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IMPRENSA EM QUESTΓO CONCENTRAÇÃO E GUERRA SUJA Alberto Dines
Todos acharam normal o processo de cartelização que então se iniciava. As agências reguladoras fingiram que não viram e a classe política compreendidas as oposições sequer fingiram. Também as entidades que assumem-se como representantes da sociedade civil (OAB, ABI e CNBB). Discutir a mídia é suicídio político. Mesmo quando a sociedade civil corre perigo. Obviamente, a discussão só aconteceu no âmbito deste Observatório [veja remissões abaixo]. Pouco mais de um ano depois, os inevitáveis atritos dentro do cartel (ou dentro do Grupo Bolha, como ficou conhecida a parceria), agravados pelo movimento inercial que empurra as Organizações Globo para o domínio do processo informativo no Brasil, provocaram uma fratura. E um realinhamento não menos perigoso. O conglomerado global esqueceu a divisão do mercado brasileiro, o Tordesilhas acordado entre as partes, e avançou na gorda fatia paulista: comprou o Diário Popular, transformou-o em Diário de S.Paulo e lançou o novo produto com o formidável poder de fogo de que dispõe: emissoras de TV (aberta e a cabo), revistas e jornais. O movimento obrigou a Folha e o Estadão a esquecerem velhas pinimbas, mágoas e orgulhos: montaram uma imbatível empresa de distribuição estadual e nacional que dominará a entrega de jornais e, eventualmente, revistas na porção mais rica do país. Para inibir qualquer denúncia de cartelização, os sócios acolheram Valor no esquema de distribuição sitiando completamente a Gazeta Mercantil e mandando dizer à concorrência que quem manda em Sampa são eles. Novamente nenhum protesto. O máximo que se publicou sobre a aberrante parceria foi a plácida reflexão do Ouvidor da Folha, considerando que enquanto Folha e Estadão continuarem editorialmente diferentes a pluralidade jornalística não será afetada [remissão abaixo]. Seguindo o mesmo raciocínio, deve considerar-se rigorosamente inocente a fusão AOL Time Warner. O lance seguinte, imediato, foi o anúncio de uma aliança entre o grupo controlador do Jornal do Brasil com a Gazeta Mercantil. Significa que O Dia, do Rio, não poderá ficar alheio ao processo centrípeto. Nem os Diários Associados, que dominam algumas praças secundárias porém nada desprezíveis (Brasília e Minas, por exemplo). Do exposto saltam algumas perguntas e muitas aflições: ** Este vertiginoso dominó é bom para a imprensa brasileira? ** Considerando que os jornais são os reais formadores de opinião da sociedade, pode-se considerar salutar este avassalador movimento de concentração na imprensa diária? ** Se a imprensa metropolitana alinha-se em grupos tão rígidos, qual será a saída para os grupos regionais ainda mais descapitalizados? ** A ativação do processo concorrencial com uma violência jamais vista entre nós não poderá promover um nivelamento generalizado com conseqüências dramáticas na qualidade da informação oferecida? ** O fato de ocorrer num período de vacas magras e queda brutal de receitas não equivale a um suicídio coletivo? ** Onde estão metidas as entidades corporativas que não se manifestam? O que a ANJ, FENAJ e ABI têm a dizer a respeito desta perniciosa polarização? ** E a famosa transparência da qual a imprensa deveria ser paradigma e inspiração? ** Cadê o CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) que assiste calado às sucessivas agressões à livre concorrência num segmento industrial que, teoricamente, deveria dar o tom aos demais? O mais grave é que a solução para o processo de descapitalização galopante da mídia brasileira foi aventada, discutida e está rascunhada desde 1997: a emenda ao artigo 222 da Constituição, que democratiza e flexibiliza o capital das empresas jornalísticas [veja abaixo remissões para Dossiê Artigo 222]. A idéia, inicialmente encampada por jornalistas, empresários e políticos, começou a ser bombardeada, como atentado "à identidade nacional", pouco antes de ser encaminhada ao plenário da Câmara Federal, para aprovação. Como se a participação ostensiva porém limitada de capitais estrangeiros fosse mais grave do que a situação atual onde TODOS fazem negócios com multinacionais ao arrepio da lei e do decoro jornalístico. O Afeganistão é aqui: o futuro do Brasil democrático e pluralista está sendo decidido no eixo Rio-São Paulo. Sem foguetes ou supersónicos, a golpes de navalha e de foice.
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