Envie para um amigo  Imprima esta página  Procure no arquivo

QUANTO MAIS MUDA...
Racha no lobby deixa tudo como estava

Alberto Dines

A criação espalhafatosa da "Abert do B" não altera coisa alguma. O lobby das emissoras de rádio e TV representado na Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) está há alguns anos partido em dois no que tange à TV: de um lado a Globo com suas afiliadas e, do outro, as demais redes abertas de TV. Esse fracionamento foi o responsável direto pelo atraso na tramitação da emenda ao artigo 222 da Constituição.

Na parte radiofônica não havia dissidência – ou melhor, estava tudo pulverizado, cada grupo cuidando do seu quintal.

A criação da União de Emissoras de TV Brasileiras (UETB, denominação ainda provisória) apenas formaliza uma situação de facto. Foi badalada pela mídia anti-Globo, especialmente pelos neo-parceiros Folha-Estadão, como parte da sua guerrilha psicológica contra o grupo hegemônico. Na vida real tudo continuará como está: os interlocutores terão que procurar os dois grupos e os dois grupos adotarão políticas que atendam a seus interesses diretos. Como sempre aconteceu.

Do ponto de vista da sociedade e dos telespectadores é bom ou ruim ?

Quanto mais fragmentado um lobby, mais fraco fica o seu poder de pressão. Para o cidadão brasileiro o ideal seria que não existissem lobbies de empresas de comunicação porque são essencialmente antidemocráticos. Usam os privilégios constitucionais para defender interesses corporativos e mercantis nem sempre os mais legítimos.

Um lobby das montadoras, laboratórios farmacêuticos ou bancos pode, teoricamente, ser enfrentado por veículos de comunicação juntos, em grupos ou isolados. Mas o lobby da comunicação ou de um segmento desta indústria é um sério obstáculo, senão um impedimento total, ao debate e à livre circulação de idéias.

O único avanço perceptível na criação da UETB é o fato de que doravante as emissoras de rádio terão que criar sua própria entidade. Ou entidades. Nos tempos da Abert monolítica e ditatorial, o segmento radiofônico estava atrelado ao segmento televisivo, sem autonomia para defender seus interesses específicos. Era um cartel, felizmente desfeito.

Agora, pelo menos teoricamente, as rádios anti-Globo poderão se articular livremente inclusive contra os privilégios que cercam o negócio televisivo.

O que chama a atenção neste episódio é o desempenho decepcionante da mídia impressa, sobretudo da imprensa dita "de qualidade". O farto noticiário que saudou a cisão e a subseqüente oficialização da dissidência não contemplou nenhuma das questões que realmente interessam à sociedade. Foram peças propagandísticas, superficiais e, sobretudo, parciais. Meras jogadas empresariais.

A impressão de "avanço" é enganosa. Um lobby foi partido mas os demais continuam impávidos e impunes.


  Mande-nos seu comentário


Observatório | Índice da edição | Busca
Objetivos | Purposes | Edições anteriores
Modo de Usar | Banca | Jornalistas na Net | Equipe