de gente, e tantas substituições similares que, boa parte delas, levou-nos a esse pequeno abismo atual. Que morra a Gazeta Mercantil, contanto que seja assegurada a pluralidade e a independência. Não a pluralidade e a independência dos manuais de redação e estilo, coisa comum, mas a de fato, que vemos a cada dia menos.

Não. A morte da Gazeta Mercantil é o menor dos males no retrocesso que essa associação representa. O nascimento deste jornal é certamente pior. São dois grandes conglomerados que podem unir a cobertura televisiva de um (que não cansa de anunciar produtos de sua família) à presença fortíssima nos chamados novos meios do outro, para formar um gigante. Gigante monstruoso de futuro (ainda que timidamente) anunciado.

Vietnã empresarial

É pouquíssimo provável que a união dessas duas massas venha a depurar os erros e deixar apenas as qualidades de cada um em evidência. O mais provável é que fiquemos com uma borra malcheirosa, fruto de erros e abusos que os dois têm em abundância. Junte-se o malufismo de um ao FHCsismo de outro, a pretensa pertinência de Mangabeira Unger à autocensura do outro, o faro para polêmica e denúncia vazia de um à subserviência ao poder do outro.

Junte-se, enfim, a tecnocracia gelada de Frias e a maleabilidade e tato político dos Marinho: o que se tem é um mau presságio.

Alguns esperam que o "destacamento 222" da cavalaria americana chegue e, como em filme de bangue-bangue, salve a liberdade de imprensa com seu dinheiro e sólida cultura empresarial. Gostaria de partilhar essa crença – ela é sem dúvida bem-intencionada. Mas, levando em conta notícias que já se ouvem aqui e lá, parece que a cavalaria já mudou de lado. Os grandes de lá parece preferir se entender com os grandes daqui. O máximo que podemos esperar, com a aprovação da participação de empresas estrangeiras na comunicação do país, é que o Wall Street Journal (segundo site Blue Bus já conversando com O Globo, o que faz muito sentido) rivalize como competidor estrangeiro em terras brasileiras, imitando um Vietnã no campo empresarial. Quanto à notícia, a matéria-prima, pouco se pode afirmar, mas temos uma amostra ampla do que acontece à ética jornalística quando a competição avança. Jornais populares agregam panelas. O que vai oferecer um jornal econômico?

E quais serão idéias econômicas que vão influenciar a mentalidade dos brasileiros, que terão um "jornal forte" de economia ao mesmo tempo em que o país entra (passivamente) na rota da economia global? Será que o futuro nos reserva apenas as alternativas que terão destaque nessas páginas?

O pior: será que nós, jornalistas, vamos ter ética suficiente para não sonhar estar entre um daqueles 150 que vão ocupar a redação do "maior jornal de economia do Brasil"? De meu lado, ainda paralisado pela surpresa, não sei o que dizer. Não sei.

 

Caras faz parceria com Bundas

 

A.D.

A culpa é da globalização. Não, a culpa é da volatilidade dos capitais especulativos. Mentira solerte: o grande responsável é o Fundo Monetário Internacional, o famigerado éfe-emê-í com a sua política implacável e espoliadora.

A concentração é inevitável dizem os gurus enquanto embolsam os fabulosos cheques pelo trabalho de consultoria aos parceiros das fusões. Não estão errados. Os gigantes tamanho guliver se juntam lá em cima e aqui em baixo abrem espaço para a atração das legiões liliputeanas.

Tudo bem que a Brahma e a Antártica se associem desde que não adulterem o sabor e teor da minha cerveja predileta – não digo o nome.

O Ministério da Saúde acabou promovendo a fusão da Nestlé com a Parmalat quando proibiu a propaganda enganosa dos leites que reduzem o colesterol badalados com a mesma má-fé pelas duas concorrentes.

Se a Coca comprar a Pepsi ou vice-versa ninguém vai reclamar: os sabores das duas colas estão cada vez mais parecidos. Na outra ponta da linha, para nós consumidores, tanto faz como tanto fez, são drogas iguais.

Se a Sadia e a Perdigão engolirem suas diferenças e começarem a fabricar juntas uma marca de salchicha nós a engoliremos tranqüilamente.

Isso no tocante ao gosto e gosto não se discute. Mas se vivemos no regime capitalista e esse sistema vive em função da livre concorrência, qualquer ameaça à competição compromete o regime, afeta os consumidores, os trabalhadores, os cidadãos.

A coisa se complica quando entramos no terreno da mídia. Jornal não é salchicha, nem empresa jornalística é cervejeira. Fusão ou parceria nesta área dá confusão. Porque a imprensa tem uma função institucional e política. Razão pela qual é a única atividade comercial protegida pela Constituição.

Sem diversidade de opiniões não há democracia, sem versões diferentes não se chega à verdade. Uma imprensa verdadeiramente livre tem que ser variada e competitiva. Por isso, a parceria entre os arqui-rivais Grupo Globo e Grupo Folha anunciada há poucas semanas nos obriga a sair do sério, isto é, temos que ficar mais sérios do que de costume.

Sobretudo porque se não esperneamos quem esperneará por nós – algum colunista de O Globo ou da Folha?

Estamos acostumados a denunciar os governos autoritários como ameaças à liberdade da informação. Hoje, com a democratização do mundo ocidental o inimigo, às vezes, é o poder econômico.

Mas neste caso, o malefício está na própria imprensa. Associações deste tipo, longe de significar avanço e progresso, são retrocesso.

Quando um jornal como a Folha acusava O Globo de fazer "jornalismo chapa-branca" era bom. Quando O Globo respondia, classificando o rival de "arrogante e irresponsável" era ainda melhor. Do confronto destas opiniões extremadas saía a certeza de que um vigiava o outro. E nós estávamos protegidos.

Sócio não briga com sócio. E quem se ferra somos nós.

Em protesto contra a frivolidade de Caras um grupo de humoristas lançou Bundas. E todo mundo está feliz. Já imaginaram se Caras e Bundas resolvem fazer uma sociedade para lançar outra revista ?

Será um horror e só pode chamar-se Caracu.

(*) Copyright VIP, novembro de 1999

 

CENSURA
O coronel de São Januário

 

Juca Kfouri

Em reação ao modo como foi tratada a prisão do ídolo vascaíno Edmundo, o deputado federal e vice-presidente do Vasco da Gama Eurico Miranda proibiu a entrada dos jornalistas de O Globo, Extra! e Jornal dos Sports no estádio de São Januário.

Diga-se que, de fato, a imprensa cobriu-se mal e desrespeitosamente a prisão do artilheiro. Uma coisa é dizer que o "Animal fez três gols e levou o Vasco à vitória". Outra é manchetear que "O Animal está na jaula".

O craque é "Animal" quando está em campo, mas o cidadão é Edmundo quando está preso. Ou deveria ser.

Nada justifica, é claro, mais uma truculência de Miranda. De resto, outros jornalistas como Renato Maurício Prado e Fernando Calazans, colunistas de O Globo, e Sérgio Noronha, do Jornal do Brasil, já estavam sentenciados pelo deputado muito antes de Edmundo ter passado algumas horas no xilindró. O que chama atenção é como não se dá mais grande importância a atitudes como a censura decretada por Miranda. Ao contrário: parece que viraram banais e entraram para o folclore quando, na verdade, são inaceitáveis.

O Globo e o Extra! fizeram editoriais e publicaram anúncios dedicados ao torcedor vascaíno. O Jornal dos Sports, agora comandado pelo incansável jornalista Milton Coelho da Graça, preferiu dirigir-se ao parceiro e ao patrocinador do Vasco, respectivamente o norte-americano NationsBank e ao sabão Ace. O jornal "cor-de-rosa" lembrou ao banco que sua sede está num país que sempre se orgulhou da liberdade que a imprensa desfruta; e à fábrica de sabão em pó que a marca é prejudicada ao se associar a quem é capaz de tomar medidas tão violentas, além de ter seu poder de exposição sensivelmente diminuído.

Nada comoveu Miranda, longe disso. O placar eletrônico de São Januário passou a recomendar aos freqüentadores do estádio que não comprassem os três jornais proibidos.

O que fazer, como perguntaria Lênin?

Boicotar o Vasco da Gama, certamente, não! O leitor é que seria boicotado. Mas os demais veículos não só poderiam dar mais destaque à censura em curso como, numa atitude solidária, deveriam também não entrar em São Januário até que a proibição fosse suspensa. Daria mais trabalho para cobrir o Vasco? Daria. Mas, quem sabe, isso até possibilitasse uma maneira mais criativa de fazê-lo.

O inaceitável é o silêncio.

Uma alternativa seria comunicar formalmente ao presidente da Câmara dos Deputados, via ABI, que um deputado federal está se arvorando como novo chefe da censura à imprensa no Rio de Janeiro. Como fica a questão do decoro parlamentar, para dizer o mínimo?

O triste nisso tudo é constatar como a imprensa é capaz de dedicar grandes espaços a um joelho que dói no zagueiro-central e quase nada a algo que deveria doer na consciência ética e profissional. E como o Brasil ainda é capaz de eleger os Euricos Mirandas da vida.

 

JORNAIS
Caderninhos nos jornalões

 

A.D.

Com chamada de capa e página inteira no caderno dominical de "Economia", o Estado de S.Paulo comemorou em 31 de outubro a chegada ao porto de Santos das duas novíssimas rotativas Colorman, da famosa fábrica alemã Man Roland. As primeiras desse tipo adquiridas por uma empresa jornalística da América Latina.

Juntas, terão capacidade para imprimir 150 mil exemplares/hora com 48 páginas em quatro cores (ou 40 coloridas e 16 bicolores). Custaram 40 milhões de dólares (um pouco menos do que o investimento de 50 milhões de dólares anunciado pelos grupos Globo e Folha para o novo veículo que lançarão em conjunto).

Entrarão em funcionamento no segundo semestre do próximo ano, quando o número de páginas da rodada final atingirá 128 – das quais 80 em cores. "As agências e editores poderão editar seus trabalhos coloridos na página que desejarem, com o que haverá um enriquecimento do produto anunciado ou da reportagem publicada", declarou o diretor-industrial do Grupo Estado. Adiante fala-se na melhoria da qualidade gráfica e na maior produtividade, aumentando os benefícios para leitores, anunciantes, clientes e parceiros.

O Estadão está de parabéns pelo feito. Um investimento desse porte na mídia impressa – numa época em que todos apostam em "novas tecnologias" e, sobretudo, sem parcerias ou ligações perigosas – é motivo para comemorações.

Faltou informar os leitores sobre os benefícios que essas velocíssimas rotativas trarão aos prazos de fechamento. Será que o jornal de domingo continuará sendo fechado na manhã de sábado, como de resto todos os jornalões brasileiros? Mesmo que uma parte dessas edições requentadas seja enviada para os cafundós do Judas, alguém está pagando por um jornal do dia e recebendo um jornal da véspera.

Na matéria fala-se em velocidade de impressão, mas não se informa sobre a capacidade de oferecer um jornal mais atual e melhor. Quando, no ano passado, o New York Times anunciou o funcionamento das novas rotativas, o aspecto mais badalado para os leitores foi justamente a sua capacidade de permitir edições mais atuais. E, portanto, um jornalismo mais qualificado.

Também não se menciona na matéria do Estadão a possibilidade de aumentar o número de páginas por caderno. Esse é o mais grave problema físico dos jornais brasileiros. A substância primordial de um diário é o seu caráter cósmico. Quem se interessa por economia também quer saber de política internacional e obviamente de política nacional e local. A "cadernização" separa os leitores e o pretexto idiota da "segmentação", defendido pelos marqueteiros, faz com que o leitor de esportes, por exemplo, marginalizado num caderninho remoto, seja mantido num mundinho sem política ou economia. E ser ver os anúncios inseridos no primeiro caderno.

Por que estava defasada industrialmente nos anos 80, a Folha iniciou a obsessiva "cadernização" logo imitada por todos – grandes, médios e pequenos. A alegre geração de editores pós-ditadura inventou um jornal autarquizado, fragmentado, desprovido de universalidade, impossível de ser produzido com os mesmos padrões de qualidade em todas as suas páginas e seções. E um inferno para manusear.

Todas as vantagens competitivas dos diários foram abandonadas em troca de mais páginas em cores e múltiplos cadernos segmentados. E agora os estrategistas das empresas queixam-se da facilidade com que se navega na Internet... Deveriam pensar em edições mais compactadas, onde o ato de folhear fosse mais natural e a integração do noticiário permitisse ao cidadão médio uma noção mais abrangente do que se passa à sua volta.

Dois exemplos recentes da febre cadernizadora:

  • Para enfrentar o "FolhaInvest", caderno de segundas-feiras que se acrescenta ao caderno de economia (denominado erroneamente "Dinheiro"), o concorrente Estadão lançou "Fundos&Cia". E dentro dele há ainda um subcaderno, "Suas Contas". Cada um com numeração de páginas própria, continuando a numeração do caderno de economia! Qual a vantagem, se os públicos são os mesmos e os anúncios, idem?
  • Na terça-feira, 26 de outubro, para abrigar a sua extensiva cobertura dos acontecimentos na Febem, a Folha secionou-a e empacotou-a num caderno à parte. Mas o bárbaro episódio não podia ser dissociado da seção "Brasil" (que está no primeiro caderno). Na realidade era a coisa mais importante do noticiário nacional. Envolvia Mario Covas, PT, Igreja, governo federal, sucessão, segurança, cidade. Mas a configuração das rotativas da Folha – como de resto de todos os nossos jornalões – não admite cadernos mais substanciosos. E, assim, o fato político do dia, com todas as suas implicações e desdobramentos, foi "segmentado". Ou chutado para escanteio num caderno mirrado de seis páginas.

Quando um dia forem examinadas algumas características erráticas e superficiais da sociedade brasileira no final do milênio, a explicação poderá ser encontrada ao manusear nossos diários: nossos jornalões converteram-se em conjuntos de caderninhos. Mirrados e inexpressivos.

 

PUBLICIDADE
O cigarro e a Veja

 

Adriano Rodrigues de Faria (*)

A matéria "Em causa própria", da edição 1.620 de Veja (20/10/99), coloca em dúvida a sinceridade da Phillip Morris em admitir que "existe um consenso de que o fumo causa câncer de pulmão, problemas no coração, enfisema e outras sérias doenças". O texto até cita um psiquiatra paulista que considera a declaração do fabricante de cigarro "puro cinismo".

O alerta de Veja a seus leitores seria perfeito se não fosse por um detalhe: as páginas 2 e 3 e a contracapa, dois dos espaços mais nobres de publicidade numa revista, estampam maravilhosos anúncios de marcas de cigarro. Por uma infeliz coincidência para Veja, a "Carta ao Leitor" da mesma edição afirma que "os maiores anunciantes encomendam às melhores agências de propaganda os anúncios veiculados nas páginas de Veja. A certeza de que a publicidade será vista por quem realmente importa torna a revista muito procurada por empresas interessadas em falar diretamente com os leitores sobre os produtos que vendem e os serviços que prestam. Como sua sustentação financeira é garantida por esse círculo virtuoso de confiança, estabelecido por leitores e anunciantes, Veja não depende de publicidade oficial ou de favores de governos para existir. É uma publicação inteiramente isenta e independente. Nosso compromisso exclusivo é com o leitor".

Se o compromisso exclusivo é com o leitor, por que os anúncios de cigarro? A própria matéria "Em causa própria" não alerta sobre os perigos do cigarro? Veja não se auto- intitula "independente"? Ou essa "independência" depende (não é trocadilho) dos polpudos e caros anúncios de cigarro? Infelizmente, o tão nobre "compromisso exclusivo com o leitor" está abaixo dos interesses financeiros.

Parece que no quesito "puro cinismo" há um empate entre Veja e a Phillip Morris.

(*) Jornalista

 

PRECONCEITO
Promoção da intolerância

 

Isak Bejzman

De acordo com o sacerdote, Edward Flannery, a judeofobia "é o ódio mais antigo e mais profundo da história humana". A maldade humana é tão repetitiva que pretender que esses conteúdos sociais agressivos se extingam, seria uma incrível onipotência do pensamento.

Todavia, isso não impede que eu ao menos tente transmitir aos leitores do jornal A Gazeta, de Vitória (ES), e aos leitores de todas as plagas, a consciência sobre a singularidade do fenômeno "judeofobia", um monstro de macro dimensões de agressividade social, ainda que algumas pessoas, sob a capa da ingenuidade cultural, pretendam reduzi-lo a um simples fato humano de preconceito, seja sob a forma de ataque ou de propaganda [veja remissão abaixo].

Sabemos que o contrato social é a pedra angular da civilização, pois organiza as relações humanas. Por meio dele muitos renunciam a seus direitos para poder ter uma vida social adaptada, ordenada e segura. Vivemos o contrato social em nosso dia-a-dia e nem nos damos conta de que o estamos praticando.

Por que a luz vermelha do semáforo me impede a passagem? Caso eu ponha a minha liberdade acima do respeito à luz vermelha, estou transformando minha liberdade de dirigir em licenciosidade; estou pondo vidas em risco. O contrato social impõe milhares de barreiras à nossa liberdade – como caluniar, por exemplo. Sou médico porque me graduei em medicina na Universidade, o mesmo, no que diz respeito ao jornalismo. Por isso tenho o direito legal de exercer ambas as profissões. Caso contrário, minha liberdade de exercer o jornalismo ou a medicina seria barrada pelo contrato social. O segredo de um contrato social justo reside na sabedoria das lideranças do corpo social em encontrar o ponto de equilíbrio entre as restrições e as liberdades.

Visões da história

Penso que dentre os maiores direitos do homem está o seu direito à liberdade e à livre expressão desde que o discurso não se transforme em abuso. Um discurso que procura confundir, que simplesmente se baseia em acusações, criando para o acusado o constrangimento de provar que o que está sendo dito não é verdade, esse discurso deixa de ser livre expressão da palavra e passa a ser também pura licenciosidade, para não dizer libertinagem. Para tristeza minha, parece que A Gazeta esfumou, através de uma combinação de informações, esses conceitos de liberdade e licenciosidade. Preferiu optar pela última.

São milênios de perseguições, de agressões, matanças de todos os tipos, conversões forçadas, agressões físicas das mais sofisticadas, de propaganda anti-semita e atribuições de crenças irracionais; e, para tristeza dos democratas do mundo, um jornal, que por si só já deveria ser a essência da democracia, se transforma num propagador do anti-semitismo.

Promovendo a glória de Hitler, A Gazeta endeusa o assassino diabólico que planejou e matou milhões de seres humanos, e consuma sua posição ideológica de maneira sofisticada, primitiva e pseudo-acadêmica, promovendo o revisionismo da história ao negar realidade do Holocausto. Não pretendo debater o que não é possível, pois aqui não se trata de confrontar visões da história. O que temos é a História versus a Propaganda. Estou mais interessado em dizer às pessoas que busquem informação sobre o Holocausto mergulhando na história. Não só para honrar a memória dos que sucumbiram nele, mas também para adquirir armas para lutar contra o preconceito, o racismo, a xenofobia e o anti-semitismo.

Estão equivocados aqueles que pensam que o anti semitismo é uma intolerância particular aos judeus. Hitler não foi – e A Gazeta não é – intolerante só com judeus. É verdade que o jornal quer transformar a questão "A Gazeta contra os judeus" numa configuração de jogo de futebol entre os dois times mais importantes do lugar. Mas com sua onda nazista, o periódico não está promovendo algo exclusivamente contra os judeus. Ela está promovendo a "intolerância". Quem conhece um pouco de psicologia, sabe que não existe meia gravidez, e sabe também que não existe meia intolerância.

Fantasia de ódio

O tema nazista da Gazeta, na verdade não é anti-semita apenas, mas um tema de intolerância, contra toda a sociedade democrática. É contra os pobres, os deficientes, os funcionários públicos, as mulheres, os índios, os estrangeiros, os miseráveis e as minorias em geral. O jornal almeja que o dinheiro público, em vias de se esgotar totalmente, seja apenas dela ou dos interesses que defende, contra a cidadania. É de lamentar que ao promover o revisionismo nazista, a publicação não se dê conta de que ofende e fere violentamente os sobreviventes do Holocausto, seus descendentes diretos, assim como, a sociedade brasileira como um todo.

É possível que A Gazeta tenha conseguido fecundar algumas sementes de ódio dentro da alma de alguns daqueles que leram essa obra de arte jornalística de judeofobia. O jornal fez um coquetel de três obras: Os Protocolos dos Sábios de Sião, que é um piada de ódio; O Judeu Internacional; e o autor revisionista inglês Trevor-Roper; além de alguns textos atribuídos a Hitler. Misturou, bateu bem e despejou seu ódio. O que fazer com uma instituição que carrega em seus vasos germes causadores de tão virulenta patologia? A educação, o esclarecimento, e a herança judaica que é a Bíblia, ou a própria ética, continuam sendo a resposta .

A Gazeta sabe muito bem que o nazismo é uma filosofia de ódio racial, baseado nas idéias do homem e do super-homem de Nietzsche. Tenho minhas dúvidas se Hitler chegou a ler o filósofo, porque o nazismo não faz uma reflexão sobre as idéias de Nietzsche, mas se utiliza delas para proclamar também a intolerância ao brasileiro moreno e negro, não só ao judeu.

Em 1935, um juiz suíço, ao presidir o julgamento de dois nacional-socialistas daquele país acusados de circular com os Protocolos, escreveu: "Espero que chegue um tempo em que ninguém entenderá mais como é que no ano de 1935, quase uma dúzia de homens totalmente sensatos e razoáveis puderam, por 14 dias, afligir seus cérebros diante de uma corte em Berna, sobre a autenticidade desses assim chamados Protocolos, os quais, por todo o dano que já causaram e ainda poderão causar, são nada mais do que um ridículo absurdo". Infelizmente, a esperança do juiz ainda não se realizou inteiramente. Ainda há esses anti-semitas e suas audiências que estão sempre prontos a circular e a acreditar nessa fantasia de ódio.

Bode expiatório

Estava certo Albert Einstein quando ligou o anti-semitismo ao modelo do bode expiatório. Essa figuração explica o discurso anti-semita do jornal A Gazeta, de Vitória, quando diz que a culpa da desgraça do Brasil é do dinheiro dos judeus de Nova York. Este jornal que tem por paradigma a ideologia nazista sabe bem quais as razões da miséria brasileira. Mas para um nazista é mais fácil usar um bode expiatório do que encarar a realidade. O professor Reinaldo Gonçalves, da Universidade Federal Fluminense, diz que um terço dos brasileiros se situa economicamente abaixo da linha da pobreza – são os muito pobres. O segundo terço se constitui de pobres e o último perfaz a classe média. Apenas 1% dos brasileiros, o equivalente a 480 mil famílias, se apropria de 60 % da riqueza do Brasil. Um jornal que prega idéias nazistas resolveu jogar sobre o dinheiro dos judeus de Nova York toda a culpa pela desgraça que assola o Brasil.

O anti-semitismo é uma coisa tão abjeta que se utiliza de qualquer justificativa para atacar o judeu. Seja porque o judeu tem muito dinheiro como aconteceu no Canadá, ou o judeu é um pobre miserável como aconteceu na Polônia e na Rússia, ou na Alemanha, onde mais de 50% dos médicos e dos advogados, e onde os grandes músicos e pintores, ou grandes cientistas, são judeus. Para A Gazeta, a justificativa é o dinheiro dos judeus de Nova York.

O nazismo ou o neonazismo são correntes políticas extremistas e nós brasileiros estamos ainda saindo de uma situação de extremismo político, situação na qual as leis foram distorcidas de maneira prepotente, favorecendo interesses de um grupo que se considerava melhor do que os outros. O fato de um jornal brasileiro ser nazista, racista, intolerante, distorcer a história, responsabilizar terceiros pela desgraça, pobreza e miséria do povo brasileiro já é entristecedor, muito mais é ver que a imprensa do Brasil ignorou totalmente o fato.

Intelectuais tentaram explicar o anti-semitismo ou judeofobia através da psicologia, sociologia, filosofia e antropologia. Todavia é muito difícil enquadrar cientificamente uma coisa que se chama maldade. Jamais o jornal A Gazeta conseguirá explicar sua maldade ao atiçar o ódio buscando um bode expiatório para explicar a desgraça do povo brasileiro. Ignora que Hitler liquidou com a Alemanha. Ignora que quem tirou o país alemão do barro foi o dinheiro dos judeus de Nova York. Ou A Gazeta esqueceu que a história fala num tal de Plano Marshall?

(*) Jornalista e médico psiquiatra

Referências

Peredni K, Judeofobia, curso do departamento Hagshama da Organização Sionista de Israel;

Anti Defamatio Leage, Nova York; Centro Simon Wisental, Buenos Aires

 

Racismo de novo

 

Victor Gentilli

Os leitores de A Gazeta, no Espírito Santo, voltaram a encontrar um texto racista, anti-semita e preconceituoso no alto da página de opinião, parelho ao Editorial e à charge, na edição de 2 de novembro.

Os leitores de A Gazeta não merecem.

 

Qualificação suspeita(*)

 

Elisa Sayeg

Em menos de dez dias, uma revista do Grupo Abril e um jornal do Grupo Folha fizeram comentários preconceituosos e racistas contra brasileiros de origem síria e palestina. Não havia nenhuma relevância para a reportagem na citação das origens dos envolvidos. Então, as citações tiveram cunho claramente racista.

Na Folha de S. Paulo de 24 de outubro havia uma notícia sobre um sujeito acusado de superfaturamento na USP. Eis como é apresentado o caso: "Chama-se Pierre Basmaji o pivô das compras superfaturadas. De origem síria, com pós-doutorado na França, Basmaji ingressou na USP em 1989. Um ano depois, começou a fazer compras para o Grupo de Semicondutores, que pesquisa microcircuitos para computadores".

Que relevância tem para a reportagem a origem do cidadão? Nenhuma. Ou será que a Folha vai agora investigar a origem étnica de cada pessoa acusada em reportagens? Duvido. Portanto, só lembraram da "origem síria" para atingir os sírios e seus descendentes.

Na Veja de 20/10/99 há uma reportagem sobre "fraudes no seguro", em que se lê o seguinte: "Muitas vezes o golpista se livra da cadeia, mas amarga grande prejuízo. Em Manaus, sete primos, comerciantes de origem palestina, fizeram um seguro conjunto no valor de 6 milhões de reais. Após o pagamento da última parcela, o prédio onde funcionavam as lojas apareceu incendiado. O golpe ficou conhecido como ‘turco-circuito’".

Esse trecho é racista, porque para ilustrar o tipo de golpe, que era o objetivo da revista, bastava ter dito que "sete comerciantes fizeram um seguro conjunto no valor de... Após o pagamento etc." Não precisavam ser citada a origem étnica, irrelevante no caso, nem mesmo a piada que, além de racista, confunde, uma vez que palestinos e turcos são povos diferentes étnica e culturalmente.

E se a reportagem fosse "Sete comerciantes judeus fizeram um seguro... O golpe ficou conhecido como...". Ou "Sete comerciantes afro-descendentes fizeram um seguro...". Etc. Preencham as lacunas. Será que o texto enviado pelo repórter seria publicado pela Veja?

Nos outros casos de golpes contra o seguro não foi feita nenhuma associação com a origem étnica dos golpistas, qualquer que fosse. Assim, a reportagem citada é preconceituosa e racista.

Sugiro a observação e a análise das citações de cunho racista nos textos desse jornal e dessa revista, inclusive contra pessoas de origem árabe no Brasil.

 

PÉROLAS
O repórter e o "côco"

 

Masao Kawata

Estava assistindo em 25/10/99 a um telejornal na Rede Manchete (ou seja lá qual for o nome que tenha agora, não me importa) quando foi veiculada uma matéria sobre um grupo de pessoas (acho que estudantes de 1Ί grau) que andava a esmo pelas ruas procurando por placas e anúncios contendo erros de português.

O repórter que apresentava a matéria se postou diante de uma placa, na qual se lia "Coco Verde – Promoção: R$ 1,00", e pediu ao dono da venda que a lesse. Depois de lida, o repórter perguntou se não havia nada de errado. O dono concluiu que não, ao que o repórter retorquiu dizendo que faltava um acento circunflexo no primeiro "o" da palavra "coco".

Bem, a menos que a Academia Brasileira de Letras tenha feito mais uma modificação desastrosa no sistema de acentuação de nossa língua, acho que esta paroxítona não tem acentuação.

Lembro que odiava Gramática quando estava no 1Ί grau. Éramos obrigados a "engolir" as regras de acentuação como se fossem dogmas religiosos. "É assim e pronto!" Atualmente, tenho um conhecimento melhor da nossa língua, pois aprendi que saber escrever é essencial para quem gosta de escrever. E eu gosto de escrever, aprendi a gostar, apesar de todas as redações "Minhas férias" que fui obrigado a produzir.

Isso me leva à seguinte questão: vá lá que um repórter, hoje, não precise gostar de escrever. Mas não deverá saber escrever?

(*) Estudante de Medicina Veterinaria na USP

 

Uh, ah, oh, ai, ufa!

 

Marinilda Carvalho

O artista gráfico e chargista Spacca, nosso colaborador, não resistiu "a um negócio bem engraçado na seção de cartas da Folha de hoje (29/10)", escreveu ele. "É sobre um ‘ensaio de vaia’ que a Folha viu na apresentação do Malan. O assessor pergunta perplexo o que vem a ser isso, se as pessoas só abrem a boca sem emitir som, ou se vaiam mesmo. A resposta, para variar, é tola e arrogante. Vale a pena ver, para as Pérolas."

Spacca tem razão. Os últimos dias foram certamente uma tortura para o porta-voz de Pedro Malan, que perdeu a oportunidade de ficar de boca fechada – coisa que ele até cultua – por 15 anos seguidos. Para um repórter chocar o leitor, portanto, bastava reproduzir à risca as frases do ministro. Pois ainda assim a Folha conseguiu ser bizarra a ponto de permitir que o assessor fizesse do limão uma limonada e desse uma resposta hilária ao jornal. Vejam:

"Por que, entre os jornais que noticiaram a palestra feita na CNBB pelo ministro Pedro Malan, só a Folha viu, ouviu e registrou que ele teria sido vaiado? Na página 1-6 (Brasil) da edição de anteontem, está escrito: ‘O ministro Pedro Malan (Fazenda) ouviu ontem um ensaio de vaia quando sugeriu que centenas de milhares de deserdados e excluídos insatisfeitos com o desempenho do governo...’

"Não me cabe tratar de critérios de edição de qualquer jornal, mas fico intrigado como esse detalhe acabou dando ao assunto tempero sensacionalista: o que é um ensaio de vaia? As pessoas apenas abrem a boca, ficam com ela aberta, gemem levemente e não concluem seu protesto? Ou se mexem na cadeira, respiram fundo, balançam negativamente a cabeça e não soltam o desabafo? Ou ensaio de vaia é uma vaia mesmo?

"A Folha tirou uma conclusão muito particular, mesmo que todos os jornalistas de todos os outros veículos presentes tenham visto diferente. Marcelo Pontes, assessor de comunicação social do Ministério da Fazenda (Brasília, DF)

"Resposta da jornalista Marta Salomon – A reportagem da Folha presenciou o início de vaia – mistura de ‘uh’ e ‘oh’ abafados – de parte da platéia surpresa com o conselho de Malan para que os excluídos insatisfeitos esperassem a próxima eleição presidencial."

Uuuuuuuuuuuuhhhhhhhhhhhh!

 

HAJA PACIÊNCIA
Assaltante almofadinha

 

Angela Adnet(*)

Tenho a certeza de que o "Sr." Paulo César dos Santos Oliveira – assaltante-almofadinha engravatado – teve seu dia de glória com a matéria publicada no Globo de 28 de outubro. Afinal, não é para qualquer mortal conseguir o espaço – a primeira e a 16ͺ páginas – de um jornal deste porte.

Colocando-se como "vítima do sistema que não gera empregos" – ele tem mulher e filho, desempregado, como vai viver? –, com a maior calma do mundo avisou que vai lançar um livro.

Qual terá sido a razão que levou o jornal a dar ao citado senhor tanta importância? O assalto em si, a roupa elegante ou o fato de ele ser um futuro escritor?

Na possibilidade de a terceira hipótese ser a de maior peso, fica a sugestão aos nossos consagrados escritores que lutam por espaço para divulgar seu trabalho:

COMPREM UM TERNO TOM SOBRE TOM E ASSALTEM UM BANCO!

(*) Escritora

 

Troque seu cachorro por uma criança pobre

 

Stephenson Groberio(*)

Quando Eduardo Dusek cantarolou, na década de 80, a música que é título deste artigo nem imaginava que poderia existir alguém como Vera Loyola. Esta senhora foi capaz de festejar o aniversário de sua cadelinha, Pepezinha, tendo como convidadas suas emergentes amigas, acompanhadas de suas respectivas mascotes. Soa mais estranho do que os latidos deste canil high society, porém, o destaque que a mídia dedicou ao evento.

A revista Veja deu duas páginas, ilustradas com quatro fotos, que destacaram anfitriões, convidados e decoração. Vários jornais noticiaram, telejornais idem e, segundo Vera, "tinha até paparazzi".

A imprensa precisa noticiar acontecimentos fúteis como este? Precisa. Para que possamos criticar. Quem sabe assim a sociedade real se conscientize de que criança pobre é mais importante do que cão rico.

Mídia e emergentes, troquem seus cães por uma criança pobre!

(*) Estudante – desempregado – de Jornalismo da Faesa (Faculdade de Educação e Comunicação) e de Letras-Português da Ufes (Universidade Federal do Espírito Santo)

 

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