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CARTAS
RPG E O DIA
Absurdos e leviandade
É com sentimento de repulsa que tenho acompanhado a associação de RPG (Role Playing Game) ao crime cometido em Teresópolis. Absurdo, é o mínimo que posso dizer, principalmente por viver em uma época pós-inquisição e caça as bruxas, na "suposta" era das luzes, da ciência e da racionalidade.
Não é só no Brasil que temos esse tipo de acontecimento (a imprensa crucificando certos grupos/gêneros/hobbies), nos últimos três anos temos muitos exemplos. Na Europa, Final Fantasy, o jogo, foi acusado de levar um menino a matar sua família com uma espada. Na tragédia de Columbine, nos EUA, culparam não só Doom, o jogo, como também Marilyn Manson – auto-intitulado Anticristo. No caso do assassino do cinema do shopping, aqui mesmo no Brasil, tentaram jogar a culpa no jogo Duke Nukem. Na Inglaterra o escritor Neil Gaiman foi acusado de incitar o suicídio de um rapaz, pois foi encontrada uma revista Sandman próximo ao local da morte...
Engraçado pensar sobre isso... quer dizer que pivetes que matam e ouvem pagode são incitados pelo pagode a cometer tais crimes? Políticos que estupram os cofres públicos devem botar a culpa em alguma ópera bem trágica e jornalistas inconseqüentes culpam a geração coca-cola por ter que escrever textos rasos. Sintomático.
Esse tipo de comparação é patético. O RPG é, antes de mais nada, um jogo de interpretação, com diversas temáticas, desde o tão comentado – e sempre exagerado – satanismo, passando por ambientações ingênuas, fantásticas, sombrias, futuristas, tantas quanto a imaginação humana puder criar. Cabe aqui ressaltar que a indiscutível maioria dos jogos enfatiza o heroísmo.
Então há um crime, uma generalização e uma caça à bruxas contra o RPG. Por que não culpar os pais que não souberam ensinar ao filho como ler e interpretar um livro, ou à escola, por ser cúmplice de toda uma geração de semi analfabetos? Ou melhor, vamos jogar a culpa na TV! Os filmes, a violência dos videogames. Mas onde estavam a TV e os videogames quando os membros da igreja matavam uns aos outros para garantir vaga na sucessão papal?
Fico imaginando quanto tempo vai levar até eu matar a primeira pessoa. Sim, claro, pois sou jogador de RPG (prova número 1). Jogo ou já joguei Quake, Duke Nukem, Doom, Wolfenstein, e mais uma dúzia de jogos perversos (prova número 2). Escuto Marilyn Manson, Black Sabbath, Rammstein, entre outras bandas (prova número 3). Precisa mais? Qualquer júri parcial e tendencioso (sugestionado pela mídia) poderia me condenar por praticamente qualquer coisa baseados nestas "evidências".
Comento trechos da "matéria" do jornal O Dia:
"Recebi esse livro e fui estudar o jogo. Fiquei muito assustada quando cheguei à página que ensina a matar por estrangulamento. Tem uma foto que mostra um enforcamento, através de um puxão por trás. A morte acontece porque um osso próximo à garganta é quebrado. O laudo de Fernanda confirma que ela foi morta por trás, por estrangulamento e asfixia com o uso de uma corda."
Fantástica descoberta. Pergunto onde esta senhora vivia... não precisa ter mais que 5 anos de idade para saber que estrangulando uma pessoa pode-se matá-la, e com a idade que ela deve ter possivelmente já viu dezenas de filmes com estrangulamentos. Vamos culpar Hollywood também! Espere um pouco. Os livros também falam de armas de fogo! Pronto, aí está a evidente ligação de todos os crimes cometidos com armas de fogo e o RPG. Já dá para imaginar as manchetes: "Marido traído estoura a cabeça da esposa inspirado num jogo, mais detalhes às oito."
"Ela condenou a divulgação de informações como as do manual de RPG. ‘Como podem dizer que um jogo como esse é educativo? Eles ensinam um monte de coisas que não são construtivas. Tem até um trecho que fala sobre magia negra’."
Incrível! Os livros ensinam um monte de coisas que não são construtivas! Uma boa solução seria queimá-los, não? Quem sabe as pessoas devessem ler só coisas boas e úteis, como Sabrina e Paulo Coelho... Um trecho que fala sobre magia negra! Já li muitos trechos que falam, por exemplo, sobre Judaísmo, e não me converti à religião. Deve haver algum problema comigo.
Muito sensata a posição do delegado, se negando a usar as "informações" fornecidas como provas. Apenas questiono a inclusão da seguinte nota, na mesma matéria:
"‘Mestre’ preso por tráfico
Jameson Pereira Barbosa continua preso na 110ª DP. Ele é acusado de tráfico de drogas e era um mestre do jogo Vampire de RPG. ‘Ele oferecia drogas para as pessoas’, afirma o delegado Jorge Serra. Em depoimento à 110ª DP, Liliana, de 17 anos, afirmou que foi obrigada por Jameson a usar maconha no casarão abandonado de Pimenteiras, um dia antes de fugir para Santos na companhia de mais dois adolescentes. Jameson, conhecido como Vampiro, foi preso no dia 28. Uma semana antes, a polícia apreendera com ele livros de RPG, e também sobre satanismo. Jameson foi preso na semana passada, após agredir a irmã, Jenifer, 16 anos, que reclamou que a família estava ficando exposta por causa de suas atitudes."
RPG agora forma traficantes também! Quanto tempo até aparecer um livro que ensine a fumar maconha ou a cheirar cocaína? Fico com a consciência pesada de usar comparações com artes que prezo tanto, como cinema e literatura, mas, quantos filmes falam sobre drogas? Quantos falam sobre satanismo? Quantas matérias na TV mostram detalhes de diversos processos, tanto de tráfico de drogas, quanto de como roubar um carro, zonas de prostituição etc. Quantas meninas estão pensando em ser prostitutas graças à Capitu?
Pergunto, quantas crianças bem-educadas são suscetíveis a esse tipo de influência? Uma conversa rasa com alguns psicólogos poderia ensinar a esses jornalistas – e a alguns pais – que uma coisa não é necessariamente causa de outras. Não é por que todo mundo come sal que vamos associar o sal ao crime! Ou essa pode ser a próxima brilhante teoria, acabemos com o sal!
Fazem essas comparações, mas se olharem para as pessoas que cometem esses crimes vão descobrir que elas são como todos nós, comem, dormem, vão ao cinema e ao banheiro. As pessoas se sentem pouco à vontade de saberem que entre elas e um serial killer não há muita distância, um simples verniz separa a mais pacata dona de casa de ser a próxima açougueira do bairro. Para isso precisamos pôr essas pessoas "do outro lado", nos distanciarmos delas, para podermos dormir tranqüilos e sonhar que o mundo só é feio e malvado "lá fora" e que somos pessoas melhores que as outras.
Mas não adianta espernear, adianta só assistir ao modo como as coisas se desenvolvem, ver cada vez mais vezes as pessoas "terceirizarem" suas culpas e crucificarem tudo que achem estranho, ou não adequado aos seus padrõezinhos morais. Independentemente de se os assassinos lêem Charles Manson, vêem Drugstore cowboy, ouvem Marilyn Manson e dançam balé, a culpa sempre é deles, e somente deles, pois não há meio ou obra que justifique ou condicione a pessoa a tal ponto. Quem aperta o gatilho?
Fabiano Duarte Denardin é quase publicitário, jogou RPG, jogos de computador e ouve Marilyn Manson. Ainda não matou ninguém. Colaborou Ivan Fiedoruk, que é jornalista, joga RPG, jogos de computador e não ouve Marilyn Manson. Também ainda não matou ninguém
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