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NOVO SENSACIONALISMO
O "Caso Soninha" e as dimensões do problema

Alberto Dines

Crises têm diversas serventias. Uma delas: levantar o tapete para mostrar a quantidade de lixo escondida. Outra é manter a discussão acesa. Na última edição televisiva deste Observatório (27/11/01), com a presença de Sonia Francine, o problema da maconha serviu para desnudar o estado precário da nossa mídia. Acabou o barato: a coisa é cara demais para ficar esquecida.

I – Ela é jornalista ou radialista?

Foi a própria Soninha quem levantou a questão quando, ao ser designada como jornalista qualificou-se modestamente como radialista. Formada em cinema pela ECA-USP, pela legislação em vigor não pode exercer plenamente o jornalismo.

Ou melhor: para driblar um corporativismo medieval inspirado num academicismo ainda mais retrógrado, os radiojornalistas, telejornalistas ou cinejornalistas brasileiros, no lugar de buscar a verdade, são estimulados a fingir e a enganar para terem o direito de trabalhar. Simplesmente porque os respectivos diplomas (e registros sindicais) não os habilitam a assumir sua verdadeira profissão. Essa é uma mentira que precisa acabar: jornalismo é uma coisa só, independe do formato ou gênero de veículo.

Estipular que o radialista pode editar ou apresentar um programa não-noticioso mas só um radialista formado em jornalismo pode assinar matéria jornalística é uma das mais absurdas exibições de casuísmo-com-corporativismo numa sociedade que se pretende democrática e moderna.

Os compromissos do radiojornalismo ou do telejornalismo perante a sociedade são exatamente os mesmos dos jornalistas de jornais ou revistas. Dos seus profissionais exigem-se os mesmos predicados morais, cívicos, técnicos e culturais dos trabalhadores da mídia impressa. Suas responsabilidades talvez sejam até maiores, considerando a dimensão das audiências para às quais se dirigem.

O radialista, teoricamente, deve estar apto a sentar numa redação de jornal para escrever uma matéria (uma vez familiarizado com os pequenos macetes do meio), assim como o jornalista se convocado para trabalhar em rádio ou televisão. A forma ou formato da mensagem é secundário – importa o conteúdo, os procedimentos para obtê-lo e a maneira como é encaminhada ao destinatário.

Uma apresentadora de televisão que não é jornalista pertence a outro departamento – aquele onde estão Adriane Galisteu, Luciana Gimenez, Monique Evans, Hebe Camargo, Gugu Liberato ou o Ratinho.

Mais uma vez, o diploma está servindo como disfarce legal para um sistema de mistificações incompatível com a transparência exigida no processo de informar a sociedade e zelar pelo interesse público.

Soninha é jornalista, e excelente. Ponto final.

II – As semanais estão acabando com o jornalismo semanal

Daniel Defoe é mais conhecido como o autor de Robinson Crusoe, uma das fantasias utópicas mais célebres da literatura mundial. Defoe, no entanto, é o pai do jornalismo "revisteiro" com a sua The Review (A Resenha), que se publicou três vezes por semana em Londres, a partir de 1704 até 1713. A primeira publicação que em inglês assumiu-se como revista (magazine), foi o Gentleman’s Magazine (1731).

Henry Luce e Britton Hadden lançaram nos EUA, em 3 de março de 1923, a Time – "The weekly news-magazine" (revista semanal de notícias) –, projeto concebido pelos jovens jornalistas logo depois da Primeira Guerra Mundial para reunir e resenhar os acontecimentos da semana de forma breve e viva.

Enquanto as revistas americanas tradicionais (Harper’s, Atlantic, Saturday Evening Post etc.) ainda estavam envolvidas pelo beletrismo do século anterior, Time aparecia no mercado para contrapor-se à influência dos grandes jornais e oferecer um apanhado do que acontecera – organizado com inteligência e sobretudo escrito com brilho. O jornalismo hebdomadário contemporâneo do Brasil é herdeiro direto da experiência da Time e sua sucessora, Newsweek.

Por motivos intrínsecos ao mercado americano, a proposta original de Luce & Hadden foi perdendo consistência na medida em que os grandes diários – para sobreviver ao impacto da TV – passaram a oferecer um gênero de jornalismo mais redondo, menos fragmentado e mais analítico. O Herald Tribune (Nova York) nos anos 60 e 70 era uma autêntica revista diária, inclusive na paginação.

A deposição de Nixon e a cobertura da guerra do Vietnã foram obra, no primeiro caso, dos grandes diários nacionais e, no segundo, das redes de TV. A decadência das semanais de notícia dos EUA começa mais ou menos nessa época.

A censura durante o regime militar no Brasil impediu que Veja conseguisse repetir as tiragens espetaculares do seu lançamento (1968) e limitou o mercado de semanários. Sete anos depois da redemocratização, quando os jornalões puxados pela Folha de S.Paulo adotaram o esquema minimalista e mercadológico do USA Today, primeiro Veja e, em seguida, o seu concorrente IstoÉ, preencheram o vácuo e repetiram o que o Washington Post e o New York Times haviam feito com Nixon.

Fixados no triunfo, tentando repetir em todas as edições a mesma façanha, nossos semanários (posteriormente completados por Época) embrenharam-se num gênero de jornalismo denuncista cujo tom e procedimentos subverteram o espírito do jornalismo semanal clássico, resenhista e análitico, do qual a inglesa The Economist passou a ser o expoente mundial [junto com Der Spiegel (o espelho), circunscrito ao público alemão].

A matéria de Época que provocou a rescisão do contrato de Soninha por parte da TV Cultura seguiu os padrões sensacionalistas, levianos e inconseqüentes hoje imperantes na mídia semanal brasileira. A intenção de provocar um debate sobre a questão da maconha foi subvertida pela forma e procedimentos editorais. A matéria não traiu o pensamento da apresentadora mas, dentro da técnica de fazer barulho, explorou erroneamente, sem as necessárias nuances, o sentido do que Sonia Francine disse. Isto foi afirmado com toda a clareza pela própria apresentadora em diversas passagens do Observatório na TV [27/11/01] e por outros participantes do programa, jornalistas ou não [veja abaixo com assistir ao compacto do programa].

O mais lamentável no atual panorama do jornalismo semanal brasileiro é a total ausência de alternativas: os três concorrentes comportam-se de forma impecavelmente igual. E igualmente desvairada. Nenhum ousa diferenciar-se por mais selvagem que seja a concorrência, numa espécie de suicídio coletivo com graves implicações tanto para o mercado de trabalho como para a qualidade da informação que circula na sociedade e fabrica as suas atitudes.

O jornalismo "fiteiro" que deixou marcas tão graves em nossa cena política só poderia prosperar em veículos despreocupados com a procedência do material que lhe era entregue e com o efeito que sua divulgação poderia causar. E esSes veículos foram os semanais.

Nos intervalos entre a divulgação dos "grampos", quando arrefecia o interesse em torno do escândalo, desenvolveu-se uma falcatrua paralela denominada "medicina e saúde" destinada a encher as vidas de uma classe média alienada, idiotizada e narcisista, concentrada apenas no culto do corpo porque lhe faltam as condições mais elementares para ocupar-se com o resto.

Neste pêndulo entre denúncias e curandeirismo, Veja inventou a "capa panorâmica", original combinação de velhacarias produzidas em partes iguais por jornalistas e publicitários. Adotada por Época, foi fatal no caso Soninha.

III – Capa-outdoor é dupla aberração

O que parecia recurso esporádico e extraordinário converteu-se em rotina. Para garantir a exibição de suas capas em gigantescos pôsteres espalhados em pontos estratégicos das principais cidades do país, Veja precisou reservar esses espaços. E os donos destes espaços poluidores preferem alugá-los por um preço modesto, desde que contratada a ocupação ao longo do ano. Estava garantido o sucesso da fórmula marqueteira que acabou com o resto de seriedade de nossos semanários.

A capa-outdoor subverte o jornalismo e subverte a publicidade. Os jornalistas, ao conceberem a capa, precisam oferecer apenas o gancho e os alegres publicitários encarregam-se de fazer o barulho. Como a produção e exibição de outdoors não é considerada como atividade jornalística, a mensagem magnificada nos enormes cartazes não precisa obedecer aos postulados da ética jornalística. Vale tudo: gracinhas, insinuações ou esculacho puro e simples.

As revistas eximem-se das responsabilidades porque não são elas as editoras das avacalhações. As agências de publicidade alegam que apenas estão criando mensagens publicitárias para vender produtos cuja qualidade não podem testar. Mas quem perdeu o emprego e teve a sua vida privada escancarada e prejudicada foi a Soninha, isto no momento em que Época tirou do contexto a frase "fumo muito pouco, em festas ou casas de amigos", colocando-a numa descomunal foto ao lado do berro "Eu fumo maconha".

O Conar (Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária) não tem o menor interesse em coibir este jornalismo marrom em formato cinemascope. O Conar, aliás, não tem interesse algum em enfrentar os grandes anunciantes ou os grandes veículos (no caso, a mesma coisa). O Ministério Público, que poderia confinar-se a esta questão e já teria prestado um enorme serviço à sociedade, partiu para assumir sua porção inquisitorial e propôs a censura do teor do que é dito por entrevistados ou entrevistadores em benefício das drogas.

O Caso Soninha fez uma estrago enorme: inclusive no conceito de emissora pública de televisão.

Leia também

Todos erraram, todos devem corrigir-se – Alberto Dines

Edições para entorpecer leitores – Deonísio da Silva

A mulher de Cesar não fuma maconha – Paulo José Cunha

Muito mais do que aquela frase – Guilherme Arruda

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Compactos do Observatório na TV Clique na edição nº 178 (27/11/01)

 

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