A IMPRENSA EM QUESTÃO


MEMÓRIAS DAS TREVAS, VERSÃO ÁUDIO
Quando jornalismo é só fita,
até ventilador desanima

Alberto Dines

Quais os aparelhinhos mais vendidos na "feira paraguaia" dos domingos em Brasília? Não são agendas, palm-pilots, DVDs ou Rolex falsificados. São os mini e microgravadores, incrivelmente miniaturizados, levíssimos, potentíssimos. Um deles, de famosa grife nipônica, custa pouco mais de 100 pratas. É tão bem dotado para gravações clandestinas que os sacoleiros não conseguem atender à demanda. Agora só sob encomenda.

Nesta grande Florença do Brasil Central não se usam adagas, poções venenosas, sarabatanas ou alçapões. Intrigas ao pé do ouvido ficaram chatas, ninguém atura. Cartas anônimas, coisa do passado. A necessidade, mãe de todas tecnologias, fez com que o brasiliense pós-moderno seja obrigatoriamente um araponga. Não o pássaro-ferreiro (cujo canto lembra o monótono bater da bigorna), mas o espia, o agente provocador, o informante.

Bom jornalista, hoje, deve ser vocacionado ou treinado para a araponguice. Passiva ou ativa. A era dos pauteiros e micreiros está passando – o que se quer nas redações são os fiteiros. Gente capaz de armar, produzir, reproduzir, receptar, gravar e degravar fitas contendo conversas capazes de abalar os alicerces da República. Profissionais com conexões no submundo dos grampos (verdadeiros ou forjados), capazes de transcrever a íntegra da gravação. E rapidamente vazá-la para os opinionistas e políticos. Indispensável manter contatos íntimos com um foneticista.

O que vem a ser um foneticista de que tanto estão falando os jornais? Antigamente designava o especialista em fonética, ciência da voz. Hoje deveria chamar-se fonetiqueiro, pois é o companheiro do fiteiro e do fofoqueiro: identifica e autentica interlocutores, recupera sons inaudíveis, é capaz de reenrolar uma fita que algum ilustre membro do Ministério Público pisoteou, chamuscou ou mesmo engoliu depois de repreendido pelos pares.

Peritos, antigamente, deveriam ser pessoas com bons antecedentes morais. Hoje precisam oferecer pareceres técnicos. Moralidade é outro departamento [veja, nesta rubrica, Aspas de artigo do professor Roberto Romano, da Unicamp, sobre o foneticista Ricardo Molina, demitido por improbidade]

Um balanço destes seis anos de crises políticas deflagradas pela mídia mostra que a vexaminosa promiscuidade da Era Collor reciclou-se ou readaptou-se. Isso é grave. Mostra também que a mídia, ao invés de aprimorar-se, regrediu perigosamente. Isso é ainda mais desalentador.

A função constitucional da imprensa é a de servir como contrapoder. Mas qualquer interesse contrariado (de ordem pessoal, econômica ou política), com ou sem razão, conta com um canal garantido por onde vazar o ressentimento e a vingança. A mídia deveria ser um filtro rigoroso das denúncias mas converteu-se em mero reverberador de fofocas. Ganha qualquer parada política quem melhor manipula a repercussão de uma fita.

A entrevista-bomba de Pedro Collor que iniciou a derrubada do irmão-presidente, se não foi checada previamente como recomendam os procedimentos mínimos de ética, o foi semanas depois quando apareceu o motorista Eriberto, o mensageiro do jabá.

Agora entramos numa paranóia onde fita converteu-se em sinônimo de verdade. Qualquer coisa gravada que o motoqueiro deixa na portaria de uma redação ganha foros de legitimidade instantânea. É mais importante do que uma pista para investigação.

Esse último conjunto de fitas reproduzindo o encontro do senador ACM, seu braço direito e assessor de imprensa Fernando César Mesquita e três procuradores da República converteu-se numa grande patuscada simplesmente porque a mídia comporta-se como uma barata tonta. E, como não poderia deixar de ser, desnorteia as melhores cabeças da classe política. Compreendidas as oposições.

Não interessa discutir as personalidades de membros do Ministério Público nem o desempenho deste novo poder fiscalizador. Não cabe a este Observatório discutir teores e méritos, muito menos apontar vilões – se ACM, que admitiu a violação de uma votação secreta; se o governo federal, que entregou a presidência do Senado a um político ímprobo.

Interessa-nos examinar o comportamento de uma instituição – a imprensa – que pode ter defeitos mas não pode conformar-se em ser desvairada.

Como muito bem lembrou Márcio Moreira Alves em sua coluna do Globo, fita também significa simulação, fingimento. Acrescente-se que é sinônimo de filme e o cinema, no seu início, era o mundo da fantasia.

O cidadão espera da sua imprensa algo mais do que fitas.