NOTAS DE UM LEITOR
O governo sabe por que apanha
Luiz Weis
Três vezes, na semana passada, o governo deu a cara para bater e apanhou – não tanto quanto talvez devesse. De frente para trás, ou do vexame menor para o maior:
1. Na sexta, 9, o ministro
da Casa Civil José Dirceu disse com cristalina clareza, em entrevista:
"A autonomia do BC não está na agenda de 2004". No dia
seguinte, se desdisse. É fácil imaginar o que há de ter
acontecido. Decerto pê da vida, o ministro da Fazenda Antonio Palocci,
que vinha prometendo que a autonomia do Banco Central seria uma das prioridades
do governo este ano, deve ter armado um escarcéu no Planalto e Lula deve
ter mandado Dirceu consertar o estrago.
Até aí, tudo bem. Dar o dito pelo não dito, em política, é mais velho do que andar de dois. Mas o ministro Dirceu não precisava ofender a inteligência dos jornalistas aos quais se dirigiu no sábado – e, por tabela, a inteligência dos brasileiros que se interessam por essas coisas –, ao se sair com o seguinte remendo descosturado: "Quero deixar claro que estava me referindo à [agenda da] convocação [extraordinária do Congresso]. Sobre 2004, não existe nenhuma decisão nem que vai entrar nem que não vai entrar".
Será que o mundo viria abaixo se o superministro encontrasse uma forma um tantinho mais decente de explicar o recuo? Se dissesse qualquer coisa como "me expressei mal" ou "interpretei de maneira imperfeita o pensamento do presidente"? Vai ver, isso seria esperar muito, porque...
2. Também na sexta,
depois que o ministro da Ciência e Tecnologia Roberto Amaral entregou
a sua carta de demissão ao presidente, um repórter perguntou a
Dirceu se Amaral não vinha sendo fritado pelo próprio governo.
Resposta de quem falou duas vezes sem pensar: "Pela imprensa, pelo governo
não."
Embora a ninguém ocorresse examinar o nariz do ministro para ver se tinha sofrido naquela hora um engrandecimento pinochiano, é impossível imaginar que o seu portador não soubesse que acabara de cometer, com a desenvoltura dos poderosos, um duplo atentado contra a verdade dos fatos.
Foi o governo, sim, e a imprensa, não, que levou Amaral à frigideira. Foram, sim, ministros e ministrões de Lula, entre outras figurinhas carimbadas do governo, que, sob a confortável proteção do anonimato, nas suas conversas com repórteres e editores, colocaram o enfim demissionário no topo de todas as listas de candidatos a guilhotina da reforma ministerial (que neste começo de ano se tornou o mais espaçoso e tedioso assunto das páginas políticas).
E foi o pai Arraia, como é conhecido pelo povão pernambucano o cacique Miguel Arraes, e não a imprensa, quem untou a frigideira e acendeu o fogo debaixo dos fundilhos do ministro que representava no governo o PSB, o partido do qual o dotô Arraes, como a ele se referem os seus vassalos, é presidente.
E foram ministrinhos, ministrões e o "arraisado" que sopraram a plenos pulmões para a mídia o nome do deputado Eduardo Campos, neto do velho coronel, como o substituto mais cotado, se não pule de 10, para o lugar de Amaral. (Mas foi a imprensa, sim, que, fazendo o que lhe compete, lembrou que o nobre parlamentar foi acusado de envolvimento, quando secretário de Governo de Pernambuco, no escândalo dos precatórios, a emissão fraudulenta de títulos públicos concebida em São Paulo ao tempo do prefeito Paulo Maluf e do secretário das Finanças Celso Pitta, e licenciada para todo o Brasil.)
E foram cientistas e tecnólogos – a começar do presidente da SBPC, Ennio Candotti – que, em off, on ou como se queira, diziam ao reportariado não esperar a hora de ver o ministro pelas costas. E mexiam os pauzinhos em Brasília para fazer essa hora acontecer o quanto antes.
Da agência Reuters, no sábado:
"Uma fonte ouvida pela Reuters afirmou que o motivo do pedido de demissão de Amaral foi a falta de apoio do Palácio do Planalto, que não desmentiu as repetidas notícias na mídia sobre a saída do ministro. ‘O governo acabou fragilizando o Amaral. O ministro não teve apoio, se viu sem condições políticas pela falta de apoio do governo federal’, disse a fonte".
Este leitor pede a indulgência dos colegas que cobrem o governo e dos que cobrem ciência por gastar tantos toques com o que eles já não agüentam mais de tanto saber. Mas a falsidade não pode passar batida. A esta altura, voltar a ouvir, e justo do ministro de Lula mais-igual-do-que-os-iguais, que a imprensa frita ministros, é dose para leão. Pior do que isso só...
3. Na terça, 6, o
porta-voz presidencial André Singer distribuiu uma nota azeda segundo
a qual Lula "desautoriza" o "noticiário especulativo"
sobre a reforma ministerial que "não ajuda o país, na medida
em que pode ter como efeito prejudicar o bom andamento de setores da administração
pública".
À parte o fato de que a nota tem como efeito prejudicar o bom uso do idioma em todos os setores – custa crer a este leitor que o português macarrônico da nota tenha saído do teclado do jornalista, acadêmico e autor André Singer –, a acusação de desserviço ao país seria de rir, se não fosse de chorar.
Como uma pá de comentaristas se apressou a lembrar, Lula havia dito no balanço de fim de ano que "notícia é aquilo que nós não queremos que seja publicado, o resto é publicidade". Logo, deduziu o colunista Igor Gielow, na Folha, "não é preciso ser maldoso, nem tucano, nem radical ex-petista para entender que Lula acredita, então, que a publicidade dos atos de seu governo é que beneficia o Brasil".
Além disso, o presidente falar em prejuízo potencial para o "bom andamento de setores da administração pública" equivale, com todo o respeito, a falar em corda na casa de enforcado.
Porque – e este é literalmente um juízo de valor, compartilhado embora por 9 em 10 jornalistas com conhecimento de causa – o único, ou quase único, setor do governo Lula que anda bem, goste-se ou não, é o da área econômica. E nunca, jamais, em tempo algum, o "noticiário especulativo" incluiu entre os ministros decepáveis o doutor Antonio Palocci.
No mais, este leitor assina embaixo da bem aplicada bordoada do colunista Gielow:
"Lula (...) não demonstra saber lidar com a imprensa independente. (...) De resto, jornalista não nomeia ministro. Presidente, sim, e, a ser mantido o cabide de emprego para velhos amigos e neocorreligionários na tal reforma ministerial, aí haveria risco ao ‘bom andamento de setores da administração pública’".
E espera que outro colunista da Folha, Josias de Souza, tenha carregado nas tintas ao escrever que Lula não precisa se preocupar:
"Tome as decisões que tomar, receberá do pseudojornalismo um tratamento ameno. Hipnotizada pela perspectiva de socorro do BNDES, parte expressiva da mídia venderá a capitulação [do presidente, na reforma] como ‘amadurecimento’. Lula será sempre o líder realista obrigado a lidar com políticos sórdidos".
Socorro do BNDES toda a mídia quer. Mas, por exemplo, nem a Folha, nem o Estado – cada qual por motivos e ângulos diferentes – têm sido amenos com as decisões de Lula, quaisquer que sejam. E ambos são "parte expressiva" da mídia – a escrita, pelo menos.