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IMPRENSA EM QUESTÃO FOLHA & NOVA MOEDA Luiz Egypto Há dois tipos de jornal: o que chega e o que sai da Redação. O primeiro traz (ou deveria trazer) o calor das ruas, a observação arguta do repórter, a cor local, a voz dos personagens da notícia e o tirocínio do analista que foi a campo apurar os fatos. O outro, o que efetivamente cairá nas mãos do leitor, é produzido sob a batuta de editores e redatores com a responsabilidade de organizar e dar forma legível à massa de informações que lhes chega, embora seu contato mais freqüente com as fontes primárias de informação se dê, o mais das vezes, pelo telefone. Nenhuma novidade nessa faceta da divisão do trabalho jornalístico. O que poucos leitores notam é a capacidade de a edição (leia-se, editores) "esquentar" o fato, transformando um movimento suave numa trepidação incontrolável – ou, ao contrário, "brigando" com o fato e esvaziando sua relevância noticiosa. E como o jornalismo é fundamentalmente um trabalho de equipe, a adoção de critérios de edição que privilegiem o sensacional e o bombástico (apenas e tão-somente em nome do sensacional e do bombástico) pode contaminar todo o conjunto. Foi o que se viu na cobertura da Folha de S.Paulo sobre a entrada em circulação da nova moeda européia, o euro. No embalo da débâcle da economia argentina, consumada em dezembro, e que rendeu seguidas chamadas principais de primeira página, o jornalão paulista imaginou que a adoção do euro em 12 países da União Européia, marcada para 1º de janeiro, pudesse carregar tanta eletricidade quanto um enfrentamiento callejero nas cercanias da Plaza de Mayo, em Buenos Aires. Foi o que se pôde inferir do título principal do caderno Dinheiro da edição de 26/12/01 da Folha, que trombeteava: "Euro deve estrear com desordem social." Note-se a pretensão embutida no verbo "dever" e o contágio dos acontecimentos argentinos na expressão "desordem social". A linhas tantas, afirmava o texto da matéria: "Prevê-se uma grande confusão social em todos os países da Europa, quando elas [as medidas de adoção da moeda única] entrarem em vigor à 0h do dia 1º de janeiro, com problemas no comércio, nos serviços públicos e nos transportes". Era o limiar do caos. O leitor, preocupado com a anunciada "desordem social" européia, deve ter estranhado o fato de, nos dois dias seguintes (27 e 28/12/01), o mesmo jornal que vaticinou o caos não tivesse dado uma linha sequer sobre os graves acontecimentos que previa. O assunto só voltou à pauta na edição de 29/12, agora de forma bem mais amena: "Euro vai facilitar a vida do turista". Informava o texto: "O turista brasileiro que viajar para a Europa a partir de janeiro vai se beneficiar, em termos práticos, com o fim das moedas nacionais de 12 países e o surgimento de uma divisa única para todos eles, o euro. (...) Com os euros no bolso, ao chegar na Europa, ele não terá que trocar o dinheiro a cada vez que atravessar as fronteiras daqueles 12 países." Menos mal... tirante o fato de que turistas não costumam chegar na Europa, mas à Europa. No dia seguinte (30/12), como nada de importante tivesse acontecido, enfiada no meio de uma edição macérrima o jornal apresenta um artigo intitulado "Moeda única vai mudar sentimento europeu", assinado por Willem Duisenberg. Nunca ouviu falar dele? Pois é: trata-se do presidente do Banco Central Europeu – que, evidentemente, não mencionou o grave perigo antevisto quatro dias antes pela Folha. Mais oficial, impossível. No último dia do ano, no mesmo caderno Dinheiro, a manchete previsível de uma edição fria, fechada com dias de antecedência. Chapéu: "EURO". Título principal: "Moeda estréia amanhã" (o que, aliás, sabia-se havia tempo). Os demais títulos do caderno: "Problemas na chegada: Falta de troco deve marcar a estréia"; "A moeda"; "Cronologia da União Européia e do Euro"; "Entrevista: Moeda terá uma função política, diz economista"; "Dinheiro novo: Euro consagra hegemonia do marco"; "Troca faz caixa dois deixar esconderijo"; "Glossário"; "Antecedente histórico: Euro remete história da moeda a Roma"; e "Com a nova moeda única, cultura deixará de circular na Eurolândia". Tudo como dantes No alvor de 2002, quem sabe ainda esperando o caos social anunciado, a Folha recolheu-se ao recato: na edição de 1º de janeiro, Dinheiro traz, discretamente, matéria sob o título "Controle da inflação é o desafio do euro". Mas faltava barulho, faltava calor. Vamos esquentar a edição, gente! Na quarta-feira, 2/1, o jornal recobra o velho estilo que fez escola e lhe deu fama: "Euro causa fila e recorde de saque bancário", alardeava a manchete principal do caderno de economia. Na linha fina, o editor da página sapecou: "Ano novo, moeda nova: Mesmo com feriado, europeus vão aos bancos para trocar de divisa; prova de fogo será hoje." Lida assim, em texto corrido, a manchete do dia 2 não quer dizer rigorosamente nada, porque previsibilíssima. Mas, quando estampada em corpo 48 bold e ocupando toda a largura da página, ilustrada por quatro fotos de filas na Espanha, na Irlanda, em Portugal e na Alemanha, por mais insosso que seja, o título ganha as devidas tinturas alarmistas que fazem jus aos métodos de "esquentamento" tão caros a editores que imaginam o leitor como um saco de pancadas. Talvez a tal desordem social estivesse começando ali. Mas, não. No dia 3, escondida na metade inferior da página 3 do Dinheiro, a paz voltou a reinar no teatro de guerra europeu. Titulou a Folha: "Euro se valoriza e causa poucos incidentes". Na linha fina, a involuntária autocrítica: "Divisa sobe em relação ao dólar e tumulto no 1º dia útil de uso fica abaixo do esperado." Ah, bom! O que veio depois sobre o assunto, no caderno de economia do jornal? 4/1, sexta-feira – "Lançamento do euro é um sucesso e supera a expectativa, diz BCE", pág. B 3, acima da dobra 5/1, sábado – "Eurolândia fecha 40% das vendas na nova moeda", no pé da pág. B 2 6/1, domingo – "Notas de euro de baixo valor estão em falta nas lojas, informa Comissão Européia", no pé da pág. B 7 Na segunda-feira (7/1), nada de novo no front, tudo como dantes no quartel d’Abrantes. Não foi desta vez que a "desordem social" campeou na velha Europa, malgrado os desejos de um tituleiro. E todos pudemos dormir em paz – quem conseguiu, claro. | ||