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A IMPRENSA EM QUESTÃO CIRCO DA RENÚNCIA Alberto Dines Retórica de segunda mão, teor de almanaque, prosódia de circo, pose de caudilho decadente, visual melancólico, cinismo cavalar, postura ignóbil, compostura nenhuma. E, no entanto, foi o discurso mais antecipado e mais inflado pela mídia dos últimos tempos. A farsa da renúncia encenada por ACM na quarta-feira é uma demonstração ao vivo e em cores de um processo de mistificação e manipulação em curso há três décadas e que não está esgotado. Ao contrário, tudo sinaliza para uma desesperada intensificação. Durante uma semana, a sociedade brasileira foi persuadida de que assistiria a um episódio de alta relevância, digno de incorporar-se aos grandes momentos da nossa história política. Das manchetes espetaculares aos recantos obscuros das colunas mundanas, o ex-presidente do Congresso e delinqüente confesso, foi apresentado em embalagem heróica de fera ferida e cruzado impoluto. O engodo mediático passaria desapercebido – igual a tantos outros diariamente enfiados nas mentes crédulas – não fosse o fato de que através desse jorro de venenos o ex-senador insistisse e persistisse na violação de uma votação secreta. Continuou a delinqüir. Ao distribuir para a imprensa as solertes informações sobre o teor dos votos na sessão que cassou Luiz Estevão, ACM repetiu o mesmo crime que custou-lhe o mandato. E, ao publicar informações de procedência duvidosa, sem qualquer possibilidade de comprovação, os jornais não apenas exibiram lampeiros a velha promiscuidade com o ex-senador mas assumiram-se ostensivamente como veiculadores de calúnias. Nenhum igualou-se a este JB. ACM prevaricou, obrigou outros a prevaricar (ao que tudo indica diversas vezes, de acordo com as novas perícias no Prodasen) e continua prevaricando abertamente. Apesar da ridícula encenação martirológica no Senado, o infrator não foi castigado pelo vergonhoso comportamento. Sua renúncia atendeu às suas próprias conveniências e, não às exigências legais impostas pela sociedade. Essa é uma verdade que não pode ser escamoteada ou esquecida: ACM abortou o seu julgamento. Driblou a justiça. Escarneceu de todos aqueles que se comportam com lisura e decência. O crime está ai, concreto e tecnicamente caracterizado. Novamente dominado pela psicose, o decrépito Sansão assumiu-se plenamente como criminoso através de reincidências sucessivas e flagrantes. E, no entanto, pretende escapar impune e impenitente. Relapso e contumaz. Maroto e solerte. Se alguns ingênuos estão comemorando o fim da era do cabresto e outros imaginam que o episódio deve mudar os paradigmas de comportamento político, convém lembrar que nada disso será possível se o caso, sobretudo o caso de ACM, não for levado às últimas conseqüências. O infrator já não pode esconder-se atrás da imunidade. As ondas de denúncias represadas e encobertas pela prepotência e pela leniência agora podem ter o curso normal. As acusações de Nicéia Pitta sobre a OAS, o encobrimento dos escândalos no Banco Econômico, a proteção a picaretas como Gilberto Miranda e a diplomatas como o lendário Ladrão de Bagdá, a fieira de episódios investigados no livro Memórias das Trevas, de João Carlos Teixeira Gomes, a extorsão no caso N.E.C., os abusos na administração do Senado que conduziram à violação do painel, a responsabilidade do carlismo na condução da política energética desde os tempos da ditadura - essa é uma pauta não para uma CPI, mas para uma purgação nacional. Pela primeira vez em décadas, o poderoso e rotundo ACM é um cidadão igual aos demais. Conseguiu manter-se acima de qualquer suspeita simplesmente porque as sufocava com malvadeza ou ternura, chicote ou dinheiro. Agora é um cidadão que sequer merece o benefício da dúvida: junto com Maluf é uma das unanimidades nacionais em matéria de vilania. Ontem, coincidentemente, os chefes de dois poderes da República (Jader Barbalho, presidente do Senado, e Marco Aurélio Mello, do STF) manifestaram-se contra a severidade da punição pedida pela Comissão de Ética do Senado. Se não é uma "operação abafa" é, no mínimo, uma "operação deixa-disso". Curiosa convergência: o senador cercado de corrupção por todos os lados e o magistrado levado à suprema função graças ao parentesco com um presidente deposto por corrupção juntam-se para iniciar um processo de reabilitação daquele que é o pai de todas as perversões políticas. Sem o empenho da imprensa, o caso ACM ficará confinado à sua renúncia. Abastecida com tantos dossiês, grampos e perfídias, a mídia tem agora uma oportunidade de ouro para ajustar contas com aquele que mais a deslustrou no último meio século. (*) Copyright Jornal do Brasil, 2/6/2001
Luiz Antonio Magalhães Acabou. O ex-senador Antonio Carlos Magalhães morreu pela boca. É o que diz a maior parte dos analistas políticos do país, concordando com a tese de que ACM foi o principal causador de sua renúncia, pois detonou todo o processo ao contar para o procurador Luiz Francisco que sabia o teor do voto da senadora Heloísa Helena (PT-AL) na sessão que cassou Luiz Estevão (PMDB-DF) . Sem dúvida, ACM não teria sofrido tamanho revés se tivesse agido de forma um pouco menos arrogante e prepotente. Permito-me, porém, inverter um pouco o ângulo da questão: alguma vez, em toda a sua carreira política, o cacique baiano agiu de maneira diferente? A prepotência e a arrogância não são marcas da personalidade e do jeito de fazer política de Antonio Carlos Magalhães? Por que então só agora o vento soprou mais forte e derrubou a cidadela carlista? Sim, eis que num belo dia, quem brincava de princesa, acostumou na fantasia, como diria Chico Buarque. O grande erro de ACM, no fundo, foi não ter percebido que os tempos mudaram e que a avenida em que ele cansou de desfilar a sua prepotência não é mais a mesma. Para ser mais claro, a decadência de Antonio Carlos Magalhães tem relação direta com a gradual substituição de Roberto Marinho por seus filhos na direção das Organizações Globo, a grande avenida que sempre garantiu público e deu retaguarda para ACM. Enquanto o patriarca dos Marinhos reinou absoluto no comando da Vênus Platinada, toda a arrogância do ex-senador era perdoada. Atos impulsivos e eventuais demonstrações de truculência do cacique baiano eram ocultados ou minimizados no noticiário global. Não sem razão, uma vez que o império dos Marinho só fazia crescer, muito especialmente enquanto ACM reinou soberano no ministério das Comunicações, no governo Sarney. De um tempo para cá, porém, o pacto parecia ter sido rompido. Quem olhava de fora, via alguns sinais de desavenças entre Magalhães e os Marinho. ACM fez questão de tornar público um fax que enviou a João Roberto Marinho reclamando da cobertura dos órgãos de comunicação da empresa por ocasião das denúncias que Nicéia Pitta fez de seu envolvimento com a OAS e lembrando aos filhos a amizade que sempre privou com o patriarca. Se alguém tinha alguma dúvida sobre o rompimento, não tem mais. A edição de O Globo do day after da renúncia de Antonio Carlos Magalhães diz tudo. Na primeira página, abaixo de uma manchete razoavelmente sóbria, vem o primeiro recado, digamos assim, sutil: a charge de Chico Caruso, em que o ex-senador aparece de costas, rodeado de colegas, com as nádegas de fora. A mensagem principal, porém, está na página 3. Nem é necessário ler a reportagem para entender. Todo o espaço acima da dobra na página é ocupado por uma foto de ACM com os braços abertos e um olhar expressivo, no plenário do Senado. Acima da foto, a chamada de duas palavras; "Página Virada". Será muito difícil para Antonio Carlos Magalhães reerguer-se sem o apoio de quem tanto o ajudou a chegar onde chegou. É sempre muito fácil – e no mais das vezes, inconseqüente – vaticinar o fim da carreira de um político importante. No caso de ACM, a julgar por seu "triunfal" retorno à Bahia – as manifestações de comemoração por sua renúncia praticamente empataram com as que saudavam a sua volta, em que pese todo o empenho do esquema carlista, hoje detentor das máquinas estaduais e municipais –, porém, o vaticínio faz sentido. E a decadência, pelo que se viu na semana passada, vai ser melancólica. Já foi tarde. (*) Copyright Correio da Cidadania, 2/6/2001 | ||