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NOTÍCIAS DE UM SEQÜESTRO
Lambança do Jornal da Tarde

Fernando Alécio (*)

Na cobertura do fim do seqüestro do publicitário Washington Olivetto, o Jornal da Tarde, de São Paulo, conseguiu fazer tamanha lambança ao apresentar três versões diferentes sobre como o publicitário teria se livrado do cativeiro, no bairro paulistano do Brooklin, que encheu de dúvidas a cabeça do leitor . Na mesma edição (3/2/02), o jornal informa que Olivetto fugiu do cativeiro, que ele foi solto pelos seqüestradores após a prisão do líder do bando e ainda, como se não bastasse, também informa que o publicitário foi resgatado pela Polícia Militar.

Versão 1 – Na matéria intitulada "‘Me ajude! Fugi do cativeiro’", o JT diz:

Os moradores da Rua Kansas, no Brooklin, Zona Sul, foram atraídos por gritos de socorro de um homem por volta das 22h30. Um deles telefonou para o 190 da PM contando o desespero do homem que gritava sem parar. Antes da chegada da PM, o morador saiu e abriu a porta. Ouviu do homem abatido e com barba por fazer. "Socorro, socorro. Me ajude. Eu sou o Washington Olivetto. Sou o Washington Olivetto. Eu fui seqüestrado e fugi do cativeiro. Me ajude."

Versão 2 – Na mesma edição do JT, outra matéria, com o título "‘Fui espancado e tive medo de morrer’", diz:

No momento em que os seis seqüestradores foram presos em Serra Negra, os homens que vigiavam o cativeiro desligaram a energia elétrica e fugiram, abandonado o publicitário sem ar. O cubículo onde ele estava era alimentado por um equipamento de oxigenação. Sufocado, ele começou a gritar por socorro e foi ouvido pelos vizinhos da casa, que ligaram para o 190. Por volta dos 23h, chegaram o tenente Biagio e o sargento Pedro Luiz. "Nós pulamos o muro da casa e tivemos de arrombar a porta", relatou o tenente Biagio, na madrugada de hoje. "Quando entramos, imediatamente ele se identificou."

Versão 3 – Sob o título "O dia-a-dia do seqüestro", o mesmo jornal sustenta que Olivetto fora libertado pelos seqüestradores:

Às 22h30, Olivetto é libertado pelos remanescentes do grupo sem o pagamento do resgate.

Pergunto: em qual versão o leitor deve acreditar? Em qual o editor do JT acreditou? Como um jornal é capaz de informar três versões diferentes sobre a mesma coisa sem se dar conta disso?

No jornal O Estado de S.Paulo, no mesmo dia, havia uma nota com o seguinte título: "Governador elogia trabalho da polícia". A nota trazia frases do governador paulista Geraldo Alckmin, como: "A melhor resposta às críticas é o trabalho da polícia."

Burrice ou ingenuidade do Estadão? O jornal esqueceu de questionar o que o trabalho da polícia tem a ver com a elucidação do caso. Como todos sabem, a quadrilha só foi presa porque o dono do imóvel alugado em Serra Negra desconfiou e denunciou o grupo. E o publicitário conseguiu se livrar do cativeiro porque começou a gritar e foi ouvido por vizinhos. Não tem um dedo da polícia em nada na elucidação desse caso. Ou seja, se dependesse do trabalho da polícia – elogiado pelo governador –, Olivetto ainda estaria em poder dos seqüestradores.

(*) Blumenau, SC

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