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ASPAS

GRAMPOS

Luis Fernando Verissimo

"Pelo telefone", copyright O Estado de S. Paulo, 8/07/01

"- Alô.

- Alô?

- Sim, alô.

- Quem fala?

- Depende.

- É o ...

- Shh. Sem nomes. Sem nomes!

- Mas quem fala?

- Sou eu.

- ‘Eu’ quem?

- Eu, p...!

- ‘P...’?

- Inicial de palavrão. Para o caso da nossa conversa sair na imprensa.

- Por que nossa conversa sairia na imprensa?

- E eu sei lá o que você vai dizer?

- Preciso saber com quem eu estou falando.

- Diga o que você quer dizer, depois eu digo se sou eu ou não.

- Assim não é possível!

- Foi você quem ligou.

- Vamos fazer o seguinte. Eu digo um nome. Se for o seu, você fica em silêncio. Se não for...

- Ah, é? Pro meu nome ficar gravado? Diga um pseudônimo. Se eu gostar do pseudônimo, fico em silêncio. Aí você diz o que quer dizer.

- Mas como eu vou saber se estou falando com a pessoa certa?

- Problema seu. De qualquer maneira, não fará diferença. Ninguém vai saber quem é você. Será uma conversa de anônimos. Quem estiver gravando não poderá nos identificar. Você pode dizer o que bem entender.

- Mas espera um pouquinho. Se tem alguém gravando, sabe de quem é este telefone. Sabe que só pode ser eu falando.

- Mas por que você acha que é o seu telefone que está grampeado? Obviamente, é o meu.

- Por que não pode ser o meu?

- O seu? Francamente! Por que alguém iria querer grampear o seu telefone?

- Mas você nem sabe quem está falando!

- Não interessa. O telefone grampeado é o meu.

- Nesse caso, não adianta esconder seu nome. Quem estiver gravando sabe que é você o dono do telefone.

- Arrá! Mas isso não prova que voz gravada é a minha. Enquanto meu nome não estiver na fita, esta conversa não me compromete, meu caro.

- Que conversa?

- Esta.

- E por que esta conversa iria comprometê-lo?

- Não sei. Você ainda não disse nada!

- E não vou dizer enquanto não souber quem está falando.

- Está bem. Diga só o assunto. O tema da conversa. Se fizer sentido, eu faço ‘ran-ran’ e aí você sabe que está falando com a pessoa certa.

- Você faz...?

- Ran-ran.

- Então vamos lá. Correia.

- Correia. Hmmm. Como é o primeiro nome?

- O quê?

- Do Correia.

- Não tem primeiro nome. Não é gente, é coisa.

- Correia, certo. Continue.

- Você disse que ia...

- Ran-ran. Ran-ran!

- Meu assunto com você é correia. Falta de. No equipamento que você me vendeu.

- Falta de correia no equipamento que eu lhe vendi. Isto é linguagem cifrada, certo?

- Cifrada? Não.

- Espera um pouquinho... É o Adolfo que está falando?

- É.

- Por que não disse logo, cara?

- Você disse ‘sem nomes, sem nomes’...

- É que hoje em dia, meu querido... Sabe qual é a nova definição de paranóia?

- Qual?

- Avaliação criteriosa da situação.

- Boa, boa... Mas olha, é sobre aquele cortador de grama que você...

- Adolfo, não leve a mal.

- O quê?

- Vamos marcar um encontro para falar sobre isso? Pelo telefone...

- Você acha que fica suspeito?

  • Nunca se sabe, nunca se sabe..."


Carlos Alberto Di Franco

"Grampos, imprensa e Judiciário", copyright O Estado de S. Paulo, 9/07/01

"De algum tempo para cá, o uso de grampos como material jornalístico virou ferramenta de trabalho. A reportagem foi sendo substituída por dossiê.

Os injustiçados já não olham para os tribunais, mas para os jornais. Os inimigos evitam o confronto direto, pois conhecem a eficácia de uma falsidade bem plantada. Viu-se a imprensa transformada num perigoso instrumento de vinganças, mas, ao mesmo tempo, numa instância prática de realização da justiça.

A publicação de grampos pode ser tudo isso: denúncia verdadeira ou chantagem vil. Impõe-se, conseqüentemente, um redobrado esforço na qualificação das matérias que chegam às redações. É preciso ter cuidado com a fonte que voluntariamente procura o repórter. Dossiês, mesmo quando carregados de indícios relevantes, são apenas pistas para uma adequada investigação. Não são (ou não deveriam ser) matéria para edição. Nada, nada mesmo, substitui o dever da apuração. O grampeamento continua sendo um delito.

Independentemente das tentativas de minimizar a gravidade da sua prática, continuo achando que o melhor fim não justifica quaisquer meios.

Um perigo ronda o trabalho da imprensa: a síndrome da concorrência. A preocupação com a perda de um furo está na origem de inúmeros deslizes. O bom jornal é aquele que tem a coragem de esquecer a concorrência e optar pela informação de qualidade. É sempre melhor usar a cautela do que ter de recuar no dia seguinte. Feitas tais ressalvas e separado o joio do trigo, gostaria de salientar a relevância das sucessivas denúncias contra a corrupção que têm batido à porta das redações. Fatos recentes evidenciam a importância da denúncia jornalística como instrumento de luta contra a impunidade. Alguém imagina, por exemplo, que a apuração e punição dos principais beneficiários do esquema de corrupção armado na construção da sede do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) de São Paulo teria sido possível sem a pressão de um autêntico jornalismo de denúncia? É óbvio que não. O Brasil, graças também à varredura feita pela mídia, está passando por profunda mudança cultural. Esse processo, no entanto, tem provocado alguns conflitos institucionais. Sobressai, entre eles, um crescente desgaste no relacionamento entre o jornalismo e o Judiciário. Alguns, certamente indignados com os excessos da mídia e o vedetismo de certos membros do Ministério Público, criticam o presumível poder de destruir dos meios de comunicação.

A informação é a base da sociedade democrática. Por isso, precisamos melhorar os controles éticos da notícia, combater as injustas manifestações de prejulgamento e a precipitação que pode desembocar em autênticos assassinatos morais. Mas, ao mesmo tempo, não podemos deixar de criticar o formalismo paralisante do Judiciário, responsável maior pela desconfiança com que a sociedade encara a possibilidade da realização da justiça. Em nome do amplo direito de defesa, importante e indispensável, a efetivação da justiça pode acabar se transformando numa arma dos poderosos e numa sistemática frustração dos mais desprotegidos. Aplicam-se aos desvalidos os rigores da lei e se concedem aos criminosos do colarinho-branco as vantagens dos infinitos recursos que o Direito reserva aos que podem pagar uma boa defesa.

A crise do Judiciário tem empurrado a imprensa para uma função que não é sua. O cidadão, descrente da eficácia do caminho judicial, procura o repórter. Vivemos uma profunda distorção, uma superposição de papéis. A crise, no entanto, não se resolve com atitudes corporativas. É preciso discutir um novo conceito de espaço público que permita uma convivência civilizada entre o Poder Judiciário e o mundo da informação. Os meios de comunicação, independentemente de suas mazelas e equívocos, têm travado uma saudável discussão a respeito dos seus conflitos éticos. Não vejo, no entanto, o mesmo debate na área do Judiciário.

O formalismo jurídico, marcado pela pura e simples aplicação das leis, não tem conseguido enfrentar problemas que ultrapassam as balizas fixadas pelo positivismo que está por baixo de inúmeras decisões. Será que o Judiciário, refém de uma estrutura obsoleta e morosa, está em condições de responder ao desafio dos crimes ecológicos, da delinqüência infanto-juvenil, dos escândalos políticos, do financiamento ilegal de partidos, etc.? Penso que não. Nós, profissionais da imprensa, estamos tentando fazer a nossa parte.

Esperemos que o Judiciário, sem dúvida constituído por inúmeros homens de bem, faça a sua. Só então, sem corporativismo e arrogância, romperemos o conflito que tem marcado as relações entre duas instituições básicas para o processo democrático: imprensa e Judiciário. (Carlos Alberto Di Franco, diretor do Master em Jornalismo para Editores e professor de Ética Jornalística, é representante da Faculdade de Comunicação da Universidade de Navarra no Brasil)"



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