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ESTILO
Entre o lead e o centésimo macaco
Luís Edgar de Andrade
Cientistas japoneses que estudavam, em 1952, o comportamento dos macacos em estado selvagem tiveram a idéia de distribuir batata-doce nas praias de Kochima, uma ilhota deserta do Japão, habitada só por eles. Os macacos gostaram da batata-doce, apesar dos grãos de areia em volta. Até que uma fêmea de um ano e meio, chamada Imo, descobriu sozinha como lavar as batatas num riacho. Ela ensinou, em seguida, o truque à própria mãe. Entre 1952 e 1958, todos os macacos jovens de Kochima – digamos que eram 99 – aprenderam, um depois do outro, a lavar as batatas antes de comê-las. Quando o centésimo macaco adquiriu a prática, rompeu-se nesse dia a barreira invisível. Num passe de mágica, macacos de Takasakiyama e outras ilhas, sem contato com os de Kochima, passaram também a livrar-se da areia, lavando suas batatas.
Mesmo que essa história jamais tenha ocorrido, como é mais provável, ela ajuda a entender a teoria da ressonância mórfica, exposta em 1981 pelo biólogo inglês Rupert Sheldrake, autor de A New Science of Life e The Presence of Past. Enquanto a biologia ortodoxa explica a evolução em termos de genes, Sheldrake recorre aos campos mórficos – algo mais misterioso que os campos magnéticos e os gravitacionais. É por meio deles, na sua opinião, que a influência do semelhante atua sobre o semelhante através do tempo e do espaço, de sorte que todos estamos sujeitos a esses campos de nossos ancestrais e mesmo dos contemporâneos, ainda que distantes.
Sem querer avacalhar a ressonância mórfica, pode ter sido graças a ela que descobri o lead, no Ceará, à mesma época em que os macacos japoneses aprenderam a lavar batata-doce na ilha de Kochima. É que a narrativa cronológica vigorava, nesse tempo, como técnica de notícia nos jornais brasileiros, segundo o estilo francês. Primeiro o gato subia no telhado. Só depois o dono subia atrás dele para cair lá de cima, estatelado. Devo o lead à Rádio Iracema de Fortaleza que me contratou para pôr no ar, sozinho, todos os dias, às 7 da manhã, um jornal falado. Não havia repórteres nem apuradores na estação. Eu saía de casa a pé, ainda escuro, antes do primeiro ônibus, comprava os três matutinos da cidade, lia as principais notícias e resumia cada uma delas em duas frases. Era o lead em estado bruto e eu não sabia. Só vim a saber, tempos depois, ao ler o manual de redação do Diário Carioca, que nos recomendava:
Ocupar o primeiro parágrafo das notícias com: a) – um resumo conciso das principais e mais recentes informações do texto, esclarecendo o maior número das seguintes perguntas relativas ao acontecimento: que?, quem?, onde?, quando? como? e por que?; ou b) – um aspecto mais sugestivo e suscetível de interessar o leitor no acontecimento.
Lembro-me de que, no início dos anos 70, quando me tornei telejornalista, ainda reinava certa confusão entre os jovens editores quanto à técnica da notícia de TV. Os primeiros repórteres de vídeo, vindos da imprensa escrita, se arrogavam o direito de resumir o fato, de viva voz, no início da matéria. Resultado: o lead era repetido três vezes no ar: pelo apresentador, pelo repórter e pelo entrevistado. Embora, na televisão, cada notícia seja uma notícia – são as imagens que determinam como se deve editar – o bom senso indica que o lead cabe ao Cid Moreira e seus sucessores. Só depois vê-se, na telinha, a história contada pelo repórter na ordem em que aconteceu.
Passados tantos anos, o velho lead e seu complemento lógico, a pirâmide invertida, andam meio fora de moda, hoje em dia. Sobretudo nos Estados Unidos, onde até pouco tempo atrás eram sagrados como as tábuas da lei. É pena porque, sem o lead, somos forçados a ler a matéria toda, de cabo a rabo, para saber afinal de contas o que é que houve. Atribuo essa subversão da notícia, na imprensa americana, à influência de seus correspondentes na Europa que sofrem por sua vez a má influência dos jornais franceses.
A prova disso é uma notícia sobre Rupert Sheldrake que li, por acaso, no final de novembro, no USA Today, graças à internet. Ele continua aprontando. Seu último livro vendeu, nos Estados Unidos, 67 mil exemplares em capa dura e vai ser lançado, agora, em brochura. Chama-se Dogs That Know When Their Owners Are Coming – And Others Unexplained Powers of Animals. O obra discute, como se vê, os cachorros que sabem quando o dono está chegando em casa e outros poderes inexplicados dos animais. A explicação, segundo Sheldrake, deve-se aos tais campos mórficos, "uma conexão invisível que opera à distância de muitos quilômetros". Mas isso, eu juro, só aparece no décimo-primeiro parágrafo da notícia. É preciso ler tudo, até o fim, para começar a entender. No início da matéria conta-se, ao invés disso, a história de um papagaio cinzento africano que vive em Nova York e é capaz de ler os pensamentos de sua dona – aliás costuma dizê-los em voz alta. Trata-se de um papagaio paranormal. Ou anormal como o lead.
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